terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Grande Círculo

Era um domingo á tarde, o céu estava nublado e choveria a qualquer momento. Dois amigos despretenciosos caminhavam em um parque natural, em uma pequena cidade interiorana, olhando para o chão para não tropeçar em raízes de árvores. Ao som do primeiro trovão, eles decidiram finalmente rumar para a parada de ônibus, mas viram algo no chão que os segurou por ali por mais tempo.

Haviam cerca de vinte ou trinta pedras, estranhamente postas em círculo, sobre a relva que caracterizava um pequeno vão sem árvore alguma. As pedras tinham uma coloração incomum. Era como pequenos blocos irregulares de basalto, aparentemente enferrujados. Eles estranharam aquela disposição das rochas, e ao que pararam para analisar a cena, a chuvarada os pegou despreparados. Mas, subitamente, a chuva que os molhava não mais importava. Nem seus celulares em seus bolsos, que estragariam com a água, nem suas mochilas, que traziam dinheiro nos bolsos externos, que molharia e possivelmente estragaria. Havia um exótico sentimento de completude. Um sentimento bom. Algo diferente de qualquer outra coisa que jamais sentiram.

Quando a chuva parou, os dois decidiram: levariam as pedras dali. Dividiram as pedras entre as duas mochilas e levaram alguns punhados da relva, só por precaução. Deixaram tudo organizado no quintal da casa de um deles, as pedras em círculo e a relva no centro, e sempre que chovia, os dois se reuniam ali, para se sentir bem. Era algo exclusivo, e suas vidas começaram a girar em torno dessa cerimônia. Cedo ou tarde, trariam mais pessoas para experimentarem a sensação. Optaram por nomear o círculo de rochas de “O Grande Círculo”.

Uma das primeiras pessoas que eles trouxeram ali era, por acaso, amigo do amigo de um deles, e nenhum dos dois o conhecia. Esse sujeito sofria de asma desde que nasceu, e tinha crises diárias, sem conseguir viver sem a “bombinha”. Nunca pudera praticar esportes. Ele acabou ali por, casualmente, encontrar duas pessoas que estavam a caminho de uma casa em que era muito interessante ir quando chovia. Se juntou ao casal e foi ver o que era esse tal de “Grande Círculo”. Quando chegou lá, viu pessoas dançando na chuva dentro de um círculo de pedras, e acabou não entendendo o sentido daquilo. Uma das pessoas do casal, que era de grande valor para ele, o convenceu a ir junto. Ele entrou no círculo, frustrado por estar fazendo algo tão patético quanto se molhar na chuva. Mas algo mudou em seu sentimento, e parecia que nada era patético e sem sentido. Sem muito controle de si, dançou, e gritou, e correu, e riu, e não sentiu mais asma nenhuma. Nunca mais.

Era a grande novidade! O asmático estava curado! O grupo, já maior, celebrava em êxtase aquele milagre, embora não muita gente conhecesse o asmático. Foi uma situação cômica, e exótica, no mínimo. Apesar da surpresa, ninguém levou muito a sério. Algumas celebrações depois, uma jovem diabética se juntou ao clã, trazida por um amigo que lhe alegava fazer parte da “melhor festa da cidade”. Ela foi curada também, ao banho de chuva e êxtase coletivo.

Aquilo soou um sino na cabeça de alguns deles, e decidiram conversar sobre isso. O Grande Círculo era, de fato, mágico. Por isso, não se deveria mantê-lo apenas para um seleto grupo. Muito menos abri-lo para o público como forma de fazer dinheiro. Era necessário mostrar para o mundo! Assim, abriram um centro de terapias na casa em que se localizava O Grande Círculo, e começaram a fazer publicidade. Um jovem meio-irmão de um dos co-fundadores do Grande Círculo trouxe sua avó, que estava com um tumor de 5cm de diâmetro no cérebro, incapaz de andar. A idosa ficou ali, imóvel, no centro do Círculo, na chuva, até finalmente se levantar, poucos minutos depois. O tumor retrocedeu e sumiu em pouco mais de uma semana.

A mídia começou a falar do Grande Círculo, na pequena cidade. Todos os dias que seguiam algum dia chuvoso, aparecia um caso novo na capa do jornal local. Mais interesses foram despertados. A primeira grande repercussão foi quando o primeiro representante de uma grande universidade na capital abriu a boca para o jornal mais vendido do país. A capa fazia alusão a uma frase sua, alegando que aquela história de “Grande Círculo” era apenas “bruxaria barata”. Vários setores da universidade se interessaram por aquilo, mesmo assim, e a universidade mandou dois de seus melhores cientistas para a pequena cidade, para analisar o Grande Círculo. Acabou que as pedras eram, de fato, apenas basalto, sujo de barro, e a relva, que já não era a mesma de antes, com novas folhas de novas árvores, era apenas relva também.

