sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Um Cut Up Autêntico!!!


Ei-lo:

"O grande jornalista Hunter Thompson escreveu, ao fim da década de 80, que aquela havia sido a pior década do século XX para se ter vivido. A consolidação de uma era policial no ocidente, o apocalipse cultural (se é que é possível reduzir mais ainda o pouco de cultura da cidade).

Mais da metade dos bares de Porto Alegre já foram vítimas da SMIC. A tendência é no sul nos fodermos sem camisinha também, sempre com o mesmo propósito, trazendo consigo a verdadeira geração de suínos, em que ninguém se orgulhará de fazer parte do “faça o que eu digo mas não faça o que eu faço”. O imoral se tornou poeira do dia a dia? O que os jovens vão tornar ao lar, inundado pelas gotas e cem quilômetros por hora, para manter a existência, tudo isso dentro do parque?

Como disse Iggy Pop: “America takes drugs in psychic defense”. Bem, aqui que em algumas semanas, quase nenhum bar esteja aberto depois da meia noite. 00:00h. Já dirá a lei, seguindo o que lhes é dito com passividade, uma década em que, quando todos os bares fecharem e não quisermos controle, nunca vamos escapar de duas sirenes ligadas. Não sendo lá uma cidade de grandes entretenimentos, Porto Alegre caminha na direção de filho deficiente do moralismo. Ou ele descende da necessidade de auto-afirmação, em que perca a identidade dualista de errado e maléfico? Um estado policial que morre no final.

Mas como seguir resistindo? Onde vamos beber a fuga parcial condenada a retornar? Ao próprio parque é permitido caçar o outlaw, zunindo, arrastando o som estridente de sua maturação do moralismo: a batata da mente correta. Minha perna não era o único desconforto que sentia: ter que fazer para o imoral a herança católica maniqueísta a grama que pinicava descansando, enquanto eu deitava sob o sol. Enquanto eu lia, o sexo mata. De fato, a perfeita grama da Redenção não mais é apenas um texto do Bukowski.

E tudo o que foi dito não é novidade."


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Fim das Publicações

Bom dia, leitor fantasma. Venho por meio deste encerrar as atividades neste blog. O que acontece é que seu humilde tagarela comprou uma máquina de escrever Olivetti, modelo Studio 45, e não vai ficar digitalizando testículos por aí só para virtualizar um pouco. Peço desculpas aos que estavam curtindo, então aí vai um presentinho, sobre Bukowski.

- É óbvio que isso é um tema recorrente em todos homens, mas não justifica tamanho deslumbramento ou reocorrência! É lógico que algo aconteceu com ele!

- Tu ta errado e ponto final. Isso jamais aconteceu.

- Não que isso tenha ocorrido, de fato, mas de algum jeito ocorreu.

- Tu sempre vem com essas idéias absurdas sobre o surgimento de idéias nos escritores. O Bukowski nunca teve o pau desfigurado, isso é só uma teoria sua muito falha.

- Olha, eu não sou um assíduo leitor de Bukowski. Acho o cara repetitivo demais. Mas eu leio dois livros dele e duas vezes me aparece a questão de perder ou quase perder o pau! Me deixa falar que eu explico.

- Ok, quais eram os contos?

- O da Bernadette, lembra? O cara vai no médico com o pau desfigurado, e vai falando da Bernadette? Aí no final da história ele conta o que aconteceu, a Bernadette deu um fora nele, e ele ficou pensando nela em casa até sentir tesão e tentar foder uma garrafa. O pau fica entalado, ele quebra a garrafa e corta o pau. Quase perde a capacidade de ficar durão!

- É só imaginação! Uma garrafa é muito pequena!

- Pra quem? De qualquer jeito, no outro ele vai enrolando a namorada, mas passa no motel e fica com uma puta gorda que conta uma história sobre louva-a-deus. A fêmea louva-a-deus come a cabeça do macho e mata ele depois do coito. Aí depois a puta chupa ele e morde, arranca a cabeça do pau dele. quer dizer, ela fica pendendo por uma pelezinha, apenas. Bleargh. Então ela vai embora e o cara liga para a namorada dizendo que não poderá ir no compromisso com ela.

- Não significa que ele perdeu o pau ou quase perdeu o pau.

- Ele ainda dá detalhes sórdidos...

- Ele sempre faz isso...

- Olha, eu não to dizendo que o Bukowski foi castrado. Quer dizer, estou, mas não na realidade. Sim, pode ter acontecido na realidade, ou não. De qualquer jeito, ele sempre foi viril. A questão é que ao passo que isso é um tema recorrente para ele, de alguma forma ele sabe que perdeu o pau. Ou que o modus operandi do seu é deformado, cicatrizado. Podre, talvez, ou baleado. Ossos do ofício!

