terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Largo Passo Em Direção Ao Aperfeiçoamento

Eu estava em um bar num fim de tarde abafado, bem naquela hora que os mosquitos saem para coletar sangue, quando eu conheci o velho Flip. Os mosquitos zuniam em meu ouvido, e minha paciência há muito havia esgotado, então eu fiquei ali, sentado sozinho em minha mesa, com um expressão irritadiça, me estapeando no rosto e nas orelhas, tentando acabar com aquele barulho infernal, o zumbido agudo que vem e vai. O velho Flip me viu em meu momento de “eu prefiro explodir em mil pedaços a continuar vivendo assim” e sentou na mesa comigo.

“Hei hei hei, alguém me parece que não está tendo um bom dia” ele disse, trivial. “Na verdade o dia estava normal até chegarem esses mosquitos” eu respondi, tentando não ser agressivo. “O segredo é não tomar cerveja. Os mosquitos preferem quem toma cerveja”. Eu ri. “Isso é uma piada?”. “De jeito algum” ele disse. “Li isso numa revista de pesquisas”.

A razão para eu trazer o velho Flip à tona não era o fato de ele ser uma enciclopédia viva, e um sujeito com um vasto conhecimento do inútil. O fato é que o velho Flip possuía uma lanchonete no centro da cidade. “Você disse que estava tendo um dia normal até os mosquitos chegarem?” ele me perguntou, depois de falar da cerveja. “Para mim, um dia normal não é algo bom”. “É melhor que mosquitos” eu respondi. “Prefere ficar aos mosquitos e tomar cerveja ou abdicar da cerveja por paz?”. “Eu não acredito em paz” eu disse. Ele consentiu.

“Olha, jovem, eu vim aqui porque você me parece ser um cara que curte boa música” ele me disse, em seguida. “Em torno das duas da manhã, dá uma aparecida na Lanchonete do Flip, lá no centro. Tocamos blues e jazz, nada posterior aos anos 60”. “Uau, cool, parece legal” eu disse. “Eu não sabia que rolava um som lá”. “Não rola” ele disse. “Somos... meio que... ilegais”.

Tudo isso me soou meio estranho. A Lanchonete do Flip era um lugar do qual eu mantinha distância. Eles serviam um café frio que tinha gosto de sal. A melhor comida que se podia pedir era uma pizza que fedia muito, era escura e parecia estar sempre podre, e também não tinha nenhuma pretensão de ser aquecida. A decoração era simples e toda amarela, sendo feita de uma fórmica áspera, chulepenta e suja. Nunca havia ninguém por ali na lanchonete. De fato, agora até faz algum sentido que haja algum movimento por ali à noite. É o único modo com que deviam se sustentar.

Cheguei lá às duas e meia da manhã, e a lanchonete estava fechada. Toquei a campainha, e nada. Fiquei lá por uns 10 minutos, me perguntando o que faria agora, e tocando a campainha repetidamente. Então, o velho Flip surgiu do escuro. “Olá, meu amigo!” ele disse, abrindo a porta. Entramos, atravessamos a lanchonete no escuro e descemos uma escada, ouvindo o volume da música aumentar.

O lugar era absurdo. A iluminação do lugar era toda vermelha, luzes vermelhas por tudo. A música era apenas rithim and blues dos anos 50 e 60. Um cara muito cool com um chapéu panamá manuseando um tocador de LP comandava o som, e sempre que ele trocava o álbum, tinha que mergulhar numa seleção de cerca de 300 LPs de blues. O bar, como o velho Flip me falou quando entramos ali, só vendia duas coisas: long necks de Stella Artois, a 4 reais a unidade, e haxixe, a 4 reais a grama. As pessoas que estavam no lugar, que não eram muitas, se distribuíam em mesas circulares vermelhas que eram posicionadas sob algumas das lâmpadas. Eu fiquei por ali até o meio dia. As pessoas iam ficando, e ficando, e você se vê postergando sua saída cada vez mais.

