sábado, 26 de fevereiro de 2011

Desfile na Alma

Eu tinha recém começado a caminhar no deserto depois um longo período de reflexão: “Como vim parar aqui?”.

Mas assim que comecei a vagar, encontrei um homem. Ele veio até mim e disse:

“Eu sou um homem bom, eu sou um homem de bem. Vim aqui te dizer que esta é sua alma, e pegar seus bens também”.

“Meus bens?”, eu disse. “Por que?”.

“Veja bem, veja bem, você não precisa de aliados nem de acessórios. Para lidar com sua alma, só olhos humildes e simplórios”.

Então eu dei-lhe meus bens. Quando chegou na hora de dar-lhe minhas roupas, eu o confrontei.

“Sinto muito, mas não posso dar-te minhas roupas em nenhuma via. Elas me aquecem de noite e me protegem do sol durante o dia”.

Eis que ele respondeu, como se fosse uma obviedade:

“Esta é sua terra, você a criou, e aqui, és uma divindade. Todo o calor que sentires é empatia, e todo o frio que fizeres será hostilidade”.

“E por que estou aqui?”, eu perguntei, tirando a roupa e entregando-o.

“Eis que tens que passar por isso para viver seus símbolos e se conhecer. Quando tudo isso acabar, verás que sobre a sua alma tens muito o que aprender”.

Então o homem sumiu.

Eu caminhei e pouco tempo depois me tornei um lagarto. Rastejei agilmente pela areia, fazendo pouco mais que um ruído surdo e sutil. Ninguém me via. Depois, virei um camelo, e exibi toda minha resistência. Eventualmente, virei um corvo, e voei para o longe, vendo tudo o que estava ou não ao alcance de meus olhos. Depois, me tornei um peixe, e me debati na areia do deserto, morrendo de um último suspiro que nunca aconteceu.


Theo S. da Rocha

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Está em algum Lugar por aqui...

Ela veio num mau momento, a última alucinação que tive, e embora elas não tenham mais ocorrido, não me lembro de ter conseguido paz depois desse evento. Uma visita inusitada com um pedaço de opinião acidamente sóbria para uma aparição da irracionalidade.

Era na época em que meus turnos de trabalho sempre caíam de noite. Da meia noite as seis da manhã. Eu cuidava de uma garagem na zona central da cidade, completamente sozinho, exceto por uma mini-tv e algum livro qualquer. Nunca tomei café, embora precisasse. Sempre me deixava ligado demais, e com vontade de ouvir música.

Era uma noite quieta, no meio da semana. As maiores merdas sempre aconteciam durante a semana, porque nunca estávamos preparados. O fim de semana chegava, e com isso uma série de preocupações com superlotação e motoristas embriagados, mas isso nunca acontecia, porque nós esperávamos que acontecesse, e estávamos preparados para lidar com a situação. As maiores merdas acontecem quando menos se espera. Assim, em torno das duas da manhã, entra na garagem, com os pneus cantando, um conversível Chrysler, e um cara sem cabelos manobrando-o com ágil tranquilidade. Ele está sozinho.

É interessante como todas as pessoas com quem eu falo imaginam ou presenciaram a aparição do Diabo com terno branco, limpo e bem arranjado. Bem, isso é um demônio qualquer, um servo tentando passar uma impressão. O Diabo não se importa muito com aparências (muito embora as pessoas que se preocupam demais com aparências sejam diabólicas). Como era uma noite quente, o belzebu desce do carro com uma cadeira de praia debaixo do braço. Bermuda bege e curta, mas curta mesmo, com os joelhos e coxas magros à mostra e camisa estampada aberta. Ele não tem um único pêlo no corpo.

Ele pára em minha frente, com ar debochado, arma a cadeira e senta. Depois de sentar, tira debaixo da cadeira um copo com gelo e uma garrafa de rum. Ele dá uma arfada e se aconchega, esticando e exibindo uma cauda vermelha para o lado direito do corpo. “Sempre um problema arranjar uma posição confortavél com o rabo desse tamanho”, ele fala orgulhoso. Fiquei imaginando Ronald McDonald velho e aposentado, gordo como uma baleia, tentando se aconchegar em um sofá gasto e rasgado. “É melhor não fazer piadas”, eu pensei.

