segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Tribo

Eu tinha que acordar cedo.

Eu não nasci para acordar cedo. Com o sono gravemente interrompido, fico em estado vegetativo. Muito enjoado para comer alguma coisa, mas com muita fome para tolerar o enjôo. O urso em meu estômago fica se revirando o dia inteiro: eu almoço pouco, e fico ainda mais torto de tarde. Só me estabilizo na janta. Isso se eu jantar.

Eu tinha um funeral para ir. Sem jeito de faltar. Um amigo tinha morrido, jovem demais. Digo “amigo” por não gostar de classificar amizades. Em qualquer situação, eu diria “conhecido”, mas é uma questão de não se passar por um filho da puta e tentar vangloriar alguém que já não pode fazer mais merdas na vida. Etiqueta funerária. O cara morreu me devendo 30 reais. Mas não era o dinheiro que me incomodava.

Alem de um nariz grande e vermelho, eu tenho um péssimo senso de humor. Não consigo rir de situações comumente ditas como engraçadas. Não vejo graça em piadas, nem em nada que se deva rir. Por consequência, minha primeira reação em situações sérias, ou formais, em que definitivamente não se pode rir, eu não consigo me segurar. Digo as pessoas que essa é a minha reação ao sério e ao nervosismo: rir. E que eu, de fato, não quero rir, e embora eu sinta isso, sempre acho que talvez esteja rindo de alguma coisa. Era isso que me incomodava. A idéia de não se segurar e desatar a rir, justamente em um funeral.

Assim, as dez da manhã – casualmente um horário que eu havia inclusive esquecido que existia – um amigo meu veio me buscar de carro para atendermos ao funeral. Silêncio no carro. Sou atacado por uma memória do morto. Todos temos uma memória de cada pessoa que fica gravada, uma situação que define essa pessoa para você. A minha com Matty (o morto), era uma vez que estávamos andando em uma avenida de noite, um bando de caras embriagados. Matty queria ganhar dinheiro de qualquer forma, então disparava desafios para as outras pessoas, tentando fazer apostas do que ele seria ou não capaz de fazer. Como sempre, em um grupo, há alguém disposto a pagar para ver. Matty então perguntou se alguém duvidava de que ele podia pular por cima de um carro estacionado na rua. Ele pulou, mas se esborrachou no chão e ralou o lado direito inteiro de seu rosto. Risonho, embriagado, e satisfeito com seu machismo, ele exibiu a todos nós os vinte reais que ganhou com o feito, enquanto o alarme do carro ecoava por entre os prédios.

Matty girava em torno de dinheiro, sempre. Era como uma mariposa voando em círculos em volta de uma lâmpada. A diferença é que Matty fazia isso pelo poder. Talvez as mariposas também o fazem por poder. Talvez elas só queiram ficar mais bronzeadas que as outras mariposas, só para se sentir melhor e mais confiantes com elas mesmas, e tentar driblar o vazio que escondem dentro de si. Já matei mariposas. Elas não tem entranhas, ou líquidos estranhos, não como quando se mata uma barata, e ela explode em uma variedade de substâncias nojentas. Mariposas são vazias.

Chegamos ao funeral. Vejo o acúmulo de pessoas. Rostos fechados, caras de cu. Tristeza. O caixão de Matty está aberto. Vejo ele, muito provavelmente pela primeira vez, sério. Imóvel, inofensivo. Uma idéia me ataca de súbito, em escrever dedicatórias pelo caixão. “Matty: quem cala, consente”. “Matty: sentiremos sua falta”. “Matty: estou quase conseguindo não rir sem motivo aparente”. O primeiro espasmo de risada me ataca. Me controlo, fungo um pouco e finjo ser inconformismo.

Não é que eu esteja alegre com a situação, é simplesmente o nervosismo. Talvez eu sinta falta de Matty. Talvez não. Mas a tristeza que me abate não tem nada a ver com saudades. Apenas a idéia de juventude interrompida. De qualquer jeito, há tipos de morte com os quais simpatizo, e reconheço em silêncio, e outros em que eu simplesmente penso “ok, o cara pediu”. Matty era do segundo tipo.

As vezes me deparo com notícias de câncer, por exemplo. Simplesmente assim. Tudo jogado fora, sem escolha alguma, sem controle. Juventude vencida pela doença. É triste. Matty, por outro lado, fez sua viagem ao inferno por uma de suas apostas. Ele estava casualmente surfando em um carro de madrugada. Alguém mais burro ainda, dirigindo o carro, fez uma curva. Matty teve o prazer de conhecer Newton: seguiu o caminho original, e caiu de cabeça no chão.

Os detalhes eu não sei mais. Não sei se morreu na hora, ou sequer as consequências do choque. Enquanto iam me dizendo, eu apenas conseguia pensar: que cara idiota. Isso era típico de Matty. Um dia algo aconteceria.

Lembro que uma vez no colégio Matty tirou muito sarro de um cara que tirou zero em uma prova. Zero! Ir mal em uma avaliação é comum. É compreensível, e até cool. Mas zero é simplesmente demais. É como alguns jogos de loteria, em que se tu não acerta nenhum número, ganha um prêmio. “Que feito hein! Aqui está, seu imbecil azarado. Assim tu não fica triste”. Na verdade, todos tiramos sarro do cara. Não é muito uma memória de Matty, mas mesmo assim diz respeito a ele. Consigo imaginar muito bem ele cantando alguma do tipo “Se eu conseguir tirar zero nessa prova, que tal tu me pagar uns dez pila?”.

“Matty: você morreu fazendo o que gostava”. O díficil em um funeral é não cometer gafes. Funeral é o epicentro das gafes. É lá que elas se encontram. A pior coisa a se dizer é “ele morreu fazendo o que gostava”. Ou, encontrar um conhecido e perguntar “Eaí, tudo bom?”. Em um funeral, uma troca de palavras se torna um passeio cotidiano por um campo minado. Cumprimento a família dele, mando meus pêsames. Fracasso, entretanto, em expressar inconformismo. O padre sobe num altar e começa a metralhar sua ladainha. Depois do que parece uma década, fecha-se o caixão, e membros da família vão o levando para a cova. Fundo, terra, adeus.

Também fracasso em pensar “Adeus Matty”. Infelizmente vou encontrar o filho da puta em todos os outros gananciosos e dinheirocentristas que eu encontrar por aí, e com certeza eles não são poucos. Sequer se disfarçam.

Assim, nós, a tribo dos caras-fechadas vestidos de preto, terminado o ritual, nos dispersamos e seguimos nosso caminho. Consigo uma carona de volta com o mesmo sujeito que me buscou. Me sinto vitorioso por ter conseguido segurar firmemente todas as palavras e reações que sentia vontade de disparar. Se eu mantivesse uma dieta de um funeral por semana, conseguiria um emprego maravilhoso. Talvez banqueiro. Ou estudar direito. A lei.

Chego em casa e preparo um lanche. Sanduíche. Com o sol a pino, volto a me deitar, e rapidamente retomo meu sono. Tenho um sonho estranho. Li em algum lugar que homens são mais propensos a sonhar com homens, enquanto as mulheres sonham os dois sexos igualmente. Que gafe. Provavelmente advinda de um funeral. Eu sempre sonho com mulheres. São minhas personagens favoritas.


Theo S. da Rocha