Depois disso, eu sempre frequentava a “Lanchonete do Flip” durante as noites. “Quem diria que o lugar mais cool da cidade fica embaixo da lanchonete mais podre e menos frequentada?!” eu pensava. Nada fazia sentido. Eu tentava convencer o velho Flip a dar um nome ao lugar que ficava embaixo da lanchonete, por que era tão absurdo que merecia ter um nome próprio. Ele insistia que era parte do “complexo”. Era um lugar inomeável.

Como eu disse, eu passei a frequentar o lugar inomeável sempre que saía de casa durante a noite. Assim, não tardou muito até eu ver ela pela primeira vez.

Eu estava bêbado, e desci as escadas cambaleando, até perceber aquela visão sublime. Havia essa deusa dançando blues sozinha na pista. Ela tinha a pele negra como nunca vi, e um rosto que refletia maturidade. Ela era tão blues quanto o blues, e mais jazz do que o jazz. Dançava alegremente. Ela usava um sapato simples preto, quase solto em seu pé, e um vestido, ó céus! Um vestido curto vermelho com bolinhas brancas, bem solto em seu corpo. Tinha a mão repleta de anéis.

Pedi para o velho Flip uma cerveja, e decidi que iria tentar me aproximar assim que ela se cansasse de dançar – afinal, eu não teria capacidade de me intrometer em seu caso de amor com a dança. Fiquei ali sentado, observando-a e esperando que ela ao menos me visse. Fiquei imaginando como seriam nossos filhos. Eu estava bêbado.

Assim que ela parou de dançar, me levantei, mas ela correu para uma mesa, e sentou no colo de um alemão que devia ser do tamanho de uma porta. Eles se beijam e ela senta ao seu lado, debruçada com o queixo sobre as mãos, sustentadas pelos cotovelos sobre a mesa. Meu mundo desabou. Subitamente, o bar estava cinza, e todo o vermelho presente ali era tão invisível para mim quanto o ar. Eu pedi um pouco de haxixe e outra cerveja para o velho Flip, e fiquei ali ponderando acerca de como e quando eu me mataria.

Esse seria um evento isolado, se eu não começasse a ver a deusa e o alemão-porta sempre que eu fosse no lugar inominável. Sempre. Ela ficava lá, dançando sozinha, com o vestido vermelho com bolinhas brancas, enquanto o alemão-porta sempre – eu digo sempre – ficava sentado sozinho em uma mesa, enrolando e fumando um baseado após o outro. Ele não parava. Acho que precisava de uns 6 quilos de haxixe para chapar toda aquela massa. De qualquer jeito, ela dançava, dançava e dançava, sorridente. Dava para perceber que ela preferia jazz. Em seguida, corria para a mesa onde estava o alemão-porta. Ele tirava uma das mãos do baseado depois de enrolar e passava o braço em volta dela. Um braço de robocop exterminador do futuro. Então ele acendia e eles ficavam os dois ali, fumando. Em seguida, se levantavam, erguiam a mão em saudação ao velho Flip atrás do bar, e saíam porta a fora. Eu sentia uma inveja descomunal do alemão-porta. Ele estava com a mulher mais linda do pedaço, e eles formavam um casal invejável. Eles eram cool.

Um dia eu acordei numa ressaca surreal. Levei cerca de 20 minutos em um exercício físico intenso na tentativa de me levantar. Tinha de andar apoiado nas paredes, enquanto a minha cabeça, que pesava mais que um totem de chumbo, desequilibrava meu corpo inteiro. Eu não tinha água em casa, nem café para tentar vencer este mal. Bebi, então, exaustivamente, água da torneira e fui ao supermercado. Eu vestia apenas a camisa que usara na noite anterior e uma cueca. Não consegui sequer me lembrar de calçar os chinelos. Andei 3 quadras parando para respirar um par de vezes, e entrei no supermercado.