“Mas é uma concepção de mundo patética”, ele fala, “a de que o amor vai salvar a todos e trazer a paz”. Dá uma risada seca e toma um gole do rum. “Não é possível que alguem seja tão burro a ponto de acreditar nisso. Pegue o amor, por exemplo. O que é o amor?”. Eu fico em silêncio. “Eu te fiz uma pergunta”, ele fala, frustrado. Fico pensando em alguma resposta, mas nada chega à mente. “Eu... acho que não tenho opinião. Sobre isso”, eu digo. Ele expressa um pouco mais de frustração. “Bem, se tu quiser rum, é melhor que tenha algo a dizer”. Fico pensando que um pouco de álcool não faria mal algum numa situação dessas. “Acho que o amor é como um vagabundo andando de bicicleta e fumando um cigarro. Ao mesmo tempo. Ou talvez, uma instantânea embriaguez de ingenuidade”. Pensei que era uma boa resposta, mas não faço a menor idéia de onde vieram essas palavras. Ele torce o rosto, fazendo uma careta, e, embora um pouco contrariado, me alcança outro copo com gelo, cheio até a borda de rum. “O amor verdadeiro morreu”, ele diz.

Sinto que não preciso perguntar o por quê. Ele vai começar a falar eventualmente. “E se houvesse amor, ele haveria de ser condizente e neutro quanto à auto-destruição humana, o que afinal nos leva à conclusão de que, de qualquer jeito, a sua raça está fadada à infelicidade até o fim de seus dias”. Eu absolutamente não entendi nada disso. “Deixe que eu ponha isso em termos simples, para sua ignorância”. Ele suspira e toma outro gole. “Amor verdadeiro é a completa aceitação do objeto”. “Depende da concepção”, eu digo. “E da pessoa”. “Seu imbecil. Amor é não tentar mudar o objeto do sentimento, porque, afinal, ama-se a pessoa, e não o que você pensa que ela é. Logo, permitir-se amar é reconhecer os podres e a merda da pessoa que você ama como única como ela é”.

“Sem mais contestações”, eu pensei. “A criatura já está irritada o suficiente”.

“Agora, o amor, hoje em dia”, ele continua, “nada mais é que ilusão completa acerca do que o objeto é. E não para por aí. Não só a pessoa que ama não tem o menor apreço pelo objeto que ama, como também tenta, haha, mudá-lo!”. Ele ri um pouco, com ar de superioridade, como um juiz olha para o réu. “Você pode dizer que os tipos de amor variam, mas na era das aparências, o amor é apenas o julgamento da tangerina pela casca que esconde os gomos”. O silêncio se instala. Eu tomo um longo gole do rum, já um pouco mais diluído. “Ok”, eu digo, “e aonde entra toda a infelicidade e o fim dos tempos?”.

O diabo me olha nos olhos. Esse é o momento dele na discussão. Ele se sente bem com isso, e sabe que está tendo uma performance espetacular. “Bem, se o amor rude de hoje permite que tanto o objeto quanto a pessoa que ama sejam infelizes, por viverem uma ilusão e não conseguirem sair dela, o amor verdadeiro permite que a maldade no mundo seja mantida, e por vezes, inclusive, apreciada”.

Aquilo pareceu desconexo, mas foi fazendo sentido. De fato, se você ama alguém que gosta de fazer o mal aos outros, não deveria mudar essa pessoa, o que acarreta na manutenção de tudo o que há de ruim e bom. Isso, obviamente, desconsiderando a hipótese absurda e irrespeitável de que as pessoas mudam quando se apaixonam.

“O que eu posso dizer?”, eu pergunto ao diabo. “Nada. Meu trabalho já está feito aqui”, ele diz, se levantando e deixando a cadeira de praia. Ele anda até o carro, abre a porta e finalmente se vira uma última vez. “Consegui fazer com que a tua condição ficasse pior do que já estava. Como diria uma de minhas criações: Meus parabéns, você está mais próximo do fundo do poço. Todavia, a infelicidade tem uma vantagem sobre o amor, em termos de ilusão. Se na ilusão amorosa você se sente inferior, na ilusão infeliz você se sente superior, ainda que sofra porque não entende como as pessoas não enxergam a sua ‘superioridade’”.

Ele manobra e vai pra rua, esticando as marchas e ensurdecendo a rua com as altas rotações do motor. Eu apenas sento na cadeira de praia, observando o dia amanhecendo. Fico por ali num estado intermediário de catatonia e inquietude. Em torno das dez pras seis, meu chefe chega, devagar e cauteloso com seu carro, sinalizando sua entrada. Ele estaciona e sai do carro, com um pouco de pressa e atucanado. “Que cadeira é essa?”, ele pergunta.