- Não entendi

- A fantasia, querendo ou não, sempre vai ser real, em algum lugar. Quer dizer, você não sabe onde algum amigo nosso está, mas ele está, nesse exato momento. Ele existe. Que nem a fantasia. Ela é, de fato viva. E Bukowski foi castrado. A questão é que só as pessoas mais interessantes dão atenção a fantasia, e Bukowski era assim. Não que eu duvide que ele tenha tido o pau mordido por uma puta. O Bukowski andava fora da faixa de segurança, afinal.

- Ok, ok. Então ao passo que o leitor está nesse exato momento lendo isso, ele está viajando?

- Ora, por que não? Nunca ocorreu contigo? Você lê, lê, lê, e quando chega no fim da página percebe que não entendeu direito, e quando tu volta no texto não lembra de nada do que leu? Aí você fica pensando e se dá conta de que estava em outro lugar, e sequer reparou? Leu tudo aquilo sem ler?

- Leu sem ler? Sem ler o que?



Como vocês sabem, ou não, Bukowski, no fim de sua vida, trocou a máquina de escrever pelo computador, porque é mais fácil, e eu estou migrando no outro sentido.

um abraço

Theo S. da Rocha

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Intravista

Chegamos na casa desse sujeito com o estranho propósito de fazer algo sério. Nós precisávamos, afinal, do dinheiro, e estávamos dispostos a qualquer tipo de freelance em alguma prostituição simbólica. Assim, tínhamos que entrevistar um milionário metade porco e metade fútil.

Essa revista de moda, comandada basicamente por uma jovem frustrada muito agradada de meu amigo e colega, nos chamou para fazer a entrevista. “Que tal essa?”, eles devem ter pensado. “Mande dois escritores falidos entrevistar esse grande estilista, a matéria vai ser fantástica!”. Ficamos então com, alem da dignidade cuspida e pisoteada pela indústria fashion, o dever de aturar o sujeito por duas horas pregando coisas como a importância de escolher as roupas que melhor te definam como a pessoa que você é, e outros papos do tipo. Coisas da vida.

Meu amigo estacionou o carro, desligou o motor e respirou fundo. “Me passe a vodka de novo”, ele me pediu. Eu o fiz com pressa – é claro que jamais entraríamos nessa empreitada num estado de total sobriedade – e em seguida tomei um gole, passando a garrafa novamente. Saímos do carro guardando a vodka na mochila. Iríamos necessitar dela durante a entrevista também. Alem da vodka, mantínhamos na mochila um gravador e uma série de anti-depressivos, só por via das dúvidas.

A casa era clássico classe alta: uma coisa toda branca perfeitamente cúbica, como se algum engenheiro a trouxesse pronta dentro de uma caixa forrada com isopor e a posicionasse naquele exato lugar onde a casa estava. Não havia quintal. Uma casa sem quintal é o reduto da mente rasa.

Fomos calorosamente recebidos pelo sujeito. Sentamos na sala de estar, toda branca, em sofás brancos separados por uma mesa com um tampo de vidro. Alem do sujeito, com suas roupas que o definiam como um sujeito que escolhe roupas que ele acha que o definem, havia seu filho, um fedelho de em torno de nove anos que corria para lá e para cá fazendo barulho, e uma pobre empregada-escrava que se mantinha não-existindo na sala. Ela, entretanto, parecia a pessoa mais sã dali. “Aceitam uma bebida?”, ele perguntou. “Nós normalmente não bebemos no trabalho”, eu disse. “Mas aceitamos um pouco de rum, apenas para quebrar a rotina”. Ele nos serviu de rum. Haviam todos os tipos de bebida lá.

Assim, fomos ouvindo os papos e trejeitos desse sujeito portador da Verdade Universal de Todos os Fatos da Vida e da Origem do Universo, discretamente nos alternando para ir ao banheiro descer um pouco da vodka. Eu bebia sentado no vaso, brindando junto com o papel higiênico de folha dupla, numa homenagem à decadência humana.

O telefone dele tocava o tempo inteiro com todos os tipos de subordinados perguntando coisas para ele. Ele disparava ordens agressivamente, tornando esses momentos até mais ricos do que a entrevista em si. Quando isso aconteceu nas duas primeiras vezes, meu colega desligou o gravador, mas não tardou muito até ele perceber a riqueza desses instantes, e acabamos gravando algumas fantásticas conversações com terceiros que eram tratados como cachorros que cagam no sofá e acabam punidos tendo seus focinhos esfregados na merda.

Isso é, de fato, o supra sumo da capacidade humana de projeção: nem os cães escapam. Socialmente, lógico que ter seu nariz esfregado em cocô parece ser nojento, mas para os cães isso incomoda menos que ter os pés aquecidos por um cobertor. Assim, enquanto o dono esfrega a cara do cão na bosta, está na verdade espalhando bosta em seu próprio rostinho aveludado.

A questão é que o sujeito foi ficando meio exaltado e irritado com um empregado que ligava o tempo inteiro para saber detalhes de alguma coisa, que foi para outro cômodo e fechou a porta, para seguir gritando e xingando sem ser ouvido por nós – estratégia que não deu muito certo – e nós acabamos ficando sozinhos com seu filho. “Pegue a vodka”, eu disse ao meu amigo e colega, com a intenção de aproveitar a semi-privacidade. Ele abriu a mochila ali (sim, nós íamos de mochila para o banheiro, mas ninguém prestava atenção nisso) e tirou a vodka. Todavia, acidentalmente ele deixou cair da mochila um pequeno saquinho com nossa miserável quantidade de maconha.

