sábado, 25 de dezembro de 2010

O Leão Faminto

Nós estávamos na lancheria “Morte Lenta”. Digo “nós” falando eu e um amigo cheirador boca grande. Eu não gosto de gente cheirada. Têm uma necessidade de falar e fazer um grande estardalhaço de tudo o que acontece. Alem disso, são arrogantes. Mas, como em todos os agrupamentos da existência, há exceções, e este meu amigo fugia a essa regra, e ele era, sim, uma pessoa interessante.

Eu pedi um xis bacon, um sanduíche regado a maionese, bife mal passado, bacon, milho, ervilha, tomates e alface. Ovo frito extra e dose dupla de queijo, por minha conta. Mas meu amigo foi alem: ele pediu “O Pacote Completo”, ou “xis tudo”. Eu senti inveja dele. Haviam todos os tipos de carne ali. Coração de galinha, bife de frango, bife, bacon, calabresa, e todo o resto marginalizado da culinária. Como o nome dizia, era o pacote completo. E o sanduíche estava muito bonito.

Apesar de o lanche estar muito bom, pouco pude desfrutar dele. Meu amigo falava sem parar. Ele ia refletindo sobre a vida das pessoas, blábláblázeando sobre fofocas e hábitos inusitados, falando de boca cheia. Eu torcia para a comida não saltar de dentro da boca dele, mas pouco adiantava. Mesmo assim, cedo ou tarde, chegaríamos em um assunto que me chamaria a atenção.

“No final, a fast food, ou junk food, se tu preferir, se assemelha totalmente ao sexo. Assim como comer carne. Comer carne é, de fato, como fazer sexo”, ele disse.

“Opa”, eu disse, tentando pisar no freio. “Peraí, uma coisa de cada vez. Como que junk food se assemelha ao sexo?”.

“Bem, talvez parte disso se trate de dopamina. Sabe dopamina?” ele perguntou. “Não”, eu disse. “Bem” ele disse. “Dopamina é uma substância que teu cérebro libera quando tu fica cool. Saca? Cool. Quando fode alguém, sabe? E essa pessoa faz tu se sentir como o terceiro gol do Grêmio fez contra o Santos na semifinal da Copa do Brasil de 2010. Isso é a dopamina”.

“Ok” eu disse. Acho que entendi a coisa”

“Yeah! É aí que eu quero chegar. O cérebro humano libera exatamente a mesma quantidade de dopamina quando fazemos uma essas três atividades: sexo, comer junk food ou quando usamos drogas pesadas. Yeah... Então, no final, se comer porcaria for um ato tão destrutivo quanto usar drogas pesadas, sexo entra no clã da auto-flagelação também, e aí estamos fadados a um mundo que é hostil à nossa mera existência, ou hostil ao desfrutamento de nossos prazeres mais primitivos”.

“Espero que tu não esteja pensando em cortar as relações sexuais com a tua namorada...” eu disse, debochando.

“Mas nem fodendo, hahaha” ele disse, com a voz alta. A lancheria inteira olhou para a nossa mesa. “Assim como não vou parar de comer porcaria, ou carne, ou de usar drogas pesadas”.

“Não sei quanto a essa de drogas pesadas” eu disse. “Não posso atestar tua teoria”.

“Yeah, yeah... E todo o ácido que tu toma, como se fosse água? É droga leve?”

“Shhh, cara” eu disse, olhando para os lados. “Tem como falar mais baixo?”.

“Hey, man... só estou te dizendo dessa teoria. E se tu for ver o prazer como uma forma de encurtamento da vida, seria uma aceleração de processos. Pisar no acelerador, saca? Tipo essa mania por velocidade, nesses caras que dirigem aí pela cidade a duzentos por hora, passando os sinais vermelhos”.

“Não vejo aonde tu quer chegar” eu disse.

“Só estou dizendo que a “Pulsão de Morte”, de Freud, é só uma maneira, provavelmente errônea, de ver as coisas, porque mais vale viver pouco, e muito prazerosamente, do que viver muito em monotonia. É aí que entra o equilíbrio, a harmonia, que a natureza se encarrega de fazer. O prazer é o rápido gasto da vida, o acelerador do relógio da vida. É como se quem vivesse 30 anos em prazer tivesse vivido mais do que quem viveu 80 em abstenção. E a natureza cuida desse equilíbrio por nós. Quem goza demais, vive de menos”.

“E quanto a Iggy Pop?” eu perguntei. “E Lou Reed?. Talvez Albert Hoffman e Hunter Thompson tivessem menos prazer sexual, mas igual, buscaram outra forma de equilibrar-se nessa equação. E Ozzy Osbourne?”.

“Hey man, relaxa aí” ele disse. “Tu só tá me mostrando onde a natureza falhou. Tudo falha. E se tu pensar bem, essas pessoas são um pequeno grupo que pode ser nomeado de ‘As Exceções’”.

“Mas eu ainda não entendi a analogia entre comer carne e transar” eu disse, só pra provocar. A teoria dele era boa, e eu já estava chegando no campo da teimosia, tentando contestá-lo. Mas a discussão é um esporte, e sempre que tomamos posições radicais em nossas discussões, acabamos por perceber que as pessoas com quem discutimos não estão brigando, ou discordando, ou se irritando com a nossa presença, ou com nossos argumentos. Elas entram em desacordo é com elas mesmas, e brigam e gritam e gesticulam justamente contra a presença da contradição que está presente nelas, assim como está em qualquer ser pensante, embora não se dêem conta disso.

