Eu tinha recém começado a caminhar no deserto depois um longo período de reflexão: “Como vim parar aqui?”.
Mas assim que comecei a vagar, encontrei um homem. Ele veio até mim e disse:
“Eu sou um homem bom, eu sou um homem de bem. Vim aqui te dizer que esta é sua alma, e pegar seus bens também”.
“Meus bens?”, eu disse. “Por que?”.
“Veja bem, veja bem, você não precisa de aliados nem de acessórios. Para lidar com sua alma, só olhos humildes e simplórios”.
Então eu dei-lhe meus bens. Quando chegou na hora de dar-lhe minhas roupas, eu o confrontei.
“Sinto muito, mas não posso dar-te minhas roupas em nenhuma via. Elas me aquecem de noite e me protegem do sol durante o dia”.
Eis que ele respondeu, como se fosse uma obviedade:
“Esta é sua terra, você a criou, e aqui, és uma divindade. Todo o calor que sentires é empatia, e todo o frio que fizeres será hostilidade”.
“E por que estou aqui?”, eu perguntei, tirando a roupa e entregando-o.
“Eis que tens que passar por isso para viver seus símbolos e se conhecer. Quando tudo isso acabar, verás que sobre a sua alma tens muito o que aprender”.
Então o homem sumiu.
Eu caminhei e pouco tempo depois me tornei um lagarto. Rastejei agilmente pela areia, fazendo pouco mais que um ruído surdo e sutil. Ninguém me via. Depois, virei um camelo, e exibi toda minha resistência. Eventualmente, virei um corvo, e voei para o longe, vendo tudo o que estava ou não ao alcance de meus olhos. Depois, me tornei um peixe, e me debati na areia do deserto, morrendo de um último suspiro que nunca aconteceu.
Theo S. da Rocha