Anne acordou cansada, como se mal tivesse dormido. A luz do sol atravessava a veneziana, iluminando o quarto. Para ela, seria apenas um dia comum. Ficar em casa, preparar um café, de repente sair pela tarde para esfriar a cabeça num parque. Mas mal sabia ela que aquele era o dia em que seu vizinho, e melhor amigo, havia surtado.
John, acordado de um sonho estranho, passou a ter certeza absoluta de que era um gato. Desceu de sua cama num pulo, e engatinhou pelo corredor de seu apartamento atrás de um rato ou um passarinho. Mesmo assim, a fome era tanta que até ração serviria. Mas, como não tinha se preparado para, um belo dia, enlouquecer e crer que era um gato, não havia nada que pudesse comer em sua casa. John, com muita fome e uma fibra moral singular, começou a miar. E alto. Subia nos móveis com um pulo procurando por algo que pudesse saciá-lo ou simplesmente uma saída do apartamento para caçar e dar uma olhada na gatinha do andar de baixo, que sempre miava para ele quando passava pelo pátio. Mas, como um pobre gato incompreendido, estava trancado em seu próprio apartamento.
No apartamento vizinho, enquanto lia a biografia de Jimi Hendrix em inglês, Anne começou a ouvir a miazada do apartamento de seu amigo. Ela riu. “Provavelmente está pensando num jeito inusitado e chato de me chamar” ela pensou. Vou dar uma olhada.
Para sorte de John, como os dois eram amigos há inúmeros anos, cada um tinha a cópia da chave do apartamento do outro. Era um fato que os aproximava, e os fazia crer na confiança um do outro. Todavia, era um fato que se mantinha omitido quando um dos dois (ou ambos) começavam a namorar ou desenvolver um relacionamento sério. Sendo assim, Anne calçou suas pantufas e, ainda de pijamas, foi ver o que se passava no apartamento ao seu lado. Em nenhum momento, a miazada parou.
Ela abriu sua porta e passou para o corredor frio. O som de seus passos suavizados pelas pantufas ecoavam sutilmente pelo corredor. Fechou a porta de seu apartamento só caso ficasse ali por algum tempo a mais, jogando conversa fora. No momento em que a sua chave fez o som de que havia entrado na fechadura da outra porta, os miados cessaram. Ela ouviu um som seco, como um corpo caindo no chão, e levando consigo alguns objetos que possivelmente estavam na beirada de alguma estante.
Quando abriu sua porta, avistou John completamente nu, de quatro, ao lado da mesa de jantar de seu apartamento. Um pouco surpresa, ela entrou no apartamento mesmo assim. Ela nunca havia visto ele nu desse jeito, embora fossem muito próximos. Ela dá um oi caloroso, como se aquela situação fosse normal e cotidiana. Ele responde, olhando para seus olhos fixamente: “Miau”. Depois dessa saudação, começou a roçar sua cabeça ao lado do pé da mesa. “Miau”, ele balbuciou, de novo.
Anne não pôde deixar de notar o talento com que John imitava um gato. Ele levava jeito para isso. De fato, ele imitou um gato tão bem, que Anne teve certeza absoluta e incontestável, de que aquela era mais uma representação artística de John, ou uma encenação, como ele sempre fazia nos feriados. Ele já havia brincado de ser pirata, agente secreto, esquizofrénico e emo, e ela adorava quando ele era tomado de súbito por essa inspiração exótica.
Mas, dessa vez, infelizmente, era definitivo. John sequer formava um pensamento raso em sua cabeça, e não era apenas por causa da fome. Ele, afinal, havia virado um gato. E fazia, e pensava, o que antes julgava ser a ação e o pensamento de um gato. Sendo assim, logo depois de Anne, em meio a risadas e uma demonstração de surpresa, dizer “oi gatinho!”, John veio engatinhando ao seu encontro, e, carinhosamente, roçou sua cabeça nas canelas dela. Depois desse contato, ele deu um passo a frente para roçar o resto do corpo, enquanto ela se abaixou para afagar sua cabeça. Feito esse gesto de carinho por John, ele se apressou em direção à porta da cozinha, e chegando ali, olhou de volta para ela, emitindo um miado um pouco mais longo e chorado que os demais: “Miaaaaaau, prrrrrrr”.