“Quando você consegue uma boa foda, é como se fosse um leão, zunindo pelas pradarias africanas atrás de uma zebra. Existe a pressa, mas ela está ali lado a lado com a calma. Uma depende da outra, como qualquer oposição ou contradição. E o leão sai em correria, e a zebra, assim que o vê, dispara em corrida para sobreviver. Mas não é só uma questão de timing. Não se trata de correr mais ou menos, ou pular e agarrar a zebra no momento exato. Existe um jogo ali, e a zebra faz curvas e muda de direção, enquanto o leão a acompanha. Mas nada disso tem a ver com sexo, nem com os sexos e muito menos com os papéis dos sexos numa foda boa. A questão é que o leão pula, e de um jeito ou de outro chegará no pescoço da zebra, e segurando-a com as patas e garras e unhas e uma raiva e necessidade carnal, morderá esse pescoço que, de fato, foi destinado a ser mordido um dia. E o sangue se derramará. O sexo, meu amigo, pelo menos o sexo de boa qualidade, aquele que faz com que tu se sinta como o Grêmio o fez no terceiro gol contra o Santos na semifinal da Copa do Brasil de 2010, ESSE sexo, é perfeitamente representado pelo sangue da zebra, que, finalmente, depois de muito esforço por parte do leão, pinga em sua boca faminta, e o faz sentir o gosto do triunfo, antes mesmo de desfrutar da carne propriamente dita”.

Eu fiquei meio perplexo, incapaz de esconder esse sentimento. Observo meu amigo sem fôlego depois da palestra. “Não entendi a lógica a que tu quer chegar” eu digo, finalmente.

“Yeah” ele diz, em tom de missão cumprida. “Isso é bom. No final, o que falta, de fato, ao jogo, tanto da carne, quanto da droga pesada, quanto do sexo, é justamente a lógica. Faça, portanto, do sangue da zebra, o uso que tu quiser”.

“E onde entra a dopamina nessa balela aí?” eu pergunto.

“Foda-se a dopamina. Ela é só uma consequência”.

Yeah. Agora fazia sentido. Ou, pelo menos, algum sentido. Ceci nest pas une pipe. “Cool” eu digo, pouco antes de perceber nossos pratos vazios. “Vamos nos mexer daqui?” eu pergunto. “Yeah, yeah, já está na hora”. E nos levantamos.

E em algum lugar do mundo, algum animal era abatido, e o sangue talvez não chegasse à boca do leão. E enquanto vivemos, e presenciamos a morte cercando as pessoas ao nosso redor, nos damos conta, a cada nova morte, que a fila está andando, e cedo ou tarde, será a nossa vez de saltar do penhasco.

“Paciência” eu penso, pois embora o prazer seja suficiente, jamais será o suficiente.

“Suficiente. Ou, demais” Wiliiam Blake.




Theo S. da Rocha

em um post nem um pouco natalino, na noite de natal

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Grande Círculo

Era um domingo á tarde, o céu estava nublado e choveria a qualquer momento. Dois amigos despretenciosos caminhavam em um parque natural, em uma pequena cidade interiorana, olhando para o chão para não tropeçar em raízes de árvores. Ao som do primeiro trovão, eles decidiram finalmente rumar para a parada de ônibus, mas viram algo no chão que os segurou por ali por mais tempo.

Haviam cerca de vinte ou trinta pedras, estranhamente postas em círculo, sobre a relva que caracterizava um pequeno vão sem árvore alguma. As pedras tinham uma coloração incomum. Era como pequenos blocos irregulares de basalto, aparentemente enferrujados. Eles estranharam aquela disposição das rochas, e ao que pararam para analisar a cena, a chuvarada os pegou despreparados. Mas, subitamente, a chuva que os molhava não mais importava. Nem seus celulares em seus bolsos, que estragariam com a água, nem suas mochilas, que traziam dinheiro nos bolsos externos, que molharia e possivelmente estragaria. Havia um exótico sentimento de completude. Um sentimento bom. Algo diferente de qualquer outra coisa que jamais sentiram.

Quando a chuva parou, os dois decidiram: levariam as pedras dali. Dividiram as pedras entre as duas mochilas e levaram alguns punhados da relva, só por precaução. Deixaram tudo organizado no quintal da casa de um deles, as pedras em círculo e a relva no centro, e sempre que chovia, os dois se reuniam ali, para se sentir bem. Era algo exclusivo, e suas vidas começaram a girar em torno dessa cerimônia. Cedo ou tarde, trariam mais pessoas para experimentarem a sensação. Optaram por nomear o círculo de rochas de “O Grande Círculo”.

Uma das primeiras pessoas que eles trouxeram ali era, por acaso, amigo do amigo de um deles, e nenhum dos dois o conhecia. Esse sujeito sofria de asma desde que nasceu, e tinha crises diárias, sem conseguir viver sem a “bombinha”. Nunca pudera praticar esportes. Ele acabou ali por, casualmente, encontrar duas pessoas que estavam a caminho de uma casa em que era muito interessante ir quando chovia. Se juntou ao casal e foi ver o que era esse tal de “Grande Círculo”. Quando chegou lá, viu pessoas dançando na chuva dentro de um círculo de pedras, e acabou não entendendo o sentido daquilo. Uma das pessoas do casal, que era de grande valor para ele, o convenceu a ir junto. Ele entrou no círculo, frustrado por estar fazendo algo tão patético quanto se molhar na chuva. Mas algo mudou em seu sentimento, e parecia que nada era patético e sem sentido. Sem muito controle de si, dançou, e gritou, e correu, e riu, e não sentiu mais asma nenhuma. Nunca mais.

Era a grande novidade! O asmático estava curado! O grupo, já maior, celebrava em êxtase aquele milagre, embora não muita gente conhecesse o asmático. Foi uma situação cômica, e exótica, no mínimo. Apesar da surpresa, ninguém levou muito a sério. Algumas celebrações depois, uma jovem diabética se juntou ao clã, trazida por um amigo que lhe alegava fazer parte da “melhor festa da cidade”. Ela foi curada também, ao banho de chuva e êxtase coletivo.

