domingo, 29 de agosto de 2010

A coletânea de sonhos

Tem esse morcego que vem falar comigo todo domingo a noite. Sua visita me permite a capacidade de voar durante a semana, mas fico tão empolgado com esse poder que gasto toda a minha credibilidade na segunda feira, tendo que aguardar até o próximo domingo para poder voar novamente.

Mas eu estou nesse shopping com um amigo para comprar chocolate para uma amiga mas tudo está fechado e não há ninguém em nenhum lugar. Meu amigo desaparece, sigo procurando uma loja de chocolates, e eles precisam ser caros e bons, mas eu esqueci de pôr roupas antes de sair de casa e percebo que estou nu.

Subo num ônibus para ir à patagônia mas não conheço ninguém nele. No caminho, paramos num acampamento de terra batida. As pessoas são estranhas e desconhecidas, há fogueiras em vários lugares e gente de todo o tipo bebendo ou confraternizando. Estou sozinho, então fico numa fila. Na minha frente, tem um tipo marrento de boné vermelho virado para trás. “Mas como eu vim parar aqui?” eu penso. Nada faz sentido. “Acho que estou sonhando”. Só há uma maneira de acabar com essa dúvida, então encho a mão e dou um tapa na nuca do marrento. Ele se vira inconformado e pergunta se eu poderia ficar na minha. Com certeza isso não é real, se fosse, eu seria agredido. Aproveito o fato de ter percebido que estou sonhando e saio em busca de elementos novos no acampamento. Mas essa menina vem falar comigo e eu fico me perguntando “por que que ela quer falar comigo se ela sabe que eu estou sonhando?”. Subitamente acordo inconformado com ter perdido a oportunidade de conhecer meu sonho.

Estou no pátio de casa e vejo uma árvore que nunca tinha percebido antes. “Mas como que eu nunca vi esta árvore antes no meu quintal?” penso. Me aproximo dela, mas vejo que não era uma árvore, e sim uma cadeira de rodas.

Uma águia sobrevoa o oceano ao lado de uma geleira gigante. O sol brilha sobre o horizonte, ofuscando. A águia mergulha no mar e emerge novamente. Ela segue sobrevoando, mas se mantém com uma pata arrastando sobre o mar. Corpo na superfície, patas no subterrâneo. A águia some de vista.

De algum jeito, eu caí. O chão vem de encontro rapidamente ao meu rosto, um som seco ecoa em meus ouvidos. Eu não sinto dor, mas meu ombro está aberto. Há uma cratera em minha pele que permite que litros de sangue escorram por minha roupa, pingando no chão. Assustado, ainda sem sentir dor, mexo meu ombro, e o osso emerge para fora da pele. Ele não é branco, é meio acinzentado, e nessa emergência rápida, sinto frio nele. Finalmente, a dor. O frio bate nele e me afeta de uma forma como nunca antes. Recolho meu ombro para dentro do corpo novamente e o frio passa. Me deito na cama tentando não mexer muito meu ferimento. “Como que eu vou tocar teclado assim?” penso. Como levarei meu dia a dia, com um ombro aberto limitado a não fazer movimentos porque o osso emerge para fora do meu corpo e o frio se torna dor?

“Se bem que, esse é um ferimento pouco usual” penso. Há um buraco na minha pele. “Será que isso é real?” penso finalmente.

Abro os olhos e estou deitado em minha cama. “Era um sonho?”. Confiro meu ombro, ele está bem. Acordei na mesma posição em que havia deitado no sonho. Subitamente, tudo me parece diferente. Não me sinto vivendo a realidade. Será que ainda estou sonhando? Nada parece real, e tudo é confuso e nebuloso. Um verso de uma musica que não conheço e jamais ouvi ecoa repetidamente na minha cabeça: “institutional love”. Mas será que quer dizer “institutional love” ou “institution of love”?

Nada é real, ou parece real. O que é realidade? Por que tudo parece fictício? Estou tendo um sonho dentro de um sonho? Desço as escadas para beber água, bebo 4 copos apressadamente. “O que está acontecendo?”. Volto para a cama e nada é real, mas estou desperto. Isso não é um sonho, mas, se também não é a realidade, o que é?