“Seu porco”, eu disse, gelando de medo. “Eu te pedi para tirar isso da mochila e deixar no carro”. A criança contemplou o artefato por um instante. “Isso é maconha? Vocês fumam maconha?”, o fedelho perguntou. “Yeah”, meu amigo disse. Eu era apenas uma estátua de gelo. “Mas quem usa drogas está perdido. Por que vocês fazem isso? Isso só leva a desgraça, arruína a vida das pessoas!”. As crianças que assistem muita televisão são pequenos andróides reprodutores de informação, destinados a virar nada mais que grandes andróides reprodutores de informação. “Na verdade, isso é uma concepção atrasada”, meu amigo disse. Eu era mais uma estátua de gelo do que nunca.

“O que acontece, de fato, é que as drogas podem – e são – usadas não apenas recreativamente, como também uma forma de chegar a diferentes pensamentos e pontos de vista. É uma atividade rica e inteligente”, meu amigo disse. “Essa concepção de auto-destruição através das drogas foi criada para não as usarmos jamais, mas se tu pensar, álcool é uma droga, café também, e inclusive açúcar”.

“O que você está fazendo?” eu perguntei. “É uma criança, seu porco perverso, como espera que faça uso da razão e da moderação? Ele tem é que descobrir por si mesmo”. Assim, o fedelho começou a contemplar nossa discussão, olhando ora para um, ora para outro, como um gato observa uma bola de ping pong. “Isso é um erro comum”, meu amigo disse. “Mas a verdade é que a própria concepção das drogas como sendo apenas usada por pessoas fodidas é produtora do uso delas com a intenção de suicídio social e auto-destruição. Algo como ‘as coisas vão mal para mim, vou usar drogas’, e isso é errado. As drogas sempre foram uma rica fonte de saber, enquanto usadas com sabedoria, e se essa concepção fosse mais disseminada, tudo seria diferente”.

“Santo deus”, eu disse. “Você acaba de programar um novo viciado”. “Você não poderia estar mais errado. Lide com esse fato, e pense nisso. Estou ajudando esse menino a sair da sombra e da maldição que acometeu seu próprio pai”, meu amigo disse. “Quando eu vou bem em matemática, meu pai me dá um jogo de computador novo”, o fedelho disse, nos interrompendo. “Nós sabemos disso”, eu disse. A vida tem um jeito estranho de se repetir em suas próprias inusitabilidades.

O sujeito voltou da sala mais impaciente do que de comum, e disse que teria de sair. Meu amigo disse que não havia problema nisso, pois nós já havíamos coletado o material necessário. Sorte dele, pois ainda teria um encontro depois com a coordenadora da revista. Nós saímos da casa nos despedindo apressadamente e entramos no carro, sacando a vodka e tomando mais um pouco.

“Aonde você vai com a coordenadora?”, eu perguntei. “Se tiver sorte, para a cama”, meu amigo respondeu. “Sorte e azar são a mesma coisa. O que muda é o contexto que os classificam”, eu disse. “Na procura de prazer, a imediação é sorte, mas a consequência dela é azar”. “Tu tá com inveja que eu vou transar hoje?”, ele perguntou. “Yeah”, eu disse. “Então guarde esse seu horóscopo para a matéria que teremos de escrever”, ele disse.

Quando o carro arrancou, acabou tirando uma lasca da sinaleira traseira do carro da frente, mas nós realmente não conseguíamos nós importar o suficiente com isso para atrasar o dia. Havia muita coisa a ser feita: nós somos, afinal, profissionais.


Theo S. da Rocha


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Distanciamento

Devia ser em torno das seis da tarde – e anoitecendo – quando finalmente nos demos conta de que estávamos perdidos. No meio do mato.

A sensação que me aludiu ao fato de estarmos perdidos foi quando estranhamente voltei a uma memória da minha infância: eu acordei em casa e estava sozinho. Minha mãe pensou que eu não acordaria, e saiu para comprar pão, e quando acordei, não havia uma única alma naquela casa afora a minha. Lembro de abrir a dispensa e pensar “Acho que tem comida para uns 13 anos, mas depois vou ter que descobrir o que fazer”.

A diferença é que desta vez não tínhamos nada de comida. Cansados e com sede, ainda assustados demais para sentir alguma fome, paramos para descansar na encosta de duas árvores grandes cujas raízes se estendiam em paralelo ao solo. Trocamos olhares cansados em silêncio. “Acho que estamos perdidos”, disse um de nós. “Quem foi que teve essa idéia de qualquer jeito? Idéia filha da puta, porra”.

