“Não que eu conheça muito da história do cara, mas é um passado e tanto”.
Bem, eu queria saber desse passado. Eu estava conversando com um amigo. Estávamos em um carro. Poderia ser uma Brasília. Ou um Fusca. Não importa. O tal cara parecia ter uma história interessante, de acordo com meu amigo, embora ele negasse um grande conhecimento dessa trajetória. “Que passado?”, eu pergunto. “E de que cara tu tá falando?”.
“Lembra aquele sujeito”, ele começa, com uma mão no volante e a outra gesticulando. Ele olha demais para mim, e eu rezo para que ele preste mais atenção na rua. É uma noite escura, mas movimentada. “Aquele que sentava bem na frente da sala, na oitava série? Esquisitão”. “Quem? O que pegou a Flávia?”. “Yeah”, meu amigo diz. “Foi a única guria que ele pegou, de fato”.
Não se acostume, leitor, porque em circunstâncias normais, em uma história verossímil, esquisitões não pegam a mulher mais bonita do pedaço. Bem, acontece que nessa história, as circunstâncias diferem da norma, e esse específico esquisitão acabou se dando bem com a coleguinha de aula que preenchia nossas fantasias masturbatórias. Todas.
Não me surpreende que ele não tenha encontrado mais ninguém. Ele era, afinal, um cara de barba azul.
“Bem, o que tem ele? Nunca mais vi. Pra que curso ele foi?”, eu pergunto, obviamente pensando que ele foi para alguma faculdade. “Ele não foi para nenhuma faculdade”, meu amigo diz. “Ele abriu um negócio”.
Nós paramos no sinal vermelho, e um pedinte bate sutilmente na janela, tentando forjar a cara menos hostil para pedir alguma coisa. Meu amigo abre a janela e lhe alcança uma das cervejas que carregávamos sob o banco. “Você não pode fazer isso”, eu digo. “Não sabe se ele bebe. Dê uma grana pro cara e já era”. Meu amigo fecha o vidro e arranca com o carro assim que abre o sinal vermelho, me ignorando. “O cara abriu uma espécie de escolinha”, ele me diz. “De leitura de livros para crianças”.
“Leitura de livros?”, eu pergunto, botando a cara para fora da janela recém aberta para pegar um vento gelado. “Que livros?”. “Livros adultos”, meu amigo responde. “O que é um livro adulto?”, eu indago.
“Bem, se lembra que uma vez eu te falei que encontrei ele em um ônibus que ia para Buenos Aires?”. Sim, claro que eu lembro. “Yeah, quando isso aconteceu ele me falou que estava lendo para as crianças aquele Philip Roth. Complexo de Portnoy, acho”.
“Tu só pode estar brincando. Ele não leu esse”, eu digo. “Leu sim, e digo mais, estava com o livro ali. Tinha um marcador de página da hello kitty”. “Puta que pariu”, eu digo. “Isso é pesado. O que mais ele leu para elas?”.
“Ah, os clássicos de sempre. Um Burroughs, uns dois Welsh, acredite se quiser”. “Olha”, eu digo, interrompendo. “Welsh tem alguns bem cool de se ler para crianças. Tipo Rico the Squirrel”. “Yeah, yeah”, meu amigo diz. “Mas acho que ele leu Trainspotting mesmo”.
Fiquei pensando em Trainspotting. Depois fiquei pensando: “Por que alguém leria essas coisas para crianças?”. Logicamente esse pensamento foi interrompido por outro mais gritante: “Que pai pagaria uma ‘aula de leitura’ adulta para o filho?”.
Como se lesse minha mente, meu amigo começou falando algo a ver com clareza e objetividade. “É meio que algo para clarear a mente sabe?”, ele me perguntou. Eu disse que não. “Bem, você vê violência e todo o tipo de porcaria na televisão todos os dias, mas não sabe o que há com aquilo. Fica meio preso entre valores, pois a televisão adora exibir sexo e morte mas nunca fica claro se aquilo é certo ou errado. Algumas vezes esses valores são gritantemente vangloriados, e outras, ridicularizados. A leitura acabou dando um resultado positivo na atividade de análise critica por parte das crianças. Não sei, parece que clareou o panorama para elas. Não que eu concorde com isso”.
