sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O Clube da Insônia

Eu já estava para fechar dois anos sem dormir. A insônia havia me pego de vez. Por vezes me via sonolento, corria para a cama ou para o sofá para dormir, mas não conseguia. Virava para cá, virava para lá, e nada. Aliás, foi dessa forma que passei minhas primeiras noites desde esse ataque. Eventualmente, desisti e me dei conta que era mais produtivo nem tentar dormir, ficando assim desperto, lendo livros ou ouvindo música.

Quando jovem, lembro das minhas primeiras insônias. Quando cheguei ao ensino médio, elas me abatiam todo domingo. Deitava cedo e ficava por horas ponderando e mudando de posição. Só voltava a ter noites de sono tranquilas em domingos durante as férias. Eu imagino que uma crise de insônia seja diferente para cada pessoa. No meu caso, eu fico virando de um lado para outro, sentindo ora calor, ora frio e nunca estabilizando minha sensação térmica. Ainda por cima, nesse quadro, perco controle sobre meus pensamentos, e posso ficar horas a fio pensando sobre uma mesma coisa, relevante ou irrelevante.

Mas dessa vez, era todos os dias, uma insônia repentina que andava comigo para onde quer que eu fosse. Os efeitos dessa insônia em mim saltavam aos olhos das outras pessoas: não tem como ser discreto. Me tornei pálido, catatônico, apático, e emagreci mais do que podia. As olheiras sob meus olhos já pesavam tanto quanto dois sacos de cimento. Cara amassada, corcunda, lento. Qualquer desconhecido que falasse comigo na rua poderia apostar o rabo na loteria que eu havia recém saído de um hospício, e ainda estava grogue de remédios e eletrochoque, fadado e já condenado à lobotomia. Alguns de meus amigos sequer me reconheceram.

Assim, minha memória também pereceu. Houveram dias consecutivos em que eu li o mesmo livro sem me recordar acerca do que viria na próxima página. Funcionando lenta, mau e porcamente, minha mente começou a apagar a linha que distingue eu do mundo externo, realidade de ficção, assim como comportamentos adequados aqui ou ali. Eu coçaria o saco na frente de todos meus colegas de trabalho, e agiria em casa com restrição e timidez. Uma vez apanhei de um garçom em um restaurante quando saí sem pagar a conta, me arrastando de chinelos e cueca samba-canção para a rua ensolarada.

Minha vizinha foi a única pessoa que reparou no meu ciclo diário alterado, e a única que se preocupou comigo. Não que ela realmente se importasse, ela apenas queria passar uma noite sem ouvir eu andando pra lá e pra cá e ouvindo música no meu apartamento. Ela me disse para ir ao hospital. Não pareceu uma má idéia.

Eu fui atendido por um fedelho que tinha idade para ser meu filho. Eu expliquei para ele minha situação e ele reagiu com naturalidade, como se aquilo não fosse nada. Esse é um problema dos médicos de que me recordo desde a época de meus pais. Você chega lá com um problema, procurando ajuda, e o médico acha que você só existe para complicar o dia dele, pedir remédios e pagar a consulta, como se você não existisse de verdade, e consistisse apenas em um pequeno obstáculo em mais um de seus dias estafantes. Quando terminei de relatar meu sofrimento, ele me prescreveu um anti-depressivo. Quando vi que ele escrevia outra prescrição, aguardei. No que ele me viu aguardando, disse “Pode ir, senhor, uma prescrição pra ti, uma para o doutor”. Ele inclusive furou a fila na retirada de remédios, o filho da puta. Pelo menos foi o que me disseram, pois com a minha atenção, eu não conseguia reparar absolutamente nada, nem mesmo o que eu mesmo pensava. Era como se minha mente fosse uma imensidão nula.

De qualquer jeito, tomei a porra do anti-depressivo. Ao que não me fez diferença, dobrei a dose. Em seguida, tentei misturando com álcool. Tentei tomar um porre e cair morto, tentei fumar maconha até apagar, e nada. Sempre ali, olhos abertos, mente nula. Eu sequer tirava algum barato dessas drogas. Era como se eu fosse naturalmente grogue e flutuante. Ouvi na rua alguém dizendo que ópio trazia bons sonhos, saí atrás dessa porcaria mas não achei em nenhum lugar.

Busquei então ajuda dos amigos que não mais me reconheciam. Um deles me disse para ver TV de noite. Uma hora, eu adormeceria.

Eu desconheço qualquer sensação semelhante a sentar no sofá e ver televisão. Você fica lá incapaz de se mover, sentido a mente apodrecendo e apodrecendo. As dores vão desvanecendo como um entorpecimento opial. Depois de pouco tempo, tudo o que concerne em sua vida está limitado àquela telinha brilhante.

