terça-feira, 19 de abril de 2011

Bicicleta Ergométrica

Totalmente imóvel.

A imobilidade é uma arte difícil de interromper. A grande contradição da imobilidade é justamente o que a justifica e mantém: nós somos, afinal, matéria em movimento no universo. Então, pra quê se mover?

Absorto no sofá, iluminado apenas pelas luzes aleatórias da televisão. Em um clique, você muda de mundos: de um par de antílopes machos se matando por uma fêmea, ao passo-a-passo da construção de um navio de guerra. Em seguida, um cenário em que a trama gira em torno da auto-realização de um jovem. Os antílopes obviamente vencem por unanimidade dos operários em minha cabeça, todos hipnotizados e nulos, passivos frente à grande caixa mágica.

A televisão é uma opção fácil. As vozes e os operários se calam, entorpecidos pelo ópio televisivo.

Em outro canal há uma espécie de Talk Show com um apresentador sorridente e ignorante. Eles humilham e riem de um travesti que sai de cena chorando. Disparam piadas e coisas do tipo, com fotos sem graça que disparam as risadas do público. “Fique conosco”, diz o apresentador, “pois para o próximo bloco, trouxemos um assassino para conversar e responder algumas perguntas”. Comerciais.

Claro! Por que não? Para onde eu posso ir? Os antílopes cederam espaço aos peixe espada, e eu estou sem paciência para vê-los procurando alimento. Então, nos comerciais, a televisão humildemente me dá uma aula sobre o que eu devo comprar para me tornar uma pessoa melhor, e que remédios eu devo ingerir para ser uma pessoa mais feliz. Coisas da vida.

Eles retornam com um sujeito calmamente sentado de pernas cruzadas na cadeira oposta à do apresentador. Eles estão num lugar diferente. O apresentador sorri para a câmera e começa o discurso apresentando o sujeito. Lembro de ter lido sobre ele em algum lugar. Ele matava políticos e banqueiros, deve ter conseguido passar a faca em uns 26 ou 27. Ninguém fazia a menor idéia de quem os matava, até que ele próprio se entregou. A emissora de tv deve ter pago uma grana boa a alguém muito importante para entrevistar esse cara. Não que esse alguém muito importante realmente precisasse do dinheiro...

“Por que você fazia isso?”, perguntou o apresentador. “Acho que era infantilidade minha, na época”, o sujeito diz. “Achava que todos deviam morrer. Que eram pessoas filhas da puta. Ladrões, todos mau caráter, os culpados, de fato, pela nossa situação atual aqui no Brasil. Infelizmente, por imaturidade, achei que a solução fosse o extermínio”.

O apresentador pergunta como ele se sentia quando os matava.

“No início, era mágico. Eu era Deus, e aquilo que eu fazia tinha um propósito para mim. Mas a situação de morte iminente de outra pessoa em suas mãos desperta uma estranha intimidade, e com o tempo, colecionando súplicas, fui me dando conta de que são pessoas tão fodidas quanto nós. Hoje, creio em outra saída”.

Tomado por algum espírito ou demônio bem-feitor, o apresentador não se atravessa. Não interrompe o sujeito, e aguarda. Uma atitude inteiramente inusitada por parte dele. De alguma forma, aquela mente menor que uma noz, talvez por medo ou talvez por total falta de interesse, se reduziu a si mesma, e divagou distraída em torno de algo extremamente irrelevante, enquanto o sujeito tinha seu raciocínio e loucura expressos através de uma máquina de gravar imagens em sequência, e seus respectivos sons.

“Não que eu tenha deixado de acreditar que os poderosos são a causa da situação brasileira atual, mas a atitude de exterminar todos eles é tão desumana quanto a prática desses homens, o que nos torna, por consequência, iguais a estes. E nós pessoas, sujeitos, não podemos nos permitir isso. Esses homens são infelizes, são aflingidos por uma grave doença, talvez a doença mais disseminada no século XXI. O vício em poder, e assim, em dinheiro”.

O apresentador está em algum transe, porque ainda não interrompeu. Fico tenso, torcendo para que não interrompa. Idiota ou inteligente, quero saber que idéia esse sujeito tenha elaborado enquanto sentia o cheiro do sangue bombeado no coração da perversão.

“Desde os anos 80, os EUA inauguraram uma nova era, que acabou por chegar aqui apenas nos anos 90”, ele segue. “A Era do Dinheiro. Todas nossas motivações são determinadas por isso. Nossos atos, nosso pensamento. As roupas que usamos determinam se somos melhores ou piores que os demais, assim como os carros que dirigimos. De acordo com meus próprios cálculos, vinte e nove pessoas a cada trinta são dominadas por essa doença, o que, de fato, a torna normalidade. Logo, o doente se torna quem não é regido por essa lei. Os alcoólicos têm um grupo terapêutico, os obesos também, só resta os maníacos por poder: deve haver um grupo terapêutico criado para pessoas com mania de poder, para que trabalhem esse mau”.

O apresentador segue quieto. “Aqui no Brasil, a situação está crítica. A única lei regente tanto em nossas vidas quanto na constituição é a lei do dinheiro”.

O apresentador cai da cadeira, o corpo inerte. Depois da queda, começa a convulsionar. A equipe vai e socorre ele enquanto um par de policiais segura violentamente o sujeito insano.

Volto ao canal dos antílopes, e um tubarão branco vai destroçando uma foca. Ele parte o animal em dois, depois morde suas entranhas. A carne sendo rasgada e o sangue misturado com a gordura vai se espalhando no oceano agitado. A cabeça e o rosto sem expressão da foca seguem presos à metade do corpo apenas por um fio de carne rasgado.

Me lembro que tenho de comer alguma coisa. Mas acho que o movimento que faço imóvel é o suficiente, por enquanto. Me desloco no espaço, mas não em meu mundo. Sigo em expansão no universo, mas não em minha mente. É a bicicleta ergométrica do dia-a-dia contemporâneo.



Theo S. da Rocha