Estava vazio. Me sinto à vontade para andar nas ruas em uma manhã de sábado ou domingo. A questão é que você não precisa desconfiar de ninguém em manhãs de fim de semana. Qualquer pessoa acordada nesse horário e fora de casa é uma pessoa tranquila e digna de confiança. Por consequência, você pode simplesmente fazer o que quiser, pois não levantará suspeitas também. Acho que ninguém jamais foi internado em um hospício em uma manhã de sábado ou domingo. Você pode agir como um louco, falar merda, gritar com o mundo, mas se está acordado em uma manhã de fim de semana, é uma pessoa correta e na linha.

Entrei no supermercado e fui direto para o corredor das águas. Passando pelo corredor das bebidas, no caminho, fiquei perdidamente nauseado. Só a visão de álcool me torcia o corpo inteiro. Em seguida, peguei o café. Ia entrar no corredor dos iogurtes (pois, no estado que estava meu estômago, esta seria a minha dieta do dia) e a vi. Ela estava escolhendo iogurtes. Todo meu fôlego se esvaiu instantaneamente, e eu corri para o corredor ao lado para conseguir respirar.

Eu pensava que não a reconheceria sem o vestido vermelho em algum lugar inusitado se a visse. Eu estava errado. Ela vestia chinelos! Chinelos cor de laranja, e uma saia colorida com detalhes que, bem, não deu tempo de ver tudo isso, eu estava desnortado. Fiquei parado um tempo, apoiado na prateleira de pães e respirando ofegante, tentando recobrar a consciência. Ela passou e foi para o caixa. Eu esqueci completamente do iogurte e fui atrás dela.

Ela chegou no caixa pagou e se foi. Eu cheguei, joguei o que tinha de dinheiro ali e ordenei que ficasse com o troco. Saí então em correria, com três garrafas de água coladas no corpo sustentadas pelo braço esquerdo, enquanto levava o café na mão direita. Corri para a rua e a vi, indo para a parada de ônibus. Corri até lá, mas ela chamou um dos veículos que passava assim que chegou na parada. O ônibus parou e abriu a porta.

“Espere” eu disse. Ela olhou para trás com receio, e trocou olhares comigo, finalmente. “Eu acho você demais” eu disse. Ela riu. “Obrigada”, disse, e subiu no ônibus.

Eis o mais próximo que jamais estarei da perfeição.


Theo S. da Rocha

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

O Grande Ônibus em Chamas

Era uma quarta feira de tarde quando eu saí de casa para ir ao dentista. Como ia de ônibus, nunca sei que horário sair para chegar na hora e não me atrasar. O que acontece quando pegamos ônibus, na verdade, é que nunca se chega na hora. Ou você sai cedo, e o ônibus chega e anda mais rápido que o esperado, ou sai tarde, e o ônibus acaba demorando muito mais do que se previa, e andando devagar.

O que me ocorreu neste dia foi que eu saí cedo de casa, então o ônibus chegou cedo demais, e voou pelas avenidas. Enfim, quando cheguei, tinha um longo tempo de sobra. O céu estava azul e havia uma leve brisa primaveresca, então decidi matar o tempo em um parque próximo daquela zona.

Poucas pessoas frequentam um parque numa quarta feira de tarde. Quem anda por lá num dia desses, alem de mães, crianças e aposentados, são vagabundos, desempregados ou desocupados, e eu sou os três. Então comecei a andar pelo parque, e reparei algo estranho. Uma tenda gigante no centro do parque, que irradiava uma energia desconhecida para o ambiente. Uma vibração que sugeria algo diferente de tranquilidade. Fui passando por ali e li a placa: “Feirão de Carros”.

