Era para ocorrer tudo calmamente nas eleições. Ao menos era isso que eu tinha planejado. Eu não tinha dinheiro para tomar uma cerveja na noite anterior, mas um amigo me ligou alegando que me devia dinheiro, e assim saímos para beber. “Volte cedo, Paulo” mamãe disse. Eu teria que acordar cedo no dia seguinte para votar e levar mamãe para votar em Alegrete. Seria um dia longo.
Eu e meu amigo saímos, com dinheiro beirando o zero absoluto. Chegamos em um bar e começamos a fazer as contas do que seria mais barato e rápido para ficar bêbados. Havia uma bebida um pouco mais cara que um caneco de chopp, que consistia em um caneco de chopp com um copo de dose imerso contendo algum destilado estranho, e a cada gole tomado, o copo erguia um lado e as bebidas se misturavam. Tinha gosto de vômito adocicado, mas não havia nada a ser feito. Após o primeiro, as pernas ficam mais relaxadas, como se fosse uma parte independente do corpo. Após o terceiro qualquer piada é digna de alguns minutos de risos. Após o oitavo, a vida volta a fazer sentido.
Então ficamos lá, eu e meu amigo, botando em ordem nosso plano de um dia roubar um carro. “Precisaríamos de alguém que filmasse” ele falou. Nós ficamos conversando sobre isso e ensaiando possibilidades. Eu já estava cambaleante quando me aproximei de uma garota bem vestida que bebia sozinha no balcão. Ela não era uma maravilha, mas meu estado era flutuante, então não fazia diferença. Fiquei puxando assunto enquanto ela se mostrava entediada. “Gostaria de filmar o roubo de um carro?” eu perguntei. Ela não tinha resposta pra isso. Seu celular tocou e era seu namorado avisando que estava chegando. “Bom, prazer em te conhecer” eu falei. “Acho que sou a única pessoa solteira remanescente no mundo” eu falei, achando que tinha apenas pensado. “Os cães não atravessam a rua na faixa de segurança” ela falou. Eu levei isso como um elogio. Antes dela ir de encontro ao trouxa, eu perguntei se podia me dar seu número de telefone. Ela riu e virou as costas. “Eu nunca ligaria mesmo” pensei.
Acordei no outro dia com a cabeça latejando. Sede, enjôo, tontura. Eu estava menos disposto que aqueles condenados de guerra ao fuzilamento. Saí de casa às sete horas da manhã para votar e buscar mamãe em casa. Mais ou menos na metade do caminho até o lugar onde eu votaria, me dei conta. Eu não fazia a menor idéia de em quem votaria, para qualquer cargo seja qual fosse. Eu tinha desde antes decidido votar nulo, mas pensava que em algum momento daria uma pesquisada nos candidatos para não chutar o balde completamente. E agora, ali estava eu, de mãos e cabeça vazias. “Vou votar nulo, e foda-se” pensei.
Mas à emergência desse pensamento, comecei a me sentir culpado. “Dever social” pensei. “Eu posso fazer alguma mudança. Talvez nem todos os políticos sejam salafrários, ladrões, mentirosos”. Comecei a ficar receoso. “Por que será, se cumpro um dever social, me sinto idiota, e se faço o que quero me sinto culpado”. Achei que estava sendo um mau cidadão. Um porco preguiçoso que escolhe não acreditar na politica por preguiça de ouvir o que já sei que me dirão. Imerso em culpa, vi algo que me trouxe de volta a meu ceticismo. Havia uma pixação no corredor de ônibus. “Nossa cri$e tem 500 anos”.
E assim, finalmente me pus a pensar. E caro leitor, o que você está para ler não é, de fato, uma opinião popular, nem muito apreciada. Dificilmente você concorde, e vai despertar em você uma indignação que eu já vi ser despertada nas demais pessoas que pararam para me ouvir. Mas, como já afirmei outrora, é apenas opção do leitor se deixar levar pelo que lê.
De fato, todos os políticos são, sim, salafrários e malandros, e não faz a menor diferença se elegemos o yin ou o yang. Não falo de algo eufemista como “Nada mais liberal que um conservador no poder, e nada mais conservador que um liberal no poder”. Falo que nada e ninguém vai nos tirar da nossa condição de descontentamento, ou da nossa situação de fossa sócio-econômica. Não é o fato de que a configuração atual é inalterável, e sim o fato de que nós não vamos ver o que queremos ver. A questão é que o homem em nossa cultura vive em busca de algo novo, que o tire de sua condição infeliz e finalmente o leve à estabilidade, perfeição e contentamento. Com a vinda das eleições, cada um escolhe seu messias e dá sua contribuição. Ouço na rua: “Agora sim, com o Fulano pra governador (ou presidente, ou deputado, ou qualquer cargo), a gente vai engrenar”. É um pensamento lindo. É o mesmo que a chegada de um novo jogador num clube de futebol em crise, a contratação de um novo funcionário de alto posto em uma empresa, ou a troca de professores em qualquer tipo de aula. Onde eu mais vejo isso é na aposta da loteria. É um pensamento romântico, portanto, desconexo da realidade. Eu não gosto de estragar a fantasia das pessoas, mas se um ser pensante se despede dessa esperança, consegue se desenvolver e desenvolver um raciocínio que, finalmente, leve a tal mudança. Creio que a mudança vem quando se desiste dela. Sem contar que a condição de estabilidade, perfeição e contentamento que é buscada não existe, e nunca existirá.
Envolto em meus pensamentos, fui chegando ao local onde votaria. Panfletos cobriam a calçada inteiramente, com os rostinhos daqueles deputados, com cara de “quero conseguir esse bico apenas para ganhar uma boa grana regularmente e ter algum poder”. Quando cheguei lá, o local onde votaria era uma igreja. Que melhor local para se eleger um messias do que a igreja?
Então cheguei na urna e elegi repetidos zeros como um protesto, e uma breve homenagem à minha conta bancária.
Segui para casa para buscar mamãe. Ela me perguntou em quem eu tinha votado. “Nulo” eu falei. Eu devia ter visto isso chegando.
Mamãe ficou vermelha, e gritava comigo enfurecida. “Tem idéia de quanto batalhamos pelo direito de votar?!” ela repetia, meus tímpanos ruindo em agonia. Disse que eu não tinha feito nada senão desvalorizado uma luta de anos. Eu não queria dizer que ela tinha lutado por nada, e que as pessoas em que agora podemos votar são as mesmas que nos afundaram no passado. Eu não queria tirar os méritos de todo o cerne social e conflituante que caracterizou sua juventude. Era o que eles enfrentavam na época, e todos precisam de algo para enfrentar. Então eu fiquei ali. De ressaca, ouvindo sermão por horas a fio sentindo pena de mim mesmo. E, afinal, há quem diga que mãe está sempre certa.
Mas isso são outros 500...
Theo S. da Rocha