Apenas uma luz fraca e oscilante iluminava a sala naquela madrugada. Os amantes já haviam há muito passado a fase do abraço pós-coito. Agora, sentavam, ambos nus, no chão, encostados no sofá. O único contato entre seus corpos era a mão dele, repousando na coxa dela. As canecas de chá fumegavam, apoiadas no chão. O silêncio era absoluto. Gradualmente, os problemas da vida externa iam retornando a eles, como o sol que sutilmente se move na direção do horizonte, para decretar um novo período de escuridão.
- Ainda não sei o que vou fazer no trabalho para a Eletrotam – ela murmura, timidamente permitindo o retorno das preocupações.
- Não tem nenhuma idéia? – ele pergunta.
- Não faço a menor idéia.
- Tem pensado o suficiente no assunto?
- Tenho pensado quase toda hora. Fico tentando bolar uma idéia mas nada parece bom ou praticável.
- Bem, esse é o problema. Pare de pensar.
- Como assim?
- Uma boa idéia nunca vem quando estamos preocupados demais. Pare de se preocupar, a idéia vai surgir.
- Isso é infantil. Mesmo pra você.
- Mas é verdade. Pense bem, as melhores idéias na história vieram da distração. As piores, por trabalho exaustivo. Vai por mim.
- Isso me parece desculpa de vagabundo.
- Ok, ok. Tenha calma e pense comigo. Em um momento, você está preocupada. Um milhão de coisas passam pela sua cabeça, e todas são compromissos. Está agitada, estressada, e ainda enche a cabeça de tentativas de idéias. No outro momento, você está relaxada, despreocupada, e o fluxo de pensamentos que mantém não é totalmente regido por ti, sendo assim entregue à imprevisibilidade. Em qual é mais plausível que surja uma idéia?
- Lá vem tu com esses discursos anti-capitalistas, contra a vida que “é pregada ao homem, de ter que estar sempre trabalhando, preocupado e nunca parar para descansar”.
- Meu bem, eu não estou falando de capitalismo aqui. É apenas um fato. Isaac Newton, por exemplo. A maçã caiu da árvore. Acha que ele estava sentado sob árvore preocupado com as cobranças externas? Se ele estivesse assim, cheio de coisas na mente, veria a maçã caindo com normalidade, e jamais formaria a mais óbvia, e portanto mais fantástica, porque ninguém pensou, teoria, que é a da Gravidade. Ninguém, e eu digo NINGUÉM, pensaria ISSO em circunstâncias forçadas e/ou trabalhadas.
- Como tu tem certeza que foi distraidamente?
- Eu simplesmente sei. Freud, e a ‘escuta flutuante’, por exemplo. Não adianta procurar uma idéia como uma agulha no palheiro. Ela simplesmente cai da árvore. Por outro lado, as idéias trabalhadas demais são infelizes e normalmente faltam em nobreza. Hitler, e o Main Kampf, por exemplo. Acha que o filho da puta acordou um belo dia com vontade de exterminar todas as demais ‘raças’? O cara ficou trabalhando e mastigando essa ambição por anos!
- Amor, não generaliza.
- Meu bem, é um fato. Lembra daquele trabalho meu da semana passada, para sexta feira?
- Sim. O que tem?
- Bem, eu fiquei quinta feira o dia inteiro procurando uma idéia. Acordei cedo e fui na biblioteca vasculhando livros e referências. Nada. Depois voltei pra casa, tomei alguns cafés, vasculhando os meus livros, em busca de uma idéia ou algo que surgisse. Nada. Saí de casa e fui ver o pôr do sol, esperando que isso me iluminasse em algum aspecto, mas eu estava preocupado demais, e fiquei o tempo inteiro tentando montar idéias. Montar idéias! Pelas dez da noite, em casa, eu desisti. “Foda-se esse trabalho” pensei. Era melhor não fazer e sofrer as consequências do que fazer uma merda qualquer contra a minha vontade.
- Mas tu fez o trabalho, não?
- Pois é. Depois de desistir, fui até a cozinha e abri uma cerveja, me torturando e ponderando sobre a derrota. Dez minutos de distração e uma long neck depois: PLIM. Meu bem, literalmente: PLIM.
- Eu não compro essa idéia, arriscada demais. E mais, acho que não foi a distração.
- É mesmo? Acha que foi o que?
- Acho que você aceitou e se entregou ao destino, finalmente. Aceitou a morte, reconheceu uma causa perdida, desistiu. Igual àquela história do alquimista, que vimos, lembra? O cara saiu numa busca pelo segredo da alquimia, viajou por todo o oriente por dez anos! E todos os alquimistas que ele conhecia eram tão idiotas ou mais idiotas que ele. Finalmente, depois de tanto tempo, ele desistiu. “Vou voltar pra casa” pensou. “Não existe segredo algum”. E assim, no caminho de volta, ele encontra O alquimista que possui o segredo da alquimia. Ele vem ao viajante e diz “agora você está pronto”.
- Hmmm – Ele fica pensativo, apreensivo. – Talvez não seja apenas a distração. Mas há de reconhecer o papel dela.
- Sim, amor, mas a distração só vem aos que aceitam.
- Será?
- Amor, você não tem tido uma boa idéia em aaaaaanos. Quem é você pra falar no processo de aquisição de idéias?
- Meu bem, “as maçãs de ouro caem da mesma árvore, quer sejam colhidas pelo aprendiz de serralheiro ou por Schopenhauer”.
- Quem disse isso?
- Jung.
- É uma afirmação filha da puta, isso sim – ela disse indignada – quer dizer que Schopenhauer é mais foda que um serralheiro porque ele é Schopenhauer.
- Na verdade eu acho uma afirmação muito bela. Acho que ele quis dizer que as idéias caem para todas as pessoas, independentemente de como forem essas pessoas. Todos têm acesso à árvore! Alguns usam as maçãs de uma forma fodástica, como Schopenhauer. Outros, como o aprendiz de serralheiro, enlouquecem.
Ela refletiu, calma mas resistentemente sobre isso. Talvez sim, talvez não. Eles terminaram o chá. Poucos minutos de silêncio seguiram, e eles trocaram olhares. Então, voltaram a se tocar. Se abraçaram, e fizeram amor novamente.
Posteriormente, pouco antes de adormecer, ela tivera uma idéia para a Eletrotam. Os filhos da puta ficariam muito felizes com o trabalho.
Theo S. da Rocha