Volto a dormir e, na manhã seguinte, o sentimento se ameniza. Ainda não sei o que é realidade.

Às vezes sonho tanto que

Os sonhos parecem uma realidade falsa

E a realidade parece uma falsidade real.



Theo S. da Rocha

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

As serpentes, os sogros e os escritores extintos

- Na verdade os astecas eram um tanto excêntricos – a conversa interessante começou por aí, juntamente com uma leve embriaguez da qual ainda não estávamos cientes.

- Hm, diga porque – eu peço a ele, mas ao que ele começa a falar eu me distraio e caio de súbito no ponto onde a coisa (veja bem, a coisa) começava a ficar surreal.

- ... então basicamente eles estavam incomodados com tantas serpentes, mas eram um povo destemido, portanto decidiram comer as serpentes.

- Comer? As serpentes? – me seguro para não fazer piada com a sugestão sexual que havia nessa história absurda.

- Sim, eles comeram as serpentes, todas elas.

- Todas?

- Sim, todas.

- E daí?

- Então eles foram vistos com admiração, mas temor, pelos outros povos. Mas mais temor do que admiração. Eles se sentiram no topo do mundo, e mandaram ver, e começaram a pegar as menininhas dos outros povos. A partir da daí a coisa começou a ficar mais misturada. Mas quem não gostava dessa história de mistura era justamente os seus sogros, já que suas filhinhas eram levadas pra lá e pra cá pelo povo mais temido. Então os homens desse bravo povo que já tinha acabado com as serpentes, acabaram matando todos os seus sogros.

- Todos os seus sogros?

- Todos eles.

- Acho que estou entendendo, pense por essa perspectiva, esse povo queria acabar com tudo o que incomodava eles de alguma forma, as coisas que eram vistas por eles como ruins e badtrips. Eles acabaram com todas as serpentes, porque estavam sendo um porre, e ao passo que os sogros começaram a pilhar, eles acabaram com sogros, mataram eles. Espero que não os tenham comido também.

- A idéia de paz é boa, mas a violência, por outro lado... – um outro amigo meu não termina a frase, mas começa com outra – Na verdade o meio violento foi a maneira desse pessoal encontrar a paz.

- E quem disse que encontraram? – outro diz

- Eu acho – um mais embriagado se levanta para falar – que eles tomavam peiote demais, e tinham essas ideias absurdas de criar um mundo perfeito sem coisas ruins.

- Não acho que tinha peiote na zona dos astecas, pensa bem, peiote é no deserto.

Alguns começam a discutir o porquê e a lógica dos astecas, outros se os astecas usavam peiote e o quão frequentemente. Os restantes discutiam se havia peiote ou não aos redores desses lugares. Apenas o contador da história ficou calado. Ele rapidamente se levantou e chamou a atenção da roda:

- Eu ainda não terminei a minha história. – E pronto, conseguira a atenção de todos novamente – Seguindo, depois de comer todas as cobras, transar com as menininhas dos outros povos e matar todos os sogros e lideres desses outros povos, eles queriam reescrever sua história.

- Como assim reescrever, apagar o passado ou criar algo novo?

- Praticamente os dois. Eles não queriam mais saber daquelas histórias e decidiram criar um novo passado. Então para isso eles mataram todos os escritores.

- Peraí! – eu digo – Os escritores? Eles mataram as cobras, mataram os sogros e depois mataram os escritores? Tem lógica nisso?

- Haviam escritores na época? – pergunta um de nós

Vozes e movimentação. Alguém segue falando de peiote. O contador pede atenção novamente e a consegue.

- De qualquer jeito, eles matam os escritores, e deixam um vivo para reescrever seu passado e imortalizá-lo. Há quem diga que escrevendo o passado, o escritor decidiu dar uma prévia do futuro, e preveu que um dia homens chegariam de alem do oceano, como aconteceu pouco depois. Os espanhóis brotaram por lá e acabaram com a raça de todo mundo.

