quarta-feira, 29 de setembro de 2010

As Duas Curtas Ocasiões de Filosofia Básica

- Vamos lá, pegue uma carta, qualquer carta. Vou te mostrar uma mágica.

Contra sua vontade, o cliente pega a carta do mágico. Ele só queria conversar com sua companheira, mas, de fato, esse mágico chato apareceu, e a única coisa que o cliente queria era não parecer mais chato que o próprio mágico. A carta era um três de copas.

- Não diga sua carta, não diga. Devolve aqui... – o mágico arranca a carta da mão do cliente e põe de volta no monte – Agora eu vou adivinhar sua carta.

O mágico embaralha. O casal espera enquanto ele termina o truque.

- A sua carta era.... ESSA? – ele tira o três de copas do monte

- Sim, meus parabéns.

- Santo Jesus Cristo e a Virgem Maria, eu acertei! Finalmente, um dia inteiro no batente, e eu finalmente acertei! – a voz do mágico se eleva, seus olhos brilham. O casal parece assustado – Agora que eu acertei, vocês têm que me dar um trocado, eu ralei o dia inteiro, finalmente consegui completar um truque! Eu sou um mágico!

O cliente, já disposto a fazer qualquer coisa para o fracassado mágico ir embora, saca uma nota de cinco reais e entrega a ele.

- Obrigado, meu queridô! – o mágico exclama, e depois pára por um momento – Pensando bem, isso pede uma comemoração! – ele puxa uma cadeira, senta na mesa do casal e ergue a mão – Garçom! Um copo extra aqui!

E assim, derrotado, o cliente percebe que há dias na vida em que nada, absolutamente nada dá certo. A companheira dele, entretanto, curtia o momento.



- Daria um império inteiro por uma pizza de calabresa – disse Um, tomando um gole da cerveja gelada.

- Quer saber o que é interessante? – o Outro responde

- O que? – o Um pergunta.

- Se tu tivesse com a pizza de calabresa aqui, pouco se importaria com ela.

- Errado, estou com fome. Eu comeria a pizza inteira.

- Sim, mas não daria um império por ela.

- Só porque eu não precisaria.

- Eu só estou tentando te fazer entender que, uma vez que algo está ao seu alcance, ou acessível ou já disponível para o ser humano, esta coisa perde valor, e não mais se torna sagrada.

- Exemplifique.

- Se você não pudesse comprar uma cerveja, e passasse aqui pela frente, vendo dois caras tomando uma cerveja gelada, você diria para mim “Daria um império por uma cerveja gelada”. Mas, como você já está com a cerveja na mão, pouca diferença faz pra ti.

- Mas eu aprecio a cerveja

- Aprecia, mas apreciaria mais se fosse impossível pra ti.

- Entendo... – houve um silêncio, os dois olhando para o lado observando o movimento da rua. Depois de um tempo, Um pergunta – Você acha que o mesmo acontece com as pessoas?

- Eu acho que o ser humano confunde objetos com outros seres humanos, infelizmente, portanto, creio que isso acontece com pessoas também – o Outro responde.

O Sol ia se pondo no horizonte. O movimento na rua aumentava. A última brisa vespertina passa por ali, quieta, discreta, sem destino. A vida era vista pela dupla assim como estavam suas barrigas naquele momento: vazia. “Eu acho que o que se deve fazer, então, é tentar ao máximo aproveitar e se contentar com o que se tem. Será que isso é possível?” pensou Um. Ele decidiu não perguntar. Já sabia o que o Outro diria disso: Era outra tentativa fútil de fuga da realidade.



Theo S. da Rocha