domingo, 19 de setembro de 2010

Paranóia Hunter-Thompsiana

Eram em torno de dez horas da noite quando eu saí de casa contra minha própria vontade, para ir a um show.

A noite anterior tinha sido difícil. Havia sido convidado para uma festa na rua com a promessa de que ia ser legal. Quando chegamos lá devia haver umas 400 pessoas acumuladas em um espaço apenas. Todos juntos se acotovelando, e a música berrava dos alto falantes: forró, depois sertanejo, culminando com pagode. A fila para comprar cervejas era gigante e não seguia lógica alguma. Em cima disso tudo, não haviam banheiros. “Santa mãe de Deus” eu pensei. “Isso é o inferno materializado”. Para compensar o desamparo que sentia naquele ambiente, acabei bebendo até acabarem os estoques. Beber, ir para uma rua vazia, mijar, voltar para a fila e comprar mais cerveja. Foi isso até as 4 horas da manhã, quando finalmente consegui transporte de volta pra casa, cambaleando e sem conseguir manter uma conversação de poucas palavras.

Essa havia sido a noite anterior para mim. Um inferno sem uma única pessoa interessante num raio de 5km. Quando acordei, no dia seguinte, minha cabeça pesava mais que um piano. Visão desfocada, sensível ao sons que me cercavam. Percebi que não conseguiria levantar da cama. “Isso é mais que uma ressaca” pensei. Calafrios corriam pelo meu corpo, especialmente nas costas. Eu não estava apenas de ressaca, eu estava de ressaca e gripado.

Quando finalmente levantei da cama, tentei caminhar até a cozinha, mas tombei no sofá no caminho. “Esse é o fim” pensei. “De hoje eu não passo, e isso é certo”. Eu implorava para que um copo da água gelado viesse até mim, suando pelas bordas. Eu precisava de água. Usei todas as forças do mundo para ir à cozinha e beber água. Minhas pernas não me sustentavam, tremendo e oscilando quando precisavam sustentar meu corpo. Tombei no sofá novamente, e com esforço consegui superar a dor de cabeça e dormir.

Acordei as 6 da tarde pior do que antes. Os calafrios me tomavam de súbito, e eu não sabia se estava com calor ou com frio. Tomei um banho para tentar melhorar. Voltei ao sofá derrotado. Fiquei ali até o horário de sair.

E, lá estava eu, saindo de novo. Sob a pior ressaca da minha vida e o resfriado mais sorrateiro, botei o pé trêmulo na rua e desatei a caminhar, com as pernas oscilantes. Um advogado apressado passa por mim falando no telefone. Meus tímpanos quase estouram quando ele urra pela rua que um tal de relatório tinha que sair amanhã com urgência. “Vou enlouquecer” pensei. ”Finalmente, esse é o fim”.

Cheguei no bar e a banda estava se preparando. Nenhum sinal de meu amigo lá. Me sentei encolhido em um canto. Não havia comido nada o dia inteiro, e o mero pensamento de comer algo, por mais apetitoso que fosse, me dava náuseas. Eu estava no limbo sensorial, nada poderia ficar pior que aquilo, então, como não tinha nada a perder, pedi uma cerveja, e duas doses de rum. Meu corpo acolheu a cerveja gelada calorosamente, como se o veneno fosse o próprio remédio. Pedi outra, a banda começou o show.

Embora fosse acolhida pelo meu corpo, a cerveja nada fez que fizesse com que eu me sentisse melhor, e os calafrios nas costas continuavam incessantemente. Apenas o toque da roupa já desencadeava os piores calafrios. Calafrios numa escala richter de 9.8. Eu estava morrendo. Era um pelotão de índios andando sobre minhas costas, depois flechando elas e jogando o resto para os cães. Eu suspirava de cansaço a cada dois minutos, e meu amigo ainda não chegara.

Ao meu lado, um cara tentava agarrar uma mulher, que empurrava ele para longe dela. Ele insistia cada vez mais, e ela parecia incomodada. Era bem bonita. O cara insistia, passando a mão em todo seu corpo. Eu fui ficando incomodado com a inconveniência do cavalheiro, e fui tomado de coragem, apesar de me sentir um pedaço de carne morto e podre jogado no sol por duas semanas. Me levantei e entrei em ação. “Oi querida” eu disse, passando o braço em torno dela e afastando-a sutil e delicadamente do seu agressor. “Demorei?”. Ela me olhou assustada, sem entender, e não esboçou reação nenhuma. Finalmente disse “Tu é louco?”. Depois disso um punho fechado veio de encontro ao meu rosto como um trem-bala indestrutível. Um som alto e seco ecoou na minha cabeça, e eu cambaleei. O cara me empurrou e disse pra eu me mandar. Eles eram namorados.

“Esse é o fim” pensei. “Vão me trancar num hospício, eu finalmente perdi a cabeça”. Eu não estava bêbado, eu estava insano. Confundindo gestos e relações humanas, esse era meu fim. Eu seria trancado num hospício, fora do convívio e contato social. Sendo drogado e manipulado vinte e quatro horas por dia, sem nunca ter razão sobre nada. Eu já estava me acostumando com a idéia. “Não deve ser tão horrível” ponderei. “Suco de laranja todas as manhãs, e me disseram que a comida lá é boa”.

