sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Parafusos Musicais

Era uma ferragem bem vagabunda e mal cuidada, ficava a duas quadras de uma boca de fumo muito movimentada. Eu lembro que fui lá comprar parafusos porque eram mais baratos, de acordo com minha mulher. Nenhuma pretensão de usá-los, mas sempre achei que deve-se manter um estoque de parafusos em casa. É necessário, afinal, estar preparado e bem armado para caso eles façam falta.

Então eu fui até lá, a pé, observando o fluxo de drogados que ia e vinha de mãos vazias ou cheias, esperando que algo novo aconteça e encha seus bolsos. Se quiser, você consegue farejar uma boca de fumo a quilômetros de distância. São as pessoas que circulam, e o ar levemente azedo e insinuante. Assim, mesmo que o ponto mude de lugar, deixa de herança ao local aquela sensação estranha, a energia misteriosa, a atmosfera colorida. William Burroughs que o diga. No final, você é o atingido por essa sensação. Essa é a particularidade. Você não é o produtor dela: ela já estava lá antes, e vai continuar estando. É ela que vai de encontro a você, e te segue calmamente pelas esquinas, como um fantasma pentelho.

Mas eu não precisava de drogas na ocasião. Apenas parafusos. Precisava deles. Então cheguei na ferragem e tinha um sujeito aparentemente comum se palestrando. Ele era grande e tinha voz estridente que ressoava nas paredes. Foi falando de como ele foi para Nova York sem pagar nada. Discretamente prestei atenção no que dizia, interessado na chance de poder viajar de graça também. Ele dizia que foi pelos correios. “Aí finalmente consegui entrar num envelope”, ele disse, sorridente, gesticulando com as duas mãos, sinalizando a entrada dentro de um envelope, que eu imaginei pardo, pela mão esquerda pendente segurando algo invisível, enquanto a direita deslizava para baixo em entrada. “E me fui, direto. Uma carta urgente. Paguei só o envio do envelope” ele disse, rindo orgulhoso de si mesmo. Algum dos ouvintes perguntou como era Nova York. “Grande”, ele disse.

“Perdão, meu humilde amigo”, eu disse, abordando-o. “Mas como tu conseguiu entrar num envelope?”. “Não há segredo”, ele disse. Lembro que torci o nariz quando ouvi isso. Com certeza há um segredo. Não é algo que simplesmente se faça. Se não tivesse segredo, estaríamos todos entrando em envelopes. “Eu diminui meu tamanho”, ele disse. Esse era o segredo. Aquilo me interessou.

“E como tu conseguiu essa façanha?” eu perguntei, humildemente interessado. Ele estendeu a mão. “Prazer em te conhecer, meu nome é Jorge, sou um inventor”. “John”, eu disse, apertando a mão dele. “Gostaria de conhecer algumas de suas invenções”, eu disse. Ele disse que morava por ali, então fomos direto para seu casebre – ao lado da boca de fumo. Uma fila de jovens e velhos distintos e indistintos saía pela porta da boca. Vi um rosto conhecido e acenei em cumprimento.

Entramos no casebre do velho Jorge e ele me apresentou seu irmão. Ele não falava português. “Crescemos separadamente”, ele me disse. Jorge veio na barriga de sua mãe direto da África, enquanto o seu irmão, que era mais velho, ficou na companhia do pai no seu país de origem. O pai era algo como um ditador, ou algo assim, e a sua mãe tentou fugir de toda a loucura. Ela era de uma tribo desconhecida, e o político se apaixonou por ela. Eles pareciam ser cool. Fiquei pensando o quão interessante deve ser para alguém de uma tribo exótica e isolada um belo dia pegar um avião para ir morar em outro país.

Descemos a um porão e ele me apresentou, entre tantas outras, a máquina de encolhimento. A única descrição em que consigo pensar para apurar uma impressão da máquina é de que ela era uma grande e gorda geringonça de plástico e alumínio, com uma luz vermelha no centro. Fiquei admirando a máquina, mas ele não quis me mostrar ela funcionando. Ficamos bebendo depois disso e ele ficou me contando uma história de quando ele tentou construir uma máquina do tempo.

“É o seguinte”, ele disse. “Todos temos fantasias. Meu sonho sempre foi não trabalhar durante a tarde. Eu escrevo para um jornal do bairro aqui... Então eu pensava: vou inventar uma máquina do tempo. Assim, vou ficar sem fazer nada durante o dia e ao término dele, volto no tempo e digo para mim 5 horas atrás para fazer o trabalho, porque vai ficar muito bom. Então, quando voltar ao meu tempo, encontrarei o trabalho, feito por mim, sendo que eu não o fiz. Já pensou?”, ele perguntava erguendo as mãos e os ombros, com um sorriso embriagado. Eu apenas ria.

Dentre outras invenções que tinha, estava um livro que virava as páginas sozinho e um liquidificador voador. Perguntei-o qual a função do liquidificador. “Nada precisa ter uma função”, ele disse. “Apenas achamos funções para as coisas porque a natureza é viciada nisso. Ademais, o capitalismo ainda intensificou mais ainda essa doença”. Gostei da idéia. A natureza, que já é uma puta, sendo também neurótico-obsessiva.

Voltei para casa tarde da noite mas não consegui dormir. Fui atingido por várias fantasias, que iam me perturbando enquanto eu rolava na cama, repetidamente acordando minha mulher com minha inquietude. Eu teria de realizar aquilo. Era necessário. Não havia como ignorar. Se havia um jeito de fazer alguma coisa que se quer fazer, não me parecia racional dizer “não” a ela por uma questão de ética e educação. Então me decidi.

No dia seguinte voltei à casa do inventor com a minha mulher, que já tinha concordado em fazê-lo, e levei um aparelho de som. Expliquei-o que pagaria por aquilo, apenas precisava fazê-lo de qualquer jeito. Ele ouviu com muita atenção, compreendeu minha situação e disse que faria esse favor. Descemos ao porão das invenções. Ele me encolheria e botaria no som “Build Me a Woman”, dos Doors. Depois de me encolher, ele saiu do lugar, me deixando ali com minha mulher. Assim, fui encolhido, a música começou e a minha mulher tirou a roupa. E o Jim começava a gritar a letra. “Build me a woman, ten feet tall! Build me a woman, TEN, FEET, TALL”.

E fui deslizando por seus seios, beijando uma imensidão de pele aveludada. E a música parecia tão alta! Assim, ela me botou em seus pés, em suas coxas, e eu fui subindo delicadamente em êxtase, sutilmente descontrolado, pacientemente usado... “Dont make her ugly, baby, dont make her small! Build me someone i can BALL, all night long”.

Sem sombra de dúvida esse foi o melhor momento da minha vida.

Infelizmente nos divorciamos uns meses depois, provavelmente porque eu esqueci completamente de comprar os parafusos na ocasião em que fui à ferragem. É estritamente necessário manter parafusos em algum lugar. Seguros, mas à disposição. Especialmente depois da realização de uma fantasia.

Ela agora mora com o inventor. Eles têm dois filhos. Esses dias o próprio inventor me perguntou se eu queria ser cobaia de uma nova máquina dele. Era algo como uma máquina que fazia você ficar musculoso em questão de segundos.

“Nem fodendo”, eu disse. “Jamais vou cometer essa atrocidade com meu corpo”. Marcamos para tomar uma cerveja, mas acabamos não indo, nenhum dos dois.


Theo S. da Rocha