É quente pra cacete em Porto Alegre. Tu sai na rua e se sente um pobre cão indefeso trancado em uma fornalha, e cada lugar com ar condicionado parece uma pequena saidinha do forno. É como se os lugares climatizados tivessem o clima natural e necessário para a vida, enquanto a rua é o lugar estranha e artificialmente aquecido em que nem uma barata conseguiria sobreviver.
Eu saio de casa contra a vontade. Ir ao banco, pedir um empréstimo. Implorar por isso. Então tu vai andando na rua e percebe a decadência das pessoas. “Esquece”, eu penso. “Foco no calor, não prestar atenção em ninguém”. Eu chego no banco e respiro um pouco de ar puro (ar condicionado). Passo pelo detector de metais e vou pegar a senha.
No caminho, percebo uma escultura estranha, uma estatua de um santo. Sei lá que santo é, mas é um carecão com um fedelho no colo. Em seus pés, moedas. 10, 25 e 50 centavos. Interessante cena. Quem põe as moedas ali? Eu sento em uma cadeira e aguardo ser chamado. Ao meu lado, uma mulher atende o telefone: “Consegui duzentos pila só. Não sei, também to pensando em ir lá. Até as seis né? Ah, se não der, fodeu mesmo”.
De fato, a escória. Ser porto alegrense já teve seu charme e beleza. Hoje, ser porto alegrense é se incluir no enorme grupo de pessoas gananciosas, mentirosas, filhas da puta. E tu sai pela rua vendo todo o tipo de sacanagem e mau caratismo e reconhece derrotado que infelizmente tu faz parte do mesmo saco. Isso é ser porto alegrense. Mais porto alegrense ainda é não fazer nada para mudar isso simplesmente por reconhecer que a coisa não vai mudar mesmo. Então, se tu não se encaixa no perfil porto alegrense de ser filho da puta, ou acha que não se encaixa, fica por conta dos que não fazem nada.
Mas nada disso me incomoda, porque eu realmente fiquei intrigado com o santo-riquinho. Quer dizer, em primeiríssimo lugar: que tipo de santo aceita dinheiro por uma causa? Tem certeza que isso é um “santo”? Em segundo lugar, quem dá dinheiro para um santo? Fale a verdade, tem pessoas com fome lá fora! Se tu olhar pela janela, passará um esfomeado sem-teto por minuto, e lá está tu pateticamente botando moedas no pé de um carecão que sequer vai gastar esse dinheiro.
Então depois de implorar para o banco liberar algum dinheiro, como se eu fosse um cachorro implorando por uma migalha de pão ao padeiro que recém ganhou um prêmio sozinho na loteria, eu passo por ali e vou recolhendo todas as moedas do santo controverso. “Deve ser o padroeiro dos políticos”, eu penso, imerso em minha tarefa. Uma mulher pára ao meu lado. “O que tu acha que está fazendo?” ela me pergunta, com a voz elevada para chamar a atenção das pessoas ao cara que está pegando o dinheiro de Jesus.
“Vou dar esse dinheiro a alguém que precisa”, eu respondo, sem sequer olhá-la. Eu levanto e vou saindo. “Vai dar para algum vagabundo gastar em bebida?” ela me pergunta, me seguindo. “Ora, tu não bebe?” eu devolvo a pergunta. “Bem, se tu bebe, sabe que é bom, e não vai negar esse prazer a alguém que não tem o dinheiro para beber”.
Sim, eu penso isso. No momento em que eu dou dinheiro a alguém, o dinheiro não pertence mais a mim, e essa pessoa pode fazer muito bem o que quiser com ele. Pode enfiar no seu rabo, não faz diferença para mim. O cara pode muito bem poder comer um sanduíche ou conseguir uma jantinha, e usar o resto da grana para comemorar que ele pôde fazer uma refeição, e comprar uma cachaça com os comparsas moradores de rua. Que se foda, afinal. Dinheiro gasto em bebida não tem como ser mal gasto.
“E se eu não bebo?” ela me pergunta, com uma legítima cara de “eu não bebo”. “Então tu é uma idiota” eu respondo. “Qualquer pessoa que vive em Porto Alegre e não bebe simplesmente não tem mais jeito na vida. São ingênuos demais para qualquer tipo de ajuda”. Eu saio do banco e vou andando pela rua, desviando das pessoas como se fossem tiros.
Não beber. Acho que meu maior problema é essa aversão a abstenções. Não é apenas a própria abstenção, e sim as coisas que motivam elas. Há sempre um motivo idiota por trás de uma abstenção. O pior de todos, que realmente me faz ranger os dentes e simplesmente querer ir dar um tapa na cara de deus por ter criado isso, é a abstenção por uma saúde melhor, ou para viver mais.
“Isso dá câncer, aquele outro mata”. Um dia haverão pessoas que não vão mais transar por que é dito que mata.
Viver mata. Você pode não comer carne, não usar drogas, não beber ou não sair por aí fodendo, mas vai morrer de qualquer jeito. Só porque Jesus recusou um copo de coca cola, eu deveria recusar um bife a milanesa? Foda-se. Toda a ingestão leva inevitavelmente a morte. É melhor ir se divertindo e fazendo o que bem quiser do que ir contra a vontade tentando postergar o que já está para acontecer.
Então você morre, vai a são Pedro e diz “que tal mais um tempinho?”
E ele diz “Em Porto Alegre?! O que você quer? Ser queimado vivo sem qualquer rastro de compaixão e ser humanismo? Você nem estava se divertindo mesmo!”.
Finalmente encontro um pobre velho dormindo sobre uma caixa de papelão de uma TV de plasma de 70 polegadas e o acordo. “Hey, man”, eu digo. Ele vira, metade surpreso, metade entorpecido de sono. “Tenho uns trocados aqui, tu precisa?”. Ele sorri um sorriso pervertido, criminoso, estranho. Poucos dentes rolando por ali. “E quem não precisa?”, ele responde. Boa resposta.
No caminho de volta para casa, dois moleques da minha idade dividindo uma garrafa de cachaça passam, rindo e berrando para as senhoras que saíam da igreja. Mais adiante, um atropelamento interessantemente violento envolvendo uma picape moderna e um casal de franceses que vinha para cá em turismo. O motorista, um executivo exaltado, culpava histericamente o casal, que jazia inerte no chão, sangue por tudo.
Porto Alegre é uma cidade única. Recebe os turistas do mesmo jeito que trata os próprios nativos. A não ser que eles tenham dinheiro. Muito dinheiro. Acho que é isso que chamam de amor. Mas estão errados. O amor é mais egoísta que isso.
Theo S. da Rocha