quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Touch of Fate (ou "O Chapéu")

- Merda! Meu chapéu! Esqueci ele...

- Tudo bem, acho que você está bem assim – ela disse

- Não, é que tu não entende, eu preciso estar com meu chapéu, vou ter que voltar pra casa buscá-lo – ele disse, visivelmente nervoso

- Mas porque, tu não precisa dele, mesmo!

- Tu não entende, porque nós não fazemos o seguinte, vou voltar pra buscá-lo e chego aqui em meia hora. Tu me espera?

- Como assim? Se é tão importante pra ti, porque esqueceu e veio até aqui sem ele se necessitava tanto? – ela já não gostava de atucanação, mas aquilo passava dos limites para um primeiro encontro. Sinais de agressividade surgiam, ela já evidenciava que o ódio brotou forte.

- Sério, me espera aí. Pode ser? Não vai demorar mesmo.

Ela não precisava responder. Mesmo assim, permaneceu sentada naquele banco do parque. Ele parecia tão legal de início, mas que pessoa estranha! Ela já tinha um histórico de atrair caras neuróticos, mas esse superava todos os outros no quesito stress. “Acho que nunca vou conseguir uma companhia legal, ter um compromisso, um relacionamento satisfatório”.

Oscilando entre frustração e raiva, ela não ficou muito tempo parada ali. Ligou para seu melhor amigo, que estava coincidentemente por ali com o namorado, e foi se juntar ao programa deles. Eles foram no Mc Donalds depois, e durante a noite, num bar, ela conheceria um cara que se tornaria seu namorado em poucos meses.

O cara nunca chegou tão rápido em casa. Não que correr fosse fácil em suas condições, mas era uma situação de vida ou morte. Ele chegou em casa sem tempo o suficiente para fechar a porta no caminho ao banheiro. Aquela pizza congelada, que nunca tinha tempo o suficiente para ficar no forno até o ponto, cobrou um preço alto. E por um longo tempo também.

Ele conhecera aquela garota há três anos por um amigo de um amigo, embora demorasse ainda mais de dois desses anos para ter coragem de falar com ela. Tudo estava, e ele sabia que estava, dando certo durante sua aproximação, e aquele ia ser o primeiro encontro. Ele ainda percebeu que tudo ia dar certo para ele aquele dia, um milésimo de segundo antes de receber a pontada de aviso prévio do seu intestino, que necessitaria de um novo lar em menos de dez minutos. Falou do chapéu, que por alguma razão estranha ele esquecera mas não fazia a menor questão de usa-lo no momento, e saiu o quanto antes. Depois, o jovem ainda retornou ao parque apenas para ver se havia alguma chance... De quebra, encontrou ela com seus amigos. “Tudo bem, ela não veria muita graça em ficar comigo por muito tempo de qualquer maneira”.

Depois de novamente retornar pra casa, derrotado, ele ligou a tv para se distrair um pouco. Ele também sairia naquela noite. Se embebedou com os amigos, tendo sido o único que não achou uma moça para se divertir.

Ele chegou em casa, cambaleante. Deitou na cama com a luz ligada, e uma musiquinha baixa. Aproveitou a embriaguez para pensar em seu dia como um todo. Tudo dava errado. Só pedrada.

Ele dá uma risada. “Tô na merda”. Mas nada disso importava para ele. O reconhecimento de uma situação de apenas contras não despertava depressão, tristeza, frustração, raiva. Despertava alegria. Tirando os tênis usando os calcanhares, uma plenitude tomou conta dele. Solteiro, viajante, não sabia o que o destino o reservava. A imprevisibilidade era o combustível de sua vida. As coisas estavam em seu lugar.

Momentos antes de adormecer, um raio de sobriedade cruzou sua mente, com o patético reconhecimento de que aquele sentimento maravilhoso era apenas o álcool, e que amanha, na ressaca, a tristeza cobraria em dobro.

Nem ele sabia.



Theo S. da Rocha