Devia ser em torno das seis da tarde – e anoitecendo – quando finalmente nos demos conta de que estávamos perdidos. No meio do mato.
A sensação que me aludiu ao fato de estarmos perdidos foi quando estranhamente voltei a uma memória da minha infância: eu acordei em casa e estava sozinho. Minha mãe pensou que eu não acordaria, e saiu para comprar pão, e quando acordei, não havia uma única alma naquela casa afora a minha. Lembro de abrir a dispensa e pensar “Acho que tem comida para uns 13 anos, mas depois vou ter que descobrir o que fazer”.
A diferença é que desta vez não tínhamos nada de comida. Cansados e com sede, ainda assustados demais para sentir alguma fome, paramos para descansar na encosta de duas árvores grandes cujas raízes se estendiam em paralelo ao solo. Trocamos olhares cansados em silêncio. “Acho que estamos perdidos”, disse um de nós. “Quem foi que teve essa idéia de qualquer jeito? Idéia filha da puta, porra”.
É claro que ficar perdido não estava no script da idéia, mas ela soou bem quando foi lançada. Era para ser uma busca ao tucano-verde-da-mata, uma ave filha da puta que se assemelha muito ao banqueiro de hoje em dia. O tucano-verde-da-mata joga fora os ovos das aves menores no ninho que elas próprias lutaram para fazer e toma conta dele, só por ter um tamanho – e uma fuça – mais avantajados que os dessas aves. Com um olhar estranhamente humano, o tucano-verde-da-mata é, de fato, a ave mais gananciosa e filha da puta das matas da região.
Obviamente a intenção não era apenas ver, ou fotografar, o tucano-verde-da-mata. Se tratava de um protesto e um ritual. Caçaríamos o tucano-verde-da-mata, talvez não buscando o simbolismo de exorcisar um bicho tão ganancioso quanto o homem, mas sim, apenas pelo prazer e pelo ato de transgredir. Afinal, o governo punia mais severamente um pobre desinformado que acidentalmente matasse um tucano-verde-da-mata – que estava em extinção – do que um milionário que desviasse dinheiro público para sua própria conta bancária.
Sim, era uma época estranha. Nesses tempos, peculiarmente, algumas pessoas se preocupavam mais com animais e seus bem-estares do que com humanos e seus bem-estares. Talvez isso se explique pelo fato de que os animais são mais fofinhos do que criaturas sem pêlos, cujo afeto pode ser usado para os mais variados interesses. Mas ainda sim, se preocupar mais com um animal do que com uma pessoa me parece estranhamente desumano...
Então, basicamente, toda a nossa jornada se resumia ao reles prazer de transgredir. Ademais, estávamos bêbados quando paramos na encosta das duas árvores gigantes. Tivemos uma pequena discussão com tons menores de desespero e seguimos em linha reta. Quando cansamos de novo, e isso já era de noite, sentamos na encosta de duas árvores pequenas e tivemos uma grande discussão, com tons maiores de desespero. Todo o cliché de um grupo perdido. Mas seguimos em linha reta, novamente.
Você sabia que quando estamos perdidos, nunca caminhamos em linha reta?
Hora do lanche! Acabamos por achar uma árvore de frutos estranhos. Foi nossa janta: frutas com formato de buceta e gosto doce. Sementes que faziam créck créck quando mastigávamos. Um de nós vomitou. Mas não era a fruta. Nós tínhamos, afinal, bebido a tarde toda. Adormecemos no barro, em poças de lama entre arbustos ruidosos.
No dia seguinte acordamos entre cogumelos. Estavam por toda a parte. Isso causou um estranho click no pobre cérebro de um de nós – o mesmo que vomitara na noite anterior. Ele interpretara esse fenômeno como um sinal dos duendes: teríamos de ficar por ali para estabelecer contato e morar com eles sob casas fungosas. Tentamos convencer ele a ir, mas rapidamente desistimos quando ele insistira. Se tem uma coisa que, com dor e uma pitada de irritação, aprendemos ao longo de nossas vidas civilizadas, é que numa discussão de igual para igual entre a razão e a loucura, a razão jamais prevalecerá. Então, nosso amigo ficou.
Mas um de nós, por sua vez, levou algumas “casas” no bolso. Como ele mesmo dissera, “perdido, perdido e meio”. Era uma boa variação. No meio do segundo dia, comemos os cogumelos, o grupo desfalcado e os corpos cansados. Fome não aparecia por ali. A fruta bucetal dava conta do recado.
Assim, obviamente, como devem ser as situações inesperadas, quando estávamos completamente alienados da realidade, o tucano-verde-da-mata apareceu em um galho justamente ao meu lado, na altura de meu ombro. Ele disparou um olhar arrogante e ganancioso para mim. Fiquei imóvel, tentando fazer com que as coisas que eu via parassem de se mexer. Direcionei minha mão para o bolso, onde estava meu revólver, mas acabei acidentalmente sacando minha carteira. “Onde está meu revólver?”, pensei, tentando olhar para os bolsos, enquanto o tucano-verde-da-mata voava em minha direção, e com o bico gigantesco arrancava a carteira de minha mão. Coisas da vida.
“Vocês perderam”, eu disse quando alcancei o pessoal. “Avistei o tucano-verde-da-mata lá atrás. Só que ele sumiu com a minha carteira. Coisas da vida”. “Acha isso grave?”, disse alguém. “Nós acabamos de ter nossas frutas todas roubadas por um crocodilo vegetariano”. São tempos estranhos, afinal. Mas um crocodilo era sinal de que estávamos perto de um rio, e depois de acharmos o rio, no exato momento em que estávamos nos banhando, o tucano-verde-da-mata estava entregando a algum deputado natureba, que morava no meio do mato, a minha carteira.
Sem grandes problemas. Eu nunca levo dinheiro quando saio da realidade. A volta à sobriedade nunca é comprada. Ela é vendida pelo preço da mudança. O retorno à terra da não-realização. E, levados pela correnteza, voltamos à cidade.
Nós subimos num ônibus que passava em frente ao porto central. “Quanto foi o jogo?”, eu perguntei ao cobrador. “Não queira saber”, ele me disse. Talvez estivesse certo. Me senti na cidade de novo.
Theo S. da Rocha