“Bem...”, eu digo, um pouco inquieto com a preocupação na sua voz. “É só uma cadeira”. “Santo Deus! Se tu queria uma cadeira, era só pedir. Eu te pago uma cadeira, só não fique trazendo esses trapos pra cá. O que as pessoas vão pensar? Pense no que eu te digo, jovem, aparência é tudo”.

“Yeah”, eu digo. “Parece que hoje em dia, sim”.


Theo S. da Rocha

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Tribo

Eu tinha que acordar cedo.

Eu não nasci para acordar cedo. Com o sono gravemente interrompido, fico em estado vegetativo. Muito enjoado para comer alguma coisa, mas com muita fome para tolerar o enjôo. O urso em meu estômago fica se revirando o dia inteiro: eu almoço pouco, e fico ainda mais torto de tarde. Só me estabilizo na janta. Isso se eu jantar.

Eu tinha um funeral para ir. Sem jeito de faltar. Um amigo tinha morrido, jovem demais. Digo “amigo” por não gostar de classificar amizades. Em qualquer situação, eu diria “conhecido”, mas é uma questão de não se passar por um filho da puta e tentar vangloriar alguém que já não pode fazer mais merdas na vida. Etiqueta funerária. O cara morreu me devendo 30 reais. Mas não era o dinheiro que me incomodava.

Alem de um nariz grande e vermelho, eu tenho um péssimo senso de humor. Não consigo rir de situações comumente ditas como engraçadas. Não vejo graça em piadas, nem em nada que se deva rir. Por consequência, minha primeira reação em situações sérias, ou formais, em que definitivamente não se pode rir, eu não consigo me segurar. Digo as pessoas que essa é a minha reação ao sério e ao nervosismo: rir. E que eu, de fato, não quero rir, e embora eu sinta isso, sempre acho que talvez esteja rindo de alguma coisa. Era isso que me incomodava. A idéia de não se segurar e desatar a rir, justamente em um funeral.

Assim, as dez da manhã – casualmente um horário que eu havia inclusive esquecido que existia – um amigo meu veio me buscar de carro para atendermos ao funeral. Silêncio no carro. Sou atacado por uma memória do morto. Todos temos uma memória de cada pessoa que fica gravada, uma situação que define essa pessoa para você. A minha com Matty (o morto), era uma vez que estávamos andando em uma avenida de noite, um bando de caras embriagados. Matty queria ganhar dinheiro de qualquer forma, então disparava desafios para as outras pessoas, tentando fazer apostas do que ele seria ou não capaz de fazer. Como sempre, em um grupo, há alguém disposto a pagar para ver. Matty então perguntou se alguém duvidava de que ele podia pular por cima de um carro estacionado na rua. Ele pulou, mas se esborrachou no chão e ralou o lado direito inteiro de seu rosto. Risonho, embriagado, e satisfeito com seu machismo, ele exibiu a todos nós os vinte reais que ganhou com o feito, enquanto o alarme do carro ecoava por entre os prédios.

Matty girava em torno de dinheiro, sempre. Era como uma mariposa voando em círculos em volta de uma lâmpada. A diferença é que Matty fazia isso pelo poder. Talvez as mariposas também o fazem por poder. Talvez elas só queiram ficar mais bronzeadas que as outras mariposas, só para se sentir melhor e mais confiantes com elas mesmas, e tentar driblar o vazio que escondem dentro de si. Já matei mariposas. Elas não tem entranhas, ou líquidos estranhos, não como quando se mata uma barata, e ela explode em uma variedade de substâncias nojentas. Mariposas são vazias.

Chegamos ao funeral. Vejo o acúmulo de pessoas. Rostos fechados, caras de cu. Tristeza. O caixão de Matty está aberto. Vejo ele, muito provavelmente pela primeira vez, sério. Imóvel, inofensivo. Uma idéia me ataca de súbito, em escrever dedicatórias pelo caixão. “Matty: quem cala, consente”. “Matty: sentiremos sua falta”. “Matty: estou quase conseguindo não rir sem motivo aparente”. O primeiro espasmo de risada me ataca. Me controlo, fungo um pouco e finjo ser inconformismo.

Não é que eu esteja alegre com a situação, é simplesmente o nervosismo. Talvez eu sinta falta de Matty. Talvez não. Mas a tristeza que me abate não tem nada a ver com saudades. Apenas a idéia de juventude interrompida. De qualquer jeito, há tipos de morte com os quais simpatizo, e reconheço em silêncio, e outros em que eu simplesmente penso “ok, o cara pediu”. Matty era do segundo tipo.

