sábado, 9 de abril de 2011

Afeto

Cadu e Henrique caminhavam até o ponto de ônibus para ir à escola. A princípio, apenas, pois os dois concordariam em passar a tarde brincando na pracinha ao invés de atender às aulas. E fariam isso com alegria. O dia era quente, e o sol brilhava no ponto mais alto do céu. Para quê ficar trancado em uma sala aprendendo coisas das quais jamais necessitariam?

Na verdade, a idéia de ir à pracinha não surgira à tona. Cadu e Henrique apenas correram até lá depois de avistar Pedro no ponto de ônibus. Pedro, entretanto, não os vira. E se os visse, não bateria neles. Pelo menos desta vez. Pedro estava feliz demais.

Irônico, mas talvez nem tanto, Cadu e Henrique fugirem de Pedro, sabendo que se não fosse por ele os dois jamais seriam tão próximos.

Cadu e Henrique chegaram na praça olhando temerosamente para trás, ainda que não houvesse nenhum sinal de Pedro. Aguardaram atrás do Monumento, bisbilhotando a avenida que dava para a parte frontal da praça. Em seguida, andaram abraçados até a pracinha, onde sentaram um em cada ponto da gangorra.

Cadu só ia para a gangorra porque Henrique gostava. Os dois tinham tamanhos bem diferentes, já que Cadu era dois anos mais velho que Henrique, que tinha seis anos. Assim, a maior parte do tempo, era Cadu que ficava no ponto mais baixo, enquanto Henrique, risonho, era sustentado no alto, “quase tão alto quanto o escorregador!”, ele pensava.

E eu, que apareço apenas nesse trecho da história, observando os dois brincando, constato que eles expressam algo intenso no quase vai-e-vem da gangorra. Digo “quase” porque, de fato, é Henrique que está mais alto do que Cadu, e quiçá isso ilustre a relação humana com a maturidade e o envelhecimento. À medida que o homem amadurece e fica velho, aprende a se contentar com vôos baixos. Ou, apenas, não voar.

Mas essa é a Norma. E Cadu e Henrique não se encaixam na Norma. Cadu e Henrique são crianças que não vemos por aí. Não porque elas não estão por aí, mas porque nós simplesmente não os enxergamos.

E alem da gangorra há tantos brinquedos! Dá pra subir no escorregador e descer um milhão de vezes! Escalar o trepa-trepa até o ponto mais alto, e sentar lá, pra conversar sobre os artilheiros da seleção brasileira. Ou, apenas, girar no gira-gira, até que não se consiga mais distinguir aonde é o chão, e tentar andar se torna uma tarefa extremamente esforçada. E então, quem é que consegue ir mais alto no balanço?

Mas Cadu e Henrique não estão na escola, onde há lanche, e a fome eventualmente dá as caras. Seus pequenos e contraídos estômagos roncam, e não há dinheiro, nem o que comer. Então eles voltam à avenida, e saem andando na direção do rio, para ver se no parque não conseguem alguma coisa. Há uma barraquinha de cachorros quentes, mas o dono nega a eles qualquer coisa. Manda-os dar uma volta. Para vem longe dali.

Só que a fome é tanta! Deve haver algum jeito de conseguir um cachorro quente. Aquele pequeno cachorro quente, de cerca de quinze centímetros de cumprimento, agora ocupava um espaço inestimável na imensidão de suas mentes, e não havia como ignorar isso. Então Cadu, o maior, decide correr algum risco em prol dos dois (como comumente fazia, já que era o mais velho), e juntou algumas pedrinhas da calçada. De longe, ele jogava na barraca de metal. “Pléim”, faziam as placas metálicas, e o dono da barraca, irritado, sai para ensinar uma lição ao menino travesso.

Enquanto Cadu foge, Henrique calmamente assume os comandos. Dois cachorros quentes, duas salsichas em cada um. Maionese e catchup, batatas palha, molho. Ele não sabe se há uma ordem certa, mas tem certeza de que aquilo é o certo a fazer. De quebra, consegue roubar ainda mais dois pães antes de ver o dono voltando frustrado, de mãos vazias, lá longe através das árvores.

Vitória! Os dois risonhos se encontram na esquina do parque com a avenida. Eles comem imersos em um silêncio que apenas é rompido por uma ou outra risada de contentamento. E para quê ir á escola? Por acaso eles ensinavam malandragem, lá? Por acaso eles ensinam a como viver? Ou, ainda, como sobreviver, nas brutais condições do meio urbano? Não. Isso eles aprendiam na rua, e era matando aula que eles se fariam na vida!

Na segunda metade da tarde, andaram até a beira do rio, onde deram um mergulho. Henrique tinha muito medo da água, mas Cadu se propunha a tomar sua guarda. E ali, de mãos com Cadu e parcialmente imerso no rio, Henrique não sentia medo ou hesitação. O longo banho refresca os dois, que retornam enxarcados. Ainda havia uma longa caminhada de retorno.

Em certo ponto da volta, Cadu voltara a mancar. Ele tinha isso já há algum tempo. Nos dias em que caminhava demais, seu tornozelo voltava a doer. Mas ele não se importava. A injúria era proveniente da primeira surra que levara de Pedro, ao lado de Henrique. Foi assim que ficaram amigos, afinal, e ele era grato por isso. Os dois amigos sempre juntos, na boa e na ruim.

No retorno ao abrigo onde viviam, encontraram Pedro. Saíram do susto constatando que Pedro, de fato, não estava afim de bater em ninguém. Ele havia, e isso nenhum deles sabia, conhecido uma menina no dia anterior, e estava apaixonado pela primeira vez. Assim, não tendo apanhado de um menino mais velho, Cadu e Henrique não precisariam bater nos mais novos. Seria uma noite bem calma no abrigo. Depois da janta, pela janela, se enxergava o céu estrelado. As tantas estrelas no céu, brilhando em brilhos variados, equivaliam cada uma por um menino ou menina sem família, que fazia uma nova amizade.


Theo S. da Rocha