Nós estávamos na lancheria “Morte Lenta”. Digo “nós” falando eu e um amigo cheirador boca grande. Eu não gosto de gente cheirada. Têm uma necessidade de falar e fazer um grande estardalhaço de tudo o que acontece. Alem disso, são arrogantes. Mas, como em todos os agrupamentos da existência, há exceções, e este meu amigo fugia a essa regra, e ele era, sim, uma pessoa interessante.
Eu pedi um xis bacon, um sanduíche regado a maionese, bife mal passado, bacon, milho, ervilha, tomates e alface. Ovo frito extra e dose dupla de queijo, por minha conta. Mas meu amigo foi alem: ele pediu “O Pacote Completo”, ou “xis tudo”. Eu senti inveja dele. Haviam todos os tipos de carne ali. Coração de galinha, bife de frango, bife, bacon, calabresa, e todo o resto marginalizado da culinária. Como o nome dizia, era o pacote completo. E o sanduíche estava muito bonito.
Apesar de o lanche estar muito bom, pouco pude desfrutar dele. Meu amigo falava sem parar. Ele ia refletindo sobre a vida das pessoas, blábláblázeando sobre fofocas e hábitos inusitados, falando de boca cheia. Eu torcia para a comida não saltar de dentro da boca dele, mas pouco adiantava. Mesmo assim, cedo ou tarde, chegaríamos em um assunto que me chamaria a atenção.
“No final, a fast food, ou junk food, se tu preferir, se assemelha totalmente ao sexo. Assim como comer carne. Comer carne é, de fato, como fazer sexo”, ele disse.
“Opa”, eu disse, tentando pisar no freio. “Peraí, uma coisa de cada vez. Como que junk food se assemelha ao sexo?”.
“Bem, talvez parte disso se trate de dopamina. Sabe dopamina?” ele perguntou. “Não”, eu disse. “Bem” ele disse. “Dopamina é uma substância que teu cérebro libera quando tu fica cool. Saca? Cool. Quando fode alguém, sabe? E essa pessoa faz tu se sentir como o terceiro gol do Grêmio fez contra o Santos na semifinal da Copa do Brasil de 2010. Isso é a dopamina”.
“Ok” eu disse. Acho que entendi a coisa”
“Yeah! É aí que eu quero chegar. O cérebro humano libera exatamente a mesma quantidade de dopamina quando fazemos uma essas três atividades: sexo, comer junk food ou quando usamos drogas pesadas. Yeah... Então, no final, se comer porcaria for um ato tão destrutivo quanto usar drogas pesadas, sexo entra no clã da auto-flagelação também, e aí estamos fadados a um mundo que é hostil à nossa mera existência, ou hostil ao desfrutamento de nossos prazeres mais primitivos”.
“Espero que tu não esteja pensando em cortar as relações sexuais com a tua namorada...” eu disse, debochando.
“Mas nem fodendo, hahaha” ele disse, com a voz alta. A lancheria inteira olhou para a nossa mesa. “Assim como não vou parar de comer porcaria, ou carne, ou de usar drogas pesadas”.
“Não sei quanto a essa de drogas pesadas” eu disse. “Não posso atestar tua teoria”.
“Yeah, yeah... E todo o ácido que tu toma, como se fosse água? É droga leve?”
“Shhh, cara” eu disse, olhando para os lados. “Tem como falar mais baixo?”.
“Hey, man... só estou te dizendo dessa teoria. E se tu for ver o prazer como uma forma de encurtamento da vida, seria uma aceleração de processos. Pisar no acelerador, saca? Tipo essa mania por velocidade, nesses caras que dirigem aí pela cidade a duzentos por hora, passando os sinais vermelhos”.
“Não vejo aonde tu quer chegar” eu disse.
“Só estou dizendo que a “Pulsão de Morte”, de Freud, é só uma maneira, provavelmente errônea, de ver as coisas, porque mais vale viver pouco, e muito prazerosamente, do que viver muito em monotonia. É aí que entra o equilíbrio, a harmonia, que a natureza se encarrega de fazer. O prazer é o rápido gasto da vida, o acelerador do relógio da vida. É como se quem vivesse 30 anos em prazer tivesse vivido mais do que quem viveu 80 em abstenção. E a natureza cuida desse equilíbrio por nós. Quem goza demais, vive de menos”.