As vezes me deparo com notícias de câncer, por exemplo. Simplesmente assim. Tudo jogado fora, sem escolha alguma, sem controle. Juventude vencida pela doença. É triste. Matty, por outro lado, fez sua viagem ao inferno por uma de suas apostas. Ele estava casualmente surfando em um carro de madrugada. Alguém mais burro ainda, dirigindo o carro, fez uma curva. Matty teve o prazer de conhecer Newton: seguiu o caminho original, e caiu de cabeça no chão.

Os detalhes eu não sei mais. Não sei se morreu na hora, ou sequer as consequências do choque. Enquanto iam me dizendo, eu apenas conseguia pensar: que cara idiota. Isso era típico de Matty. Um dia algo aconteceria.

Lembro que uma vez no colégio Matty tirou muito sarro de um cara que tirou zero em uma prova. Zero! Ir mal em uma avaliação é comum. É compreensível, e até cool. Mas zero é simplesmente demais. É como alguns jogos de loteria, em que se tu não acerta nenhum número, ganha um prêmio. “Que feito hein! Aqui está, seu imbecil azarado. Assim tu não fica triste”. Na verdade, todos tiramos sarro do cara. Não é muito uma memória de Matty, mas mesmo assim diz respeito a ele. Consigo imaginar muito bem ele cantando alguma do tipo “Se eu conseguir tirar zero nessa prova, que tal tu me pagar uns dez pila?”.

“Matty: você morreu fazendo o que gostava”. O díficil em um funeral é não cometer gafes. Funeral é o epicentro das gafes. É lá que elas se encontram. A pior coisa a se dizer é “ele morreu fazendo o que gostava”. Ou, encontrar um conhecido e perguntar “Eaí, tudo bom?”. Em um funeral, uma troca de palavras se torna um passeio cotidiano por um campo minado. Cumprimento a família dele, mando meus pêsames. Fracasso, entretanto, em expressar inconformismo. O padre sobe num altar e começa a metralhar sua ladainha. Depois do que parece uma década, fecha-se o caixão, e membros da família vão o levando para a cova. Fundo, terra, adeus.

Também fracasso em pensar “Adeus Matty”. Infelizmente vou encontrar o filho da puta em todos os outros gananciosos e dinheirocentristas que eu encontrar por aí, e com certeza eles não são poucos. Sequer se disfarçam.

Assim, nós, a tribo dos caras-fechadas vestidos de preto, terminado o ritual, nos dispersamos e seguimos nosso caminho. Consigo uma carona de volta com o mesmo sujeito que me buscou. Me sinto vitorioso por ter conseguido segurar firmemente todas as palavras e reações que sentia vontade de disparar. Se eu mantivesse uma dieta de um funeral por semana, conseguiria um emprego maravilhoso. Talvez banqueiro. Ou estudar direito. A lei.

Chego em casa e preparo um lanche. Sanduíche. Com o sol a pino, volto a me deitar, e rapidamente retomo meu sono. Tenho um sonho estranho. Li em algum lugar que homens são mais propensos a sonhar com homens, enquanto as mulheres sonham os dois sexos igualmente. Que gafe. Provavelmente advinda de um funeral. Eu sempre sonho com mulheres. São minhas personagens favoritas.


Theo S. da Rocha

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Presentes Submersos (ou O Que a Superfície Esconde)

Era uma manhã de verão quando eu decidi ir visitar um amigo na praia. Eu ainda tinha uma semana de vida, e conclui que um dos afazeres antes de partir consistia em pegar uma praia ensolarada num fim de tarde.

Poucas coisas são realmente comparáveis a praia num fim de tarde. O sol, já no fim de sua descida, colore a areia de dourado, e as pessoas parecem surrealmente mais bonitas com a pele bronzeada iluminada pela luz mais sublime que se pode encontrar. O mar gentilmente reflete os raios em direção dos olhos dos transitantes, tomando apenas parte dessa luz para si, com a intenção de parecer mais acolhedor e amigável. Tudo fica em completa e perfeita sintonia visual.

Eu cheguei na rodoviária no meio da tarde, e meu amigo estava por ali me esperando. Ele estava careca. Nos cumprimentamos, depois fomos a sua casa deixar as coisas e fomos a praia. Sentamos na areia de costas para uma duna que já esfriava oferecendo a primeira sombra do sol. Eu enrolei um baseado e nós dois fumamos ali, quase imóveis, observando o mar e o movimento.