Aquilo soou um sino na cabeça de alguns deles, e decidiram conversar sobre isso. O Grande Círculo era, de fato, mágico. Por isso, não se deveria mantê-lo apenas para um seleto grupo. Muito menos abri-lo para o público como forma de fazer dinheiro. Era necessário mostrar para o mundo! Assim, abriram um centro de terapias na casa em que se localizava O Grande Círculo, e começaram a fazer publicidade. Um jovem meio-irmão de um dos co-fundadores do Grande Círculo trouxe sua avó, que estava com um tumor de 5cm de diâmetro no cérebro, incapaz de andar. A idosa ficou ali, imóvel, no centro do Círculo, na chuva, até finalmente se levantar, poucos minutos depois. O tumor retrocedeu e sumiu em pouco mais de uma semana.

A mídia começou a falar do Grande Círculo, na pequena cidade. Todos os dias que seguiam algum dia chuvoso, aparecia um caso novo na capa do jornal local. Mais interesses foram despertados. A primeira grande repercussão foi quando o primeiro representante de uma grande universidade na capital abriu a boca para o jornal mais vendido do país. A capa fazia alusão a uma frase sua, alegando que aquela história de “Grande Círculo” era apenas “bruxaria barata”. Vários setores da universidade se interessaram por aquilo, mesmo assim, e a universidade mandou dois de seus melhores cientistas para a pequena cidade, para analisar o Grande Círculo. Acabou que as pedras eram, de fato, apenas basalto, sujo de barro, e a relva, que já não era a mesma de antes, com novas folhas de novas árvores, era apenas relva também.

Nada e ninguém conseguia, de fato, explicar o que acontecia no Grande Círculo quando chovia. O que aconteceu, portanto, foi a emergência de um enorme fluxo de pessoas doentes, de todas as partes do país, para tomar um banho de chuva no Grande Círculo. As pessoas chegavam doentes, ou infelizes, e saíam curadas. Havia boatos que a cerimônia curava inclusive a loucura. Mas nem tudo foram consequências boas. A indústria farmacêutica ia cada vez mais à falência. Os cientistas da universidade se sentiram desvalorizados, estudando coisas que já não mais tinham valor. A economia ia de mal a pior, porque não mais as pessoas precisavam comprar o que não precisava ser comprado. O caos emergia de forma violenta, e alguém tinha que parar com aquilo!

Assim, em um dia que amanheceu ensolarado, fazendo os viajantes esperarem mais um dia pela chuva para a realização da cerimônia, as autoridades bateram à porta da casa mais visitada da cidade. Eles tinham um mandato, e levaram as pedras, a relva, a grama e todos os documentos e estudos embora. Houve confusão: pessoas protestaram nas ruas, sendo caladas violentamente. Os mais exaltados foram mortos, os mais calmos, apenas presos. Os descobridores do Grande Círculo foram torturados e mortos, sem poder responder racionalmente a nenhuma pergunta feita para eles.

Em meio à ordem que era finalmente restaurada, surgia o jovem ex-asmático que observava a situação inteira sem traçar reação alguma. Gradualmente, ele viu as pessoas retornarem às farmácias, retornarem aos shoppings, e novamente ligarem a TV para ouvir e ver os fatos que eram apresentados ali, mais uma vez dizendo que o que não é da ciência, simplesmente... não é. Não é nada, não é relevante, não existe.

E assim, o jovem asmático escreveu um livro. Depois outro. Depois outro.

E algumas pessoas foram relembrando dos tempos de Grande Círculo. “Yeah, man, a minha vó foi curada, ela tinha câncer!” dizia um deles. “Eu tive um amigo que era paraplégico, e voltou andar!” dizia outro. E lentamente as memórias iam voltando à população. E o jovem ex-asmático precisou se esconder. As autoridades o procuravam, ele passou a ser inimigo do Estado. Se fosse achado, seria morto. E assim, ele se escondeu no único lugar onde sabia que não seria procurado: na capital. Afinal, que pessoa do interior se esconderia do Estado na cidade grande?

Ele, então, seguiu sua vida. Escrevia seus livros, trazia de volta as lembranças dos velhos tempos, enquanto o que passou a se fazer de seus livros na mídia e publicamente era pior do que apenas tirá-los das prateleiras: as pessoas apareciam na TV, ridicularizando-o. Que idéias idiotas! Bizarras! Que cara louco e sem razão! Mas as pessoas que foram curadas, e as pessoas que as trouxeram, sabiam da verdade.

Em um dia chuvoso, o jovem ex-asmático decidiu ir à padaria, comprar bolinhos de chuva. Lá, na fila, esperando sua vez, se deparou, justamente, com o representante da grande universidade. Este, ao o ver, fez questão de abordá-lo, com uma risada com ares de superioridade.

- Estive esperando muito tempo pra te dizer isso – disse o representante, em deboche – mas o placebo, de que você fala não é cura.

- Placebo ou não, curávamos as pessoas sem efeitos colaterais. Pouco importa se a cura vem por uma substância ou não, o que importa é o que traz, de fato, a paz, o progresso e a felicidade. Você pode rir o quanto quiser, mas sabe que a maioria das coisas que nos cercam fogem à sua percepção e a da ciência – disse o ex-asmático

- Como o quê, meu jovem ingênuo? – perguntou o charlatão

- O melhor exemplo é o fato de a ciência não vê que ela se tornou justamente aquilo contra a qual ela mais lutava. A ciência é a Igreja Católica do século XXI, e a Inquisição acontece todos os dias, contra os pagãos que vão contra a deusa Observação Empírica. Tudo o que rege os seus atos, e os de seu paradigma, diz respeito à mesma visão que você e seu paradigma mais condenaram.

