domingo, 29 de agosto de 2010

A coletânea de sonhos

Tem esse morcego que vem falar comigo todo domingo a noite. Sua visita me permite a capacidade de voar durante a semana, mas fico tão empolgado com esse poder que gasto toda a minha credibilidade na segunda feira, tendo que aguardar até o próximo domingo para poder voar novamente.

Mas eu estou nesse shopping com um amigo para comprar chocolate para uma amiga mas tudo está fechado e não há ninguém em nenhum lugar. Meu amigo desaparece, sigo procurando uma loja de chocolates, e eles precisam ser caros e bons, mas eu esqueci de pôr roupas antes de sair de casa e percebo que estou nu.

Subo num ônibus para ir à patagônia mas não conheço ninguém nele. No caminho, paramos num acampamento de terra batida. As pessoas são estranhas e desconhecidas, há fogueiras em vários lugares e gente de todo o tipo bebendo ou confraternizando. Estou sozinho, então fico numa fila. Na minha frente, tem um tipo marrento de boné vermelho virado para trás. “Mas como eu vim parar aqui?” eu penso. Nada faz sentido. “Acho que estou sonhando”. Só há uma maneira de acabar com essa dúvida, então encho a mão e dou um tapa na nuca do marrento. Ele se vira inconformado e pergunta se eu poderia ficar na minha. Com certeza isso não é real, se fosse, eu seria agredido. Aproveito o fato de ter percebido que estou sonhando e saio em busca de elementos novos no acampamento. Mas essa menina vem falar comigo e eu fico me perguntando “por que que ela quer falar comigo se ela sabe que eu estou sonhando?”. Subitamente acordo inconformado com ter perdido a oportunidade de conhecer meu sonho.

Estou no pátio de casa e vejo uma árvore que nunca tinha percebido antes. “Mas como que eu nunca vi esta árvore antes no meu quintal?” penso. Me aproximo dela, mas vejo que não era uma árvore, e sim uma cadeira de rodas.

Uma águia sobrevoa o oceano ao lado de uma geleira gigante. O sol brilha sobre o horizonte, ofuscando. A águia mergulha no mar e emerge novamente. Ela segue sobrevoando, mas se mantém com uma pata arrastando sobre o mar. Corpo na superfície, patas no subterrâneo. A águia some de vista.

De algum jeito, eu caí. O chão vem de encontro rapidamente ao meu rosto, um som seco ecoa em meus ouvidos. Eu não sinto dor, mas meu ombro está aberto. Há uma cratera em minha pele que permite que litros de sangue escorram por minha roupa, pingando no chão. Assustado, ainda sem sentir dor, mexo meu ombro, e o osso emerge para fora da pele. Ele não é branco, é meio acinzentado, e nessa emergência rápida, sinto frio nele. Finalmente, a dor. O frio bate nele e me afeta de uma forma como nunca antes. Recolho meu ombro para dentro do corpo novamente e o frio passa. Me deito na cama tentando não mexer muito meu ferimento. “Como que eu vou tocar teclado assim?” penso. Como levarei meu dia a dia, com um ombro aberto limitado a não fazer movimentos porque o osso emerge para fora do meu corpo e o frio se torna dor?

“Se bem que, esse é um ferimento pouco usual” penso. Há um buraco na minha pele. “Será que isso é real?” penso finalmente.

Abro os olhos e estou deitado em minha cama. “Era um sonho?”. Confiro meu ombro, ele está bem. Acordei na mesma posição em que havia deitado no sonho. Subitamente, tudo me parece diferente. Não me sinto vivendo a realidade. Será que ainda estou sonhando? Nada parece real, e tudo é confuso e nebuloso. Um verso de uma musica que não conheço e jamais ouvi ecoa repetidamente na minha cabeça: “institutional love”. Mas será que quer dizer “institutional love” ou “institution of love”?

Nada é real, ou parece real. O que é realidade? Por que tudo parece fictício? Estou tendo um sonho dentro de um sonho? Desço as escadas para beber água, bebo 4 copos apressadamente. “O que está acontecendo?”. Volto para a cama e nada é real, mas estou desperto. Isso não é um sonho, mas, se também não é a realidade, o que é?

Volto a dormir e, na manhã seguinte, o sentimento se ameniza. Ainda não sei o que é realidade.

Às vezes sonho tanto que

Os sonhos parecem uma realidade falsa

E a realidade parece uma falsidade real.



Theo S. da Rocha