“Tu não vai acreditar nas coisas que eu tenho ouvido”, ele disse, introduzindo um assunto que a primeira vista parecia, no mínimo, interessante. “Lembra do episódio das Heinekens lá no Lago?”, ele perguntou. “Yeah”, eu disse. Já deviam fazer muitos anos que isso não passava pela minha cabeça, mas não havia jeito de esquecer.

O Lago era um grande açude, que ocupava um campo perto da casa de praia dele. Tinha o formato de um Y arredondado, e vários piers para ficar por ali fazendo merda e molhando os pés na água. Nós sempre íamos para lá pela noite para beber ou fumar. O episódio das Heinekens foi um dia em que compramos uma garrafa de rum e algumas Heinekens para beber no pier, mas só fomos tomar as cervejas depois de terminar o rum. Elas estavam quentes, e tinham um gosto desconfortavelmente estranho. Jogamos as latas restantes no lago, logo abaixo do pier. Deviam ser três ou quatro cervejas. Ficamos meio aborrecidos, mas estávamos bêbados demais para nos importarmos.

“O que tem?”, eu perguntei. “Um amigo meu foi tomar umas cervejas ali com outro conhecido dele, que vem a ser um dos representantes da Heineken aqui no sul”, ele começou. “Eles ficam tão embriagados que caem no lago, e acham uma latinha. Ela está toda enferrujada, com uma crosta de ferrugem verde-musgo por toda a lata. Eles procuram mais e acham as outras três”. “Bem, e daí?”, eu pergunto.

“Eis que o representante as manda direto para o museu da Heineken em Amsterdã. Inventa uma história ilustrando todo o contexto, e agora as latinhas que nós jogamos fora estão cheias e fechadas em uma prateleira só para elas no museu”, ele diz esperando minha reação. Fico sem palavras por um momento. “Como assim? Elas estão em exposição? Mas isso não é motivo para se orgulhar, aquelas cervejas foram jogadas no lago porque estavam ruins! Qual foi a história que esse cara inventou?”.

“Bem, ele disse que fizeram uma festa do caralho por ali. Compraram Heinekens o suficiente para embriagar um exército, mas haviam só 50 pessoas. As pessoas começam a beber, e elas têm de beber tudo, porque as cervejas vão ficar velhas. Uma por uma, elas vão desmaiando ou sucumbindo aos limites humanos. Mas tem uma mulher que gosta tanto de Heineken que está disposta a ir até o fim com isso, nem que isso custe a vida dela. Ela vai bebendo sem hesitar, mas um cara que estava por ali também vê que ela não vai parar. Ele amava ela mais do que tudo, e ela ainda não sabia. Então ele faz, com os olhos cheios de lágrimas, o que tem que fazer e joga as cervejas restantes fora, para que o maior amor de sua vida – maior inclusive que Heineken – continue vivendo. No fim, a mulher nunca reconheceu seu ato heróico, e ficou puta da cara que ele jogou fora as Heinekens. Ela nunca mais falou com ele desde então, mas ele salvou a vida dela”.

“Mas que merda de história”, eu digo decepcionado. Meu amigo ainda diz que a Heineken expôs aquilo em homenagem singela ao amor. “Ah, just fuck off, man”, eu digo. “Por que todo esse estardalhaço por algumas latas achadas no lago cheias?”, eu pergunto. “Você tinha que ver”, ele disse. “Elas tinham uma aparência misteriosamente bonita, realmente fascinante. Não é em todo lugar que se vê ferrugem verde. A Heineken até lançou uma edição limitada com as latinhas em réplica das Heinekens do amor incondicional”.

Fico pensando na história por algum tempo, e na disposição de morrer por cervejas. Parece idiota, a princípio, essa causa, especialmente porque eu estou já no meu fim inevitável, mas não é. Há todo um misticismo acerca da morte, e tudo é levado com tanta seriedade, que as pessoas se esquecem que a morte não passa de um brinquedo, e o lado positivo desse brinquedo é que todos vamos, democraticamente, brincar com ele por algum tempo em nossas vidas, até finalmente entrarmos na brincadeira. A morte é apenas a possibilidade de comprar um Kinder Ovo e correr o risco de a surpresa que ele contém seja apenas o mais sem graça quebra-cabeça de 16 peças. Parece trágico, parece uma merda, mas é mais divertido do que nos permitimos divertir.

Ontem, um cara foi assassinado na frente do shopping Total, durante um assalto. Todavia, infelizmente, não posso usá-lo de argumento. Uma notícia é uma notícia, e dificilmente ela vai me despertar o mesmo sentimento do que tendo visto o sujeito ou a situação. Notícias assim são inúteis, sendo usadas apenas para gerar mais medo do que já se constata na vida pessoal das pessoas.