O meu itinerário então acatou uma sugestão de passar distante daquele centro inusitado, mas eu acabei passando por ali, tentando me contentar com a idéia de que logo logo aquilo passaria. Não havia demora. Fui passando sem olhar para dentro do inferninho, até que saiu um sujeito magro e radiante, com um terno claro e o cabelo penteado para o lado, e se dirigiu a mim em êxtase. “Meu amigo, meu amigo! Me diga o seu nome, temos promoções, promoções, tudo sem juros!”. “Não, obrigado!” eu digo, seguindo meu caminho. Ele me segue. “Só me diga seu nome, seu nome!”. Não adianta insistir com esses caras. É como nadar contra a maré, se irritando cada vez mais. “Tadeu” eu disse.

“Você disse Tadeu?” ele me perguntou. “Sim” eu digo, impaciente. Assim, saem duas mulheres peitudas da tendinha infernal, pulando com as coxas de fora, batendo palmas. “Você ganhou a promoção, meu amigo! Você ganhou!” ele diz, quase que num orgasmo. “Hãn?” eu digo. “Promoção?”. “SIM!” ele berra. “Hoje estamos com uma promoção, se surgisse alguém por aqui que fosse xará do dono da nossa concessionária, levaria um auto zero quilômetro!”. “Eu ganhei um carro?”. “SIM” ele repete.

“Cool” eu digo. Uau, um carro. Nada mal. “Onde está ele?” eu pergunto. “Vamos acabar com isso de uma vez, estou com um pouco de pressa”. “Sim, sim senhor, senhor Tadeu. Vamos entrando lá” e foi se dirigindo ao inferninho. “Peraí” eu digo. “Não tem como fazer aqui fora?”. Ele pára por um momento. “Mas o carro está lá”. “Ok, mas vamos com isso rápido”. E eu entro.

Andamos por ali naquele calor infernal e naquela decoração circense misturada com cores e anúncios de “compre um carro e seja feliz”. Ele me mostra o carro, um Palio vermelho. Eu sempre achei carros feios, são todos iguais, afinal. As diferenças são insignificantes. Acho que os projetistas de carros foram cagados no mundo por uma entidade vândala de algum universo sádico, juntamente com os publicitários e os poetas exibicionistas. “Mas é de graça! Que mal faria um carrinho?” eu pensei. “Nada de ônibus, nada de chuva, voltar para casa tarde da noite alcoolizado ouvindo o bom e velho rock n roll a toda altura, dirigindo e gritando coisas pras pessoas na rua. Nada mal, nada mal”. Nada mal mesmo.

“Sim” eu digo. “Vou levar. Me veja as chaves, preciso urgentemente sair daqui, tenho um compromisso sério. Sou uma pessoa séria, tenho um emprego, uma imagem para sustentar. O dever me chama!”. “Sim, sim senhor” ele diz. “Só me siga por aqui, temos que lhe passar uns documentos, pegar seus dados, algumas assinaturas, em seguida vamos para o Detran”. “Documentos?” eu pergunto. “Por que documentos?”. “Ora, senhor Tadeu, a venda de um carro exige documentos, precisamos saber também algumas coisas de você”. “Vocês estão me dando um carro! O que quer saber? Meu signo?”. “Não vai demorar, senhor, apenas alguns minutos”.

“Hey man” eu digo. “Esquece o carro, esquece a promoção. Estou atrasado. Valeu mesmo”. “Han?”. “Yeah, yeah, esquece o carro, fica com ele, faz o que quiser. Só mantenha esses compromissos e documentos longe de mim. Eu não confio em pedaços de papel. Uma vez um deles me perseguiu na rua, me ameaçando e cantando cânticos de bêbados interioranos. Nunca esqueci esse trauma”. “Você... não quer o carro?”. “Naah, eu até aceitaria, mas essa história aí, de documentos aí, e coisa e tal... Nah, cara, não, não. Valeu mesmo. Até.”. Eu sigo andando pela rua e olho pra trás. O rosto do louco que me abordou, perplexo e imóvel, e as mulheres com cara de cu. Ele vira para uma delas. “Olha esse louco!” e aponta pra mim. Eu sigo andando, apressado. “Não posso ficar preso nessa papelada” eu penso. “Tenho que ir ao dentista”.

