sábado, 2 de outubro de 2010

O Breve Giro Especial


Sentado sob a árvore, encostado no largo tronco que emergia do alto do morro, ele sentia completude. O sol se punha alem dos domínios da cidade que enxergava, as famílias transitavam por ali, pais de mãos dadas e crianças na bicicleta. A grama em que sentava era macia, e os pensamentos fluíam e oscilavam sutil e calmamente como água passando por um pequeno barco estático. Em frente à paisagem que enxergava, via seus pés cruzados, mas não dava muita atenção para o que via ou ouvia. Estava imerso em pensamentos.

Alguns desses pensamentos vêem e vão sem causar grande alvoroço. Ás vezes, pensamentos complexos, profundos, como a indagação de o que o espera em trinta anos, se viver até lá, ou qual seria o sentido da vida, o segredo das coisas? Ás vezes se perguntava o que faria da vida, e se havia algum modo de prever, e se houvesse, quereria saber antecipadamente? Ou simplesmente indagações simples, como o que haveria para jantar em casa, quando retornasse faminto. Há momentos em que preocupação nenhuma consegue tomar conta da mente humana. Curtos momentos de calma, em que a insegurança que o mundo proporciona desvanece e parece tão fraca, fútil, imbecil. Distante. Mas esses momentos são raros, e quando ocorrem, muitas vezes são apreciados sem nem que se dê conta de que são momentos nobres.

“Completude” era como ele denominava esses momentos. Satisfação plena, sentimento de “tudo está em seu lugar”, e nenhum tipo de adição é necessária. Gostava de música, mas não precisava dela naquele momento. Estava com um pouco de fome, mas não importava ainda. Estava sozinho, mas naquela hora não via necessidade da companhia de ninguém. Aquele momento era um brevíssimo momento em que parecia que o mundo girava perfeitamente, e nada tinha de errado nele.

Interessado, um passarinho pousa ao seu lado e vem ciscar a grama bem próximo. Pequenino, desajeitado, indefeso. Ingênuo também. O jovem estica a mão em direção ao passarinho e o pega na mão. O jovem traz o passarinho para perto do rosto, segurando-o com as duas mãos. O passarinho se aconchega, fitando-o com um lado de sua face. Calmamente, o jovem vai apertando uma mão com a outra. O passarinho agora se ajusta perfeitamente no espaço entre as mãos do jovem, que sente de leve as rápidas batidas do coração da pequena ave. Um momento de conexão. Assim, o jovem segue lentamente apertando as mãos. Lentamente. O passarinho já começa a expressar desespero, desamparo, e falta de esperança. Nada mais a fazer. Pequenos cliques consecutivos desenham os ossos se partindo. Ele emite um baixo som de agonia, até se afogar no próprio sangue, que emerge de seu bico vindo todo o caminho de dentro, daquele tão pequeno e indefeso coração. As mãos do jovem se encharcam de sangue.

O ser humano tem um dom inato de estragar a perfeição.

O sol se põe, a penumbra toma conta, o dia está prestes a terminar. O jovem se levanta, abandonando o corpo inerte congelado em uma expressão de medo. O cheiro de morte do qual tenta se desfazer remodela o momento e o espaço. O mundo volta a girar como sempre gira. Injusto, desigual, macabro.

A vida segue, de fato, e sem o sofrimento, o ser humano não avança, não busca o novo, nem a “solução”. O equilíbrio não existe. O conflito, o caos e a insatisfação são as condições de evolução do homem. A completude é estática, a completude é estéril, a completude, felizmente, é transitória.



Theo S. da Rocha