Meu raciocínio é cortado quando passa uma morena alta pela areia na beira do mar. O sol semi-poente enche sua pele bronzeada de dourado. É como se pudéssemos cobrir as coxas bronzeadas dela com ouro queimado. Bem queimado. Nenhum trabalho humano ou Photoshop faria tamanha perfeição com tanta sinceridade.

“Tem outra história”, meu amigo diz, quando a morena já terminou de passar por nós e vai indo paralela ao mar para o infinito, “mas não sei se tu vai gostar muito também”. Vítima da curiosidade, peço para ele contar de uma vez.

“Lembra no outro pier do lago, quando jogamos as long necks vazias ali por perto, porque não tínhamos como voltar com tudo aquilo nas mãos?”, ele pergunta. Digo que sim. “Vi uma criança brincando no lago esses dias com a mãe, e a mãe sugeriu que fossem para perto desse pier. A criança, juro por deus, cinco anos de idade, disse que não era seguro porque uma tal de “Marcinha” foi brincar ali uma vez e cortou o pé em cacos de vidro. Marcinha devia ter a mesma idade da menina”.

“Uau”, eu digo. “Que merda”. “Certamente não fomos nós”, ele constatou. “Nós não quebramos as garrafas”. “Certamente fomos nós”, eu o contrario, “as garrafas eventualmente quebram por alguma razão”. Ficamos em silêncio por um momento. “Se sente culpado?”, ele me pergunta.

“Primeiramente, sim. Mas era uma culpa mentirosa. Eu realmente não me importo mais. Uma notícia é uma notícia. Talvez eu me sentiria culpado se presenciasse a cena, e constatasse que, de fato, a jovem Marcinha conseguiu uma tatuagem precoce na sola do pé”. Meu amigo fica meio quieto, e não responde. “Talvez eu apenas seja um Estrangeiro no meio de comunicação capitalista”.

Nos levantamos e vamos dar um mergulho no mar. Chegando perto da maré, passamos pela morena, que retornava em sua caminhada. Eu espero que ela olhe, mas ela se mantém distante. Eu viro para meu amigo: “Eu estou morrendo”.

Ele olha para mim e depois para a morena, folhada a ouro. “Eu também”.


Theo S. da Rocha

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Parafusos Musicais

Era uma ferragem bem vagabunda e mal cuidada, ficava a duas quadras de uma boca de fumo muito movimentada. Eu lembro que fui lá comprar parafusos porque eram mais baratos, de acordo com minha mulher. Nenhuma pretensão de usá-los, mas sempre achei que deve-se manter um estoque de parafusos em casa. É necessário, afinal, estar preparado e bem armado para caso eles façam falta.

Então eu fui até lá, a pé, observando o fluxo de drogados que ia e vinha de mãos vazias ou cheias, esperando que algo novo aconteça e encha seus bolsos. Se quiser, você consegue farejar uma boca de fumo a quilômetros de distância. São as pessoas que circulam, e o ar levemente azedo e insinuante. Assim, mesmo que o ponto mude de lugar, deixa de herança ao local aquela sensação estranha, a energia misteriosa, a atmosfera colorida. William Burroughs que o diga. No final, você é o atingido por essa sensação. Essa é a particularidade. Você não é o produtor dela: ela já estava lá antes, e vai continuar estando. É ela que vai de encontro a você, e te segue calmamente pelas esquinas, como um fantasma pentelho.

Mas eu não precisava de drogas na ocasião. Apenas parafusos. Precisava deles. Então cheguei na ferragem e tinha um sujeito aparentemente comum se palestrando. Ele era grande e tinha voz estridente que ressoava nas paredes. Foi falando de como ele foi para Nova York sem pagar nada. Discretamente prestei atenção no que dizia, interessado na chance de poder viajar de graça também. Ele dizia que foi pelos correios. “Aí finalmente consegui entrar num envelope”, ele disse, sorridente, gesticulando com as duas mãos, sinalizando a entrada dentro de um envelope, que eu imaginei pardo, pela mão esquerda pendente segurando algo invisível, enquanto a direita deslizava para baixo em entrada. “E me fui, direto. Uma carta urgente. Paguei só o envio do envelope” ele disse, rindo orgulhoso de si mesmo. Algum dos ouvintes perguntou como era Nova York. “Grande”, ele disse.

