quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Obra

“O que há de revoltante num estilo de vida individual? As pessoas se irritam com aqueles que adotam padrões de vida muito individuais: elas se sentem humilhadas, reduzidas a seres ordinários com o tratamento extraordinário que elas dispensam a si mesmas. ”

F. Nietzche



Ponto final. Aquele era o fim. O tão aclamado escritor de romances Franco Frizo finalmente terminara aquela que, sem dúvida, se tornaria a maior obra de sua vida. Depois de digitar o ponto final, ele se encostou no encosto da cadeira, um sentimento de completude tomou conta de seu corpo. Ele acende um charuto para comemorar, e decide fazer aquilo que só se permitia fazer quando terminava uma obra. Pinga um pouco de whisky no seu copo e bebe muito aos poucos. É impossível não sorrir.

Ele termina esse ritual, recolhe o manuscrito, o organiza brevemente, sai do seu escritório e atravessa a sala, para entregá-lo a sua esposa. Ele nunca publicava algo antes que sua esposa lesse também. Ela não era muito crítica quanto aos textos dele, gostava e valorizava seu gesto de carinho. Ela recebe o manuscrito, sua mão delicada e sutil acaricia a capa, como que afagando um cachorrinho que ela sabe que vai acabar por conhecer muito bem.

Franco Frizo era um famoso escritor. Todas as suas obras tinham um cunho conservador, linha dura e, nos termos dos marginais da época, careta. Mas essa obra em particular era simplesmente a última palavra na filosofia de toda a sua vida. Era um pensamento consumado e bem sustentado. Indiscutível.

“A Verdadeira Prisão”, o nome de sua obra, tratava da vida de um homem considerado por Franco o tipo parasita que habita o planeta Terra. Este homem se chamava Joy. Joy era uma espécie de hippie do novo século, e praticava justamente a filosofia contrária a de seu criador. Joy foi caracterizado durante a obra inteira como uma pessoa que fazia justamente o que queria de sua vida. Joy viajou, conheceu pessoas, usou drogas, pensou sobre a vida das mais diferentes formas e dos mais variados pontos de vista. A obra narra apenas um trecho de sua vida, algumas viagens, breves relacionamentos e experiências inusitadas e incomuns. A narrativa era genial. Contava um pequeno intervalo da trajetória dessa vida, num tom irônico e sarcástico, evidenciando a futilidade do personagem e o quão patético era seu descaso quanto aos riscos que corria quando agia sem pensar, em prol da instabilidade e excentricidade da vida que ele desejava levar. Um show consevador sem precedentes e com bases sólidas em certezas dadas por fatos. Exibia um ponto de vista novo e convincente sobre como uma pessoa deveria levar a vida, sem se deixar influenciar pelas pessoas de mente pequena que precisam fazer o que querem quando querem sem carregar fardos ou preocupações.

Sua mulher, ao terminar de ler, não teve dúvidas. Aquela era a consolidação de sua maturidade e pensamento na literatura. Um discurso sem a possibilidade de refutação. Aquele livro, seria o sucesso, e influenciaria gerações. Ela estava sem palavras. Nos dias seguintes, leu novamente, e ao terminar, retornou-o a seu magnífico criador.

Franco se sentia completo e orgulhoso, e ia mandar sua fantástica construção para a editora quando, não sabe por que, decidiu lê-la novamente. Faria isso em uma tarde, apenas. Era seu livro, e não teria problemas em ler sem se cansar. Ele sentou em sua confortável poltrona, na sala em frente a TV, e começou a apreciar novamente sua obra.

Feliz, as páginas passavam rapidamente para ele, mas ao chegar dos capítulos mais avançados da história, sentiu uma palpitação estranha. Algo estava errado, mas ele não sabia o que era. Franco começou a sentir um ódio diferente de tudo o que sentira antes. Enquanto escrevia, Franco não tinha sentimentos sobre o exótico personagem que criava a cada página, ele era um objeto, usado pelo autor com maestria para expor um ponto de vista. Mas para sua infelicidade, nessa releitura, Joy apareceu para Franco como uma pessoa. Era um sentimento estranho, a vida inteira, Franco brincava e interagia com objetos, e agora, aparece a ele, uma pessoa. Logo aquela que ele criara. Ainda deslumbrado com a descoberta, sem saber o que fazer com ela, odiou-a. Mas não era um ódio comum. Franco odiava Joy com todas as suas forças. Quem esse Joy pensa que é? Para o pobre Franco, nem sua esposa transpassava a condição de objeto, e a visão dessa magnitude, dessa infinitude, o reconhecimento de outra pessoa, desejante, viva, sentimental, era demais para sua mente despreparada. Aquele coração, por mais bem intencionado que fosse, foi dominado pela mais intensa repulsa que podia sentir. E, pela primeira vez na vida desde os anos de criança, agiu sem pensar e queimou seu manuscrito na lareira.

Aquela labareda ficava cada vez maior, enquanto o fantasma de sua criação desvanecia lentamente. E tudo o que ele via e sentia, era aquela chama ardente. Não percebeu o susto que sua esposa levou, e quando finalmente voltou para si, sua roupa estava rasgada, seu cabelo, despenteado, a respiração ofegante enquanto sua esposa, ao seu lado, indagava-o do porque daquela gritaria toda.

Mas o que foi aquilo? Um sonho? A situação toda desvaneceu em sua cabeça, enquanto as ultimas cinzas de seu maior romance se firmavam no chão da lareira. Como não sabia descrever o que sentiu, rapidamente todo o surto foi extinto de sua mente. A única coisa que sentia agora, por mais estranho que sentisse, era que ele não estava arrependido que sua provável maior obra agora se perdera no tempo, no espaço, e em sua memória. Sua esposa sentia desamparo. Era uma lástima. Um livro tão bom que seria, pagaria tranquilamente a viagem deles para os EUA.

Mas haverão outras, ela pensou.

Alguns dias depois, ele estranhou seu comportamento. Conversando com um colega dos tempos de Faculdade de Direito, trocou o termo “inverdade” por “inveja”.

Mas ele jamais saberia...

Theo S. da Rocha