domingo, 5 de dezembro de 2010

O Cão Sem Contornos


Eu tinha esse amigo que era pintor, não um grande pintor, mas uma pessoa um tanto excêntrica. Ele gostava de ser o anfitrião, e dar jantas para todo seu círculo social. Eu conheço o tipo. Aqueles que, de tão generosos, acabam se tornando orgulhosos. Chegávamos lá e ele mostrava a casa para todo mundo. Uma casa enorme. Ele não vendia quadros, mas seu pai, em outro canto do mundo, vendia petróleo, então ele não só não se incomodava com dinheiro como adorava esbanjá-lo para os demais.

Ele sempre envenenava a comida que cozinhava com alguma peçonha psicoativa. Não guardo muitas memórias primeira janta que eu fui. Me lembro apenas de olhar para cima e xingar a lua, que fechasse sua janela do exibicionismo e ligasse as engrenagens do voyeur. Em seguida, voltei para dentro da casa e reorganizei os móveis da sala, tentando fazer um relógio solar que formasse uma constelação nova, com o intuito de armar o palco para uma seita satânica, onde escravizaríamos e esquartejaríamos formigas vermelhas da África.

Na segunda janta, eu achei que ele não seria tão filho da puta uma vez depois da outra, mas eu estava errado. Acho que eu era o único que não sabia dessas intoxicações. Todo mundo parecia tão à vontade. De qualquer jeito, não me sobraram muitas memórias dessa janta também. Eu caminhei sobre a água da piscina, colhi flores no jardim que mais pareciam com ouriços do mar pintados de arco-íris e as entreguei para uma outra convidada que outrora achei atraente. Quando abordei ela, seu rosto se tornou um grande outdoor com ditos populares estranhos. Algo como “você planta o que colhe”, “cães de rua não atravessam a rodovia na faixa de segurança” e “diga ‘oi’ se quiser ir embora, e ‘adeus’ se quiser ficar”.

Não preciso dizer que não mais comi a comida cozinhada por esse sujeito em suas jantas. Eu comia algo antes de sair de casa, e passava fome depois. Não ir nas jantas estava fora de questão. Se tratava de um estudo, uma etiologia, de até onde vai a indecência humana e até quando o ser humano se acostuma com sua própria condição de animal. Então, o que eu fazia era sentar à mesa e passar a comida para o cão do anfitrião.

O cão era um vira-lata dócil. Eu não dava muita bola para o seu comportamento depois de passá-lo as comidas que me eram servidas, mas nunca me acostumei a vê-lo latindo para uma parede branca e olhando para os lados em silêncio desesperado, ou subindo e descendo escadas freneticamente, enquanto a língua pendia para fora da boca pelo canto direito de seu focinho. Ele sempre olhava para o nada, virando a cabeça rapidamente como se grandes espectros coloridos atravessassem a sala em uma velocidade alucinante. Ninguém dava muita bola para seu comportamento, já que estava todo mundo agindo estranhamente, até que um dia o cão perdeu suas estribeiras, atravessou seus limites e enlouqueceu completamente.

Eu recebi uma ligação do pintor no dia seguinte à janta. “Alguém alimentou o Jim com o meu strogonoff de peixe cru mágico, ele pirou completamente” ele disse, parecendo brabinho. “Yeah, fui eu. Achei que ele devia entrar no clima”. Ele urrou de raiva e disse que agora o cão era meu. “Sem sentido” eu lhe disse. “Agora ele está a sua cara, aposto”. Não adiantou muito, e eu tive de aceitar o cão, já que ele prometeu sacrificá-lo se eu não o acolhesse. Eu ouvia o cão latindo no fundo, através do telefone. Provavelmente passou a noite e a manhã inteira agindo estranhamente.

Aquilo realmente me deixou puto da cara. Ele não era um sujeito coeso: gostava de ficar louco, gostava de parecer louco, mas deixou de gostar do cão porque ele havia, oficialmente, pirado de vez. Então adotei o cão, mesmo morando em um apartamento. Consegui facilmente ensiná-lo a cagar e mijar no jornal, mas todo o resto foi difícil. Ele latia, quase todos os dias, para o que eu suspeito que fossem os espectros coloridos atravessando a sala. Por vezes, tentava escalar a parede, arranhando tudo. Ficava apoiado na janela, uivando para as mulheres muito maquiadas que passavam de salto alto pela calçada, e babava excessivamente quando algum chiuaua, macho ou fêmea, passasse por ali. Os vizinhos reclamavam, mas ninguém tinha coragem de mexer com o vira-lata. Ele parecia fora da casinha demais para qualquer interação. Com o tempo, me acostumei a chamá-lo de Jim, como o pintor filho da puta o fazia.