“Tá com fome gatinho?” ela perguntou. “Miau” foi a resposta. Ela tentava agir com naturalidade quanto à nudez do amigo, pois esperava que fosse isso que ele queria que ela fizesse. Ela foi até a cozinha, pegou um pouco de leite da geladeira e serviu em uma tigela. John sequer miou em agradecimento, e começou a molhar sua língua na tigela que repousava no chão.
Sem nada mais para fazer, e querendo desempenhar aquele papel que ela pensava que John queria que ela desempenhasse, ela foi ao sofá de John, sentou e ligou a TV. Nada pra ver lá. Mas era divertido, porque John assim que terminara sua refeição, correra para o sofá e deitara sobre o colo dela. Era desconfortável pra ela, e sua mente já começava a se situar entre indecisão, confusão e constrangimento. Mesmo assim, seguia pensando que era isso John queria lhe causar com toda aquela encenação.
O pai de John, que passaria por aquela rua de carro, voltando das compras matinais de supermercado que fazia, decidiu fazê-lo uma visita. Isso seria ruim para ele, mas traria a jovem Anne para a realidade num sobressalto.
Ele entrou no apartamento, olhou, e disparou: “Mas que porra é essa?!”. Grande e ogro, sua voz ecoaria por cada apartamento do prédio. Anne se assustou com o que estava por vir, mas o susto que John levou se mostrou potencialmente maior que o de sua ex-amiga. Num salto, cravou as unhas de um tocador de violão clássico nas coxas da pobre mulher, e posteriormente saiu engatinhando apressada e escandalosamente pela sala, urrando miaus que arranhavam sua garganta como pedaços de vidro cortado.
O que se seguiu depois disso, não é tão relevante assim. Anne e o pai tão assustador de John chamaram uma ambulância. Foi um trabalho e tanto imobilizar o pobre iniciante na vida de gato, e durante toda a espera pela ambulância, e depois da captura, Anne ficou ouvindo, atônita e inconformada, o sermão ameaçador daquele pai gigante que ela ainda não conhecia. Ele prometeu processá-la, mas ela não tinha muita certeza se ele realmente ia fazer aquilo.
Em choque, Anne voltaria para seu apartamento e ficaria catatônica até cerca de duas horas da manhã. Fora dormir sem comer nada, sem beber nada e sem tomar banho. Sequer se cobrira com cobertores como sempre fazia nas noites de solidão. Adormeceu, e, sem sonhar absolutamente nada, em pura escuridão, enlouqueceu. Acordou tendo a certeza mais absoluta que podia ter, de que era uma velha rica e solteirona que cuidava de gatos de rua. Demorariam 2 dias e meio até sua melhor amiga lhe fazer uma visita e finalmente perceber a gravidade da situação: Anne havia adotado e nomeado 207 gatos que não apareciam no campo de visão de mais ninguém. Nesse sentido, Anne foi azarada. Não havia ninguém para cuidar dela. Entretanto, teve a sorte de escapar do manicômio, sob alegação de um psiquiatra que também havia enlouquecido há algumas semanas antes, de que toda a mulher, a partir de uma certa idade, pensava que era rica, solteirona, e cuidadora de gatos. O psiquiatra também jamais seria internado.
Uma pena para Anne, pois embora estivesse em liberdade, teria sido vizinha de seu amigo no manicômio também. Os dois se completariam perfeitamente. Mas mesmo assim o psiquiatra cuidaria bem de John. Ele gostava de gatos que pensavam que eram pessoas nuas e expressivas. Despertava seu lado maternal.
Theo S. da Rocha