quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Os Sex Pistols, vírgula, e a trilha do caminho da ignorância rumo à nova década

Era um fim de tarde surrealisticamente quente, quando tive uma conversa sobre falsidade com o dono de um boteco que frequentava. Eu estava bebendo desde o início daquela tarde com um par de amigos, e estava exausto, reduzido a álcool, suor e um rosto sujo, cansado de esboçar expressões exacerbadas de todos os tipos de sentimentos.

Não lembro de como o dono do bar se auto-introduziu à conversa, mas lembro que ele o fez sozinho. Estávamos falando sobre falsidade, ainda em um nível de sutil princípio de uma longa conversa. Aquela coisa, exemplos do dia a dia, sem ninguém ainda formular teorias alem da mera opinião já formada. O de sempre. Alguém diz “mentir é feio e pau no cu”, e outro concorda, mas diz que a mentira é necessária numa dieta diária de ações inevitáveis. Afinal, se sua namorada te traiu, você não vai sair dizendo para o vizinho que te cumprimenta “oi, tudo bom?” que “não, nada está bom, ela me deixou e eu estou um trapo”.

O problema dessa afirmação é que partimos para a divisão dos tipos de mentira, e é por aí que você percebe que a conversa vai ficar complexa demais. Então, existem as mentiras cotidianas: “oi, tudo bom?” e você responde “Yeah, tudo ótimo”. Por outro lado, existem as mentiras filhas da puta, em seus diferentes graus e contextos. Digamos, uma mentira filha da puta leve, como “Não, não fui eu que bebi a cerveja que tu guardava para uma ocasião especial”, e uma mentira filha da puta foda, como “Não, não, pode confiar em mim, eu não vou contar pra ninguém” ou “Não, eu juro que não dei em cima de sua namorada! Ela está mentindo”. Mentiras desnecessárias, embora necessárias para manter um status de relação, ou relação, apenas.

Mas não entremos no mérito “mentir em prol da relação”. Eu, particularmente, não acredito nessa filosofia. Para mim, ela é uma mentira em si, para manter e justificar uma mentira. Aí, já temos um pilar de mentiras, mas há quem creia nisso. Todavia não nos manteremos julgando essas coisas aos pobres e limitados olhos da moral: quem quer mentir mente, quem acredita que pagar o preço por uma verdade maldita vale a pena, fala a verdade. “O que quer que funcione para vocês, meus caros e pacientes amigos, é o melhor pra vocês. Então, vão se foder com essas filosofias, seja quais forem a suas” eu disse, tanto para o senhor honesto quanto para o senhor filho da puta.

Nada disso são questões das quais eu quero falar. Eu, de fato, realmente não consigo me importar com nada do que eu falei antes. Mas o dono do bar, em certa altura da conversa, tirou o avental, fechou o bar, pegou uma cerveja e sentou à nossa mesa como se fosse um velho amigo dos tempos de escola, e defendeu um ponto, no mínimo, exótico. Eu não tive nenhum problema com aquela invasão de espaço, afinal, ele trazia três cervejas de pronta vontade, e de graça. Mas um amigo meu se incomodou um pouco. Foda-se ele.

- Eu acredito que a mentira pode ser tão sincera quanto a própria verdade – ele disse.

- Yeah, yeah – eu disse – em toda mentira há uma verdade, sim, mas não vejo isso como um fato de grande relevância.

- Não – ele disse – o que eu quero mesmo dizer, guri, é que a mentira é um ato sincero.

- Cara – um dos meus amigos disse – como tu pretende embasar esse argumento absurdo?

- Simples. Sex Pistols – ele respondeu. A conversa estava começando a ficar interessante. Eu pedi para ele continuar, e ele deu sequência a si mesmo – Os Sex Pistols acabaram com o punk, como ele era. O fim do punk tinha, de fato, que acontecer com a banda mais punk, embora eles não fossem punks. Eles trouxeram o feeling para a mídia, e para o mundo, e ele perdeu seu irônico valor. Não existe mais punk depois de Sex Pistols, apenas restos de Ramones e Iggy Pop, que já faziam coisas diferentes.

- E aonde entra a falsidade nisso?