Essa era a história. Com certeza esse fato do escritor prever o futuro é balela. De fato, tudo me parece balela. Mas é interessante. Não tem lógica alguma, a exterminação de serpentes e sogros até segue uma lógica: “vamos lá, galera, vamos acabar com essa incomodação e criar um mundo perfeito!”. Mas, porra, os escritores?! Isso era sacanagem! Escritores não perturbam absolutamente ninguém. Escritores se fecham em seu mundo e se expressam como querem, mas, ora bolas, só quem quer se permite ficar perturbado com algo que um escritor fala. Você pode ler algo, achar ruim, fechar o livro e seguir sua vida. Se escolhe se deixar levar por o que leu, aí sim. Ficar instigado, pensando, se deixar influenciar, isso é uma questão de escolha, mas o escritor não faz nada. Quem o faz é o leitor. O escritor só escreve, a responsabilidade é do leitor, ele que decidirá se estará aberto ou fechado às novas idéias.

Será que eu pensei isso por embriaguez?

De qualquer jeito, na roda de conversa e alcoolismo, a arruaça tem múltiplas faces. Todos querem falar e ser ouvidos, um tenta falar mais alto que o outro, até que um finalmente consegue a atenção do resto, inclusive do contador, e dispara:

- Mas, e se essa história que tu nos contou É a história inventada pelo escritor remanescente?

E, finalmente, o silêncio se estabelece.

“Bom”, eu penso, “eu nunca tive problemas com sogros”


Theo S. da Rocha

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Obra

“O que há de revoltante num estilo de vida individual? As pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais: elas se sentem humilhadas, reduzidas a seres ordinários com o tratamento extraordinário que elas dispensam a si mesmas. ”

F. Nietzche



Ponto final. Aquele era o fim. O tão aclamado escritor de romances Franco Frizo finalmente terminara aquela que, sem dúvida, se tornaria a maior obra de sua vida. Depois de digitar o ponto final, ele se encostou no encosto da cadeira, um sentimento de completude tomou conta de seu corpo. Ele acende um charuto para comemorar, e decide fazer aquilo que só se permitia fazer quando terminava uma obra. Pinga um pouco de whisky no seu copo e bebe muito aos poucos. É impossível não sorrir.

Ele termina esse ritual, recolhe o manuscrito, o organiza brevemente, sai do seu escritório e atravessa a sala, para entregá-lo a sua esposa. Ele nunca publicava algo antes que sua esposa lesse também. Ela não era muito crítica quanto aos textos dele, gostava e valorizava seu gesto de carinho. Ela recebe o manuscrito, sua mão delicada e sutil acaricia a capa, como que afagando um cachorrinho que ela sabe que vai acabar por conhecer muito bem.

Franco Frizo era um famoso escritor. Todas as suas obras tinham um cunho conservador, linha dura e, nos termos dos marginais da época, careta. Mas essa obra em particular era simplesmente a última palavra na filosofia de toda a sua vida. Era um pensamento consumado e bem sustentado. Indiscutível.

“A Verdadeira Prisão”, o nome de sua obra, tratava da vida de um homem considerado por Franco o tipo parasita que habita o planeta Terra. Este homem se chamava Joy. Joy era uma espécie de hippie do novo século, e praticava justamente a filosofia contrária a de seu criador. Joy foi caracterizado durante a obra inteira como uma pessoa que fazia justamente o que queria de sua vida. Joy viajou, conheceu pessoas, usou drogas, pensou sobre a vida das mais diferentes formas e dos mais variados pontos de vista. A obra narra apenas um trecho de sua vida, algumas viagens, breves relacionamentos e experiências inusitadas e incomuns. A narrativa era genial. Contava um pequeno intervalo da trajetória dessa vida, num tom irônico e sarcástico, evidenciando a futilidade do personagem e o quão patético era seu descaso quanto aos riscos que corria quando agia sem pensar, em prol da instabilidade e excentricidade da vida que ele desejava levar. Um show consevador sem precedentes e com bases sólidas em certezas dadas por fatos. Exibia um ponto de vista novo e convincente sobre como uma pessoa deveria levar a vida, sem se deixar influenciar pelas pessoas de mente pequena que precisam fazer o que querem quando querem sem carregar fardos ou preocupações.

