sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Grande Ônibus em Chamas

Era uma quarta feira de tarde quando eu saí de casa para ir ao dentista. Como ia de ônibus, nunca sei que horário sair para chegar na hora e não me atrasar. O que acontece quando pegamos ônibus, na verdade, é que nunca se chega na hora. Ou você sai cedo, e o ônibus chega e anda mais rápido que o esperado, ou sai tarde, e o ônibus acaba demorando muito mais do que se previa, e andando devagar.

O que me ocorreu neste dia foi que eu saí cedo de casa, então o ônibus chegou cedo demais, e voou pelas avenidas. Enfim, quando cheguei, tinha um longo tempo de sobra. O céu estava azul e havia uma leve brisa primaveresca, então decidi matar o tempo em um parque próximo daquela zona.

Poucas pessoas frequentam um parque numa quarta feira de tarde. Quem anda por lá num dia desses, alem de mães, crianças e aposentados, são vagabundos, desempregados ou desocupados, e eu sou os três. Então comecei a andar pelo parque, e reparei algo estranho. Uma tenda gigante no centro do parque, que irradiava uma energia desconhecida para o ambiente. Uma vibração que sugeria algo diferente de tranquilidade. Fui passando por ali e li a placa: “Feirão de Carros”.

O meu itinerário então acatou uma sugestão de passar distante daquele centro inusitado, mas eu acabei passando por ali, tentando me contentar com a idéia de que logo logo aquilo passaria. Não havia demora. Fui passando sem olhar para dentro do inferninho, até que saiu um sujeito magro e radiante, com um terno claro e o cabelo penteado para o lado, e se dirigiu a mim em êxtase. “Meu amigo, meu amigo! Me diga o seu nome, temos promoções, promoções, tudo sem juros!”. “Não, obrigado!” eu digo, seguindo meu caminho. Ele me segue. “Só me diga seu nome, seu nome!”. Não adianta insistir com esses caras. É como nadar contra a maré, se irritando cada vez mais. “Tadeu” eu disse.

“Você disse Tadeu?” ele me perguntou. “Sim” eu digo, impaciente. Assim, saem duas mulheres peitudas da tendinha infernal, pulando com as coxas de fora, batendo palmas. “Você ganhou a promoção, meu amigo! Você ganhou!” ele diz, quase que num orgasmo. “Hãn?” eu digo. “Promoção?”. “SIM!” ele berra. “Hoje estamos com uma promoção, se surgisse alguém por aqui que fosse xará do dono da nossa concessionária, levaria um auto zero quilômetro!”. “Eu ganhei um carro?”. “SIM” ele repete.

“Cool” eu digo. Uau, um carro. Nada mal. “Onde está ele?” eu pergunto. “Vamos acabar com isso de uma vez, estou com um pouco de pressa”. “Sim, sim senhor, senhor Tadeu. Vamos entrando lá” e foi se dirigindo ao inferninho. “Peraí” eu digo. “Não tem como fazer aqui fora?”. Ele pára por um momento. “Mas o carro está lá”. “Ok, mas vamos com isso rápido”. E eu entro.

Andamos por ali naquele calor infernal e naquela decoração circense misturada com cores e anúncios de “compre um carro e seja feliz”. Ele me mostra o carro, um Palio vermelho. Eu sempre achei carros feios, são todos iguais, afinal. As diferenças são insignificantes. Acho que os projetistas de carros foram cagados no mundo por uma entidade vândala de algum universo sádico, juntamente com os publicitários e os poetas exibicionistas. “Mas é de graça! Que mal faria um carrinho?” eu pensei. “Nada de ônibus, nada de chuva, voltar para casa tarde da noite alcoolizado ouvindo o bom e velho rock n roll a toda altura, dirigindo e gritando coisas pras pessoas na rua. Nada mal, nada mal”. Nada mal mesmo.

“Sim” eu digo. “Vou levar. Me veja as chaves, preciso urgentemente sair daqui, tenho um compromisso sério. Sou uma pessoa séria, tenho um emprego, uma imagem para sustentar. O dever me chama!”. “Sim, sim senhor” ele diz. “Só me siga por aqui, temos que lhe passar uns documentos, pegar seus dados, algumas assinaturas, em seguida vamos para o Detran”. “Documentos?” eu pergunto. “Por que documentos?”. “Ora, senhor Tadeu, a venda de um carro exige documentos, precisamos saber também algumas coisas de você”. “Vocês estão me dando um carro! O que quer saber? Meu signo?”. “Não vai demorar, senhor, apenas alguns minutos”.