“Eu nem queria um carro mesmo” eu penso. Sim, é útil, mas foda-se. Eu até estava disposto a aceitar o carro, mas essa história de burocracia e documentos não é pra mim. Acho que o cara que inventou a burocracia morreu sozinho, virgem e mau humorado, reclamando das crianças que fazem barulho brincando na rua. Ele devia ser o cara mais chato do pedaço. Não há nada mais chato que documentação. Mas isso não me incomoda mais.

O que realmente me incomoda é a função que têm se tornado as atividades cotidianas, prazerosas ou não, por causa do capitalismo. Uma saída de casa que deveria ser simples e tranquila se torna um tiroteio caótico, com pessoas te abordando e oferecendo coisas e simplesmente enchendo o seu saco. Nem o parque escapa! Uma tenda de feirão de autos no meio de um lugar pacífico!

Uma vez minha bermuda favorita começou a rasgar em todos os lugares. Isso não me impedia de usá-la, mas me apontou que era uma boa idéia comprar uma bermuda nova, então saí para comprar uma roupa (atividade esta que eu já abomino se for tranquila, imagine quando não o é). Então entrei nessa loja de roupas e uma coisinha feia que mais ou menos se parecia com uma mulher me abordou. “Precisa de ajuda?”. “Yeah, eu estou procurando uma bermuda como esta” eu digo, apontando para minha bermuda rasgada. “Sim! Eu te ajudo, mas que tal, você pode fazer o cartão da nossa loja, e ter 10% de desconto”. “Não, obrigado. Só a bermuda”. “Não, mas lha só, qual seu nome? O que você faz? Estuda alguma coisa? Posso te colocar aqui dentro, estagiar também. É só fazer esse cartão, vamos lá” me puxando pelo braço. “Não, não mesmo”. Ela acabou insistindo tanto que eu aceitei, só pelo desconto que teria. Então começou a me perguntar alguns dados, bla bla bla, e me direcionou para um nerd que ficava atrás de um computador anotando esses dados. Uma porra. Então ele perguntou: “Telefone de dois amigos?”.

“Por que diabos eu daria o telefone de dois amigos?” eu perguntei. “Precisamos saber se tu é uma pessoa de bem” ele disse. “Hey man, olha só: vocês é que estão me oferecendo essa porcaria de cartão. Eu não preciso provar nada, quem paga a porra do preço é vocês. Ademais, por que eu envolviria meus amigos nessa porcaria? Só se eles não fossem meus amigos!”. Ele ficou ali com cara de cu. “Seguinte, estou com pressa. Me passa essa ficha, apaga esses dados, preciso ir buscar meu pai no.... boliche” eu disse, arrancando a ficha de dados da mão dele. Depois disso, fiz ele apagar todos os dados e fui embora apressadamente, puto da cara com o tempo perdido em que eu poderia estar lendo um livro ou sendo atropelado por um motoqueiro embriagado ou um caminhão de cimento. Em seguida fui para outra loja atrás de bermudas. Uma perua com uniforme da loja me abordou: “Precisa de ajuda?”. “Yeah” eu digo. “Estou atrás de uma bermuda”. Ela responde: “Sim, sim, eu te ajudo, mas tu não quer fazer o cartão da nossa loja?”.

As coisas não são mais simples como antes. O mundo não permite mais que gozemos da simplicidade. Temos que pagar caro por nossas escolhas. Porcos filhos da puta.

De qualquer jeito, lá estava eu no parque, e eu pensei em tomar um café. Fui na direção do consultório do dentista e entrei na primeira lanchonete que me surgiu. Cheguei e pedi um café, e notei que um velho conhecido estava lá tomando um café também. Era o senhor C.