“Perdão, meu humilde amigo”, eu disse, abordando-o. “Mas como tu conseguiu entrar num envelope?”. “Não há segredo”, ele disse. Lembro que torci o nariz quando ouvi isso. Com certeza há um segredo. Não é algo que simplesmente se faça. Se não tivesse segredo, estaríamos todos entrando em envelopes. “Eu diminui meu tamanho”, ele disse. Esse era o segredo. Aquilo me interessou.

“E como tu conseguiu essa façanha?” eu perguntei, humildemente interessado. Ele estendeu a mão. “Prazer em te conhecer, meu nome é Jorge, sou um inventor”. “John”, eu disse, apertando a mão dele. “Gostaria de conhecer algumas de suas invenções”, eu disse. Ele disse que morava por ali, então fomos direto para seu casebre – ao lado da boca de fumo. Uma fila de jovens e velhos distintos e indistintos saía pela porta da boca. Vi um rosto conhecido e acenei em cumprimento.

Entramos no casebre do velho Jorge e ele me apresentou seu irmão. Ele não falava português. “Crescemos separadamente”, ele me disse. Jorge veio na barriga de sua mãe direto da África, enquanto o seu irmão, que era mais velho, ficou na companhia do pai no seu país de origem. O pai era algo como um ditador, ou algo assim, e a sua mãe tentou fugir de toda a loucura. Ela era de uma tribo desconhecida, e o político se apaixonou por ela. Eles pareciam ser cool. Fiquei pensando o quão interessante deve ser para alguém de uma tribo exótica e isolada um belo dia pegar um avião para ir morar em outro país.

Descemos a um porão e ele me apresentou, entre tantas outras, a máquina de encolhimento. A única descrição em que consigo pensar para apurar uma impressão da máquina é de que ela era uma grande e gorda geringonça de plástico e alumínio, com uma luz vermelha no centro. Fiquei admirando a máquina, mas ele não quis me mostrar ela funcionando. Ficamos bebendo depois disso e ele ficou me contando uma história de quando ele tentou construir uma máquina do tempo.

“É o seguinte”, ele disse. “Todos temos fantasias. Meu sonho sempre foi não trabalhar durante a tarde. Eu escrevo para um jornal do bairro aqui... Então eu pensava: vou inventar uma máquina do tempo. Assim, vou ficar sem fazer nada durante o dia e ao término dele, volto no tempo e digo para mim 5 horas atrás para fazer o trabalho, porque vai ficar muito bom. Então, quando voltar ao meu tempo, encontrarei o trabalho, feito por mim, sendo que eu não o fiz. Já pensou?”, ele perguntava erguendo as mãos e os ombros, com um sorriso embriagado. Eu apenas ria.

Dentre outras invenções que tinha, estava um livro que virava as páginas sozinho e um liquidificador voador. Perguntei-o qual a função do liquidificador. “Nada precisa ter uma função”, ele disse. “Apenas achamos funções para as coisas porque a natureza é viciada nisso. Ademais, o capitalismo ainda intensificou mais ainda essa doença”. Gostei da idéia. A natureza, que já é uma puta, sendo também neurótico-obsessiva.

Voltei para casa tarde da noite mas não consegui dormir. Fui atingido por várias fantasias, que iam me perturbando enquanto eu rolava na cama, repetidamente acordando minha mulher com minha inquietude. Eu teria de realizar aquilo. Era necessário. Não havia como ignorar. Se havia um jeito de fazer alguma coisa que se quer fazer, não me parecia racional dizer “não” a ela por uma questão de ética e educação. Então me decidi.

No dia seguinte voltei à casa do inventor com a minha mulher, que já tinha concordado em fazê-lo, e levei um aparelho de som. Expliquei-o que pagaria por aquilo, apenas precisava fazê-lo de qualquer jeito. Ele ouviu com muita atenção, compreendeu minha situação e disse que faria esse favor. Descemos ao porão das invenções. Ele me encolheria e botaria no som “Build Me a Woman”, dos Doors. Depois de me encolher, ele saiu do lugar, me deixando ali com minha mulher. Assim, fui encolhido, a música começou e a minha mulher tirou a roupa. E o Jim começava a gritar a letra. “Build me a woman, ten feet tall! Build me a woman, TEN, FEET, TALL”.

E fui deslizando por seus seios, beijando uma imensidão de pele aveludada. E a música parecia tão alta! Assim, ela me botou em seus pés, em suas coxas, e eu fui subindo delicadamente em êxtase, sutilmente descontrolado, pacientemente usado... “Dont make her ugly, baby, dont make her small! Build me someone i can BALL, all night long”.

Sem sombra de dúvida esse foi o melhor momento da minha vida.