Nada fazia muito sentido. Embora, talvez, fizesse. “Que outros livros?”, eu perguntei. Na verdade, estava atrás de sugestões, mas fiquei meio distraído pensando que quiçá as crianças não faziam a menor idéia do que era lido. Mas, enquanto as mantivesse longe dos apresentadores de game shows e auditórios, a coisa estava indo por um lado mais produtivo. Ou positivo. Em qual desses dois eu tinha pensado?
“Esqueça os livros”, meu amigo disse. “A escola não existe mais”. “Não me diga que ele foi preso”, eu digo, tentando olhar para dentro de um carro rebaixado que tinha acabado de nos fechar na avenida. Tinha alguns neons dentro do carro, e um sujeito com cara de poucos amigos. Bem, se você acaba gastando demais com seu carro, talvez esteja realmente precisando de amigos. “Não, ele, na verdade, enlouqueceu”.
Fiquei em silêncio, sem saber o que dizer. “Cool”, eu quebro o silêncio. “O que quer que eu pergunte? O que se pergunta ou fala quando se compartilha um boato ou fofoca de que alguém enlouqueceu?”. “Me pergunte ‘como?’”. “Como ele enlouqueceu?”.
“Ouça bem, que isso é sensacional”, ele me diz. “Ele teve o pensamento de que as lagartixas são a evolução das mulheres”. “Como sabe o que ele pensou?”. “Não importa. Saca só: na cabeça dele, ele pensou que, bem, a lagartixa quando é...” e um carro passou o sinal vermelho e nos acertou em cheio, ao meu lado. Bum. Eu nunca fiquei sabendo do pensamento do cara, mas me pareceu, de início, muito idiota.
Meu amigo desceu do carro, e depois eu, meio tonto, desci pelo seu lado. Eu estava muito puto da cara. Odeio o som do impacto entre carros, isso sempre estragou meu dia. Eu estava disposto a dar uma surra no bosta que passou o sinal vermelho. Dei a volta no carro depois de descer e dou uma olhada no ser inconveniente: uma camionete, um 4x4, para piorar a situação. Um ser absurdo de boné para trás e músculos saindo de uma camisa sem manga ornamentada com uma corrente de prata. E, ao seu lado, ninguém mais que a Flávia. Mas ela parecia terrível, por incrível que pareça. Aparência escrota. As vezes esquecemos que as pessoas escrotas já foram crianças. Por mais escrotas que sejam, ou pareçam.
Então ficamos por ali com cara de abobados, esperando os porcos do trânsito chegarem. A Flávia começou a falar no celular com alguém, enquanto seu mister ligava para o papai para contar a mais nova merda que ele fez embriagado. Tive finalmente um momento de privacidade com meu amigo, o que me fez voltar à questão da loucura.
“O que seria o mais adequado?”, eu perguntei-lhe. “Ver a loucura com admiração ou com desdém?”. “Que tal os dois?”, ele me disse, com a cara longa, fechada. Fiquei um tempo pensando naquilo. É nessas horas que eu apreciaria uma boa camionete pra me desviar do assunto. Bum. Me lembro da última coisa que o Marvin, o guri do Pulp Fiction, falou, antes de levar um tiro na cara: “Man, I don’t even have an opinion”. O debate, nesse caso, era acaso ou milagre.
Cheguei em casa e liguei para a mamãe. Ela perguntou se eu estava me alimentando direito. “Não sei”, eu disse. “Li esse Luiz Antônio de Assis Brasil que me deixou meio indigesto, mas logo logo deve passar”.
Theo S. da Rocha