terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cheap e Bargain

Duas baratas, Cheap e Bargain, viviam dentro de um violão. Era uma convivência tranquila. Viviam em harmonia e simplicidade, apenas aguardando o fim dos tempos, sem ansiedade nem preocupações quanto a isso.

Cheap era uma lésbica de meia idade. Ela gostava de música folk e de açúcar, e embora não buscasse estabilidade ou conforto em sua vida, se sentia aconchegada e de acordo com a ideia de acomodar-se e viver com Bargain, mas não excluía a possibilidade de mudanças súbitas e improváveis a levarem para outro caminho.

Bargain era um ex-junkie que chegava à terceira idade com poucas demandas e necessidades. Ele gostava de Iggy Pop, e se sentia bem consigo mesmo quando ouvia pessoas ou outras baratas fazerem alusão ao seu tamanho descomunal. Bargain era uma barata muito grande.

O violão se situava num canto empoeirado do quarto de um ex-músico. Ele havia desistido da música pela escassez de possibilidades, e agora trabalhava para juntar dinheiro e abrir um bar. De vez em quando ele pegava o violão para tocar e improvisar um pouco, em nome dos velhos tempos e do resgate das memórias que agora não passavam a ser nada mais que memórias. Os episódios musicais eram raros, e talvez por isso fossem apreciados sem reclames pelas baratas.

Os dias de Bargain e Cheap se constituíam geralmente de formulações criativas de situações que fossem inusitadas, e assim se tornavam um quebra-cabeça para o outro, que ia tendo que adivinhar como se desenrolavam essas situações e seus porquês. Ademais, nos momentos de maior calmaria criativa, discutiam a vida. Cheap gostava de discutir o quão ridículo é o medo da morte, enquando Bargain tinha um sério problema com a oposição verdade-mentira.

Sua última discussão girava em torno de cães. “Um cão que sente falta de seu dono”, começou Bargain, “age de fato muito mais honesta e sinceramente do que um humano que perde seus pais. O cão expressa tristeza, sim, mas não cessa de procurar seu dono ou de esperar que ele retorne. Enquanto um humano busca outras formas de contornar o fato, mas, no final, nenhum dos dois se recupera do baque”.

“Não se trata de sinceridade”, disse Cheap, “Já que o cão não reconhece a morte, ou não acredita nela”.

“Cães reconhecem a morte. Já vi donos morrendo ao lado de seus cães. Os cães expressam tristeza no durante e no pós-processo. Alguns até o sentem com antecedência. Ademais, seria uma grande contradição, os cães serem sinceros e não reconhecerem a morte, enquanto os humanos a reconhecem, e mentem. Talvez a mentira seja a tentativa de negar a morte. O que quero dizer, na verdade, é que a simbolização é a tranformação dos fatos em mentira. Todavia, a mesma simbolização é necessária para a manutenção de uma sanidade. Logo, quem não mente, não responde em liberdade pelos seus atos, e não tem o direito de manter-se inserido na sociedade: é tirado dela”.

“Você não pode possivelmente comparar cães a humanos”, respondeu cética Cheap. “Cães são muito mais cool que humanos... e que gatos tambem”.

“Você entende que quem não mente, não só para o mundo, mas para si mesmo também, não chega longe, não importa o quão longe e aonde queira ir? No final, a mentira é tão constitutiva, quanto a dor e a vergonha. Talvez tudo o que é constitutivo seja desconfortável”.

“O amor é constitutivo”

“O amor é desconfortável”

“Olha, Bar, eu vou ir buscar um açúcar pra nós. Parece que a barra está limpa. Tu queres?

“Não faço questão”

E assim saiu Cheap, em silêncio, do violão, embora para a cozinha, mas assim que ela saiu do quarto ouviu passos. O ex-músico, surpreso pela presença inusitada de uma barata em seu quarto, não teve escrúpulos, e como estava sem chinelos nem tênis, procurou um livro com o qual pudesse causar uma morte. Algum livro que não tivesse problemas em sujar. Então, um pouco relutante, mas reconhecendo a hierarquia de seus livros, pegou o Discurso sobre a Origem das Desigualdades entre os Homens, de Jean-Jacques Rousseau, e encerrou a existência de Cheap.

Bergain observou a cena inteira. O livro, de boas idéias, embora ingênuas, espalhara as entranhas de Cheap pelo carpete azulado, restando apenas o leve e sutil movimento da antena esquerda, talvez um aceno, ou um breve calafrio, quase imperceptíveis.

Reduzido à sua própria existência, Bargain então assumiu sua identidade de trovador e mentiroso, e escreveu um livro para lidar com a dor da morte de sua grande amiga. Ele se arrependeu um pouco do fato de só aprender a verdadeira lição acerca das mentiras logo antes de morrer, de overdose, ao retornar à heroína. A questão, ele pensou, não é viver de verdades, e, sim, de fazer uso das mentiras por entendimento próprio. Talvez a verdade emerja sutilmente das mentiras, do mesmo jeito que um pequeno peixe de um palmo de cumprimento emerja no meio do oceano, morto por velhice ou por inconveniente envenenamento. No final, pouco importam os fatos. O divertido é saber opiniões, e se esse é mesmo um mundo de podridões, a melhor coisa a se fazer é se entregar.

A si mesmo, é claro. As podridões são consequências, e só depois de surgirem como consequências elas brotam como causas. A diferença entre a barata que é esmagada e a barata que esmaga é que uma delas acha que não é uma barata.


Theo S. da Rocha