Infelizmente nos divorciamos uns meses depois, provavelmente porque eu esqueci completamente de comprar os parafusos na ocasião em que fui à ferragem. É estritamente necessário manter parafusos em algum lugar. Seguros, mas à disposição. Especialmente depois da realização de uma fantasia.

Ela agora mora com o inventor. Eles têm dois filhos. Esses dias o próprio inventor me perguntou se eu queria ser cobaia de uma nova máquina dele. Era algo como uma máquina que fazia você ficar musculoso em questão de segundos.

“Nem fodendo”, eu disse. “Jamais vou cometer essa atrocidade com meu corpo”. Marcamos para tomar uma cerveja, mas acabamos não indo, nenhum dos dois.


Theo S. da Rocha

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Alma Solitária

Então eu pego o pequeno felino nas minhas mãos e parto para a ação. “Vem cá, gatinho, ts ts ts”. Yeah, vamos lá. Ele metade entorpecido, metade confuso, mal consegue se mexer. We are gonna have some fun. Aí eu começo a função. Ele deitado no chão, barriga para cima, eu pego meus dois dedos e vou fuçando no seu olho.

Have you ever seen the rain? Ele emite seu primeiro ganido. O primeiro de muitos. Eu enfio meus dedos por entre o globo ocular e um princípio de dilúvio sanguíneo escorre pelo seu rosto. Os ganidos se tornam berros. Uma pobre vida perdida, fadada a morte, como todas as vidas e tudo o que existe.

Eu retiro seu olho, ele começa a espernear. Eu o seguro com força. O lugar reservado ao seu olho, na parte esquerda do rosto, vazio, um vácuo, como qualquer compaixão que eu sinto. Então eu amasso e estouro seu primeiro olho e parto para o próximo. Vamos repetir o procedimento! REPEAT

Já existe uma poça de sangue sob ele. O sangue rubro-escuro, se misturando com o basalto da calçada. Os urros se tornam altos demais, então eu rapidamente abro sua mandíbula, e a puxo até onde ela aguenta. Clec. Dead cats, dead rats. Para finalizar meu grande truque, jogo o cadáver para cima, e enquanto ele cai, eu o chuto para longe. O goleiro repõe a bola, e o jogo continua!

Saio dali sentindo a adrenalina e a satisfação de gozar do meu lugar no topo da cadeia alimentar. Ah, a vida! Hoje vou tomar uma cerveja para celebrar minha grande atuação no jogo da natureza. Ice cold beer, ice cold death.




Pouco acredito no que estou vendo. Esse sujeito foi em direção ao pobre gatinho indefeso e confuso, na rua, e em princípio achei que ele o fosse ajudar. Pensei que ainda existiam pessoas que simplesmente se importem. Mas ele pega o gatinho com tanta violência e descuido. O que está acontecendo?

Então ele pega sua mão, uma mão enorme e indelicada, e simplesmente enfia os dedos no olho do pobre animal indefeso. Um olho é arrancado. Eu penso em interferir, mas esse sujeito é tão grande... eu não teria a menor chance. Pedir para ele parar, e então o que? Ser morto a porradas? Então eu simplesmente tento parar de olhar, para não presenciar mais daquilo, mas por alguma razão não consigo.

O sujeito dá risadas, e parte para o próximo olho. Pura violência e perversão. Tem sangue por tudo, e ele novamente arranca o único olho que resta no pequeno amiguinho felino. Os gritos são tão altos. Como alguém pode fazer isso? Como alguém consegue tão desenfreadamente causar o mal, sem expressar nenhum escrúpulo de dor em si mesmo?

Ele então quebra a mandíbula do pobre gato, e o chuta para longe. Eu sinto que não conseguirei dormir essa noite. Precisarei tomar uma boa dose de cerveja para conseguir viver com essa cena. Tamanha crueldade, e dor, e ainda sim descaso e... quase... prazer. Por que existem pessoas assim?




E assim, o jovem torturador seguiu andando, a única alma viva naquela rua escura, para se embebedar. Metade feliz, sentindo os impulsos do prazer em suas veias, e metade culpado, envergonhado e arrependido. O alívio desses sentimentos aponta para um lugar apenas: o bar. Já as origens desses atos e sentimentos, entretanto, apontam para e existência de diversas pessoas, dentro do corpo de uma só. Todo o sentimento vive com a presença de sua oposição. É o preço que se paga, por sentir. Enquanto o torturador acha que não sente culpa, o ingênuo acha que não sente prazer, e os dois são um só.




Nenhum animal foi ferido para a produção desse texto.

Theo S. da Rocha