Sua mulher, ao terminar de ler, não teve dúvidas. Aquela era a consolidação de sua maturidade e pensamento na literatura. Um discurso sem a possibilidade de refutação. Aquele livro, seria o sucesso, e influenciaria gerações. Ela estava sem palavras. Nos dias seguintes, leu novamente, e ao terminar, retornou-o a seu magnífico criador.

Franco se sentia completo e orgulhoso, e ia mandar sua fantástica construção para a editora quando, não sabe por que, decidiu lê-la novamente. Faria isso em uma tarde, apenas. Era seu livro, e não teria problemas em ler sem se cansar. Ele sentou em sua confortável poltrona, na sala em frente a TV, e começou a apreciar novamente sua obra.

Feliz, as páginas passavam rapidamente para ele, mas ao chegar dos capítulos mais avançados da história, sentiu uma palpitação estranha. Algo estava errado, mas ele não sabia o que era. Franco começou a sentir um ódio diferente de tudo o que sentira antes. Enquanto escrevia, Franco não tinha sentimentos sobre o exótico personagem que criava a cada página, ele era um objeto, usado pelo autor com maestria para expor um ponto de vista. Mas para sua infelicidade, nessa releitura, Joy apareceu para Franco como uma pessoa. Era um sentimento estranho, a vida inteira, Franco brincava e interagia com objetos, e agora, aparece a ele, uma pessoa. Logo aquela que ele criara. Ainda deslumbrado com a descoberta, sem saber o que fazer com ela, odiou-a. Mas não era um ódio comum. Franco odiava Joy com todas as suas forças. Quem esse Joy pensa que é? Para o pobre Franco, nem sua esposa transpassava a condição de objeto, e a visão dessa magnitude, dessa infinitude, o reconhecimento de outra pessoa, desejante, viva, sentimental, era demais para sua mente despreparada. Aquele coração, por mais bem intencionado que fosse, foi dominado pela mais intensa repulsa que podia sentir. E, pela primeira vez na vida desde os anos de criança, agiu sem pensar e queimou seu manuscrito na lareira.

Aquela labareda ficava cada vez maior, enquanto o fantasma de sua criação desvanecia lentamente. E tudo o que ele via e sentia, era aquela chama ardente. Não percebeu o susto que sua esposa levou, e quando finalmente voltou para si, sua roupa estava rasgada, seu cabelo, despenteado, a respiração ofegante enquanto sua esposa, ao seu lado, indagava-o do porque daquela gritaria toda.

Mas o que foi aquilo? Um sonho? A situação toda desvaneceu em sua cabeça, enquanto as ultimas cinzas de seu maior romance se firmavam no chão da lareira. Como não sabia descrever o que sentiu, rapidamente todo o surto foi extinto de sua mente. A única coisa que sentia agora, por mais estranho que sentisse, era que ele não estava arrependido que sua provável maior obra agora se perdera no tempo, no espaço, e em sua memória. Sua esposa sentia desamparo. Era uma lástima. Um livro tão bom que seria, pagaria tranquilamente a viagem deles para os EUA.

Mas haverão outras, ela pensou.

Alguns dias depois, ele estranhou seu comportamento. Conversando com um colega dos tempos de Faculdade de Direito, trocou o termo “inverdade” por “inveja”.

Mas ele jamais saberia...

Theo S. da Rocha

domingo, 15 de agosto de 2010

Funcionalidade Seletiva

Eu tenho um molho de chaves

Que não abrem nenhuma porta

Um par de caixas de som mudas

E um pensamento e razão infantis


Eu não tenho chaveiro

Nem caixa de segredos

Não tenho saber nem paciência

Eu não tenho medos


Ter ou não ter

Não é a questão

Ser ou não ser

Também não


Não existe perda de tempo

Mas o tempo se perde



Theo S. da Rocha

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Touch of Fate (ou "O Chapéu")

- Merda! Meu chapéu! Esqueci ele...

- Tudo bem, acho que você está bem assim – ela disse

- Não, é que tu não entende, eu preciso estar com meu chapéu, vou ter que voltar pra casa buscá-lo – ele disse, visivelmente nervoso

- Mas porque, tu não precisa dele, mesmo!

- Tu não entende, porque nós não fazemos o seguinte, vou voltar pra buscá-lo e chego aqui em meia hora. Tu me espera?

