- Pra onde vamos, o que faremos?
A noite é fria, incerta. Talvez um bar, tomar umas cervejas e voltar pra casa. Ou então vagar pelas ruas a passos lentos buscando algo novo, até que nos cansemos e cada um vai para seu apartamento dormir. Ainda se pode entrar em algum lugar com música alta, gente chata, bebidas até as 6 da manhã quando podemos retornar ao lar de ônibus (seja onde for isso, lar). É sempre cedo demais para fazer planos, a vida é uma máquina de improbabilidades funcionando a todo vapor, e resistir é perda de tempo. Um vento arrasta algumas folhas secas que passam por nós em alta velocidade. Vento frio, noite fria. Mas ninguém se mexe. Cada um na sua, ou sintonia?
- Pra onde vamos, o que faremos?
Os carros zunem na avenida. Alguns passam gritando, profanando suas idéias e insultos à cidade, apontando para o céu. Outros só passam. Sem contar os que quase voam, desviando descontroladamente dos outros carros, perdendo controle, e o motor aos urros de altas rotações, enquanto os pneus choram. Já não há mais ônibus e as poucas pessoas que passam evitam contato visual.
Um grupo de seis ou sete pessoas embriagadas passam, rindo alto. Alguns caras e algumas meninas tentando relaxar, exploram o eco de seus gritos entre os prédios altos, falando coisas que só fazem sentido para eles. Eles se aproximam de nós, espontaneamente explorando o improviso de um diálogo inusitado:
- Você tá triste?
- Por que estaria? – eu respondo, ao perguntante
- Ora, sentado aí sem fazer nada – uma menina diz. O tom deles é de deboche, mas gosto de interagir com sobriedade à embriaguez. Não creio que isso aconteça frequentemente, então é melhor abraçar a situação.
- Estamos pensando – eu digo – e isso toma tempo e atenção. Não consigo pensar e fazer outra coisa ao mesmo tempo. Eu e meu amigo temos a síndrome de Blake. Pensar torna-se um esforço absurdo.
O grupo se olha, uns aos outros. Dois dos caras se recusam a acreditar, o resto mostra algum interesse. A maioria já excedeu sua cota de bebidas há muito tempo, e isso me torna uma pessoa mais persuasiva. Isso definitivamente não é comum.
- Mas que doença é essa? – a mesma menina pergunta
- É neurológica, não conseguimos pensar direito. Por isso estamos aqui apáticos. Nós nos formamos numa escola especial para doentes de Blake, esse meu amigo foi meu colega lá. Ele é mudo também.
- Nossa, mas deve ser difícil – até os céticos agora foram persuadidos.
Fico ali inventando sintomas. Conto histórias dos tempos de escola especial até que eles se mostrem cansados e entediados, acham uma brecha e se despedem. Digo que são sortudos de poderem pensar com tanta facilidade. Antes que virem as costas e partam, digo que por outro lado, isso torna fútil o pensamento: raso e sem importância devida atribuída.
Não duvido disso, pra falar a verdade. É tão fácil e comum pensar que as pessoas mesmo pensando deixam de pensar, porque acham rotineiro. Acho que eu faço isso também. Depois que vão embora, ouvimos risadas deles ao longe. Acho que quero ficar bêbado hoje, as coisas ficam mais fluidas. Fúteis. Talvez dar umas risadas.
- Pra onde vamos, o que faremos?
Eu estava prestes a dizer isso. Acho que meu amigo pensou a mesma coisa que eu.
- Barzinho?
- Claro.
Nos levantamos e seguimos, caminhando e arrastando nossos pés pela rua escura. Cada um na sua, ou sintonia? Viagem única ou coletiva?
Na ida passamos por uma lotérica fechada. O portão cinza todo pichado, mal iluminado por um poste cuja luz piscava oscilante. Me lembro que passei por ali de tarde, e uma fila extensa dobrava a esquina a partir dali. Várias pessoas com bilhetinhos da loteria esperando para pagar. Esperançosas, confiantes de que vão ganhar e ficar ricas. Finalmente, ficar ricas, e ter a vida que merecem. Acho isso interessante. Gosto de tentar imaginar como seria a sociedade e a raça humana se todos os não-ricos se dessem conta de que jamais ficarão ricos. Acho que tudo seria inteiramente diferente.
Chegamos no bar e pedimos uma cerveja. Olho ao redor, não há sequer uma pessoa bonita. Tento me distrair dos sons altos e gritaria do bar para ter mais calma em minha mente, mas a barulheira me remete a outro estado de espírito. Atucanado, começo a me indagar sobre qual será e quão pejorativo é o julgamento que aquelas pessoas têm de mim. Com certeza não me parece bom. Mesmo assim, acho que com algumas cervejas esse sentimento vai passar. Duas, três, quatro, cinco.
Decido finalmente sugerir ao meu amigo para irmos a outro bar, mas ele sumiu. De fato, não há outra cadeira na outra extremidade da mesa. Nem um copo. “Merda”, pensei. Ando alucinando novamente. Termino a cerveja e penso comigo mesmo, como seria bom, perfeito, se eu não tivesse tanta certeza de que estou sozinho no mundo. Um pouco de ingenuidade, um pouco de ignorância.
A mais pura verdade é que as pessoas têm maneiras diferentes de lidar com os problemas existenciais da vida. Algumas ignoram. A maioria. Como eu não consigo ignorar, acho que crio pessoas que estejam comigo. Mas não de presença física, mas presença de espírito. Essa é a melhor presença do mundo.
Saio do bar, quente e o som dos carros zunindo pela avenida me atinge de novo. Olho para os dois lados, um pouco sem calma.
- Pra onde vamos, o que faremos?
A noite é fria, incerta. Talvez um bar, tomar umas cervejas e voltar pra casa. Ou então vagar pelas ruas a passos lentos buscando algo novo, até que nos cansemos e cada um vai para seu apartamento dormir. É cedo demais para fazer planos: a vida é, afinal, essa maquina de improbabilidades. E funciona, a todo vapor.
Theo S. da Rocha