O senhor C era o tipo de cara que não parava para respirar. Tinha dois empregos e 4 filhos, cada um com uma esposa diferente. Estava sempre fazendo alguma coisa ou buscando algo para fazer. Era um gerente de naoseioque em alguns lugares. Eu conheci ele porque frequentamos o mesmo grupo terapêutico: AVCPC (Associação das Vítimas da Comida Pronta e Congelada). Era onde discutíamos nosso trauma de precisar comer uma coisa ruim, sem graça e venenosa, só pela praticidade e falta de tempo. Lembro que os depoimentos do senhor C eram os mais trágicos. Ele dizia que se sentia estuprado depois de comer uma pizza congelada de 4 queijos. “Aquele gosto horrível, tão salgado e artificial. Eu não sei por que faço isso, é contra a minha vontade! Mas eu não tenho tempo, não tenho tempo, não...”. Pobre senhor C, chegou no fundo do poço: comia até strogonoff, e frango à xadrez, tudo congelado, de pôr no microondas. Agora ele paga uma cozinheira, está melhor. Sem mais estupros culinários.

“Senhor C” eu digo, me sentando ao seu lado no balcão, apoiando minha xícara de café na mesa e a soltando. “Como está você” eu pergunto, mas ele está vidrado na TV. Ali, passa uma notícia sobre o caos no Rio de Janeiro. Carros e ônibus pegando fogo, e troca de tiros na favela. Caos. O senhor C simplesmente diz, ignorando minha pergunta: “Não adianta, tem que matar esses vagabundos, um por um. Caçá-los como bestas, e fuzilá-los no paredão. É o único jeito”.

“Sem sentido” eu digo. “Eles estão fazendo o que devem fazer. É o certo a ser feito”. Ele fica me olhando. Eu continuo. “O Brasil é o lugar errado para alguém que quer queimar carros. Porque essa pessoa está certa, é claro. Qualquer pessoa que vive em miséria e esquecimento social nesse país que não sente a urgência de queimar carros é digna de preocupação por parte de nós, psicólogos. Não se trata apenas de o único jeito de eles conseguirem algum olhar por parte das pessoas que não se importam – afinal, se eles não fazem isso, o senhor, senhor C, não lembraria deles e não se preocuparia. Se trata de um meio de expressão. Eles estão dizendo que estão cansados de saber que não serão ricos, e de saber não terão suas necessidades supridas por que não alcançarão o sucesso ou um emprego através da norma e de dispositivos feitos por nós”. O senhor C fica calado. “Você é um idiota” ele diz. “Louco".

“Vai por mim, senhor C” eu digo. “O marketing e a publicidade são o novo nazismo, o nazismo do século XXI. Pense bem. ‘Fiat Stilo, ou você tem ou você não tem’. Essas pessoas sabem que não o terão. E como diria Bob Dylan, ‘when you’ve got nothin’, you’ve got nothin’ to lose’. Se eu ou você estivéssemos lá, estaríamos fazendo a mesma coisa que eles. E com orgulho”.

Tomo um gole de café e aprecio o silêncio do senhor C. Fico olhando a TV e percebo que estou cansado demais para ir no dentista. “Merda” eu digo. “Tenho dentista agora, estou muito cansado. O pior é que eu preciso ir”. O senhor C me olha. “Eu posso ir no dentista pra você” ele diz. “Pode? Não vai ser muita mão?” eu pergunto. “Nãão, não mesmo”. “Uau, brigadão cara, valeu mesmo” eu digo. “É agora, ali no prédio do lado”. O senhor C se despede de mim e vai embora apressado.

Eu fico vendo as notícias na TV, alguém filmando um ônibus em chamas e o metal todo se contorcendo. Me lembro de Hunter Thompson. “Se você vai ser louco, é bom que seja pago por isso, senão, te trancarão na prisão ou no manicômio”. De fato. Afinal, todos nós gostamos de pôr fogo em ônibus. O truque é ser pago pra isso.