É claro que ficar perdido não estava no script da idéia, mas ela soou bem quando foi lançada. Era para ser uma busca ao tucano-verde-da-mata, uma ave filha da puta que se assemelha muito ao banqueiro de hoje em dia. O tucano-verde-da-mata joga fora os ovos das aves menores no ninho que elas próprias lutaram para fazer e toma conta dele, só por ter um tamanho – e uma fuça – mais avantajados que os dessas aves. Com um olhar estranhamente humano, o tucano-verde-da-mata é, de fato, a ave mais gananciosa e filha da puta das matas da região.

Obviamente a intenção não era apenas ver, ou fotografar, o tucano-verde-da-mata. Se tratava de um protesto e um ritual. Caçaríamos o tucano-verde-da-mata, talvez não buscando o simbolismo de exorcisar um bicho tão ganancioso quanto o homem, mas sim, apenas pelo prazer e pelo ato de transgredir. Afinal, o governo punia mais severamente um pobre desinformado que acidentalmente matasse um tucano-verde-da-mata – que estava em extinção – do que um milionário que desviasse dinheiro público para sua própria conta bancária.

Sim, era uma época estranha. Nesses tempos, peculiarmente, algumas pessoas se preocupavam mais com animais e seus bem-estares do que com humanos e seus bem-estares. Talvez isso se explique pelo fato de que os animais são mais fofinhos do que criaturas sem pêlos, cujo afeto pode ser usado para os mais variados interesses. Mas ainda sim, se preocupar mais com um animal do que com uma pessoa me parece estranhamente desumano...

Então, basicamente, toda a nossa jornada se resumia ao reles prazer de transgredir. Ademais, estávamos bêbados quando paramos na encosta das duas árvores gigantes. Tivemos uma pequena discussão com tons menores de desespero e seguimos em linha reta. Quando cansamos de novo, e isso já era de noite, sentamos na encosta de duas árvores pequenas e tivemos uma grande discussão, com tons maiores de desespero. Todo o cliché de um grupo perdido. Mas seguimos em linha reta, novamente.

Você sabia que quando estamos perdidos, nunca caminhamos em linha reta?

Hora do lanche! Acabamos por achar uma árvore de frutos estranhos. Foi nossa janta: frutas com formato de buceta e gosto doce. Sementes que faziam créck créck quando mastigávamos. Um de nós vomitou. Mas não era a fruta. Nós tínhamos, afinal, bebido a tarde toda. Adormecemos no barro, em poças de lama entre arbustos ruidosos.

No dia seguinte acordamos entre cogumelos. Estavam por toda a parte. Isso causou um estranho click no pobre cérebro de um de nós – o mesmo que vomitara na noite anterior. Ele interpretara esse fenômeno como um sinal dos duendes: teríamos de ficar por ali para estabelecer contato e morar com eles sob casas fungosas. Tentamos convencer ele a ir, mas rapidamente desistimos quando ele insistira. Se tem uma coisa que, com dor e uma pitada de irritação, aprendemos ao longo de nossas vidas civilizadas, é que numa discussão de igual para igual entre a razão e a loucura, a razão jamais prevalecerá. Então, nosso amigo ficou.

Mas um de nós, por sua vez, levou algumas “casas” no bolso. Como ele mesmo dissera, “perdido, perdido e meio”. Era uma boa variação. No meio do segundo dia, comemos os cogumelos, o grupo desfalcado e os corpos cansados. Fome não aparecia por ali. A fruta bucetal dava conta do recado.

Assim, obviamente, como devem ser as situações inesperadas, quando estávamos completamente alienados da realidade, o tucano-verde-da-mata apareceu em um galho justamente ao meu lado, na altura de meu ombro. Ele disparou um olhar arrogante e ganancioso para mim. Fiquei imóvel, tentando fazer com que as coisas que eu via parassem de se mexer. Direcionei minha mão para o bolso, onde estava meu revólver, mas acabei acidentalmente sacando minha carteira. “Onde está meu revólver?”, pensei, tentando olhar para os bolsos, enquanto o tucano-verde-da-mata voava em minha direção, e com o bico gigantesco arrancava a carteira de minha mão. Coisas da vida.

“Vocês perderam”, eu disse quando alcancei o pessoal. “Avistei o tucano-verde-da-mata lá atrás. Só que ele sumiu com a minha carteira. Coisas da vida”. “Acha isso grave?”, disse alguém. “Nós acabamos de ter nossas frutas todas roubadas por um crocodilo vegetariano”. São tempos estranhos, afinal. Mas um crocodilo era sinal de que estávamos perto de um rio, e depois de acharmos o rio, no exato momento em que estávamos nos banhando, o tucano-verde-da-mata estava entregando a algum deputado natureba, que morava no meio do mato, a minha carteira.

Sem grandes problemas. Eu nunca levo dinheiro quando saio da realidade. A volta à sobriedade nunca é comprada. Ela é vendida pelo preço da mudança. O retorno à terra da não-realização. E, levados pela correnteza, voltamos à cidade.