Assim, os dias muito depressa se tornaram rotina, novamente. Eu passava o dia inteiro fora de casa, trabalhando, e tornava à noite, ficando por ali quando eu não saía para tomar uma cerveja. Nos fins de semana, saía passear com o coitado, por pena de deixá-lo trancado no apartamento por tanto tempo, mas era sempre complicado de sair com ele. Sua loucura era quase incontrolável, e ele sempre arranjava uma nova maneira de se portar insanamente. Quando eu saía para trabalhar, e deixava ele sozinho em casa, nunca sabia o que ele fazia. Havia dias em que os vizinhos reclamavam de barulhos, ou latidos, e havia dias em que não comentavam nada. Até que um dia tudo mudou.

Cheguei em casa um pouco mais tarde do que planejava, já que não havia comida em casa e eu precisei buscar algo no mercado, e quando cheguei ele estava lendo meu livro do Rousseau, “O Discurso sobre a Origem das Desigualdades entre os Homens”.

Aquela situação me pegou de surpresa, mas eu tentei agir naturalmente. Fiz um desjejum sem olhar diretamente para ele, tomei um banho e fui dormir. Achei que era só o cansaço, mas no dia seguinte a situação se repetiu. Dessa vez ele estava lendo Maquiavel, “O Príncipe”. Decidi não me privar de fazer minhas coisas, e deixei-o ali, lendo. Com os dias, fui me acostumando com a situação. Ele parou com os comportamentos insanos, de latir para o ar, tentar voar pulando de cima da mesa e tentar escalar a parede. Assim, ficava de segunda a sexta em casa, lendo, enquanto eu trabalhava. Lia Anthony Burguess, Irvine Welsh, os Beatniks todos, alguns filósofos, alguns psicanalistas, Jung, Hunter Thompson, Lovecraft, Kafka, Hemingway, e assim, todos os livros que eu possuía, alem desses. Todos.

Um belo dia cheguei em casa e ele lia Nietzche, com um cigarro entre os dedos da pata esquerda. Ele se virou para mim, com as orelhas para o ar: “Já é hora de conseguir novos livros”. Ele sentava no sofá, com o livro aberto sobre o sofá e sob a sua pata direita. Eu olhei novamente para o cigarro. “Então você é canhoto?”, perguntei. “Yeah” ele disse. “Acho que sim”. Depois disso, pegamos o hábito de discutir alguns filósofos. Quando eu chegava em casa embriagado, discutíamos o sentido da vida. Com o tempo, ele começou a escrever também. Eu lhe dava privacidade para fazê-lo. Depois de alguns meses, ele me mostrou pela primeira vez seu trabalho. Era um poema sem forma:


“O Pôr do Sol

O céu em degrade

Lá longe vermelho

Quente a ainda fonte de luz

Vai rapidamente esfriando

E quando esfria

Passa por um universo de cores sem nome

Nem definição

Se torna amarelo

E desse amarelo, um claro indizível

E desse claro indizível, vai escurecendo

Passa por lilás e violeta

Sem contar todos aqueles tons

Jamais vistos em qualquer outro fenômeno

Até que, sobre a minha cabeça, apenas o céu azul escuro

Quase noite

É como uma jovem ingênua

Que com brilho indizível expõe sua beleza e juventude

E passa por um desenvolvimento

De uma maneira misteriosa

Formando personalidades antes instigantes

Até sucumbir à velhice

Sem mais possuir excentricidade

Ou segredos tão cativantes.”


Eu leio o poema atônito. Releio e viro para ele. “Está uma merda”. “Eu sei”, ele diz. “Eu li hoje em uma revista de diz que cães não vêem cores” eu lhe digo. “É mentira” ele me diz. “O imbecil que disse isso devia ter suas mãos e seus pés cortados por um açougueiro canibalista faminto, e, em seguida, castrado. Eu vejo cores até demais”. Eu reflito sobre o que disse. “Pena” eu lhe digo. “Se tu só visse em preto e branco, esse poema passaria a ser um dos melhores que eu já li”. Ele olha para baixo, em decepção. Se levanta do sofá, e vai mijar no jornal. “Mas não desista” eu lhe digo, enquanto ele sai da sala. “Talvez as gerações seguintes te vejam como um profeta”.

Ele volta para a sala, resmungando. “Isso seria um porre”, ele me fala, retornando ao sofá. “Prefiro ser queimado no inferno por toda a eternidade, e ser torturado por um coreano com problemas paternos, do que ser lecionado nas escolas. Isso sim, é o verdadeiro castigo para alguém”. “Yeah”, eu lhe digo. “Você não podia estar mais correto”.



Theo S. da Rocha