Eu tinha ouvido falar de um show que aconteceria em um bar pouco conhecido no centro da cidade. Um casal de amigos tinha visto a banda tocar em Santa Catarina e disse que o som era genial. Eu não tinha companhia para ver esse show, então fui sozinho, levando comigo um quarto de litro de rum em uma garrafa velha tampada com uma rolha. O rum estava velho, mas levemente resfriado, o que ajudou um pouco.
A rua desse bar era um lugar estranho. Mares de pessoas tarde da noite tentando vender algo. Havia esse cara que vendia bicicletas a trinta reais, mas não havia nenhuma bicicleta ali. Ele era estranho, e a voz desafinava quando ele falava “bicicleta”. Ele me parou e perguntou que horas eram. “Não faço idéia” eu balbuciei, “não sou escravo do relógio”. Alem desse sujeito, haviam grupos de pessoas tentando vender almofadas. Quem é que compra bicicletas e almofadas no meio da noite?
Coisas estranhas acontecem de noite em Porto Alegre, especialmente se você está ou esteve bebendo. Uma vez eu estava sentado na escadaria do viaduto da Borges, tomando uma cerveja e esperando um amigo, quando um velho peculiar com um bigode espesso apareceu, perguntando se podia se juntar a mim. “Claro” eu disse, meio duvidoso. Então ele sentou ao meu lado e sacou do seu bolso um cachimbo, acendeu-o e ficou distraído, pensando concentrado, mas devaneante, em alguma coisa no mínimo relevante, enquanto puxava e soltava fumaça. Quando meu amigo chegou, ele já tinha partido. “Você perdeu” eu disse a ele, “Sherlock Holmes acabou de passar por aqui. Ele devia estar pensando no sentido da vida”. Meu amigo não esboçou reação quanto a isso.
Outra vez, estava voltando para casa no último ônibus da noite, e uma mulher caricaturalmente feia sentada no banco na minha frente virou para trás perguntando se eu queria fumar crack com ela. Eu não sabia como dizer para alguém viciado em crack que eu não fumo crack, então me fiz de surdo mudo, sem tirar o olhar da janela. Ela então girou o corpo inteiro, me encarando. Tentou mais uma vez, sem obter resposta, e estendeu o braço, me cutucando. Olhei para ela fingindo surpresa. “Quer fumar pedra, meu?” ela perguntou. Eu então agitei os braços no ar mexendo as mãos e os dedos, como se quisesse dizer alguma coisa em libras. Ela então virou pra frente, frustrada. Esse tipo de coisa se torna comum depois de alguns anos de vida noturna. Situações estranhas fazem parte do passeio, e depois de um tempo você aprende a lidar com elas fazendo o máximo de proveito.
De qualquer jeito, lá estava eu, terminando meu rum em frente ao bar para poder entrar em paz. E assim, entrei no bar, hesitante. Não havia muita gente, mas também não estava vazio. Os instrumentos estavam a postos, apenas aguardando os músicos. Sentei, então, no bar, e pedi uma cerveja. Fiquei ouvindo a conversa dos barmans. Eles estavam dizendo que muito provavelmente não haveria show, porque os músicos estavam com “caganeira” como um deles constatou. “E agora?” o outro perguntou. “Acho que vamos ter que pedir para o Brutus tocar de novo”.
“Brutus?!” eu pensei. “Quem é que chamaria, ou se auto-chamaria de Brutus?!”. Tudo indicava que a noite ia ser uma merda. A banda principal estava cancelada, o bar parecia que não ia receber mais pessoas do que já havia lá, e a cerveja que eu peguei estava parcialmente congelada. E para completar, alguém chamado Brutus ia tocar, solo, e ao que o nome soava, seria um porre também.
Passados dez ou quinze minutos, entrou um sujeito com um cachorro. O sujeito usava óculos, uma camisa de botão aberta com as mangas arregaçadas e um jeans que parecia ter sido comprado há cinco minutos. O cão era grande e gordo, estava sem coleira e parecia ser um labrador que morou toda sua vida com um churrasqueiro que lhe entregava as sobras de todos os dias. O cara chegou no bar e pediu uma dose de tequila já misturada com limão e sem sal em um prato fundo, e uma caipirinha de morango. Sempre suspeito de alguém que pede caipirinha de morango em um bar. Nunca compreendi o tipo que gosta de drinks coloridos e chamativos, com guarda-chuvinhas verde-claros ou azul-bebê, no aguardo de que todas as pessoas vejam o quão exótica é a bebida que consomem. De qualquer jeito, ao receber o pedido, tomou um gole da caipirinha de morango através de um canudinho, e então botou o prato fundo com a tequila no chão, e o cão lambeu até a última gota.