“Hey man” eu digo. “Esquece o carro, esquece a promoção. Estou atrasado. Valeu mesmo”. “Han?”. “Yeah, yeah, esquece o carro, fica com ele, faz o que quiser. Só mantenha esses compromissos e documentos longe de mim. Eu não confio em pedaços de papel. Uma vez um deles me perseguiu na rua, me ameaçando e cantando cânticos de bêbados interioranos. Nunca esqueci esse trauma”. “Você... não quer o carro?”. “Naah, eu até aceitaria, mas essa história aí, de documentos aí, e coisa e tal... Nah, cara, não, não. Valeu mesmo. Até.”. Eu sigo andando pela rua e olho pra trás. O rosto do louco que me abordou, perplexo e imóvel, e as mulheres com cara de cu. Ele vira para uma delas. “Olha esse louco!” e aponta pra mim. Eu sigo andando, apressado. “Não posso ficar preso nessa papelada” eu penso. “Tenho que ir ao dentista”.

“Eu nem queria um carro mesmo” eu penso. Sim, é útil, mas foda-se. Eu até estava disposto a aceitar o carro, mas essa história de burocracia e documentos não é pra mim. Acho que o cara que inventou a burocracia morreu sozinho, virgem e mau humorado, reclamando das crianças que fazem barulho brincando na rua. Ele devia ser o cara mais chato do pedaço. Não há nada mais chato que documentação. Mas isso não me incomoda mais.

O que realmente me incomoda é a função que têm se tornado as atividades cotidianas, prazerosas ou não, por causa do capitalismo. Uma saída de casa que deveria ser simples e tranquila se torna um tiroteio caótico, com pessoas te abordando e oferecendo coisas e simplesmente enchendo o seu saco. Nem o parque escapa! Uma tenda de feirão de autos no meio de um lugar pacífico!

Uma vez minha bermuda favorita começou a rasgar em todos os lugares. Isso não me impedia de usá-la, mas me apontou que era uma boa idéia comprar uma bermuda nova, então saí para comprar uma roupa (atividade esta que eu já abomino se for tranquila, imagine quando não o é). Então entrei nessa loja de roupas e uma coisinha feia que mais ou menos se parecia com uma mulher me abordou. “Precisa de ajuda?”. “Yeah, eu estou procurando uma bermuda como esta” eu digo, apontando para minha bermuda rasgada. “Sim! Eu te ajudo, mas que tal, você pode fazer o cartão da nossa loja, e ter 10% de desconto”. “Não, obrigado. Só a bermuda”. “Não, mas lha só, qual seu nome? O que você faz? Estuda alguma coisa? Posso te colocar aqui dentro, estagiar também. É só fazer esse cartão, vamos lá” me puxando pelo braço. “Não, não mesmo”. Ela acabou insistindo tanto que eu aceitei, só pelo desconto que teria. Então começou a me perguntar alguns dados, bla bla bla, e me direcionou para um nerd que ficava atrás de um computador anotando esses dados. Uma porra. Então ele perguntou: “Telefone de dois amigos?”.

“Por que diabos eu daria o telefone de dois amigos?” eu perguntei. “Precisamos saber se tu é uma pessoa de bem” ele disse. “Hey man, olha só: vocês é que estão me oferecendo essa porcaria de cartão. Eu não preciso provar nada, quem paga a porra do preço é vocês. Ademais, por que eu envolviria meus amigos nessa porcaria? Só se eles não fossem meus amigos!”. Ele ficou ali com cara de cu. “Seguinte, estou com pressa. Me passa essa ficha, apaga esses dados, preciso ir buscar meu pai no.... boliche” eu disse, arrancando a ficha de dados da mão dele. Depois disso, fiz ele apagar todos os dados e fui embora apressadamente, puto da cara com o tempo perdido em que eu poderia estar lendo um livro ou sendo atropelado por um motoqueiro embriagado ou um caminhão de cimento. Em seguida fui para outra loja atrás de bermudas. Uma perua com uniforme da loja me abordou: “Precisa de ajuda?”. “Yeah” eu digo. “Estou atrás de uma bermuda”. Ela responde: “Sim, sim, eu te ajudo, mas tu não quer fazer o cartão da nossa loja?”.

