terça-feira, 16 de novembro de 2010

The Wild Woman Within

Há alguns dias, o terror tomou conta de mim. Eu estava com o Medo. Acordara de manhã e reparei que havia bem menos comida na geladeira para meu café da manhã. A dispensa também parecia estar desfalcada. Eu já tinha visto em várias manhãs que as vezes faltava a comida que eu havia comprado no dia anterior, mas me dizia que eu devia estar ficando louco. Dessa vez era real. Havia alguém assaltando a minha geladeira, enquanto eu dormia como uma pedra.

Esse fato realmente deu nos meus nervos. Eu moro sozinho, e não mais me sentia confortável em meu apartamento. O que será que acontecia? Alguém se esgueirava em meu apartamento para me roubar comida? Se o fazia, como fazia? E por que não levava mais nada?

Decidi procurar na internet. O interessante da internet é que sempre haverá alguém em algum lugar com o mesmo problema que o seu. É tiro e queda. Assim, você troca idéias com a pessoa, auxílio mútuo, problema resolvido. Todavia, me fodi no que percebi que meu problema era sério. Conheci esse sujeito que estava tendo o mesmo problema que eu, e a perspectiva não era boa. Como ele resolveu seu problema?

Bom, ele instalou uma câmera escondida em seu apartamento. A câmera ficava sobre um armário, e se podia ver a cozinha inteira: pia, armários e geladeira. Também se via a porta de entrada, e um armarinho sobre a porta da entrada. E qual era o seu problema?

Bem, “nada de mais”. Lá pelas duas da manhã, o armarinho sobre a porta de entrada se abre e sai uma porra de uma mendiga de dentro. Juro por deus. Ela sai do armarinho, se apoia em um banco alto ao lado da porta. Desce, depois desce do banco para o chão, sem emitir um único som. A aparência dela não pode ser mais assustadora. Cabelos longos esfarrapados, roupa esfarrapada, baixinha, magra, toda esfarrapada. Parecia que ela saía de uma festa à fantasia e usava uma fantasia já gasta e vencida da Samara Morgan, do Chamado. Então, a velha Samara tem todo o apartamento para si, já que meu companheiro internauta estava plenamente adormecido. Ela fez seu rango, foi para lá e para cá, mijou na pia, bebeu leite no gargalo, e quando estava prontinha, voltou para o armário sobre a porta usando o banco novamente. Tudo isso sem emitir um pio. O cara estava morando há meses com uma mulher e não sabia! Ele precisou chamar a polícia para tirá-la de lá.

Tamanho foi o medo que me dominou no momento que eu vi esse vídeo, que eu não consigo descrever o terror. Eu sentia vontade de sentar e chorar. Liguei para um amigo. “Ah, pára meu. Se for, é só uma mendigazinha. Tá com medinho é?”. “Cara, eu não temo a mendiga. Eu temo o que ela parece ser, e o que ela pode fazer comigo a noite, e o que ela pode ter feito com a comida que eu como, o leite que eu bebo e a pia em que lavo minha louça” eu respondi, trêmulo. “Mas acima de tudo, eu tenho medo do que ela parece ser”.

Vasculhei a casa inteira por alguma criatura selvagem e maldita escondida. Nada. Armarinhos, atrás de armarinhos, tranca de janela, cada pequeno centímetro quadrado do meu apartamento foi cautelosamente analisado. Nada. Seria um poltergeist? O que ele estava esperando para me matar? Será que era tão divertido me ver congelado de medo? Me torturar até meu medo parar de provocar-lhe risadas, e assim, me executar, como a um animal qualquer?

O problema persistia, então fiquei a noite inteira acordado, aguardando no escuro para algum ser estranho e ameaçador assaltar minha cozinha pensando que não estou ali. Dessa vez, ninguém roubou minhas comidas. Finalmente, me rendi à solução do meu companheiro internauta: câmera escondida. Pus a câmera sobre um armário alto da sala, com vista para a cozinha inteira. Antes de dormir, liguei ela. Gravando.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que eu fiz, enjoado de medo e trêmulo como nunca, foi ver a gravação. Eu liguei a câmera e rebobinei inteira. Depois, fui assistindo, passando rapidamente no fast-forward pelas horas sem movimento. Finalmente, surgiu alguém. Um cara de pijamas, arrastando os pés no chão, vulgo, EU, tranquilamente abrindo a geladeira e comendo um iogurte de morango. Passo a fazer um sanduíche, depois faço outro sanduíche e uma torrada, então como algumas colheres de doce de leite, e em seguida termino com uma fatia de bolo de chocolate. Tomo alguns goles d’água e volto ao meu quarto. Mais tarde, retorno à cozinha, e como, santo deus, uma barra de chocolate inteira.

“Analista, meu caro” disse uma amiga, quando busquei seus conselhos. “Não espere demais. Vai acabar enlouquecendo. Ou pior, engordando”. Contactei um analista rapidamente. “Como eu poderia estar fazendo aquilo e sequer percebendo?” eu pensava. Sentia medo. Se estava sonâmbulo à ponto de comer como um pobre abutre esfomeado, era capaz de fazer qualquer coisa dormindo. Sair à rua, matar alguém, me matar... A tendência era tudo ficar pior.

