- Aqui, desse lado tem coisa boa – o velho disse, apontando para uma prateleira alta, a mais extensa do moquifo – Histórias regulares com final feliz. É o que eu mais vendo pra esse pessoal de filme.
- Legal, legal – eu respondo sem jeito – Mas na verdade eu estava atrás de algo novo, sabe, eu escrevo, apenas.
- Hmmm escreve apenas? Sei perfeitamente o que você quer. Me siga – ele faz um gesto brusco em sua direção, e anda até uma prateleira pequena, mas com uma variedade considerável – Críticas à sociedade, atualidade, modo de vida. São idéias interessantes, bem organizadas. Uma crítica construída a partir de uma história de uma pessoa qualquer, tudo sujeito ao entendimento do leitor. Coisa profunda, acho que tu vai gostar.
- Sei, sei, talvez seja uma boa – eu respondo. Então, penso novamente – Na verdade, isso dá muito trabalho. Queria algo curto, mas que chamasse a atenção, prendesse. Divertido, mas não fútil, algo que despertasse o desejo de que a história fosse mais longa, e mais detalhada, mas sendo ao mesmo tempo um pouco, veja bem, um pouquinho, trash e non sense.
- Bom, temos eróticos ali na estante ao lado – ele estende a mão, trêmula - Mas acho que sei o que tu procura. Te entendi! Deste lado aqui temos histórias muito interessantes: Drogas, tu vê.. – ele me olha nos olhos, e se volta para a prateleira – todos os pontos de vista, temos críticas, apologia, estilo de vida, histórias de pessoas, a maioria possui um bom toque de humor negro, as vezes nojento, as vezes pura e simplesmente engraçado.
- Hmm, interessante. Legal, talvez eu... – levo a mão no queixo, coço um pouco – Não, não... Já escrevi muito sobre isso. Pra isso, eu até levo um jeito. Não vou precisar dessas idéias. Preciso de algo inovador, que ninguém tenha pensado antes... Só que me falta essa genialidade, essa exclusividade. Por isso eu vim aqui...
- Bom, meu amigo, eu particularmente creio que tudo o que pode ser criado, já foi criado, heheheh – uma risada rouca, talvez com um pouquinho de frustração.
- É, acho que eu também
Um silêncio se instala no ambiente. O velho oferece um café, eu recuso. Ele me deixa sozinho por ali, pensante. “Tudo já foi criado” diz ele. Não creio nisso. Na verdade, há uma certa lógica aí. Tudo o que existe já foi criado, é um pouco óbvio. O que não existe ainda não foi criado, acho que é a isso que o verbo “criar” significa. Adiciona-se algo novo ao mundo, dá a luz, pári. É ser o deus de alguma coisa, se houvesse a possibilidade.
Velho louco. Também, pouco se espera de uma pessoa que vende idéias. Quer dizer, quem teve aquelas idéias todas, ele? De onde ele consegue tantas idéias? Ele senta em frente a sua mesa e abre o jornal, sessão de esportes. A caneca com café preto, fumegando.
Pensando bem, que papo foi esse de tudo já foi criado? O cara administra uma porra de uma loja de idéias, vem me dizer que tudo já foi criado. Só se ele teve a última idéia do mundo. E mesmo tendo, para que se esconder? Mostre ao mundo que tu teve uma idéia tão brilhante assim.
Toda essa reflexão me deixou um pouco rancoroso desse vendedor beato. Eu fui até o balcão tirar as caras.
- Ei, amigo. Escuta só, eu fiquei pensando agora
- Hmmm, isso é bom – ele me interrompe, um pouco presunçoso.
- Sim, bom, eu acho que tu foi um pouco contraditório, e pouco incentivador, dizendo, sabe, que tudo já foi criado. Quer dizer, tu teve a idéia de vender idéias, e criou isso, tu acha que tu é a última pessoa a criar algo no mundo?
Ele me olha nos olhos. A faísca de desprezo em seu olhar rapidamente desvaneceu e deu lugar a um olhar de superioridade e generosidade, de um tutor para seu aprendiz.
- Não, tu vê...- ele afirma, gesticulando calmamente ao ar – Um grande autor pensou isto quando estava sem ideias, o que na verdade é genial, se tu for pensar. Vou falar a você um pouco dele. Excêntrico como era, seu nome era....
Ah, ótimo! Já pensaram nisso. Deixo de ouvir o velho e mergulho em minha frustração. Essa situação que daria uma ótima história curta já foi pensada por outro pau no cu com a ânsia de criar e ser criativo. Fala a verdade, vou chegar em casa, fumar um baseado e dormir. Talvez ver uma tv. Esses filmes trash de ação são muito válidos quando se está chapado. Talvez eu toque um teclado também. Nada de improviso hoje, entretanto. Apenas Doors. Não estou nesse ápice criativo de outrora. Pensando bem, um pouco de fome, talvez eu coma uma pizza, dessas congeladas, não quero cozinhar.
Theo S. da Rocha