- Como assim? Se é tão importante pra ti, porque esqueceu e veio até aqui sem ele se necessitava tanto? – ela já não gostava de atucanação, mas aquilo passava dos limites para um primeiro encontro. Sinais de agressividade surgiam, ela já evidenciava que o ódio brotou forte.

- Sério, me espera aí. Pode ser? Não vai demorar mesmo.

Ela não precisava responder. Mesmo assim, permaneceu sentada naquele banco do parque. Ele parecia tão legal de início, mas que pessoa estranha! Ela já tinha um histórico de atrair caras neuróticos, mas esse superava todos os outros no quesito stress. “Acho que nunca vou conseguir uma companhia legal, ter um compromisso, um relacionamento satisfatório”.

Oscilando entre frustração e raiva, ela não ficou muito tempo parada ali. Ligou para seu melhor amigo, que estava coincidentemente por ali com o namorado, e foi se juntar ao programa deles. Eles foram no Mc Donalds depois, e durante a noite, num bar, ela conheceria um cara que se tornaria seu namorado em poucos meses.

O cara nunca chegou tão rápido em casa. Não que correr fosse fácil em suas condições, mas era uma situação de vida ou morte. Ele chegou em casa sem tempo o suficiente para fechar a porta no caminho ao banheiro. Aquela pizza congelada, que nunca tinha tempo o suficiente para ficar no forno até o ponto, cobrou um preço alto. E por um longo tempo também.

Ele conhecera aquela garota há três anos por um amigo de um amigo, embora demorasse ainda mais de dois desses anos para ter coragem de falar com ela. Tudo estava, e ele sabia que estava, dando certo durante sua aproximação, e aquele ia ser o primeiro encontro. Ele ainda percebeu que tudo ia dar certo para ele aquele dia, um milésimo de segundo antes de receber a pontada de aviso prévio do seu intestino, que necessitaria de um novo lar em menos de dez minutos. Falou do chapéu, que por alguma razão estranha ele esquecera mas não fazia a menor questão de usa-lo no momento, e saiu o quanto antes. Depois, o jovem ainda retornou ao parque apenas para ver se havia alguma chance... De quebra, encontrou ela com seus amigos. “Tudo bem, ela não veria muita graça em ficar comigo por muito tempo de qualquer maneira”.

Depois de novamente retornar pra casa, derrotado, ele ligou a tv para se distrair um pouco. Ele também sairia naquela noite. Se embebedou com os amigos, tendo sido o único que não achou uma moça para se divertir.

Ele chegou em casa, cambaleante. Deitou na cama com a luz ligada, e uma musiquinha baixa. Aproveitou a embriaguez para pensar em seu dia como um todo. Tudo dava errado. Só pedrada.

Ele dá uma risada. “Tô na merda”. Mas nada disso importava para ele. O reconhecimento de uma situação de apenas contras não despertava depressão, tristeza, frustração, raiva. Despertava alegria. Tirando os tênis usando os calcanhares, uma plenitude tomou conta dele. Solteiro, viajante, não sabia o que o destino o reservava. A imprevisibilidade era o combustível de sua vida. As coisas estavam em seu lugar.

Momentos antes de adormecer, um raio de sobriedade cruzou sua mente, com o patético reconhecimento de que aquele sentimento maravilhoso era apenas o álcool, e que amanha, na ressaca, a tristeza cobraria em dobro.

Nem ele sabia.



Theo S. da Rocha

domingo, 8 de agosto de 2010

O mercado de idéias

- Aqui, desse lado tem coisa boa – o velho disse, apontando para uma prateleira alta, a mais extensa do moquifo – Histórias regulares com final feliz. É o que eu mais vendo pra esse pessoal de filme.

- Legal, legal – eu respondo sem jeito – Mas na verdade eu estava atrás de algo novo, sabe, eu escrevo, apenas.

- Hmmm escreve apenas? Sei perfeitamente o que você quer. Me siga – ele faz um gesto brusco em sua direção, e anda até uma prateleira pequena, mas com uma variedade considerável – Críticas à sociedade, atualidade, modo de vida. São idéias interessantes, bem organizadas. Uma crítica construída a partir de uma história de uma pessoa qualquer, tudo sujeito ao entendimento do leitor. Coisa profunda, acho que tu vai gostar.

