Era uma manhã de verão quando eu decidi ir visitar um amigo na praia. Eu ainda tinha uma semana de vida, e conclui que um dos afazeres antes de partir consistia em pegar uma praia ensolarada num fim de tarde.
Poucas coisas são realmente comparáveis a praia num fim de tarde. O sol, já no fim de sua descida, colore a areia de dourado, e as pessoas parecem surrealmente mais bonitas com a pele bronzeada iluminada pela luz mais sublime que se pode encontrar. O mar gentilmente reflete os raios em direção dos olhos dos transitantes, tomando apenas parte dessa luz para si, com a intenção de parecer mais acolhedor e amigável. Tudo fica em completa e perfeita sintonia visual.
Eu cheguei na rodoviária no meio da tarde, e meu amigo estava por ali me esperando. Ele estava careca. Nos cumprimentamos, depois fomos a sua casa deixar as coisas e fomos a praia. Sentamos na areia de costas para uma duna que já esfriava oferecendo a primeira sombra do sol. Eu enrolei um baseado e nós dois fumamos ali, quase imóveis, observando o mar e o movimento.
“Tu não vai acreditar nas coisas que eu tenho ouvido”, ele disse, introduzindo um assunto que a primeira vista parecia, no mínimo, interessante. “Lembra do episódio das Heinekens lá no Lago?”, ele perguntou. “Yeah”, eu disse. Já deviam fazer muitos anos que isso não passava pela minha cabeça, mas não havia jeito de esquecer.
O Lago era um grande açude, que ocupava um campo perto da casa de praia dele. Tinha o formato de um Y arredondado, e vários piers para ficar por ali fazendo merda e molhando os pés na água. Nós sempre íamos para lá pela noite para beber ou fumar. O episódio das Heinekens foi um dia em que compramos uma garrafa de rum e algumas Heinekens para beber no pier, mas só fomos tomar as cervejas depois de terminar o rum. Elas estavam quentes, e tinham um gosto desconfortavelmente estranho. Jogamos as latas restantes no lago, logo abaixo do pier. Deviam ser três ou quatro cervejas. Ficamos meio aborrecidos, mas estávamos bêbados demais para nos importarmos.
“O que tem?”, eu perguntei. “Um amigo meu foi tomar umas cervejas ali com outro conhecido dele, que vem a ser um dos representantes da Heineken aqui no sul”, ele começou. “Eles ficam tão embriagados que caem no lago, e acham uma latinha. Ela está toda enferrujada, com uma crosta de ferrugem verde-musgo por toda a lata. Eles procuram mais e acham as outras três”. “Bem, e daí?”, eu pergunto.
“Eis que o representante as manda direto para o museu da Heineken em Amsterdã. Inventa uma história ilustrando todo o contexto, e agora as latinhas que nós jogamos fora estão cheias e fechadas em uma prateleira só para elas no museu”, ele diz esperando minha reação. Fico sem palavras por um momento. “Como assim? Elas estão em exposição? Mas isso não é motivo para se orgulhar, aquelas cervejas foram jogadas no lago porque estavam ruins! Qual foi a história que esse cara inventou?”.
“Bem, ele disse que fizeram uma festa do caralho por ali. Compraram Heinekens o suficiente para embriagar um exército, mas haviam só 50 pessoas. As pessoas começam a beber, e elas têm de beber tudo, porque as cervejas vão ficar velhas. Uma por uma, elas vão desmaiando ou sucumbindo aos limites humanos. Mas tem uma mulher que gosta tanto de Heineken que está disposta a ir até o fim com isso, nem que isso custe a vida dela. Ela vai bebendo sem hesitar, mas um cara que estava por ali também vê que ela não vai parar. Ele amava ela mais do que tudo, e ela ainda não sabia. Então ele faz, com os olhos cheios de lágrimas, o que tem que fazer e joga as cervejas restantes fora, para que o maior amor de sua vida – maior inclusive que Heineken – continue vivendo. No fim, a mulher nunca reconheceu seu ato heróico, e ficou puta da cara que ele jogou fora as Heinekens. Ela nunca mais falou com ele desde então, mas ele salvou a vida dela”.