Nós subimos num ônibus que passava em frente ao porto central. “Quanto foi o jogo?”, eu perguntei ao cobrador. “Não queira saber”, ele me disse. Talvez estivesse certo. Me senti na cidade de novo.



Theo S. da Rocha

terça-feira, 19 de abril de 2011

Bicicleta Ergométrica

Totalmente imóvel.

A imobilidade é uma arte difícil de interromper. A grande contradição da imobilidade é justamente o que a justifica e mantém: nós somos, afinal, matéria em movimento no universo. Então, pra quê se mover?

Absorto no sofá, iluminado apenas pelas luzes aleatórias da televisão. Em um clique, você muda de mundos: de um par de antílopes machos se matando por uma fêmea, ao passo-a-passo da construção de um navio de guerra. Em seguida, um cenário em que a trama gira em torno da auto-realização de um jovem. Os antílopes obviamente vencem por unanimidade dos operários em minha cabeça, todos hipnotizados e nulos, passivos frente à grande caixa mágica.

A televisão é uma opção fácil. As vozes e os operários se calam, entorpecidos pelo ópio televisivo.

Em outro canal há uma espécie de Talk Show com um apresentador sorridente e ignorante. Eles humilham e riem de um travesti que sai de cena chorando. Disparam piadas e coisas do tipo, com fotos sem graça que disparam as risadas do público. “Fique conosco”, diz o apresentador, “pois para o próximo bloco, trouxemos um assassino para conversar e responder algumas perguntas”. Comerciais.

Claro! Por que não? Para onde eu posso ir? Os antílopes cederam espaço aos peixe espada, e eu estou sem paciência para vê-los procurando alimento. Então, nos comerciais, a televisão humildemente me dá uma aula sobre o que eu devo comprar para me tornar uma pessoa melhor, e que remédios eu devo ingerir para ser uma pessoa mais feliz. Coisas da vida.

Eles retornam com um sujeito calmamente sentado de pernas cruzadas na cadeira oposta à do apresentador. Eles estão num lugar diferente. O apresentador sorri para a câmera e começa o discurso apresentando o sujeito. Lembro de ter lido sobre ele em algum lugar. Ele matava políticos e banqueiros, deve ter conseguido passar a faca em uns 26 ou 27. Ninguém fazia a menor idéia de quem os matava, até que ele próprio se entregou. A emissora de tv deve ter pago uma grana boa a alguém muito importante para entrevistar esse cara. Não que esse alguém muito importante realmente precisasse do dinheiro...

“Por que você fazia isso?”, perguntou o apresentador. “Acho que era infantilidade minha, na época”, o sujeito diz. “Achava que todos deviam morrer. Que eram pessoas filhas da puta. Ladrões, todos mau caráter, os culpados, de fato, pela nossa situação atual aqui no Brasil. Infelizmente, por imaturidade, achei que a solução fosse o extermínio”.

O apresentador pergunta como ele se sentia quando os matava.

“No início, era mágico. Eu era Deus, e aquilo que eu fazia tinha um propósito para mim. Mas a situação de morte iminente de outra pessoa em suas mãos desperta uma estranha intimidade, e com o tempo, colecionando súplicas, fui me dando conta de que são pessoas tão fodidas quanto nós. Hoje, creio em outra saída”.

Tomado por algum espírito ou demônio bem-feitor, o apresentador não se atravessa. Não interrompe o sujeito, e aguarda. Uma atitude inteiramente inusitada por parte dele. De alguma forma, aquela mente menor que uma noz, talvez por medo ou talvez por total falta de interesse, se reduziu a si mesma, e divagou distraída em torno de algo extremamente irrelevante, enquanto o sujeito tinha seu raciocínio e loucura expressos através de uma máquina de gravar imagens em sequência, e seus respectivos sons.

“Não que eu tenha deixado de acreditar que os poderosos são a causa da situação brasileira atual, mas a atitude de exterminar todos eles é tão desumana quanto a prática desses homens, o que nos torna, por consequência, iguais a estes. E nós pessoas, sujeitos, não podemos nos permitir isso. Esses homens são infelizes, são aflingidos por uma grave doença, talvez a doença mais disseminada no século XXI. O vício em poder, e assim, em dinheiro”.

O apresentador está em algum transe, porque ainda não interrompeu. Fico tenso, torcendo para que não interrompa. Idiota ou inteligente, quero saber que idéia esse sujeito tenha elaborado enquanto sentia o cheiro do sangue bombeado no coração da perversão.

“Desde os anos 80, os EUA inauguraram uma nova era, que acabou por chegar aqui apenas nos anos 90”, ele segue. “A Era do Dinheiro. Todas nossas motivações são determinadas por isso. Nossos atos, nosso pensamento. As roupas que usamos determinam se somos melhores ou piores que os demais, assim como os carros que dirigimos. De acordo com meus próprios cálculos, vinte e nove pessoas a cada trinta são dominadas por essa doença, o que, de fato, a torna normalidade. Logo, o doente se torna quem não é regido por essa lei. Os alcoólicos têm um grupo terapêutico, os obesos também, só resta os maníacos por poder: deve haver um grupo terapêutico criado para pessoas com mania de poder, para que trabalhem esse mau”.