Ao término dessa cena incompreensível, ele deu um delicado cutucão nas costelas do cão com o pé, dizendo “Vamos lá, Brutus”. O cão se levantou, foi até o pequeno palco, pulou sobre a cadeira que ficava atrás do teclado e aguardou enquanto o dono ligava os equipamentos. Mais ou menos nesse momento, eu comecei a achar que estava sonhando. Qual seria o próximo passo? Me dar conta de que estou sem roupas? O que, de fato, estava acontecendo?
O cara então voltou ao seu lugar. O cachorro ficou ali, sentado na cadeira em frente ao teclado, como que aguardando. O dono então foi mexendo na mochila, tentando alcançar algo. Ele virou para o barman, falando com bom-humor e uma certa indignação: “Sem óculos escuros para ele hoje” o dono falou. “Não tive tempo nem o dinheiro para repor aquele Rayban que o filho da puta quebrou terça passada”. O barman riu. O dono então sacou uma toca de lã com uma estampa de grife, e uma corrente de prata. Foi até o cão e vestiu o cão, que já parecia mais humano do que o dono. Finalmente, quando o dono voltou ao lugar, o cão deu início ao show. Pulou com as duas patas frontais sobre o teclado e foi batendo, aqui e ali. Seria uma cena irritante e patética, se as notas tocadas não tivessem, de fato, uma certa harmonia. Era como se o cão tivesse, de fato, composto e ensaiado uma música, por mais impossível que aquilo soasse. Mesmo assim, “impossível” era um termo que cada vez mais sumia do meu vocabulário, especialmente depois daquela noite. Para completar, o dono então gritou do bar “CANTA BRUTUS”. O cão então começou a uivar.
Era uma cena indescritível, e as pessoas no lugar agiam com naturalidade com isso. Eu parecia ser o único fascinado pelo que acontecia. Quando consegui parcialmente me acostumar com a cena, saí de onde estava sentado e sentei ao lado do dono. “Quanto tu quer pelo cão?” eu perguntei. Ele virou para mim e disse “é um preço um tanto alto, tu não vai conseguir pagar”. Eu fiquei surpreso com a suposição dele. Provavelmente porque, embora presunçosa, era mais que correta. “Mas eu tenho algo que talvez te interesse” ele disse. Fiquei aguardando que ele me respondesse sem que eu precisasse perguntar. “Tenho um chipanzé que toca bongô” ele disse. “Talvez não seja tão talentoso quanto o Brutus, mas te faço por um preço mais que barato”.
“Por que não?” eu pensei. “Há várias formas de fazer dinheiro com um chipanzé músico”.
“Por que tão barato?! Tu deve ser aqueles agentes do Ibama, tentando prender algum louco que gosta de animais incomuns”. “Não tenho nada a ver com o Ibama”. Ele disse. “Já viu alguém ser preso em Porto Alegre por crime ambiental? É absurdo”. Ele estava certo. Não existe crime ambiental em Porto Alegre. Papel no chão é uma naturalidade. Em dia de eleição, eles cobrem as ruas com os panfletos dos candidatos, como se fosse um tapete de flores.
Uma vez vi uma pessoa jogar um Big Mac inteiro da janela de um carro. Um vira-lata que estava passando por ali foi ver o que era aquele hamburger esparramado, cheirou-o e vomitou sobre a meleca. Aquilo com certeza deve levar um milhão de anos para se decompor, que nem aquelas garrafas pet que bóiam no Guaíba.
“Por que então tu quer vender esse chipanzé tão barato?” eu perguntei. Ele me olhou e respondeu durante um suspiro: “Olha, vou ser bem sincero contigo”, ele fez uma pausa, esperando minha reação, “não aguento mais ele. É um chipanzé bipolar, esse é o problema. Em um momento ele te abraça, no outro, pega suas coisas e joga contra a parede, pulando e gritando. É uma bomba relógio, mas tão imprevisível que é como se não tivesse relógio algum”. Eu gostei da idéia. Consegui pagar um preço ridículo pelo chipanzé, que foi deixado na minha casa pelo dono na manhã seguinte. A única advertência do dono era que eu escondesse da melhor forma as facas de cozinha que possuía.
O chipanzé era tão obeso quanto o cão. Ele ficou ali, na minha sala de estar, sentado sobre o sofá, examinando as paredes e os objetos ao seu alcance. “Eaí magrão” eu falei para ele. Ele me olhou nos olhos. “Teu dono não te quis mais, eu te adotei. Acho bom nos acertarmos já agora para evitar qualquer mal entendido”. Ele continuou olhando nos meus olhos. Eu tinha certeza que ele não estava me entendendo, mas ele estendeu sua mão. Apertei ela como um cumprimento de boas vindas. Para comemorar, abri duas cervejas, entregando-lhe uma. Ele cheirou a latinha e tomou um gole. Em seguida, relaxou o corpo sobre o sofá, como que satisfeito com o que tinha. Que melhor jeito de começar uma amizade do que tomando uma cerveja?
Theo S. da Rocha