Eu ainda estou para conhecer alguma pessoa que não é absorvida pela televisão. Uma vez ligada, aquela tela colorida estranha com sons engraçados absorve as atenções. Ver TV no mudo é interessante, você não fica tão hipnotizado, parece uma imagenzinha alheia.

Vi o texto de um cara dizendo que a TV a cores e o LSD vieram na mesma época. Por que esse súbito fascínio pelas cores? De qualquer jeito, ele dizia que um deles foi difamado e proibido sob a constatação de que enlouquecia e viciava. Por que não proibir os dois então?

Eu mudo de canal e entra na tela um filme dos anos 90. O que foram os anos 90? Li a entrevista de um grande jornalista sobre os anos 90. Ele dizia que a década de 80 foi a década dos suínos. Mas quando os 90 chegaram, ele classificou os anos 90 como a década dos realmente suínos. Ele, no início da década, afirmou algo assim: “uma década comandada por policiais, sem humor, com heróis já mortos e cada vez mais reduzidas expectativas, uma década que será reconhecida na História como Os Anos Cinzas. Ao fim dessa década, ninguém terá certeza de nada, a não ser que você deve obedecer às regras, sexo vai te matar, políticos mentem, chuva é veneno e o mundo é comandado por putas”. Hunter Thompson, era o nome dele. Sempre achei essa descrição muito precisa.

De qualquer jeito, a televisão então foi um elemento novo na minha vida. Trouxe coisas novas, embora a maioria fosse indesejada. Mesmo assim, eu virava noites imóvel na frente da TV, sem sequer piscar. Não havia adiantado nada. A sensação que eu passei a desenvolver então foi de que o fim estava sempre próximo. A loucura, a morte, ou os dois. Me distanciei das pessoas (ou elas se distanciaram de mim). Comecei a desenvolver delírios estranhos e surreais. A vida não mais era formal e estável, e eu era completamente incapaz de prever o que aconteceria no próximo momento.

Um belo dia, decidi me matar. Eu não tinha nada a perder, então me joguei do sexto andar do meu edifício. Eu atingi o chão com força, mas não perdi a consciência. Já tendo há muito cruzado os limites de dor, fui levado ao hospital. Eu não adormeci em momento algum, nem sob os efeitos de morfina. Oito meses no hospital e nenhum momento de sono. Nenhum.

A essa altura do jogo, eu já tinha certeza. Era castigo divino por alguma coisa que eu fiz na encarnação passada. Era uma maldição: “Não adormecerás!”, provavelmente por ter colado um chiclete no cabelo de Jesus ou de ter cobrado 10% das moedas de prata que Judas faturou. Não havia mais o que fazer.

Sendo assim, quando finalmente saí do hospital, com o rosto desfigurado e uma cadeira de rodas que rangia, me pus a pensar em certas histórias e mensagens.

Lembro de um amigo meu que me contou, há muito tempo atrás, a história de um americano qualquer que era pobre e ficou rico. Aquelas histórias capitalistas que sustentam a tal idéia de liberdade que todos têm de um belo dia ficar rico. De qualquer jeito, esse cara, segundo meu amigo, botou todo seu dinheiro em umas ações imobiliárias. Ele gastou todo seu dinheiro. Em contrapartida, levou uma bolada, abriu hotéis e blábláblá e ficou multimilionário. Verdade ou não, não importa.

O que importa, é que a minha resposta ao que ele falou me surpreendeu. Eis que eu disse “Sim, sim, mais uma história de alguém que era pobre e ficou rico por mérito próprio”. Depois de pensar um pouco, eu falei “ele gastou tudo o que tinha, e agora tem tudo”.

O que, de fato, me remete direto à frase célebre de Bob Dylan: “When you’ve got nothin’, you’ve got nothin’ to lose”.

Dado o momento que eu passei a viver: um pobre aleijado e desfigurado, eu já sentia que não tinha muito a perder, então doei todos meus bens e meu dinheiro todo e fui morar na rua. Algo como a lógica “tudo o que você tem na verdade te possui”, e uma tentativa de fugir dela.

Me lembro da minha primeira noite na rua. Era uma noite fria e ventosa, e chovia caricaturalmente muito. Custei um pouco a achar um lugar parcialmente coberto e seco para descansar, ao que achei, me deitei, virado para a rua. O chão era gelado e duro, e nada ao redor poderia me servir de travesseiro. Fiquei pensando o quão absurdo e idiota foi o que eu fiz. Eu sentia falta de uma cama, de uma casa, de calor e conforto. Mas esse arrependimento não me torturou por mais que alguns minutos, pois fui absorvido pelo sono, dormindo profundamente de uma forma tão divina e primitiva, que eu sequer sentiria o corpo relaxando, o dia seguinte passando, as pessoas, olhando.


Theo S. da Rocha