- Bem, em primeiro lugar eles não formaram a banda. Um empresáriozinho mimado atrás de dinheiro decidiu fazer uma banda que exacerbasse o que acontecia no âmbito underground de Nova York. Aquele filho de uma puta cracolenta do Malcolm McLaren. Então ele catou os caras da banda um por um. Eles sequer gostavam de qualquer coisa pesada! Os poucos que ouviam algo de rock ouviam Beatles e a primeira bandinha do Rod Stewart. Então ele diz pra eles o que fazer, passa o dever de casa. “Escrevam sobre isso, usem tal roupa”. E eles entraram no papel. O único que acabou curtindo e se convertendo foi o Rotten, ainda que no início ele fizesse só pelo trabalho, mesmo. Então, o que eles faziam era encenar. Quem pedia um autógrafo ganhava um catarrão na capa do álbum, e ainda curtia. Eles eram atores! E influenciaram milhões. Com algo que eles não acreditaram.

- Esperaí, cara – eu disse – talvez tu queira dizer que é mais fácil fazer algo encenando, ou mentindo, ou atuando. Mas não é um fato que a verdade e a mentira estejam juntas, em síntese e simultaneidade. Ademais, Rotten passou a escrever letras realmente cruas, com maestria, sinceridade, e ele expressava-as com verdadeirismo. Os Sex Pistols não têm nada de falso, meu caro.

- Você está perdendo o fio da meada – ele me disse.

- Não, não estou. O que você quer dizer é que a mentira não é mentira porque para alguém ela é verdade, talvez porque seja, ou talvez porque quer que seja.

- Yeah – ele disse – é isso aí.

- Yeah – eu falei – e é patético. É quase tão ruim quanto o “mentir em prol da relação”. Me soa como a ingênua e idiota idéia de quem nunca teve uma idéia, e sempre quis ter uma que se destacasse por ser diferente.

Ele fechou a cara, se levantou e foi ao bar, secar uns copos. “Fechou em 64 reais” ele disse dali, já nos expulsando. “Tire os dez por cento” eu falei. Mas é claro. Mau humor e inflexibilidade são qualidades que me fazem por em questão a gorjeta, mas não fazem com que eu de fato o faça. O que realmente provoca a reação de aversão à gorjeta é a ignorância com inflexibilidade. Vai por mim, eu mesmo sou garçom e entendo dessas coisas. Ninguém quer pagar por burrice.

Nós já fazemos o suficiente disso com os impostos, afinal.

A verdade é que os Pistols surgiram de uma maneira curiosa, que oferece uma nova maneira de ver o rock n roll. Os caras não conheciam muito de rock n roll, não gostavam muito de rock n roll, mas já sentiam o punk feeling: o que foi punk nos EUA dizia respeito ao sentimento de dor, enquanto na Grã Bretanha, disse respeito ao ódio. E os caras eram bem odiosos, só não sabiam contra o quê. Foda-se se um empresariozinho mimado e arrogante criou a banda: ela só existiu por causa dos caras, e eles foram bons. E sinceros. E isso não se vê em nenhum lugar hoje em dia. Espontaneidade!

Por Deus, o som mais expressivo que ouvimos nessa década que se passou foi de um avião batendo em uma das torres gêmeas, e som do desabamento. E digo que não foi bom. Os anos 00 foram um completo infermo. Foi o sepultamento do inusitado, do espontâneo, e de toda a sinceridade. A década que se passou foi bem sucedida no que diz respeito a nos transformar em máquinas. Agora, estamos engatilhados e preparados para nova década: uma década em que toda novidade vai ser ruim, toda a intenção vai girar em torno de dinheiro e poder e toda sinceridade vai se limitar ao amor dos cães por seus respectivos donos, e da raça humana pelo pequeno papelzinho verde que traz material, amor e satisfação de desejos.

Mas não se preocupe: o cão ainda vai ser o melhor amigo do homem. É claro, desde que continuemos tratando-os como cães, e não como filhos. Ouviram, peruas? Se você está mandando a Fifi para fazer as unhas, para ser tosada, para tomar remédios calmantes e para descansar em hotéis de luxo, provavelmente é você que precisa fazer as unhas, se depilar, tomar algum veneno altamente tóxico e ir viajar para algum lugar.

Pelo menos nem tudo está perdido. Não inventaram cirurgia plástica para cães. Ainda.

E eu não estou falando só das peruas... e nem só dos cães.



Theo S. da Rocha