Nada e ninguém conseguia, de fato, explicar o que acontecia no Grande Círculo quando chovia. O que aconteceu, portanto, foi a emergência de um enorme fluxo de pessoas doentes, de todas as partes do país, para tomar um banho de chuva no Grande Círculo. As pessoas chegavam doentes, ou infelizes, e saíam curadas. Havia boatos que a cerimônia curava inclusive a loucura. Mas nem tudo foram consequências boas. A indústria farmacêutica ia cada vez mais à falência. Os cientistas da universidade se sentiram desvalorizados, estudando coisas que já não mais tinham valor. A economia ia de mal a pior, porque não mais as pessoas precisavam comprar o que não precisava ser comprado. O caos emergia de forma violenta, e alguém tinha que parar com aquilo!

Assim, em um dia que amanheceu ensolarado, fazendo os viajantes esperarem mais um dia pela chuva para a realização da cerimônia, as autoridades bateram à porta da casa mais visitada da cidade. Eles tinham um mandato, e levaram as pedras, a relva, a grama e todos os documentos e estudos embora. Houve confusão: pessoas protestaram nas ruas, sendo caladas violentamente. Os mais exaltados foram mortos, os mais calmos, apenas presos. Os descobridores do Grande Círculo foram torturados e mortos, sem poder responder racionalmente a nenhuma pergunta feita para eles.

Em meio à ordem que era finalmente restaurada, surgia o jovem ex-asmático que observava a situação inteira sem traçar reação alguma. Gradualmente, ele viu as pessoas retornarem às farmácias, retornarem aos shoppings, e novamente ligarem a TV para ouvir e ver os fatos que eram apresentados ali, mais uma vez dizendo que o que não é da ciência, simplesmente... não é. Não é nada, não é relevante, não existe.

E assim, o jovem asmático escreveu um livro. Depois outro. Depois outro.

E algumas pessoas foram relembrando dos tempos de Grande Círculo. “Yeah, man, a minha vó foi curada, ela tinha câncer!” dizia um deles. “Eu tive um amigo que era paraplégico, e voltou andar!” dizia outro. E lentamente as memórias iam voltando à população. E o jovem ex-asmático precisou se esconder. As autoridades o procuravam, ele passou a ser inimigo do Estado. Se fosse achado, seria morto. E assim, ele se escondeu no único lugar onde sabia que não seria procurado: na capital. Afinal, que pessoa do interior se esconderia do Estado na cidade grande?

Ele, então, seguiu sua vida. Escrevia seus livros, trazia de volta as lembranças dos velhos tempos, enquanto o que passou a se fazer de seus livros na mídia e publicamente era pior do que apenas tirá-los das prateleiras: as pessoas apareciam na TV, ridicularizando-o. Que idéias idiotas! Bizarras! Que cara louco e sem razão! Mas as pessoas que foram curadas, e as pessoas que as trouxeram, sabiam da verdade.

Em um dia chuvoso, o jovem ex-asmático decidiu ir à padaria, comprar bolinhos de chuva. Lá, na fila, esperando sua vez, se deparou, justamente, com o representante da grande universidade. Este, ao o ver, fez questão de abordá-lo, com uma risada com ares de superioridade.

- Estive esperando muito tempo pra te dizer isso – disse o representante, em deboche – mas o placebo, de que você fala não é cura.

- Placebo ou não, curávamos as pessoas sem efeitos colaterais. Pouco importa se a cura vem por uma substância ou não, o que importa é o que traz, de fato, a paz, o progresso e a felicidade. Você pode rir o quanto quiser, mas sabe que a maioria das coisas que nos cercam fogem à sua percepção e a da ciência – disse o ex-asmático

- Como o quê, meu jovem ingênuo? – perguntou o charlatão

- O melhor exemplo é o fato de a ciência não vê que ela se tornou justamente aquilo contra a qual ela mais lutava. A ciência é a Igreja Católica do século XXI, e a Inquisição acontece todos os dias, contra os pagãos que vão contra a deusa Observação Empírica. Tudo o que rege os seus atos, e os de seu paradigma, diz respeito à mesma visão que você e seu paradigma mais condenaram.

- Você é um idiota. Quem você planeja convencer com esse papo?

“Ninguém, de fato”, pensou o jovem ex-asmático. “Eu, particularmente, não planejo convencer ninguém”. Mas é claro! Para quê perder tempo? Como diz William Blake: “Seríamos tolos, se outros já não o fossem”. Indeed! Embora isso possa parecer um pouco egoísta, na vida, o que se deve fazer, é uma escolha, dentre duas:

1 – Ser um idiota

2 – Ser muito idiota

O que, na verdade, compromete a escolha dessas alternativas é o fato de que a segunda opção é muito mais fácil, e dá mais dinheiro. Mesmo assim, graças a... bem, graças a qualquer coisa, ainda existem aqueles que se banhem em sua própria chuva. A idiotice, entretanto, nada no mar de si mesma.



Theo S. da Rocha