- Você é um idiota. Quem você planeja convencer com esse papo?

“Ninguém, de fato”, pensou o jovem ex-asmático. “Eu, particularmente, não planejo convencer ninguém”. Mas é claro! Para quê perder tempo? Como diz William Blake: “Seríamos tolos, se outros já não o fossem”. Indeed! Embora isso possa parecer um pouco egoísta, na vida, o que se deve fazer, é uma escolha, dentre duas:

1 – Ser um idiota

2 – Ser muito idiota

O que, na verdade, compromete a escolha dessas alternativas é o fato de que a segunda opção é muito mais fácil, e dá mais dinheiro. Mesmo assim, graças a... bem, graças a qualquer coisa, ainda existem aqueles que se banhem em sua própria chuva. A idiotice, entretanto, nada no mar de si mesma.



Theo S. da Rocha

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O Velho e os Velhos Tempos

Deixe que eu te conte a história do meu colega de guerra, que enlouqueceu. Preste atenção, pois ao término dessa história você aprenderá uma lição valiosa. Ouça atentamente. Hoje em dia ninguém mais ouve as outras pessoas: todos querem falar ao mesmo tempo, e ninguém pára para ouvir, especialmente a um velho idoso narcótico como eu.

Eu o havia conhecido no campo de guerra. Seu nome era Red. Seu batalhão estava dizimado e sem munição, então se juntaram ao nosso batalhão para formar uma frente mais forte. Naqueles tempos eu era um fedelho. Ele era um cara generoso e me conseguia cigarros, já que eu não tinha dinheiro para nenhum. Um sujeito singular, de fato. Ele carregava sempre a foto de sua mulher no bolso do casaco. Uma bela mulher, sim, com certeza! A foto, fantasticamente inusitada, era da mulher dele saindo do banho, com uma toalha na horizontal enrolada em volta de seu corpo. Os cabelos escuros longuíssimos caíam por sobre a toalha. Apareciam parte de suas coxas e um pouquinhozinho dos seios (afinal, um pouco nunca é suficiente). Os braços pendiam no ar, como que acenando para que não tirassem a foto, apesar de ela sustentar um sorriso encabulado e um olhar apaixonado. Sempre que eu via aquela foto, eu tinha uma ereção, eu lembro. Mas aqueles foram tempos outros, e agora já estou velho.

Não preciso dizer que Red jamais mostrava essa foto para ninguém. Era simplesmente uma foto espetacular. Então, o que fazíamos, quando ele sacava a foto do bolso para dar uma breve apreciada, saíamos para caminhar nos arredores, tentando aproveitar quando passávamos por trás dele para tirar uma casquinha daquela imagem imóvel que cativava todos os homens que estavam designados a morrer numa guerra obscura. Até que um dia algo aconteceu.

Uma das nossas bases aéreas observou uma imagem de satélite do acampamento onde nosso novo batalhão estava (afinal, estávamos em vários pequenos batalhões), e não nos reconheceu como compatriotas. Em torno das três horas da tarde, mandaram um esquadrão de bombardeio. Eles levariam cerca de 12 minutos e meio para chegar sobre a nossa base e despejar a destruição.

Coincidentemente (ou, quem quiser, que o chame de destino) era nosso dia de folga, e não havíamos dado um único tiro nas últimas 14 ou 15 horas. Red adorava os dias de folga, provavelmente mais do que nós, porque ele simplesmente dormia o dia inteiro. Raramente acordava antes das cinco da tarde, mas dessa vez ele despertara em torno das três da tarde, talvez um pouco antes, e a foto de sua fantástica mulher não estava no bolso de seu casaco. Seu rosto se tornou rubro como sangue, e seus lábios sumiram da boca em contração raivosa. Ele de súbito, em um grito de quem dispara ordens de urgência vital, alinhou todos nós, e isso que éramos do mesmo setor hierárquico (claro, Red era um sujeito grande, o que o ajudou, nesse caso). Ele urrou com cada um de nós por alguns minutos, até que o ladrãozinho se propôs, timidamente, a devolvê-lo a foto. Ele havia se masturbado com o exemplar, e havia uma mancha de sêmen.

O ladrão era um homem morto, isso era um fato. Nenhum de nós, alinhados, moveria um músculo para salvá-lo das garras de Red. Talvez por respeito à vítima, mas eu apostaria mais na inveja que sentíamos dele naquele momento. De qualquer jeito, Red rapidamente sacou a arma de seu coldre, e apontou para a braguilha da calça do pobre, mas felizardo ladrão. Ele ergueu os seus olhos, do alvo até os olhos de sua futura vítima, sem mover a arma dali.

Este foi um momento sublime em minha vida. Aquele momento, que durou poucos segundos, talvez dois, talvez três, pareceu muito mais longo para mim. Podia ser a eternidade, inclusive. Talvez nem tanto, mas umas boas três horas. Aquele era o momento em que a relação vítima-vitimado se invertia. Red era a vítima, o coitado, e todos sentíamos compaixão para com ele, e indignação pelo punheteiro filho de uma puta. Essa compaixão iria se invertir a partir do exato momento em que Red disparasse. Então, o castrado se tornaria a vítima. Sentiríamos pena, compaixão por ele, sustentando a patética noção de que poderia ser um de nós lá, sendo punido severamente. E assim, a situação se assentaria da forma oposta como começou: Red, o filho da puta, o ladrão, o pobre coitado.