Theo S. da Rocha

terça-feira, 16 de novembro de 2010

The Wild Woman Within

Há alguns dias, o terror tomou conta de mim. Eu estava com o Medo. Acordara de manhã e reparei que havia bem menos comida na geladeira para meu café da manhã. A dispensa também parecia estar desfalcada. Eu já tinha visto em várias manhãs que as vezes faltava a comida que eu havia comprado no dia anterior, mas me dizia que eu devia estar ficando louco. Dessa vez era real. Havia alguém assaltando a minha geladeira, enquanto eu dormia como uma pedra.

Esse fato realmente deu nos meus nervos. Eu moro sozinho, e não mais me sentia confortável em meu apartamento. O que será que acontecia? Alguém se esgueirava em meu apartamento para me roubar comida? Se o fazia, como fazia? E por que não levava mais nada?

Decidi procurar na internet. O interessante da internet é que sempre haverá alguém em algum lugar com o mesmo problema que o seu. É tiro e queda. Assim, você troca idéias com a pessoa, auxílio mútuo, problema resolvido. Todavia, me fodi no que percebi que meu problema era sério. Conheci esse sujeito que estava tendo o mesmo problema que eu, e a perspectiva não era boa. Como ele resolveu seu problema?

Bom, ele instalou uma câmera escondida em seu apartamento. A câmera ficava sobre um armário, e se podia ver a cozinha inteira: pia, armários e geladeira. Também se via a porta de entrada, e um armarinho sobre a porta da entrada. E qual era o seu problema?

Bem, “nada de mais”. Lá pelas duas da manhã, o armarinho sobre a porta de entrada se abre e sai uma porra de uma mendiga de dentro. Juro por deus. Ela sai do armarinho, se apoia em um banco alto ao lado da porta. Desce, depois desce do banco para o chão, sem emitir um único som. A aparência dela não pode ser mais assustadora. Cabelos longos esfarrapados, roupa esfarrapada, baixinha, magra, toda esfarrapada. Parecia que ela saía de uma festa à fantasia e usava uma fantasia já gasta e vencida da Samara Morgan, do Chamado. Então, a velha Samara tem todo o apartamento para si, já que meu companheiro internauta estava plenamente adormecido. Ela fez seu rango, foi para lá e para cá, mijou na pia, bebeu leite no gargalo, e quando estava prontinha, voltou para o armário sobre a porta usando o banco novamente. Tudo isso sem emitir um pio. O cara estava morando há meses com uma mulher e não sabia! Ele precisou chamar a polícia para tirá-la de lá.

Tamanho foi o medo que me dominou no momento que eu vi esse vídeo, que eu não consigo descrever o terror. Eu sentia vontade de sentar e chorar. Liguei para um amigo. “Ah, pára meu. Se for, é só uma mendigazinha. Tá com medinho é?”. “Cara, eu não temo a mendiga. Eu temo o que ela parece ser, e o que ela pode fazer comigo a noite, e o que ela pode ter feito com a comida que eu como, o leite que eu bebo e a pia em que lavo minha louça” eu respondi, trêmulo. “Mas acima de tudo, eu tenho medo do que ela parece ser”.

Vasculhei a casa inteira por alguma criatura selvagem e maldita escondida. Nada. Armarinhos, atrás de armarinhos, tranca de janela, cada pequeno centímetro quadrado do meu apartamento foi cautelosamente analisado. Nada. Seria um poltergeist? O que ele estava esperando para me matar? Será que era tão divertido me ver congelado de medo? Me torturar até meu medo parar de provocar-lhe risadas, e assim, me executar, como a um animal qualquer?