- Sei, sei, talvez seja uma boa – eu respondo. Então, penso novamente – Na verdade, isso dá muito trabalho. Queria algo curto, mas que chamasse a atenção, prendesse. Divertido, mas não fútil, algo que despertasse o desejo de que a história fosse mais longa, e mais detalhada, mas sendo ao mesmo tempo um pouco, veja bem, um pouquinho, trash e non sense.

- Bom, temos eróticos ali na estante ao lado – ele estende a mão, trêmula - Mas acho que sei o que tu procura. Te entendi! Deste lado aqui temos histórias muito interessantes: Drogas, tu vê.. – ele me olha nos olhos, e se volta para a prateleira – todos os pontos de vista, temos críticas, apologia, estilo de vida, histórias de pessoas, a maioria possui um bom toque de humor negro, as vezes nojento, as vezes pura e simplesmente engraçado.

- Hmm, interessante. Legal, talvez eu... – levo a mão no queixo, coço um pouco – Não, não... Já escrevi muito sobre isso. Pra isso, eu até levo um jeito. Não vou precisar dessas idéias. Preciso de algo inovador, que ninguém tenha pensado antes... Só que me falta essa genialidade, essa exclusividade. Por isso eu vim aqui...

- Bom, meu amigo, eu particularmente creio que tudo o que pode ser criado, já foi criado, heheheh – uma risada rouca, talvez com um pouquinho de frustração.

- É, acho que eu também

Um silêncio se instala no ambiente. O velho oferece um café, eu recuso. Ele me deixa sozinho por ali, pensante. “Tudo já foi criado” diz ele. Não creio nisso. Na verdade, há uma certa lógica aí. Tudo o que existe já foi criado, é um pouco óbvio. O que não existe ainda não foi criado, acho que é a isso que o verbo “criar” significa. Adiciona-se algo novo ao mundo, dá a luz, pári. É ser o deus de alguma coisa, se houvesse a possibilidade.

Velho louco. Também, pouco se espera de uma pessoa que vende idéias. Quer dizer, quem teve aquelas idéias todas, ele? De onde ele consegue tantas idéias? Ele senta em frente a sua mesa e abre o jornal, sessão de esportes. A caneca com café preto, fumegando.

Pensando bem, que papo foi esse de tudo já foi criado? O cara administra uma porra de uma loja de idéias, vem me dizer que tudo já foi criado. Só se ele teve a última idéia do mundo. E mesmo tendo, para que se esconder? Mostre ao mundo que tu teve uma idéia tão brilhante assim.

Toda essa reflexão me deixou um pouco rancoroso desse vendedor beato. Eu fui até o balcão tirar as caras.

- Ei, amigo. Escuta só, eu fiquei pensando agora

- Hmmm, isso é bom – ele me interrompe, um pouco presunçoso.

- Sim, bom, eu acho que tu foi um pouco contraditório, e pouco incentivador, dizendo, sabe, que tudo já foi criado. Quer dizer, tu teve a idéia de vender idéias, e criou isso, tu acha que tu é a última pessoa a criar algo no mundo?

Ele me olha nos olhos. A faísca de desprezo em seu olhar rapidamente desvaneceu e deu lugar a um olhar de superioridade e generosidade, de um tutor para seu aprendiz.

- Não, tu vê...- ele afirma, gesticulando calmamente ao ar – Um grande autor pensou isto quando estava sem ideias, o que na verdade é genial, se tu for pensar. Vou falar a você um pouco dele. Excêntrico como era, seu nome era....

Ah, ótimo! Já pensaram nisso. Deixo de ouvir o velho e mergulho em minha frustração. Essa situação que daria uma ótima história curta já foi pensada por outro pau no cu com a ânsia de criar e ser criativo. Fala a verdade, vou chegar em casa, fumar um baseado e dormir. Talvez ver uma tv. Esses filmes trash de ação são muito válidos quando se está chapado. Talvez eu toque um teclado também. Nada de improviso hoje, entretanto. Apenas Doors. Não estou nesse ápice criativo de outrora. Pensando bem, um pouco de fome, talvez eu coma uma pizza, dessas congeladas, não quero cozinhar.