Mas não foi isso que aconteceu. Dois dos oficiais de cargos mais altos que nós ouviram a gritaria, e passavam por ali durante a arruaça. Um milésimo de segundo antes de Red disparar e efetuar uma castração, um dos sargentos pulou em sua direção, e o derrubou. O outro o desarmou, e os dois tiveram um trabalho árduo tentando segurá-lo. Ele gritava de ódio e esperneava, mas era irrelevante. Outros quatro sargentos surgiram do nada, até onde me diz respeito, e auxiliaram os dois primeiros. Um deles se virou para nós e disseram para ajudarmos, afinal, Red era um sujeito grande. Todos nos deslocamos para fazê-lo, menos a quase-vítima, que estava em estado de choque, e foi lentamente se afastando da cena, andando de costas.

Enquanto o fazíamos, os aviões passavam por nossas cabeças, e olhamos para cima em reconhecimento: são nossos. Assim, seguimos nossa tarefa. Red, que ainda não constatara que eram nossos compatriotas lá no ar, gritou para o ladrão assim que conseguiu uma rápida troca de olhar com ele, enquanto o segurávamos: “Espero que caia uma bomba bem sobre sua cabeça!”.

E, ó, meu amigo e ouvinte, se não foi isso que aconteceu. A única bomba despejada sobre nós aquele dia, antes de os aéreos perceberem que éramos seus comparsas, caiu bem sobre a cabeça do ladrão. BUM! E um zilhão de pedacinhos voaram em nossa direção, seguidos por um banho de sangue. BUM, SPLASH. O ladrão, subitamente, estava em todos os lugares.

Red nunca mais foi o mesmo. Ele começou a agir estranhamente. O que havia acontecido com ele, depois do evento, foi que ele começou a achar que poderia tornar todos seus desejos em realidade, apenas pensando-os, e não conseguia crer que os desejos não se tornavam realidade. Começamos a vê-lo conversando sozinho, ou se masturbando em qualquer lugar pelo acampamento. Ele dizia que era sua mulher que o fazia visitas assim que ele queria. Ademais, tentava matar algum de nossos inimigos a grito, e um de nós sempre tinha que estar por ali para protegê-lo e matar o homem que ele, de fato, deveria matar. Alem disso, começou a experimentar longas jornadas de introspecção e um sentimento de culpa quase insuportável, que o fazia gritar pra lá e pra cá nas noites de chuva. Eventualmente, mandaram ele de volta pra casa.

Algum tempo depois, ouvi uma história no acampamento, aquela coisa, sabe? Boatos que diziam que ele se deu um tiro no pênis, e perdeu tudo por ali com uma bala só. Lembro de alguém comemorando o fato de que, assim, sua mulher estaria solteira novamente. Foi a primeira vez que realmente constatei que as pessoas são, sem exceções, todas más. Não apenas porque havia alguém comemorando esse acontecimento, mas porque, de alguma forma, eu sabia que todos nós pensávamos a mesma coisa. Todos víamos alguma oportunidade ali: a deusa de toalha e cabelo molhado provavelmente estaria livre. Acho que essa é a maneira de viver. Você vive com todo o tipo de pensamentos, não controla o que pensa. Não adianta se sentir culpado por eles, ou tentar realizar todas as fantasias que surgem em uma mente desenfreada. A questão é o que fazemos com esses pensamentos. Bem, eles devem servir para alguma coisa, não? Alem de realização, não? Não? No final, são apenas pensamentos, embora seja impossível ignorá-los.

Bem, de qualquer jeito, quem sou eu para falar disso? Nada alem de um velho. Hoje em dia podemos comprar qualquer coisa. Pensamentos, perdão... Ou até uma história de vida, podemos comprar, em alguma farmácia, com ou sem prescrição médica. O que é de valor não possui mais valor. É a inversão, novamente. O que começa assim, termina missa, e vice versa.

Esses são tempos obscuros pra se viver, com certeza. De qualquer jeito, estava indo comprar um pouco do meu chá, que havia acabado em meu confortável lar, e vi Red na rua. A barba enorme, o rosto enrugado, uma garrafa de whisky na mão, que oscilava pelo ar enquanto ele andava. Ele passou por mim. “Red?” perguntei. Ele se virou. “Tudo bom com o senhor?” eu perguntei. “Cuidado” ele me respondeu. “É difícil ser feliz hoje em dia” ele disse, se virando novamente e seguindo seu caminho.

Aquilo soou como sabedoria para mim. Mas poderia, muito bem, ser loucura.

Ah! A lição, não? Me perdoe, jovem. Eu nem me lembro mais. É essa memória, sabe? Me perdoe mesmo.




Theo S. da Rocha

sábado, 11 de dezembro de 2010

A Casa, A Mente, e As Batatas Fritas Salgadas

Se você mora em uma cidade grande, sabe o significado que tem convidar alguém para ir à sua casa. Ninguém convida “qualquer um” para simplesmente ir à sua casa e conhecer seu recanto. A casa é como a mente do morador, e estar na casa de alguém é como estar na mente dessa pessoa. Consigo identificar o tipo de pessoa só pela sua casa. A começar, se vou à casa de alguém e identifico que está tudo perfeitamente em ordem, começo a desconfiar. Deposito minha confiança apenas nos que vivem em bagunça. Mas isso é outra história.

Eu estava tentando comprar uma moto, e encontrei um sujeito estranho que queria vender uma velha moto de baixa potência. O preço era bom. Entrei em contato e acertamos de eu ir na casa dele para dar uma olhada na motoca. Tão logo conheci o sujeito, também conheci sua casa. Ele era um cara de meia idade, e eu não sabia sua profissão. Apertei sua mão e entrei em seu recinto.