Eu já havia elaborado toda a rotina no hospício. Nos fins de semana, todos meus camaradas trancados, grogues e excluídos receberiam suas famílias, e todos me olhariam lá no canto com pena de mim. Nos dias especiais, eu faria um desenho sem sentido e apresentaria ás outras famílias, como nesses shows de talento, e eles veriam aqueles rabiscos toscos e pensariam em suas cabeças como aquela instituição era boa, compreensiva e permissiva quanto à livre expressão dos pobres louquinhos.

Meu delírio foi interrompido pelo som do celular. Uma mensagem: “não vou poder ir, tenho que acordar cedo, abç”. À essa altura, eu estava disposto a dar um tiro na minha cabeça, disposto a fugir desse mundo injusto e acabar com os calafrios. Dois coelhos em uma... dois coelhos em uma... ? Eu havia esquecido. Meu cérebro estava se degenerando. Virando uma massa pastosa e inconsistente agindo full time consciente e inconscientemente jogando associações sem o menor sentindo. Eu era lixo.

Perguntei para a bartender como era o dito. “Moça, me diga, como se diz, é um coelho em duas...?”. Ela foge de mim. Eu grito e corro pelo bar “Digo, dois coelhos em uma...o que?”

Ela chama o dono do bar e eu sou chutado de lá. Eles pegam meu dinheiro e não dão troco. Eu chamei ele de porco e ele deu um tapa na minha nuca.

Mais ou menos aí eu percebo que não consigo mais caminhar. Minhas pernas, elas desistiram. “Agora. É o fim.” eu balbuciei. “Vai começar debaixo, quando chegar aos meus pulmões não vou conseguir respirar, e vou morrer sufocado". Subitamente fui tomado por um pensamento devastador. “O que eu quero fazer antes de morrer?!”

Obviamente a primeira coisa que cruzou a minha mente era sexo. Bom sexo. Daqueles que vale uma vida inteira. Uma bela mulher, carinhosa e compreensiva dos meus dramas, mas isso era impossível. Pensei numa prostituta, mas o bar ficou com todo meu dinheiro. Eu jamais saberia como é fazer sexo com uma prostituta. Um amigo meu disse que era um teatro, que ela fica te chamando de “meu amor” e dizendo “vai que eu vou gozar”. Como eu já estava cansado do teatro da vida, não queria terminar ela com mais um teatro. Sem contar que mal conseguia me mexer para praticar uma ação libidinosa. Então decidi fazer a única coisa que conseguiria fazer: ouvir uma boa música. Eu carecia disso. Meus ouvidos estavam sensíveis, então ia ser melhor ainda. Sem contar que é uma atividade que não pede que se faça nada senão relaxar.

Então, rastejei até um ponto de táxi e fiquei implorando pro taxista me levar os 2 km até em casa de graça. “Aonde está sua cadeira de rodas?” ele perguntou, desconfiado. “Em todo lugar” eu disse. “Eu só não gosto de usar ela”. Finalmente, ele desistiu e me levou até em casa. Quando chegamos, ele falou que me levaria até o apartamento. "Sem sentido" eu falei. "Não há necessidade". Ele insistiu. Pânico tomou conta das minhas veias. De todos os taxistas na cidade, peguei carona logo com um estuprador. Então com a agilidade de um mero mortal bombardeado de adrenalina, eu desci do carro, rastejei rápido como uma serpente em desespero, abri a porta do prédio com a chave e fechei-a atrás de mim. "Santa mãe de deus" pensei. "O mundo não é mais o mesmo de outrora. É um mundo violento, e são tempos de perversão". Essa foi por pouco. Eu rastejei pelas escadas e liguei as caixas de som.

O que eu ouviria, que seria a minha última musica?

Jazz é bom, mas não o suficiente. Também não pode ser algo chutante como The Who. Sem muito esforço, cheguei a uma conclusão: The Doors. Botei o volume no máximo e fiquei ponderando que música afinal escolheria. Como The End soaria como um cliché, e eu não quero que a última coisa que eu ouça seja Jim Morrison berrando contra a própria mãe num cenário edípico, botei When The Music is Over. Combinava com o que acontecia.

O som fazia o chão tremer, mas eu adormeci ali mesmo, jogado, terminado, acabado, derrotado.

Eu acordei dois dias depois. Preparei e comi duas torradas com queijo, manteiga e presunto. Sentei no sofá, catatônico. Sem tempo para suspiros agora. O negócio é seguir com a minha vida. Mas o fim está sempre próximo.




Theo S. da Rocha

Uma humilde homenagem a Hunter S. Thompson

Também conhecido como "Paul Kemp" ou "Raoul Duke"

Sustentando a idéia de que se a mente está vazia

A gente fecha a oficina do diabo e faz algo plagiando um demônio