Depois de alguns meses de análise, meu analista me deu seu parecer. “Você tem uma mulher dentro de si”.

“Ohoho. Opa! Peraí doutor! Eu sei pra que time eu jogo. Eu não sou do tipo que... você sabe...” eu disse, deixando a questão em aberto. “Eu sei, e não foi isso que eu quis dizer” ele disse. “Já ouviu falar de ‘anima’?” ele perguntou. Eu disse que não. “De acordo com a minha linha teórica, levo em conta que o inconsciente de um homem possui, de fato, características consideradas femininas para o contexto da atualidade, assim como o inconsciente de uma mulher possui características masculinas”. “Pode explicar isso aí de novo?” eu pedi. “Bem, o que eu quero dizer é que o inconsciente do homem é uma mulher, e vice versa”.

“Eu não compro essa idéia” eu disse. Ele foi à estante de livros ali e pegou um livro, abrindo-o aleatoriamente. Me mostrou umas gravuras, e uma série de suposições que apontavam para a existência de, pasmem, uma mulher em mim. Ele então chegou numa página com uma gravura absurda. A visão desta gravura me deu arrepios. Era um desenho rústico de uma mulher nua sobre as árvores. Ela tinha cabelos muito longos e esfarrapados, grandes e redondos olhos brancos, unhas desumanamente longas, magra como um palito de fósforos. Ela me lembrava a mendiga do vídeo, só que muito mais assustadora por ser selvagem. O analista me disse que ela era minha anima.

“Ok, doutor, então vamos conversar” eu digo, tirando a carteira do bolso. “Quanto eu devo lhe pagar para tirar esse demónio assustador desenfreado de mim?”. Ele ficou me olhando. “Vamos lá” eu insisti. “Eu pago quanto tiver que ser, se o senhor aceitar suaves prestações”. “Ora, não tem como tirar esse ‘demônio’ de ti” ele disse rindo. “Estamos aqui para você aprender a lidar e dialogar com ele”. “Lidar com ele? DIALOGAR COM ELE? Doutor, não sei se o senhor não é muito apegado à primeiras impressões, mas esse ser selvagem não dialoga com ninguém. Olha!” eu apontei para a gravura. “Alem de selvagem, é uma mulher! Convenhamos, esse ser dita as regras! A possibilidade de diálogo há muito foi cortada”. O doutor riu. Se ele via o pânico que me tomava, com certeza não mencionou, mas isso deve ter divertido-o até demais.

“A questão, meu caro, é que essa humilde mulher quer te ensinar uma lição” ele disse. “Ela quer te ensinar que você pode ditar suas próprias regras”. “Ora, e como o senhor sabe disso?” eu perguntei. “Por acaso o senhor tem falado com ela?”. “Eu não preciso” ele disse. “O fato de ela comer, como vi no vídeo de sua câmera, tão desenfreadamente, quer dizer uma tentativa de ir contra o costume e contexto sócio-cultural”. “Doutor, português, faz favor” eu digo. “Ela está com medo de emagrecer, meu caro. Ela só quer ser diferente de todas outras. Ela só quer te mostrar que é você, e apenas você, que dita suas próprias regras. É um pedido para que você se torne você, e não o que as pessoas esperam de ti”.

“Doutor, isso é balela” eu digo. “Meu caro, diga algo que você sempre quis fazer, mas sempre teve vergonha”. “Doutor, eu já disse que eu não sou...” “Eu sei” ele me interrompe. “Mas deve haver algo que você quer fazer, mas não se permite”.

Eu olho para os lados, hesitante. Finalmente, decido dizer. “Bem, doutor, sabe como é, eu não sou mais uma criança. Na minha época, os brinquedos eram tão... simples, sabe?”. “Sei” ele diz. “Prossiga”. “Bem”, eu continuo. “Eu sempre... sempre quis brincar com aqueles legos que vêm com um motor à pilhas, sabe? Aí você junta eixos e faz um carro, e ainda vem com aquelas fibras ópticas que vão brilhando e brilhando e girando... é tão fantástico!” eu confesso, finalmente.

No retorno ao apartamento, compro o lego. Tantas pecinhas, tão bonitas! Tudo brilhante! Acho que o ser humano veio à Terra só para brincar. Não há nada como isso.

Agora, minhas comidas pararam de “desaparecer”. Não mais eu estive sonâmbulo. Levei algum tempo para constatar que o doutor estava, de fato, certo. É bem coisa de mulher mesmo, fazer todo um alarde, uma tempestade no copo d’água, só por uma coisinha tão pequena e boba...

Mas sempre que eu chego em casa, cansado do trabalho e de desempenhar um papel falso, não tem nada mais relaxante do que desmontar meu carrinho de lego, e montar um novo veículo, cheio de fibras ópticas e um motor à pilhas.


Theo S. da Rocha