E, saltando aos meus olhos, o primeiro detalhe: carpete. O carpete é uma medida tão drástica para uma casa quanto não fazer janelas. Quando eu era criança, gostava de casas com carpete. Era macio de engatinhar e podia-se deitar no chão relaxadamente, mas logo descobri que esse é o único benefício do carpete. A questão do carpete é que ele está lá, encobrindo e escondendo justamente a parte da casa que sustenta o morador: o seu chão, e esse, na verdade, deve estar livre e descoberto. “Esse cara é religioso” pensei. “Católico ou evangélico”. Pelo menos sua casa estava um pouquinho bagunçada.

Nós passamos pela sala, e saímos para o quintal dos fundos, onde estava a moto. Pela casa, haviam muitos papéis espalhados, a maioria era documentos. Aquilo estava se tornando perigoso pra mim. Alem de religioso, era um cara que se fixava em burocracias. Aquilo não era boa coisa.

Fomos para os fundos, até uma garagem fechada. Ele abriu uma porta de correr com muita força, ela estava emperrada. “Vamos ver como está a motoca, eu não ligo ela já fazem seis anos” ele disse. De fato, um católico: ao passo que deixa na garagem tudo aquilo para o qual não quer olhar em seu dia a dia perfeito, não frequenta muito a garagem para não vê-los. Assim, não fica perturbado com problemas e imaturidades, apenas deixando-os em um cômodo afastado da casa e indo ali quase nunca. A moto levou alguns chutes no pedal de partida, e sutilmente o motor foi reativado, dando estalos sem ritmo fixo, e chacoalhando a moto inteira. Ela ainda estava em ótimo estado, apesar da poeira.

Depois de dar uma olhada na moto, eu falei que não poderia comprar. Inventei uma desculpa esfarrapada, tentando disfarçar o fato de que não negociaria com ninguém que possui um carpete, é um burocrata e não gosta de rever as podridões de outrora na garagem de sua mente. Tudo isso para não dizer um católico fervoroso.

Voltamos para a sala, e ele me ofereceu um café. “Que mal haverá?” pensei. “Ele até que aceitou bem o fato de eu ter desistido da compra". Enquanto ele fazia o café, fiquei sentado na sala, em meio a todos os papéis. Ele veio com o café. “Então, meu caro” ele disse. “O que você faz da vida?”. “Estudo psicologia” eu disse. “Ah, mas essa é uma área muito interessante! Sabe quem é o maior psicólogo de todos?” ele me perguntou.

Muita coisa correu pela minha mente, e eu não consegui perceber muito do que eu pensava diante da situação. Sentia apenas a certeza de que ia escutar asneira. “Não” eu respondi. “Ah, o melhor psicológo de todos é aquele lá, ó!” ele disse, apontando para o teto. Eu olhei pra cima. O teto da sala era uma imensidão perfeitamente branca, nula, sem uma mancha sequer. “Ahn?” perguntei. “O papai do céu! Deus é o melhor psicólogo” ele disse.

“Yeah” eu respondi. “Eu não acredito nesse cara”. “Um dia, vai acreditar” ele me assegurou. “Eu posso, um dia, acreditar nele, embora ache isso muito improvável, mas não depositaria muita confiança no sujeito”. Tomei um gole do café, era aguado e não estava muito quente, e mudei de assunto perguntando em que ano ele havia adquirido a motoca, e assim, a conversa seguiu um rumo mais contextual, para minha sorte.

Fiquei sabendo que ele havia sido um vendedor de carros usados, e agora havia se aposentado. Ele vivia sozinho na casa, mas fazia menção a suas filhas. Quando perguntei delas, ele falou em sua ex mulher. Ela o abandonou, e ele não me especificou direito quando ou porque. Não entendi se ele mantinha contato com as filhas, ou se elas também o esqueceram. Ele ia à igreja todos os dias, e dirigia um Escort velho, cor de vinho.

Depois de terminar o café, fui gradualmente fazendo o movimento de dar um fim na conversa para ir embora dali, mas me lembrei que precisava ligar para meu pai, para dizer que me atrasaria para nosso almoço juntos. Vi, na parede da sala, um telefone pendurado. Era um telefone antigo, daqueles que os números ficam numa rodinha e tu vai girando ela para digitar, e ela faz clec clec clec. O telefone estava coberto por uma espécie de véu, que eu não sei por que estava ali. Assim, me levantei e fui indo em direção ao telefone. “Se importa se eu usar o telefone rapidinho?” eu perguntei, no caminho até o telefone. Ele se levantou, agitado. “Não!” ele disse. “Não use esse telefone, use o sem fio!” ele soava temeroso. “Por que não?” eu perguntei. “É que este telefone eu uso para falar diretamente com Deus, é só para emergências”.

“Tu tem uma linha direta para falar com deus?” perguntei. “Sim, sempre que preciso, sim” ele respondeu. “Cool” eu disse. “Eu não me importaria se ele me redirecionasse para que eu falasse com meu pai” eu falei, atrevidamente tirando o véu do telefone e sacando ele do gancho. “E se Ele tiver algo mais importante para fazer?” o velho ex-revendedor de carros abandonado pela família e católico me perguntou. “Vai por mim” eu disse, “ele não tem”.

Levei o telefone ao ouvido. “Alô?” eu perguntei. “Sim?” uma voz perguntou do outro lado da linha. “Quem é?” eu perguntei. “Aqui é Deus falando” a voz respondeu. “Aí cara, pode me fazer um favor? Redireciona essa ligação pra mim, que eu preciso falar com meu pai?” eu perguntei. “Sinto muito, mas não posso fazer isso” ele respondeu. “Essa é uma linha direta, e não efetua ligações pra outros números”. “Mas tu é Deus, cara” eu disse. “Sim” ele disse. “Muito obrigado”. Senti o movimento dele desligando o telefone. “Espere espere espere!” eu disse, ao telefone. A voz voltou. “Sim?”. Eu fiquei pensando que alguma coisa eu deveria perguntar. O propósito de estarmos aqui, o grande segredo das coisas e do universo, e essas porcarias assim. Por sorte, rapidamente tive um insight de pergunta que realmente se mostrava relevante. “Syd Barrett” eu falei. “Ele enlouqueceu por excesso de LSD ou por excesso de talento?”. Houve um silêncio do outro lado da linha. Depois de alguns segundos, que pareceram séculos, a voz surgiu de novo. “Quem?”. “Esquece” eu disse, frustrado.

