segunda-feira, 16 de maio de 2011

Intravista

Chegamos na casa desse sujeito com o estranho propósito de fazer algo sério. Nós precisávamos, afinal, do dinheiro, e estávamos dispostos a qualquer tipo de freelance em alguma prostituição simbólica. Assim, tínhamos que entrevistar um milionário metade porco e metade fútil.

Essa revista de moda, comandada basicamente por uma jovem frustrada muito agradada de meu amigo e colega, nos chamou para fazer a entrevista. “Que tal essa?”, eles devem ter pensado. “Mande dois escritores falidos entrevistar esse grande estilista, a matéria vai ser fantástica!”. Ficamos então com, alem da dignidade cuspida e pisoteada pela indústria fashion, o dever de aturar o sujeito por duas horas pregando coisas como a importância de escolher as roupas que melhor te definam como a pessoa que você é, e outros papos do tipo. Coisas da vida.

Meu amigo estacionou o carro, desligou o motor e respirou fundo. “Me passe a vodka de novo”, ele me pediu. Eu o fiz com pressa – é claro que jamais entraríamos nessa empreitada num estado de total sobriedade – e em seguida tomei um gole, passando a garrafa novamente. Saímos do carro guardando a vodka na mochila. Iríamos necessitar dela durante a entrevista também. Alem da vodka, mantínhamos na mochila um gravador e uma série de anti-depressivos, só por via das dúvidas.

A casa era clássico classe alta: uma coisa toda branca perfeitamente cúbica, como se algum engenheiro a trouxesse pronta dentro de uma caixa forrada com isopor e a posicionasse naquele exato lugar onde a casa estava. Não havia quintal. Uma casa sem quintal é o reduto da mente rasa.

Fomos calorosamente recebidos pelo sujeito. Sentamos na sala de estar, toda branca, em sofás brancos separados por uma mesa com um tampo de vidro. Alem do sujeito, com suas roupas que o definiam como um sujeito que escolhe roupas que ele acha que o definem, havia seu filho, um fedelho de em torno de nove anos que corria para lá e para cá fazendo barulho, e uma pobre empregada-escrava que se mantinha não-existindo na sala. Ela, entretanto, parecia a pessoa mais sã dali. “Aceitam uma bebida?”, ele perguntou. “Nós normalmente não bebemos no trabalho”, eu disse. “Mas aceitamos um pouco de rum, apenas para quebrar a rotina”. Ele nos serviu de rum. Haviam todos os tipos de bebida lá.

Assim, fomos ouvindo os papos e trejeitos desse sujeito portador da Verdade Universal de Todos os Fatos da Vida e da Origem do Universo, discretamente nos alternando para ir ao banheiro descer um pouco da vodka. Eu bebia sentado no vaso, brindando junto com o papel higiênico de folha dupla, numa homenagem à decadência humana.

O telefone dele tocava o tempo inteiro com todos os tipos de subordinados perguntando coisas para ele. Ele disparava ordens agressivamente, tornando esses momentos até mais ricos do que a entrevista em si. Quando isso aconteceu nas duas primeiras vezes, meu colega desligou o gravador, mas não tardou muito até ele perceber a riqueza desses instantes, e acabamos gravando algumas fantásticas conversações com terceiros que eram tratados como cachorros que cagam no sofá e acabam punidos tendo seus focinhos esfregados na merda.

Isso é, de fato, o supra sumo da capacidade humana de projeção: nem os cães escapam. Socialmente, lógico que ter seu nariz esfregado em cocô parece ser nojento, mas para os cães isso incomoda menos que ter os pés aquecidos por um cobertor. Assim, enquanto o dono esfrega a cara do cão na bosta, está na verdade espalhando bosta em seu próprio rostinho aveludado.