“Mas que merda de história”, eu digo decepcionado. Meu amigo ainda diz que a Heineken expôs aquilo em homenagem singela ao amor. “Ah, just fuck off, man”, eu digo. “Por que todo esse estardalhaço por algumas latas achadas no lago cheias?”, eu pergunto. “Você tinha que ver”, ele disse. “Elas tinham uma aparência misteriosamente bonita, realmente fascinante. Não é em todo lugar que se vê ferrugem verde. A Heineken até lançou uma edição limitada com as latinhas em réplica das Heinekens do amor incondicional”.
Fico pensando na história por algum tempo, e na disposição de morrer por cervejas. Parece idiota, a princípio, essa causa, especialmente porque eu estou já no meu fim inevitável, mas não é. Há todo um misticismo acerca da morte, e tudo é levado com tanta seriedade, que as pessoas se esquecem que a morte não passa de um brinquedo, e o lado positivo desse brinquedo é que todos vamos, democraticamente, brincar com ele por algum tempo em nossas vidas, até finalmente entrarmos na brincadeira. A morte é apenas a possibilidade de comprar um Kinder Ovo e correr o risco de a surpresa que ele contém seja apenas o mais sem graça quebra-cabeça de 16 peças. Parece trágico, parece uma merda, mas é mais divertido do que nos permitimos divertir.
Ontem, um cara foi assassinado na frente do shopping Total, durante um assalto. Todavia, infelizmente, não posso usá-lo de argumento. Uma notícia é uma notícia, e dificilmente ela vai me despertar o mesmo sentimento do que tendo visto o sujeito ou a situação. Notícias assim são inúteis, sendo usadas apenas para gerar mais medo do que já se constata na vida pessoal das pessoas.
Meu raciocínio é cortado quando passa uma morena alta pela areia na beira do mar. O sol semi-poente enche sua pele bronzeada de dourado. É como se pudéssemos cobrir as coxas bronzeadas dela com ouro queimado. Bem queimado. Nenhum trabalho humano ou Photoshop faria tamanha perfeição com tanta sinceridade.
“Tem outra história”, meu amigo diz, quando a morena já terminou de passar por nós e vai indo paralela ao mar para o infinito, “mas não sei se tu vai gostar muito também”. Vítima da curiosidade, peço para ele contar de uma vez.
“Lembra no outro pier do lago, quando jogamos as long necks vazias ali por perto, porque não tínhamos como voltar com tudo aquilo nas mãos?”, ele pergunta. Digo que sim. “Vi uma criança brincando no lago esses dias com a mãe, e a mãe sugeriu que fossem para perto desse pier. A criança, juro por deus, cinco anos de idade, disse que não era seguro porque uma tal de “Marcinha” foi brincar ali uma vez e cortou o pé em cacos de vidro. Marcinha devia ter a mesma idade da menina”.
“Uau”, eu digo. “Que merda”. “Certamente não fomos nós”, ele constatou. “Nós não quebramos as garrafas”. “Certamente fomos nós”, eu o contrario, “as garrafas eventualmente quebram por alguma razão”. Ficamos em silêncio por um momento. “Se sente culpado?”, ele me pergunta.
“Primeiramente, sim. Mas era uma culpa mentirosa. Eu realmente não me importo mais. Uma notícia é uma notícia. Talvez eu me sentiria culpado se presenciasse a cena, e constatasse que, de fato, a jovem Marcinha conseguiu uma tatuagem precoce na sola do pé”. Meu amigo fica meio quieto, e não responde. “Talvez eu apenas seja um Estrangeiro no meio de comunicação capitalista”.
Nos levantamos e vamos dar um mergulho no mar. Chegando perto da maré, passamos pela morena, que retornava em sua caminhada. Eu espero que ela olhe, mas ela se mantém distante. Eu viro para meu amigo: “Eu estou morrendo”.
Ele olha para mim e depois para a morena, folhada a ouro. “Eu também”.
Theo S. da Rocha