Saí de lá sem ter conseguido falar com meu pai. Eu me atrasaria um pouco, então estava contando com a sorte de o ônibus não demorar, e o meu pai me aguardar pacientemente. Por sorte, ele o fez, e eu o encontrei na mesa do restaurante, tomando uma dose de cachaça em um pequeno copo de vidro, de olho na porta para ver quando eu chegaria. “Como foi sua manhã?” ele me perguntou. “Boa” eu disse. “Falei no telefone com alguém que não existe”. “Parece divertido” ele disse. “Não foi uma boa conversa”, eu respondi. “Era alguém desinteressante”. Ele me pareceu decepcionado com a notícia. “Por que?” ele me perguntou. “Não conhecia Syd Barrett”, eu respondi. “Isso não significa nada” meu pai disse. “Eu sei” eu o interrompi. “Mas ele me pareceu apático demais também”. “Isso sim é um porre”, constatou meu pai. “Yeah” eu disse.

Nós pedimos a comida, e aguardamos silenciados pela fome. Comemos dois a la minutas. Eu pedi com os ovos bem fritos. Meu pai, por sua vez, pediu com a gema ainda líquida. Meu bife estava bem mal passado, do jeito que eu gosto. E macio, também. As batatas fritas estavam crocantes, mas eu acabei acidentalmente salgando elas demais. Eu fiz a refeição tomando um refrigerante gelado. Depois de comermos, eu voltei para casa, e segui procurando alguma moto à venda na internet. Mais tarde, adormeci lendo “Cem Anos de Solidão”, do García Márquez. Nada contra o livro, a história é ótima, o que me mata é esse hábito de dormir muito tarde da noite e acordar cedo de manhã.


Theo S. da Rocha

domingo, 5 de dezembro de 2010

O Cão Sem Contornos


Eu tinha esse amigo que era pintor, não um grande pintor, mas uma pessoa um tanto excêntrica. Ele gostava de ser o anfitrião, e dar jantas para todo seu círculo social. Eu conheço o tipo. Aqueles que, de tão generosos, acabam se tornando orgulhosos. Chegávamos lá e ele mostrava a casa para todo mundo. Uma casa enorme. Ele não vendia quadros, mas seu pai, em outro canto do mundo, vendia petróleo, então ele não só não se incomodava com dinheiro como adorava esbanjá-lo para os demais.

Ele sempre envenenava a comida que cozinhava com alguma peçonha psicoativa. Não guardo muitas memórias primeira janta que eu fui. Me lembro apenas de olhar para cima e xingar a lua, que fechasse sua janela do exibicionismo e ligasse as engrenagens do voyeur. Em seguida, voltei para dentro da casa e reorganizei os móveis da sala, tentando fazer um relógio solar que formasse uma constelação nova, com o intuito de armar o palco para uma seita satânica, onde escravizaríamos e esquartejaríamos formigas vermelhas da África.

Na segunda janta, eu achei que ele não seria tão filho da puta uma vez depois da outra, mas eu estava errado. Acho que eu era o único que não sabia dessas intoxicações. Todo mundo parecia tão à vontade. De qualquer jeito, não me sobraram muitas memórias dessa janta também. Eu caminhei sobre a água da piscina, colhi flores no jardim que mais pareciam com ouriços do mar pintados de arco-íris e as entreguei para uma outra convidada que outrora achei atraente. Quando abordei ela, seu rosto se tornou um grande outdoor com ditos populares estranhos. Algo como “você planta o que colhe”, “cães de rua não atravessam a rodovia na faixa de segurança” e “diga ‘oi’ se quiser ir embora, e ‘adeus’ se quiser ficar”.

Não preciso dizer que não mais comi a comida cozinhada por esse sujeito em suas jantas. Eu comia algo antes de sair de casa, e passava fome depois. Não ir nas jantas estava fora de questão. Se tratava de um estudo, uma etiologia, de até onde vai a indecência humana e até quando o ser humano se acostuma com sua própria condição de animal. Então, o que eu fazia era sentar à mesa e passar a comida para o cão do anfitrião.

O cão era um vira-lata dócil. Eu não dava muita bola para o seu comportamento depois de passá-lo as comidas que me eram servidas, mas nunca me acostumei a vê-lo latindo para uma parede branca e olhando para os lados em silêncio desesperado, ou subindo e descendo escadas freneticamente, enquanto a língua pendia para fora da boca pelo canto direito de seu focinho. Ele sempre olhava para o nada, virando a cabeça rapidamente como se grandes espectros coloridos atravessassem a sala em uma velocidade alucinante. Ninguém dava muita bola para seu comportamento, já que estava todo mundo agindo estranhamente, até que um dia o cão perdeu suas estribeiras, atravessou seus limites e enlouqueceu completamente.

Eu recebi uma ligação do pintor no dia seguinte à janta. “Alguém alimentou o Jim com o meu strogonoff de peixe cru mágico, ele pirou completamente” ele disse, parecendo brabinho. “Yeah, fui eu. Achei que ele devia entrar no clima”. Ele urrou de raiva e disse que agora o cão era meu. “Sem sentido” eu lhe disse. “Agora ele está a sua cara, aposto”. Não adiantou muito, e eu tive de aceitar o cão, já que ele prometeu sacrificá-lo se eu não o acolhesse. Eu ouvia o cão latindo no fundo, através do telefone. Provavelmente passou a noite e a manhã inteira agindo estranhamente.

