Eu estava em um bar num fim de tarde abafado, bem naquela hora que os mosquitos saem para coletar sangue, quando eu conheci o velho Flip. Os mosquitos zuniam em meu ouvido, e minha paciência há muito havia esgotado, então eu fiquei ali, sentado sozinho em minha mesa, com um expressão irritadiça, me estapeando no rosto e nas orelhas, tentando acabar com aquele barulho infernal, o zumbido agudo que vem e vai. O velho Flip me viu em meu momento de “eu prefiro explodir em mil pedaços a continuar vivendo assim” e sentou na mesa comigo.
“Hei hei hei, alguém me parece que não está tendo um bom dia” ele disse, trivial. “Na verdade o dia estava normal até chegarem esses mosquitos” eu respondi, tentando não ser agressivo. “O segredo é não tomar cerveja. Os mosquitos preferem quem toma cerveja”. Eu ri. “Isso é uma piada?”. “De jeito algum” ele disse. “Li isso numa revista de pesquisas”.
A razão para eu trazer o velho Flip à tona não era o fato de ele ser uma enciclopédia viva, e um sujeito com um vasto conhecimento do inútil. O fato é que o velho Flip possuía uma lanchonete no centro da cidade. “Você disse que estava tendo um dia normal até os mosquitos chegarem?” ele me perguntou, depois de falar da cerveja. “Para mim, um dia normal não é algo bom”. “É melhor que mosquitos” eu respondi. “Prefere ficar aos mosquitos e tomar cerveja ou abdicar da cerveja por paz?”. “Eu não acredito em paz” eu disse. Ele consentiu.
“Olha, jovem, eu vim aqui porque você me parece ser um cara que curte boa música” ele me disse, em seguida. “Em torno das duas da manhã, dá uma aparecida na Lanchonete do Flip, lá no centro. Tocamos blues e jazz, nada posterior aos anos 60”. “Uau, cool, parece legal” eu disse. “Eu não sabia que rolava um som lá”. “Não rola” ele disse. “Somos... meio que... ilegais”.
Tudo isso me soou meio estranho. A Lanchonete do Flip era um lugar do qual eu mantinha distância. Eles serviam um café frio que tinha gosto de sal. A melhor comida que se podia pedir era uma pizza que fedia muito, era escura e parecia estar sempre podre, e também não tinha nenhuma pretensão de ser aquecida. A decoração era simples e toda amarela, sendo feita de uma fórmica áspera, chulepenta e suja. Nunca havia ninguém por ali na lanchonete. De fato, agora até faz algum sentido que haja algum movimento por ali à noite. É o único modo com que deviam se sustentar.
Cheguei lá às duas e meia da manhã, e a lanchonete estava fechada. Toquei a campainha, e nada. Fiquei lá por uns 10 minutos, me perguntando o que faria agora, e tocando a campainha repetidamente. Então, o velho Flip surgiu do escuro. “Olá, meu amigo!” ele disse, abrindo a porta. Entramos, atravessamos a lanchonete no escuro e descemos uma escada, ouvindo o volume da música aumentar.
O lugar era absurdo. A iluminação do lugar era toda vermelha, luzes vermelhas por tudo. A música era apenas rithim and blues dos anos 50 e 60. Um cara muito cool com um chapéu panamá manuseando um tocador de LP comandava o som, e sempre que ele trocava o álbum, tinha que mergulhar numa seleção de cerca de 300 LPs de blues. O bar, como o velho Flip me falou quando entramos ali, só vendia duas coisas: long necks de Stella Artois, a 4 reais a unidade, e haxixe, a 4 reais a grama. As pessoas que estavam no lugar, que não eram muitas, se distribuíam em mesas circulares vermelhas que eram posicionadas sob algumas das lâmpadas. Eu fiquei por ali até o meio dia. As pessoas iam ficando, e ficando, e você se vê postergando sua saída cada vez mais.
Depois disso, eu sempre frequentava a “Lanchonete do Flip” durante as noites. “Quem diria que o lugar mais cool da cidade fica embaixo da lanchonete mais podre e menos frequentada?!” eu pensava. Nada fazia sentido. Eu tentava convencer o velho Flip a dar um nome ao lugar que ficava embaixo da lanchonete, por que era tão absurdo que merecia ter um nome próprio. Ele insistia que era parte do “complexo”. Era um lugar inomeável.
Como eu disse, eu passei a frequentar o lugar inomeável sempre que saía de casa durante a noite. Assim, não tardou muito até eu ver ela pela primeira vez.
Eu estava bêbado, e desci as escadas cambaleando, até perceber aquela visão sublime. Havia essa deusa dançando blues sozinha na pista. Ela tinha a pele negra como nunca vi, e um rosto que refletia maturidade. Ela era tão blues quanto o blues, e mais jazz do que o jazz. Dançava alegremente. Ela usava um sapato simples preto, quase solto em seu pé, e um vestido, ó céus! Um vestido curto vermelho com bolinhas brancas, bem solto em seu corpo. Tinha a mão repleta de anéis.