A questão é que o sujeito foi ficando meio exaltado e irritado com um empregado que ligava o tempo inteiro para saber detalhes de alguma coisa, que foi para outro cômodo e fechou a porta, para seguir gritando e xingando sem ser ouvido por nós – estratégia que não deu muito certo – e nós acabamos ficando sozinhos com seu filho. “Pegue a vodka”, eu disse ao meu amigo e colega, com a intenção de aproveitar a semi-privacidade. Ele abriu a mochila ali (sim, nós íamos de mochila para o banheiro, mas ninguém prestava atenção nisso) e tirou a vodka. Todavia, acidentalmente ele deixou cair da mochila um pequeno saquinho com nossa miserável quantidade de maconha.

“Seu porco”, eu disse, gelando de medo. “Eu te pedi para tirar isso da mochila e deixar no carro”. A criança contemplou o artefato por um instante. “Isso é maconha? Vocês fumam maconha?”, o fedelho perguntou. “Yeah”, meu amigo disse. Eu era apenas uma estátua de gelo. “Mas quem usa drogas está perdido. Por que vocês fazem isso? Isso só leva a desgraça, arruína a vida das pessoas!”. As crianças que assistem muita televisão são pequenos andróides reprodutores de informação, destinados a virar nada mais que grandes andróides reprodutores de informação. “Na verdade, isso é uma concepção atrasada”, meu amigo disse. Eu era mais uma estátua de gelo do que nunca.

“O que acontece, de fato, é que as drogas podem – e são – usadas não apenas recreativamente, como também uma forma de chegar a diferentes pensamentos e pontos de vista. É uma atividade rica e inteligente”, meu amigo disse. “Essa concepção de auto-destruição através das drogas foi criada para não as usarmos jamais, mas se tu pensar, álcool é uma droga, café também, e inclusive açúcar”.

“O que você está fazendo?” eu perguntei. “É uma criança, seu porco perverso, como espera que faça uso da razão e da moderação? Ele tem é que descobrir por si mesmo”. Assim, o fedelho começou a contemplar nossa discussão, olhando ora para um, ora para outro, como um gato observa uma bola de ping pong. “Isso é um erro comum”, meu amigo disse. “Mas a verdade é que a própria concepção das drogas como sendo apenas usada por pessoas fodidas é produtora do uso delas com a intenção de suicídio social e auto-destruição. Algo como ‘as coisas vão mal para mim, vou usar drogas’, e isso é errado. As drogas sempre foram uma rica fonte de saber, enquanto usadas com sabedoria, e se essa concepção fosse mais disseminada, tudo seria diferente”.

“Santo deus”, eu disse. “Você acaba de programar um novo viciado”. “Você não poderia estar mais errado. Lide com esse fato, e pense nisso. Estou ajudando esse menino a sair da sombra e da maldição que acometeu seu próprio pai”, meu amigo disse. “Quando eu vou bem em matemática, meu pai me dá um jogo de computador novo”, o fedelho disse, nos interrompendo. “Nós sabemos disso”, eu disse. A vida tem um jeito estranho de se repetir em suas próprias inusitabilidades.

O sujeito voltou da sala mais impaciente do que de comum, e disse que teria de sair. Meu amigo disse que não havia problema nisso, pois nós já havíamos coletado o material necessário. Sorte dele, pois ainda teria um encontro depois com a coordenadora da revista. Nós saímos da casa nos despedindo apressadamente e entramos no carro, sacando a vodka e tomando mais um pouco.

“Aonde você vai com a coordenadora?”, eu perguntei. “Se tiver sorte, para a cama”, meu amigo respondeu. “Sorte e azar são a mesma coisa. O que muda é o contexto que os classificam”, eu disse. “Na procura de prazer, a imediação é sorte, mas a consequência dela é azar”. “Tu tá com inveja que eu vou transar hoje?”, ele perguntou. “Yeah”, eu disse. “Então guarde esse seu horóscopo para a matéria que teremos de escrever”, ele disse.

Quando o carro arrancou, acabou tirando uma lasca da sinaleira traseira do carro da frente, mas nós realmente não conseguíamos nós importar o suficiente com isso para atrasar o dia. Havia muita coisa a ser feita: nós somos, afinal, profissionais.


Theo S. da Rocha