- Se tu pudesse conversar com um ser absurdamente estranho, que ser seria?
- Que tipo de pergunta é essa?
- Hey man, só responde.
- Eu não sei, não consigo pensar assim.
- Vamos lá, pense. - O som do bar ao fundo tomou conta da conversa por breves dez segundos.
- Acho que eu conversaria com um Alien... Um Alien de gravata borboleta.
- Sobre o que?
- Sobre futebol. Depois conversaria sobre mulheres com ele. O que será que excita aliens? De qualquer jeito, com que criatura estranha tu conversaria e sobre o que?
- Eu acho que... gostaria de conversar com dois castores ensanguentados.
- Sobre?
- Sobre saúde coletiva. Acho que um castor ensanguentado saberia reivindicar muito bem seu direito a atendimento médico, e dois se complementariam, mais ou menos como os policiais em filmes: há sempre o mais bonzinho que faz uso de raciocínio e o mais brutamontes que só quer dar um pau em todo mundo.
- Um castor ensanguentado não tem argumentos para reivindicar atendimento médico.
- Bom, ele trabalha bastante. Fica construindo essas barragens naturais com uns galhos. Acho que o castor é um engenheiro, apenas um pouco mais sensual que um engenheiro da raça humana.
- Isso é doente. E preconceituoso. E não sustenta teu argumento.
- Ok, ok. Eu acho que um ser que vê um rio correndo livremente e tem o pensamento de impor uma barragem nele para impedir um pouco do fluxo sente uma certa... falta de completude. Para ele, tem que haver algo ali que não existe primeiramente. Pensa bem, um bichinho roedorzinho ridículo se reúne com seus semelhantes e constrói uma porra de uma barragem a partir de galhinhos. O bicho saberia muito bem reivindicar atendimento médico. São ambas tarefas árduas.
- O SUS não é uma barragem.
- Vai se foder, esse não é meu ponto.
- Vamos partir para uma pergunta mais simples: com que pessoa, viva ou morta, você gostaria de conversar?
- Eu conversaria com São Pedro.
- Ele não existiu. Não conta.
- Ok, eu conversaria com Maomé.
- Maomé? Por que?
- Eu convenceria ele de que a montanha não vai a Maomé. Depois, convenceria ele de novo só que do contrário.
- Não entendi.
- Eu convenceria ele de que a montanha não vai até ele, e depois que ele se desse por vencido, e que eu tivesse convencido ele, eu convenceria ele de que a montanha, de fato, vem sim a Maomé
- Tu não conseguiu me convencer que dois castores ensanguentados reivindicariam muito bem atendimento médico gratuito, quer convencer Maomé de que a montanha não vai até ele?
- Não conta. Tu é um cara arrogante e cético. Maomé devia ser no mínimo humilde.
- Em primeiro lugar, tu não sabe nada da história de Maomé, e nem eu. Portanto, não vale a pena discutir isso. Mas, de fato, eu não acredito que a montanha vá até Maomé.
- Bem, nem sempre a montanha vai a Maomé. Mas ocasionalmente, em nosso cotidiano, nós vemos montanhas indo a Maomés. As vezes acontece. Não há uma regra pra isso.
- Sabe com quem que eu conversaria?
- Com quem?
- Eu conversaria com Dante.
- Dante?
- Dante era um malucaço.
- Nunca li
- Nem eu, mas deve ser absurdamente louco.
- Hey, man. Vamos até ali, na estante, ver se tem Dante para dar uma olhada.
Os dois atravessam o bar em direção à estante de livros.
- Rá! O inferno.
- Abre aí em alguma página qualquer e lê alto
- “Todas elas rasgavam o próprio peito, batiam no corpo com as próprias mãos e tão alto gritavam que me aproximei do poeta”. Isso é cool, tem um dialogo meio non-sense aqui, vou pular. “Ó vós que tendes são o pensamento, vede a doutrina que sob o verso obscuro como um véu se oculta”
- Hahaha. Continua aí.
- “E já vinha pelas turvas ondas o fragor de um som horrendo, que fazia estremecer ambas as margens, tal como um impetuoso vento, de rajadas contrárias, abala a floresta e sem descanso quebra os ramos, que derrubando arrasta, e soberbo e poeirento avança, pondo em fuga, quer os pastores, quer os animais”. – ele fez uma pausa para olhar o amigo – Meu, isso é puro caos.
- Acho que vou ler esse livro.
- Eu também. Lembra William Burroughs.
- Eu com certeza conversaria com William Burroughs.
- Sobre o que?
- Hmmm... eu acho que eu conversaria com ele sobre a mania que algumas pessoas têm de arrumar suas roupas no roupeiro por ordem de cor. Ele com certeza deve ter uma opinião foda sobre isso.
- William S. Burroughs tem uma opinião foda sobre tudo.
Theo S. da Rocha