Pedi para o velho Flip uma cerveja, e decidi que iria tentar me aproximar assim que ela se cansasse de dançar – afinal, eu não teria capacidade de me intrometer em seu caso de amor com a dança. Fiquei ali sentado, observando-a e esperando que ela ao menos me visse. Fiquei imaginando como seriam nossos filhos. Eu estava bêbado.
Assim que ela parou de dançar, me levantei, mas ela correu para uma mesa, e sentou no colo de um alemão que devia ser do tamanho de uma porta. Eles se beijam e ela senta ao seu lado, debruçada com o queixo sobre as mãos, sustentadas pelos cotovelos sobre a mesa. Meu mundo desabou. Subitamente, o bar estava cinza, e todo o vermelho presente ali era tão invisível para mim quanto o ar. Eu pedi um pouco de haxixe e outra cerveja para o velho Flip, e fiquei ali ponderando acerca de como e quando eu me mataria.
Esse seria um evento isolado, se eu não começasse a ver a deusa e o alemão-porta sempre que eu fosse no lugar inominável. Sempre. Ela ficava lá, dançando sozinha, com o vestido vermelho com bolinhas brancas, enquanto o alemão-porta sempre – eu digo sempre – ficava sentado sozinho em uma mesa, enrolando e fumando um baseado após o outro. Ele não parava. Acho que precisava de uns 6 quilos de haxixe para chapar toda aquela massa. De qualquer jeito, ela dançava, dançava e dançava, sorridente. Dava para perceber que ela preferia jazz. Em seguida, corria para a mesa onde estava o alemão-porta. Ele tirava uma das mãos do baseado depois de enrolar e passava o braço em volta dela. Um braço de robocop exterminador do futuro. Então ele acendia e eles ficavam os dois ali, fumando. Em seguida, se levantavam, erguiam a mão em saudação ao velho Flip atrás do bar, e saíam porta a fora. Eu sentia uma inveja descomunal do alemão-porta. Ele estava com a mulher mais linda do pedaço, e eles formavam um casal invejável. Eles eram cool.
Um dia eu acordei numa ressaca surreal. Levei cerca de 20 minutos em um exercício físico intenso na tentativa de me levantar. Tinha de andar apoiado nas paredes, enquanto a minha cabeça, que pesava mais que um totem de chumbo, desequilibrava meu corpo inteiro. Eu não tinha água em casa, nem café para tentar vencer este mal. Bebi, então, exaustivamente, água da torneira e fui ao supermercado. Eu vestia apenas a camisa que usara na noite anterior e uma cueca. Não consegui sequer me lembrar de calçar os chinelos. Andei 3 quadras parando para respirar um par de vezes, e entrei no supermercado.
Estava vazio. Me sinto à vontade para andar nas ruas em uma manhã de sábado ou domingo. A questão é que você não precisa desconfiar de ninguém em manhãs de fim de semana. Qualquer pessoa acordada nesse horário e fora de casa é uma pessoa tranquila e digna de confiança. Por consequência, você pode simplesmente fazer o que quiser, pois não levantará suspeitas também. Acho que ninguém jamais foi internado em um hospício em uma manhã de sábado ou domingo. Você pode agir como um louco, falar merda, gritar com o mundo, mas se está acordado em uma manhã de fim de semana, é uma pessoa correta e na linha.
Entrei no supermercado e fui direto para o corredor das águas. Passando pelo corredor das bebidas, no caminho, fiquei perdidamente nauseado. Só a visão de álcool me torcia o corpo inteiro. Em seguida, peguei o café. Ia entrar no corredor dos iogurtes (pois, no estado que estava meu estômago, esta seria a minha dieta do dia) e a vi. Ela estava escolhendo iogurtes. Todo meu fôlego se esvaiu instantaneamente, e eu corri para o corredor ao lado para conseguir respirar.
Eu pensava que não a reconheceria sem o vestido vermelho em algum lugar inusitado se a visse. Eu estava errado. Ela vestia chinelos! Chinelos cor de laranja, e uma saia colorida com detalhes que, bem, não deu tempo de ver tudo isso, eu estava desnortado. Fiquei parado um tempo, apoiado na prateleira de pães e respirando ofegante, tentando recobrar a consciência. Ela passou e foi para o caixa. Eu esqueci completamente do iogurte e fui atrás dela.
Ela chegou no caixa pagou e se foi. Eu cheguei, joguei o que tinha de dinheiro ali e ordenei que ficasse com o troco. Saí então em correria, com três garrafas de água coladas no corpo sustentadas pelo braço esquerdo, enquanto levava o café na mão direita. Corri para a rua e a vi, indo para a parada de ônibus. Corri até lá, mas ela chamou um dos veículos que passava assim que chegou na parada. O ônibus parou e abriu a porta.
“Espere” eu disse. Ela olhou para trás com receio, e trocou olhares comigo, finalmente. “Eu acho você demais” eu disse. Ela riu. “Obrigada”, disse, e subiu no ônibus.
Eis o mais próximo que jamais estarei da perfeição.
Theo S. da Rocha