Aquilo realmente me deixou puto da cara. Ele não era um sujeito coeso: gostava de ficar louco, gostava de parecer louco, mas deixou de gostar do cão porque ele havia, oficialmente, pirado de vez. Então adotei o cão, mesmo morando em um apartamento. Consegui facilmente ensiná-lo a cagar e mijar no jornal, mas todo o resto foi difícil. Ele latia, quase todos os dias, para o que eu suspeito que fossem os espectros coloridos atravessando a sala. Por vezes, tentava escalar a parede, arranhando tudo. Ficava apoiado na janela, uivando para as mulheres muito maquiadas que passavam de salto alto pela calçada, e babava excessivamente quando algum chiuaua, macho ou fêmea, passasse por ali. Os vizinhos reclamavam, mas ninguém tinha coragem de mexer com o vira-lata. Ele parecia fora da casinha demais para qualquer interação. Com o tempo, me acostumei a chamá-lo de Jim, como o pintor filho da puta o fazia.

Assim, os dias muito depressa se tornaram rotina, novamente. Eu passava o dia inteiro fora de casa, trabalhando, e tornava à noite, ficando por ali quando eu não saía para tomar uma cerveja. Nos fins de semana, saía passear com o coitado, por pena de deixá-lo trancado no apartamento por tanto tempo, mas era sempre complicado de sair com ele. Sua loucura era quase incontrolável, e ele sempre arranjava uma nova maneira de se portar insanamente. Quando eu saía para trabalhar, e deixava ele sozinho em casa, nunca sabia o que ele fazia. Havia dias em que os vizinhos reclamavam de barulhos, ou latidos, e havia dias em que não comentavam nada. Até que um dia tudo mudou.

Cheguei em casa um pouco mais tarde do que planejava, já que não havia comida em casa e eu precisei buscar algo no mercado, e quando cheguei ele estava lendo meu livro do Rousseau, “O Discurso sobre a Origem das Desigualdades entre os Homens”.

Aquela situação me pegou de surpresa, mas eu tentei agir naturalmente. Fiz um desjejum sem olhar diretamente para ele, tomei um banho e fui dormir. Achei que era só o cansaço, mas no dia seguinte a situação se repetiu. Dessa vez ele estava lendo Maquiavel, “O Príncipe”. Decidi não me privar de fazer minhas coisas, e deixei-o ali, lendo. Com os dias, fui me acostumando com a situação. Ele parou com os comportamentos insanos, de latir para o ar, tentar voar pulando de cima da mesa e tentar escalar a parede. Assim, ficava de segunda a sexta em casa, lendo, enquanto eu trabalhava. Lia Anthony Burguess, Irvine Welsh, os Beatniks todos, alguns filósofos, alguns psicanalistas, Jung, Hunter Thompson, Lovecraft, Kafka, Hemingway, e assim, todos os livros que eu possuía, alem desses. Todos.

Um belo dia cheguei em casa e ele lia Nietzche, com um cigarro entre os dedos da pata esquerda. Ele se virou para mim, com as orelhas para o ar: “Já é hora de conseguir novos livros”. Ele sentava no sofá, com o livro aberto sobre o sofá e sob a sua pata direita. Eu olhei novamente para o cigarro. “Então você é canhoto?”, perguntei. “Yeah” ele disse. “Acho que sim”. Depois disso, pegamos o hábito de discutir alguns filósofos. Quando eu chegava em casa embriagado, discutíamos o sentido da vida. Com o tempo, ele começou a escrever também. Eu lhe dava privacidade para fazê-lo. Depois de alguns meses, ele me mostrou pela primeira vez seu trabalho. Era um poema sem forma:


“O Pôr do Sol

O céu em degrade

Lá longe vermelho

Quente a ainda fonte de luz

Vai rapidamente esfriando

E quando esfria

Passa por um universo de cores sem nome

Nem definição

Se torna amarelo

E desse amarelo, um claro indizível

E desse claro indizível, vai escurecendo

Passa por lilás e violeta

Sem contar todos aqueles tons

Jamais vistos em qualquer outro fenômeno

Até que, sobre a minha cabeça, apenas o céu azul escuro

Quase noite

É como uma jovem ingênua

Que com brilho indizível expõe sua beleza e juventude

E passa por um desenvolvimento

De uma maneira misteriosa

Formando personalidades antes instigantes

Até sucumbir à velhice

Sem mais possuir excentricidade

Ou segredos tão cativantes.”


Eu leio o poema atônito. Releio e viro para ele. “Está uma merda”. “Eu sei”, ele diz. “Eu li hoje em uma revista de diz que cães não vêem cores” eu lhe digo. “É mentira” ele me diz. “O imbecil que disse isso devia ter suas mãos e seus pés cortados por um açougueiro canibalista faminto, e, em seguida, castrado. Eu vejo cores até demais”. Eu reflito sobre o que disse. “Pena” eu lhe digo. “Se tu só visse em preto e branco, esse poema passaria a ser um dos melhores que eu já li”. Ele olha para baixo, em decepção. Se levanta do sofá, e vai mijar no jornal. “Mas não desista” eu lhe digo, enquanto ele sai da sala. “Talvez as gerações seguintes te vejam como um profeta”.

Ele volta para a sala, resmungando. “Isso seria um porre”, ele me fala, retornando ao sofá. “Prefiro ser queimado no inferno por toda a eternidade, e ser torturado por um coreano com problemas paternos, do que ser lecionado nas escolas. Isso sim, é o verdadeiro castigo para alguém”. “Yeah”, eu lhe digo. “Você não podia estar mais correto”.



Theo S. da Rocha