Theo S. da Rocha

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Ratos e Lagartos, o Abismo e o Segredo do Ácido de Baunilha


Debaixo de um sol escaldante

Ratos e lagartos vagantes

Pra lá e pra cá buscando

A fonte da juventude que desapareceu


Um deserto infinito

Uma orgia de cores

Ventos desgovernados

Trazem de volta minhas dores


Já pensou que perdição

Vagando solto na imensidão

Em busca daquilo que jamais encontrará?

Mas, afinal, não é isso que é viver?


Um salto no vácuo

Um suspiro ácido

Um navio decomposto

Lar de árvores oportunistas

Estrelas se agrupam e formam seus pares

Solitárias e vaidosas

Buscando seu reflexo em calmas aguas


E assim sobra apenas um rastro

Hesitante

Do que foi meu corpo em tempos de excessos

Debaixo de um sol escaldante

Ratos e lagartos vagantes


Lavando e sujando pequenos corpúsculos

Atravessando uma rajada de sons estranhos

E visões exóticas

A vida se esgueira em busca de uma nova motivação

As folhas secas que vão ao chão

São repostas por novos elementos temporários

E se nada é igual a como foi

É porque nada é cíclico, e sim espiral


Uma busca desacreditada

De descobrir a verdade

Um mergulho na loucura

Um banho de inconsequência

A descoberta do segredo

Que permite não se importar

Com o mundo, com as pessoas

Com o tempo


Estranhas praias e horizontes místicos

Delineiam destinos misteriosos

A todos aqueles ociosos

Pensadores distraídos, viajantes ilícitos


Não importa o quanto me digam

Que há um jeito certo de fazer tudo

As vezes eu me perco

No pequeno abismo entre eu e o mundo





Theo S. da Rocha

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Cinco e meia da manhã: Sobrevivência

Os primeiros raios surgem no horizonte
Como uma primeira experiencia de culpa
Em uma criança sem arrependimentos
E os raios espantam a noite
É hora de ir pra casa

Caravanas desgovernadas
Não possuem destino
Embora desejem um

Mil mulheres bonitas e doses de tequila
Desempenham o papel de afugentar
Meus sonhos jamais a se tornarem realidade

O bar
Um navio social já naufragado
Em que todos ainda pensam navegar

E a música
A música
Soando e saindo de salientes sacadas
Traindo e trazendo tipos toscos de tudo
Buscando bichos e barulhos e batendo as botas
Enquanto o volume vai decrescendo até desvanecer
No silêncio da virgem manhã
Que contrasta com a intoxicação noturna

E a iminência da iminência
Da iminência do novo
Fica adiada
Para uma nova noite
A ser intoxicada

Preciso dormir.





Theo S. da Rocha

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A hipocrisia da Adaptação

Tento conciliar a idéia de produção criativa. A cidade é um meio favorável: há contato com diferentes pessoas, suas próprias obras, há contato com as mudanças, os avanços e meia voltas. Mas a cidade tem um grande problema. Toda a presença e demanda externa impedem que se ouça a voz interior, a si mesmo, e suas próprias criações, complexos e vontades. É aí que entra o pólo oposto, o isolamento. No isolamento, há o silêncio, a concentração, a verdade. Mas, novamente, de onde viria a inspiração? A dor?

Essa é uma questão que vem me perturbando. Existe meio termo, conciliação? Tem como andar na corda bamba sem cair para nenhum dos lados? Não creio nisso. Acho que creio mais na questão de diferentes momentos. Haverão momentos em que o isolamento será necessário, e momentos em que terá de haver a cidade. Mas como esses momentos não são manipuláveis, é uma questão de sorte. Acho que tudo na vida é uma questão de sorte. Nada está no controle do homem, que dance como quiser e só depende de que a musica que toque se encaixe ou não nos seus movimentos. Se sim, sorte. Se não, azar. Foda-se a teoria da evolução de Darwin. O que eu creio é que as pessoas têm de se adaptar a elas mesmas, e não ao ambiente. Se adaptar ao ambiente é pateticamente fácil, mas nunca será verdadeiro.


Theo S. da Rocha