O apresentador segue quieto. “Aqui no Brasil, a situação está crítica. A única lei regente tanto em nossas vidas quanto na constituição é a lei do dinheiro”.

O apresentador cai da cadeira, o corpo inerte. Depois da queda, começa a convulsionar. A equipe vai e socorre ele enquanto um par de policiais segura violentamente o sujeito insano.

Volto ao canal dos antílopes, e um tubarão branco vai destroçando uma foca. Ele parte o animal em dois, depois morde suas entranhas. A carne sendo rasgada e o sangue misturado com a gordura vai se espalhando no oceano agitado. A cabeça e o rosto sem expressão da foca seguem presos à metade do corpo apenas por um fio de carne rasgado.

Me lembro que tenho de comer alguma coisa. Mas acho que o movimento que faço imóvel é o suficiente, por enquanto. Me desloco no espaço, mas não em meu mundo. Sigo em expansão no universo, mas não em minha mente. É a bicicleta ergométrica do dia-a-dia contemporâneo.



Theo S. da Rocha

sábado, 9 de abril de 2011

Afeto

Cadu e Henrique caminhavam até o ponto de ônibus para ir à escola. A princípio, apenas, pois os dois concordariam em passar a tarde brincando na pracinha ao invés de atender às aulas. E fariam isso com alegria. O dia era quente, e o sol brilhava no ponto mais alto do céu. Para quê ficar trancado em uma sala aprendendo coisas das quais jamais necessitariam?

Na verdade, a idéia de ir à pracinha não surgira à tona. Cadu e Henrique apenas correram até lá depois de avistar Pedro no ponto de ônibus. Pedro, entretanto, não os vira. E se os visse, não bateria neles. Pelo menos desta vez. Pedro estava feliz demais.

Irônico, mas talvez nem tanto, Cadu e Henrique fugirem de Pedro, sabendo que se não fosse por ele os dois jamais seriam tão próximos.

Cadu e Henrique chegaram na praça olhando temerosamente para trás, ainda que não houvesse nenhum sinal de Pedro. Aguardaram atrás do Monumento, bisbilhotando a avenida que dava para a parte frontal da praça. Em seguida, andaram abraçados até a pracinha, onde sentaram um em cada ponto da gangorra.

Cadu só ia para a gangorra porque Henrique gostava. Os dois tinham tamanhos bem diferentes, já que Cadu era dois anos mais velho que Henrique, que tinha seis anos. Assim, a maior parte do tempo, era Cadu que ficava no ponto mais baixo, enquanto Henrique, risonho, era sustentado no alto, “quase tão alto quanto o escorregador!”, ele pensava.

E eu, que apareço apenas nesse trecho da história, observando os dois brincando, constato que eles expressam algo intenso no quase vai-e-vem da gangorra. Digo “quase” porque, de fato, é Henrique que está mais alto do que Cadu, e quiçá isso ilustre a relação humana com a maturidade e o envelhecimento. À medida que o homem amadurece e fica velho, aprende a se contentar com vôos baixos. Ou, apenas, não voar.

Mas essa é a Norma. E Cadu e Henrique não se encaixam na Norma. Cadu e Henrique são crianças que não vemos por aí. Não porque elas não estão por aí, mas porque nós simplesmente não os enxergamos.

E alem da gangorra há tantos brinquedos! Dá pra subir no escorregador e descer um milhão de vezes! Escalar o trepa-trepa até o ponto mais alto, e sentar lá, pra conversar sobre os artilheiros da seleção brasileira. Ou, apenas, girar no gira-gira, até que não se consiga mais distinguir aonde é o chão, e tentar andar se torna uma tarefa extremamente esforçada. E então, quem é que consegue ir mais alto no balanço?

Mas Cadu e Henrique não estão na escola, onde há lanche, e a fome eventualmente dá as caras. Seus pequenos e contraídos estômagos roncam, e não há dinheiro, nem o que comer. Então eles voltam à avenida, e saem andando na direção do rio, para ver se no parque não conseguem alguma coisa. Há uma barraquinha de cachorros quentes, mas o dono nega a eles qualquer coisa. Manda-os dar uma volta. Para vem longe dali.

Só que a fome é tanta! Deve haver algum jeito de conseguir um cachorro quente. Aquele pequeno cachorro quente, de cerca de quinze centímetros de cumprimento, agora ocupava um espaço inestimável na imensidão de suas mentes, e não havia como ignorar isso. Então Cadu, o maior, decide correr algum risco em prol dos dois (como comumente fazia, já que era o mais velho), e juntou algumas pedrinhas da calçada. De longe, ele jogava na barraca de metal. “Pléim”, faziam as placas metálicas, e o dono da barraca, irritado, sai para ensinar uma lição ao menino travesso.