As coisas não são mais simples como antes. O mundo não permite mais que gozemos da simplicidade. Temos que pagar caro por nossas escolhas. Porcos filhos da puta.

De qualquer jeito, lá estava eu no parque, e eu pensei em tomar um café. Fui na direção do consultório do dentista e entrei na primeira lanchonete que me surgiu. Cheguei e pedi um café, e notei que um velho conhecido estava lá tomando um café também. Era o senhor C.

O senhor C era o tipo de cara que não parava para respirar. Tinha dois empregos e 4 filhos, cada um com uma esposa diferente. Estava sempre fazendo alguma coisa ou buscando algo para fazer. Era um gerente de naoseioque em alguns lugares. Eu conheci ele porque frequentamos o mesmo grupo terapêutico: AVCPC (Associação das Vítimas da Comida Pronta e Congelada). Era onde discutíamos nosso trauma de precisar comer uma coisa ruim, sem graça e venenosa, só pela praticidade e falta de tempo. Lembro que os depoimentos do senhor C eram os mais trágicos. Ele dizia que se sentia estuprado depois de comer uma pizza congelada de 4 queijos. “Aquele gosto horrível, tão salgado e artificial. Eu não sei por que faço isso, é contra a minha vontade! Mas eu não tenho tempo, não tenho tempo, não...”. Pobre senhor C, chegou no fundo do poço: comia até strogonoff, e frango à xadrez, tudo congelado, de pôr no microondas. Agora ele paga uma cozinheira, está melhor. Sem mais estupros culinários.

“Senhor C” eu digo, me sentando ao seu lado no balcão, apoiando minha xícara de café na mesa e a soltando. “Como está você” eu pergunto, mas ele está vidrado na TV. Ali, passa uma notícia sobre o caos no Rio de Janeiro. Carros e ônibus pegando fogo, e troca de tiros na favela. Caos. O senhor C simplesmente diz, ignorando minha pergunta: “Não adianta, tem que matar esses vagabundos, um por um. Caçá-los como bestas, e fuzilá-los no paredão. É o único jeito”.

“Sem sentido” eu digo. “Eles estão fazendo o que devem fazer. É o certo a ser feito”. Ele fica me olhando. Eu continuo. “O Brasil é o lugar errado para alguém que quer queimar carros. Porque essa pessoa está certa, é claro. Qualquer pessoa que vive em miséria e esquecimento social nesse país que não sente a urgência de queimar carros é digna de preocupação por parte de nós, psicólogos. Não se trata apenas de o único jeito de eles conseguirem algum olhar por parte das pessoas que não se importam – afinal, se eles não fazem isso, o senhor, senhor C, não lembraria deles e não se preocuparia. Se trata de um meio de expressão. Eles estão dizendo que estão cansados de saber que não serão ricos, e de saber não terão suas necessidades supridas por que não alcançarão o sucesso ou um emprego através da norma e de dispositivos feitos por nós”. O senhor C fica calado. “Você é um idiota” ele diz. “Louco".

“Vai por mim, senhor C” eu digo. “O marketing e a publicidade são o novo nazismo, o nazismo do século XXI. Pense bem. ‘Fiat Stilo, ou você tem ou você não tem’. Essas pessoas sabem que não o terão. E como diria Bob Dylan, ‘when you’ve got nothin’, you’ve got nothin’ to lose’. Se eu ou você estivéssemos lá, estaríamos fazendo a mesma coisa que eles. E com orgulho”.

Tomo um gole de café e aprecio o silêncio do senhor C. Fico olhando a TV e percebo que estou cansado demais para ir no dentista. “Merda” eu digo. “Tenho dentista agora, estou muito cansado. O pior é que eu preciso ir”. O senhor C me olha. “Eu posso ir no dentista pra você” ele diz. “Pode? Não vai ser muita mão?” eu pergunto. “Nãão, não mesmo”. “Uau, brigadão cara, valeu mesmo” eu digo. “É agora, ali no prédio do lado”. O senhor C se despede de mim e vai embora apressado.

Eu fico vendo as notícias na TV, alguém filmando um ônibus em chamas e o metal todo se contorcendo. Me lembro de Hunter Thompson. “Se você vai ser louco, é bom que seja pago por isso, senão, te trancarão na prisão ou no manicômio”. De fato. Afinal, todos nós gostamos de pôr fogo em ônibus. O truque é ser pago pra isso.


Theo S. da Rocha