- Boa tarde senhor.. ãh... Risin. Seja bem vindo à nossa empresa.
- Boa tarde senhor.
Risin chegara para sua primeira entrevista de emprego em 13 anos. O suor escorria de sua testa, pescoço e costas, numa tentativa do seu corpo de se desvencilhar da ressaca que o aflingia. Apesar do mal-estar, ele não se via nervoso.
- Sente aí, fique à vontade. – disse o entrevistador. Embora estivesse sendo polido, ele transparecia poder, e estava disposto a fazer com que o novo entrevistado se dobrasse pelo emprego. “Pessoas desesperadas não têm limites”, ele pensava quando saía do serviço.
- Obrigado.
- Então senhor Risin, fale um pouco sobre você...
- Bem eu, não sou muito bom em me descrever...
- Aqui diz que você é formado em letras. Se formou em... 99. Conheceu o Pedro? Pedro Krieg?
- Sim, sim.
- HÁH! Meu primo. Figuraça não?
- Ah claro, o Pedro, grande cara. – “Pouco me lembro daqueles tempos” Risin pensou. “Pouco vale discordar”.
- Ah, faculdade. Vejamos aqui... – o entrevistador consultou o currículo e expressou surpresa, com algum traço de desgosto – Mas aqui diz que em 2000 tu se tornou um... “Professional Drinker”?! Isso é...?
- Bebedor profissional, senhor. – Não havia esboço de vergonha no rosto de Risin. Muito pelo contrário.
- Bebedor profis.... Isso é uma piada, senhor Risin?
- De modo algum, senhor.
- Aqui diz graduação em whisky e pós em absinto. Eu tenho cara de palhaço?!
- Senhor, não vejo razão por que isso seria uma piada... – na voz de Risin, apenas naturalidade.
- Isso é uma merda de currículo, uma vergonha.
- Vergonha, senhor?
- Vergonha, senhor Risin. Vergonha.
- Senhor, se eu fosse você teria mais respeito.
- Respeito?
- Sim senhor. Com sua arrogância e preconceito vem me dizer que meu currículo é uma vergonha, eu deveria é mandar o senhor à merda.
- Ãã? – o entrevistador torceu o rosto, um pouco grogue da surpresa que levou com a resposta.
- Sim senhor, à merda. Você, sentado nesse trono absoluto em sua ignorância, vem me dizer que meu currículo é uma merda, mas o senhor em si é uma vergonha. Você acha que é fácil? Trabalhei dez anos da minha vida como bebedor profissional. Você realmente acha que um bebedor profissional só bebe? Muito pelo contrário. A última coisa que o bebedor profissional faz é ficar bêbado e beber por prazer. Nós, bebedores profissionais, somos chamados não para beber, mas para beber com pessoas que não só ninguém mais quer beber, de tão chatos que são, como ninguém consegue acompanhar de tanto que bebem. E nós temos que nos igualar em litros de álcool ingeridos, e ainda cuidar dos bêbados com quem bebemos, para que eles cheguem em casa são e salvos e nós finalmente possamos receber o que as pessoas que nos contratam nos devem. Nunca fui contratado por um bêbado. As pessoas que amam esses bêbados nos contratam justamente para que esses bêbados cheguem virgens em casa, sãos e salvos. É uma enorme responsabilidade. Se trata de beber desumanamente muito, continuar sóbrio, E cuidar da vida de alguém solitário, objeto de amor de alguém disposto a nos pagar. Nós, bebedores, somos pessoas importantes, sensitivas, pensantes e persuasivas. Por que o senhor acha que Jim Morrison morreu?! Se Ray Manczarek e Paul Rothchild tivessem contratado bebedores profissionais de qualidade, para acompanhar Jim, ele jamais teria desenvolvido alcoolismo, apesar de ter o coração partido por Pam Courson. Senhor, com todo o respeito, nós, bebedores profissionais, cuidamos das mentes mais niilistas para que elas pensem um pouco mais e funcionem um pouco mais do que absorvam veneno. Sem contar que nós não temos seguro de vida nem de saúde, e não chegaremos à longevidade. Esta, afinal, é a razão de eu finalmente estar procurando um emprego.
- Ãã? – o entrevistador não acreditava no que acontecia. Sem ainda esboçar qualquer reação, ficou observando aquele sujeito excêntrico com, finalmente, admiração, embora um pouco de temor e desconhecimento. Finalmente, quando Risin levantara para ir embora, impaciente, ele falou rapidamente, como um soluço . Espere. – Risin se virou, próximo a porta, aguardando.
- Quer esse emprego? Acho que te serve bem...
Risin congelou. Era a primeira vez que alguém tomava aquele sermão com humildade. O escritório se enchia de imprevisibilidades, era a primavera chegando. Subitamente, Risin foi tomado de um insight.
- Na verdade, senhor... senhor...?
- Me chame de Augusto.
- Augusto. Acho que não estou disposto ainda a me desonrar com um emprego ordinário. Não leve a mal.
E saiu, porta afora. Peito estufado, orgulhoso, se sentia um gigante. Augusto que jamais se recuperaria desse choque. Havia um lado positivo nisso. Augusto alguns meses depois conseguiria dispensa médica para ter o dobro de férias, remuneradas, sob o diagnóstico de estresse pós-traumático. Por essa, ele sempre estaria grato ao senhor Risin, onde quer que estivesse, bebendo...
Theo S. da Rocha