Enquanto Cadu foge, Henrique calmamente assume os comandos. Dois cachorros quentes, duas salsichas em cada um. Maionese e catchup, batatas palha, molho. Ele não sabe se há uma ordem certa, mas tem certeza de que aquilo é o certo a fazer. De quebra, consegue roubar ainda mais dois pães antes de ver o dono voltando frustrado, de mãos vazias, lá longe através das árvores.

Vitória! Os dois risonhos se encontram na esquina do parque com a avenida. Eles comem imersos em um silêncio que apenas é rompido por uma ou outra risada de contentamento. E para quê ir á escola? Por acaso eles ensinavam malandragem, lá? Por acaso eles ensinam a como viver? Ou, ainda, como sobreviver, nas brutais condições do meio urbano? Não. Isso eles aprendiam na rua, e era matando aula que eles se fariam na vida!

Na segunda metade da tarde, andaram até a beira do rio, onde deram um mergulho. Henrique tinha muito medo da água, mas Cadu se propunha a tomar sua guarda. E ali, de mãos com Cadu e parcialmente imerso no rio, Henrique não sentia medo ou hesitação. O longo banho refresca os dois, que retornam enxarcados. Ainda havia uma longa caminhada de retorno.

Em certo ponto da volta, Cadu voltara a mancar. Ele tinha isso já há algum tempo. Nos dias em que caminhava demais, seu tornozelo voltava a doer. Mas ele não se importava. A injúria era proveniente da primeira surra que levara de Pedro, ao lado de Henrique. Foi assim que ficaram amigos, afinal, e ele era grato por isso. Os dois amigos sempre juntos, na boa e na ruim.

No retorno ao abrigo onde viviam, encontraram Pedro. Saíram do susto constatando que Pedro, de fato, não estava afim de bater em ninguém. Ele havia, e isso nenhum deles sabia, conhecido uma menina no dia anterior, e estava apaixonado pela primeira vez. Assim, não tendo apanhado de um menino mais velho, Cadu e Henrique não precisariam bater nos mais novos. Seria uma noite bem calma no abrigo. Depois da janta, pela janela, se enxergava o céu estrelado. As tantas estrelas no céu, brilhando em brilhos variados, equivaliam cada uma por um menino ou menina sem família, que fazia uma nova amizade.


Theo S. da Rocha

segunda-feira, 14 de março de 2011

A Camionete que Interrompeu a Conversa

“Não que eu conheça muito da história do cara, mas é um passado e tanto”.

Bem, eu queria saber desse passado. Eu estava conversando com um amigo. Estávamos em um carro. Poderia ser uma Brasília. Ou um Fusca. Não importa. O tal cara parecia ter uma história interessante, de acordo com meu amigo, embora ele negasse um grande conhecimento dessa trajetória. “Que passado?”, eu pergunto. “E de que cara tu tá falando?”.

“Lembra aquele sujeito”, ele começa, com uma mão no volante e a outra gesticulando. Ele olha demais para mim, e eu rezo para que ele preste mais atenção na rua. É uma noite escura, mas movimentada. “Aquele que sentava bem na frente da sala, na oitava série? Esquisitão”. “Quem? O que pegou a Flávia?”. “Yeah”, meu amigo diz. “Foi a única guria que ele pegou, de fato”.

Não se acostume, leitor, porque em circunstâncias normais, em uma história verossímil, esquisitões não pegam a mulher mais bonita do pedaço. Bem, acontece que nessa história, as circunstâncias diferem da norma, e esse específico esquisitão acabou se dando bem com a coleguinha de aula que preenchia nossas fantasias masturbatórias. Todas.

Não me surpreende que ele não tenha encontrado mais ninguém. Ele era, afinal, um cara de barba azul.

“Bem, o que tem ele? Nunca mais vi. Pra que curso ele foi?”, eu pergunto, obviamente pensando que ele foi para alguma faculdade. “Ele não foi para nenhuma faculdade”, meu amigo diz. “Ele abriu um negócio”.

Nós paramos no sinal vermelho, e um pedinte bate sutilmente na janela, tentando forjar a cara menos hostil para pedir alguma coisa. Meu amigo abre a janela e lhe alcança uma das cervejas que carregávamos sob o banco. “Você não pode fazer isso”, eu digo. “Não sabe se ele bebe. Dê uma grana pro cara e já era”. Meu amigo fecha o vidro e arranca com o carro assim que abre o sinal vermelho, me ignorando. “O cara abriu uma espécie de escolinha”, ele me diz. “De leitura de livros para crianças”.

“Leitura de livros?”, eu pergunto, botando a cara para fora da janela recém aberta para pegar um vento gelado. “Que livros?”. “Livros adultos”, meu amigo responde. “O que é um livro adulto?”, eu indago.

“Bem, se lembra que uma vez eu te falei que encontrei ele em um ônibus que ia para Buenos Aires?”. Sim, claro que eu lembro. “Yeah, quando isso aconteceu ele me falou que estava lendo para as crianças aquele Philip Roth. Complexo de Portnoy, acho”.