“E quanto a Iggy Pop?” eu perguntei. “E Lou Reed?. Talvez Albert Hoffman e Hunter Thompson tivessem menos prazer sexual, mas igual, buscaram outra forma de equilibrar-se nessa equação. E Ozzy Osbourne?”.
“Hey man, relaxa aí” ele disse. “Tu só tá me mostrando onde a natureza falhou. Tudo falha. E se tu pensar bem, essas pessoas são um pequeno grupo que pode ser nomeado de ‘As Exceções’”.
“Mas eu ainda não entendi a analogia entre comer carne e transar” eu disse, só pra provocar. A teoria dele era boa, e eu já estava chegando no campo da teimosia, tentando contestá-lo. Mas a discussão é um esporte, e sempre que tomamos posições radicais em nossas discussões, acabamos por perceber que as pessoas com quem discutimos não estão brigando, ou discordando, ou se irritando com a nossa presença, ou com nossos argumentos. Elas entram em desacordo é com elas mesmas, e brigam e gritam e gesticulam justamente contra a presença da contradição que está presente nelas, assim como está em qualquer ser pensante, embora não se dêem conta disso.
“Quando você consegue uma boa foda, é como se fosse um leão, zunindo pelas pradarias africanas atrás de uma zebra. Existe a pressa, mas ela está ali lado a lado com a calma. Uma depende da outra, como qualquer oposição ou contradição. E o leão sai em correria, e a zebra, assim que o vê, dispara em corrida para sobreviver. Mas não é só uma questão de timing. Não se trata de correr mais ou menos, ou pular e agarrar a zebra no momento exato. Existe um jogo ali, e a zebra faz curvas e muda de direção, enquanto o leão a acompanha. Mas nada disso tem a ver com sexo, nem com os sexos e muito menos com os papéis dos sexos numa foda boa. A questão é que o leão pula, e de um jeito ou de outro chegará no pescoço da zebra, e segurando-a com as patas e garras e unhas e uma raiva e necessidade carnal, morderá esse pescoço que, de fato, foi destinado a ser mordido um dia. E o sangue se derramará. O sexo, meu amigo, pelo menos o sexo de boa qualidade, aquele que faz com que tu se sinta como o Grêmio o fez no terceiro gol contra o Santos na semifinal da Copa do Brasil de 2010, ESSE sexo, é perfeitamente representado pelo sangue da zebra, que, finalmente, depois de muito esforço por parte do leão, pinga em sua boca faminta, e o faz sentir o gosto do triunfo, antes mesmo de desfrutar da carne propriamente dita”.
Eu fiquei meio perplexo, incapaz de esconder esse sentimento. Observo meu amigo sem fôlego depois da palestra. “Não entendi a lógica a que tu quer chegar” eu digo, finalmente.
“Yeah” ele diz, em tom de missão cumprida. “Isso é bom. No final, o que falta, de fato, ao jogo, tanto da carne, quanto da droga pesada, quanto do sexo, é justamente a lógica. Faça, portanto, do sangue da zebra, o uso que tu quiser”.
“E onde entra a dopamina nessa balela aí?” eu pergunto.
“Foda-se a dopamina. Ela é só uma consequência”.
Yeah. Agora fazia sentido. Ou, pelo menos, algum sentido. Ceci nest pas une pipe. “Cool” eu digo, pouco antes de perceber nossos pratos vazios. “Vamos nos mexer daqui?” eu pergunto. “Yeah, yeah, já está na hora”. E nos levantamos.
E em algum lugar do mundo, algum animal era abatido, e o sangue talvez não chegasse à boca do leão. E enquanto vivemos, e presenciamos a morte cercando as pessoas ao nosso redor, nos damos conta, a cada nova morte, que a fila está andando, e cedo ou tarde, será a nossa vez de saltar do penhasco.
“Paciência” eu penso, pois embora o prazer seja suficiente, jamais será o suficiente.
“Suficiente. Ou, demais” Wiliiam Blake.
Theo S. da Rocha
em um post nem um pouco natalino, na noite de natal