“Tu só pode estar brincando. Ele não leu esse”, eu digo. “Leu sim, e digo mais, estava com o livro ali. Tinha um marcador de página da hello kitty”. “Puta que pariu”, eu digo. “Isso é pesado. O que mais ele leu para elas?”.

“Ah, os clássicos de sempre. Um Burroughs, uns dois Welsh, acredite se quiser”. “Olha”, eu digo, interrompendo. “Welsh tem alguns bem cool de se ler para crianças. Tipo Rico the Squirrel”. “Yeah, yeah”, meu amigo diz. “Mas acho que ele leu Trainspotting mesmo”.

Fiquei pensando em Trainspotting. Depois fiquei pensando: “Por que alguém leria essas coisas para crianças?”. Logicamente esse pensamento foi interrompido por outro mais gritante: “Que pai pagaria uma ‘aula de leitura’ adulta para o filho?”.

Como se lesse minha mente, meu amigo começou falando algo a ver com clareza e objetividade. “É meio que algo para clarear a mente sabe?”, ele me perguntou. Eu disse que não. “Bem, você vê violência e todo o tipo de porcaria na televisão todos os dias, mas não sabe o que há com aquilo. Fica meio preso entre valores, pois a televisão adora exibir sexo e morte mas nunca fica claro se aquilo é certo ou errado. Algumas vezes esses valores são gritantemente vangloriados, e outras, ridicularizados. A leitura acabou dando um resultado positivo na atividade de análise critica por parte das crianças. Não sei, parece que clareou o panorama para elas. Não que eu concorde com isso”.

Nada fazia muito sentido. Embora, talvez, fizesse. “Que outros livros?”, eu perguntei. Na verdade, estava atrás de sugestões, mas fiquei meio distraído pensando que quiçá as crianças não faziam a menor idéia do que era lido. Mas, enquanto as mantivesse longe dos apresentadores de game shows e auditórios, a coisa estava indo por um lado mais produtivo. Ou positivo. Em qual desses dois eu tinha pensado?

“Esqueça os livros”, meu amigo disse. “A escola não existe mais”. “Não me diga que ele foi preso”, eu digo, tentando olhar para dentro de um carro rebaixado que tinha acabado de nos fechar na avenida. Tinha alguns neons dentro do carro, e um sujeito com cara de poucos amigos. Bem, se você acaba gastando demais com seu carro, talvez esteja realmente precisando de amigos. “Não, ele, na verdade, enlouqueceu”.

Fiquei em silêncio, sem saber o que dizer. “Cool”, eu quebro o silêncio. “O que quer que eu pergunte? O que se pergunta ou fala quando se compartilha um boato ou fofoca de que alguém enlouqueceu?”. “Me pergunte ‘como?’”. “Como ele enlouqueceu?”.

“Ouça bem, que isso é sensacional”, ele me diz. “Ele teve o pensamento de que as lagartixas são a evolução das mulheres”. “Como sabe o que ele pensou?”. “Não importa. Saca só: na cabeça dele, ele pensou que, bem, a lagartixa quando é...” e um carro passou o sinal vermelho e nos acertou em cheio, ao meu lado. Bum. Eu nunca fiquei sabendo do pensamento do cara, mas me pareceu, de início, muito idiota.

Meu amigo desceu do carro, e depois eu, meio tonto, desci pelo seu lado. Eu estava muito puto da cara. Odeio o som do impacto entre carros, isso sempre estragou meu dia. Eu estava disposto a dar uma surra no bosta que passou o sinal vermelho. Dei a volta no carro depois de descer e dou uma olhada no ser inconveniente: uma camionete, um 4x4, para piorar a situação. Um ser absurdo de boné para trás e músculos saindo de uma camisa sem manga ornamentada com uma corrente de prata. E, ao seu lado, ninguém mais que a Flávia. Mas ela parecia terrível, por incrível que pareça. Aparência escrota. As vezes esquecemos que as pessoas escrotas já foram crianças. Por mais escrotas que sejam, ou pareçam.

Então ficamos por ali com cara de abobados, esperando os porcos do trânsito chegarem. A Flávia começou a falar no celular com alguém, enquanto seu mister ligava para o papai para contar a mais nova merda que ele fez embriagado. Tive finalmente um momento de privacidade com meu amigo, o que me fez voltar à questão da loucura.

“O que seria o mais adequado?”, eu perguntei-lhe. “Ver a loucura com admiração ou com desdém?”. “Que tal os dois?”, ele me disse, com a cara longa, fechada. Fiquei um tempo pensando naquilo. É nessas horas que eu apreciaria uma boa camionete pra me desviar do assunto. Bum. Me lembro da última coisa que o Marvin, o guri do Pulp Fiction, falou, antes de levar um tiro na cara: “Man, I don’t even have an opinion”. O debate, nesse caso, era acaso ou milagre.

Cheguei em casa e liguei para a mamãe. Ela perguntou se eu estava me alimentando direito. “Não sei”, eu disse. “Li esse Luiz Antônio de Assis Brasil que me deixou meio indigesto, mas logo logo deve passar”.



Theo S. da Rocha