O problema persistia, então fiquei a noite inteira acordado, aguardando no escuro para algum ser estranho e ameaçador assaltar minha cozinha pensando que não estou ali. Dessa vez, ninguém roubou minhas comidas. Finalmente, me rendi à solução do meu companheiro internauta: câmera escondida. Pus a câmera sobre um armário alto da sala, com vista para a cozinha inteira. Antes de dormir, liguei ela. Gravando.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que eu fiz, enjoado de medo e trêmulo como nunca, foi ver a gravação. Eu liguei a câmera e rebobinei inteira. Depois, fui assistindo, passando rapidamente no fast-forward pelas horas sem movimento. Finalmente, surgiu alguém. Um cara de pijamas, arrastando os pés no chão, vulgo, EU, tranquilamente abrindo a geladeira e comendo um iogurte de morango. Passo a fazer um sanduíche, depois faço outro sanduíche e uma torrada, então como algumas colheres de doce de leite, e em seguida termino com uma fatia de bolo de chocolate. Tomo alguns goles d’água e volto ao meu quarto. Mais tarde, retorno à cozinha, e como, santo deus, uma barra de chocolate inteira.

“Analista, meu caro” disse uma amiga, quando busquei seus conselhos. “Não espere demais. Vai acabar enlouquecendo. Ou pior, engordando”. Contactei um analista rapidamente. “Como eu poderia estar fazendo aquilo e sequer percebendo?” eu pensava. Sentia medo. Se estava sonâmbulo à ponto de comer como um pobre abutre esfomeado, era capaz de fazer qualquer coisa dormindo. Sair à rua, matar alguém, me matar... A tendência era tudo ficar pior.

Depois de alguns meses de análise, meu analista me deu seu parecer. “Você tem uma mulher dentro de si”.

“Ohoho. Opa! Peraí doutor! Eu sei pra que time eu jogo. Eu não sou do tipo que... você sabe...” eu disse, deixando a questão em aberto. “Eu sei, e não foi isso que eu quis dizer” ele disse. “Já ouviu falar de ‘anima’?” ele perguntou. Eu disse que não. “De acordo com a minha linha teórica, levo em conta que o inconsciente de um homem possui, de fato, características consideradas femininas para o contexto da atualidade, assim como o inconsciente de uma mulher possui características masculinas”. “Pode explicar isso aí de novo?” eu pedi. “Bem, o que eu quero dizer é que o inconsciente do homem é uma mulher, e vice versa”.

“Eu não compro essa idéia” eu disse. Ele foi à estante de livros ali e pegou um livro, abrindo-o aleatoriamente. Me mostrou umas gravuras, e uma série de suposições que apontavam para a existência de, pasmem, uma mulher em mim. Ele então chegou numa página com uma gravura absurda. A visão desta gravura me deu arrepios. Era um desenho rústico de uma mulher nua sobre as árvores. Ela tinha cabelos muito longos e esfarrapados, grandes e redondos olhos brancos, unhas desumanamente longas, magra como um palito de fósforos. Ela me lembrava a mendiga do vídeo, só que muito mais assustadora por ser selvagem. O analista me disse que ela era minha anima.

“Ok, doutor, então vamos conversar” eu digo, tirando a carteira do bolso. “Quanto eu devo lhe pagar para tirar esse demónio assustador desenfreado de mim?”. Ele ficou me olhando. “Vamos lá” eu insisti. “Eu pago quanto tiver que ser, se o senhor aceitar suaves prestações”. “Ora, não tem como tirar esse ‘demônio’ de ti” ele disse rindo. “Estamos aqui para você aprender a lidar e dialogar com ele”. “Lidar com ele? DIALOGAR COM ELE? Doutor, não sei se o senhor não é muito apegado à primeiras impressões, mas esse ser selvagem não dialoga com ninguém. Olha!” eu apontei para a gravura. “Alem de selvagem, é uma mulher! Convenhamos, esse ser dita as regras! A possibilidade de diálogo há muito foi cortada”. O doutor riu. Se ele via o pânico que me tomava, com certeza não mencionou, mas isso deve ter divertido-o até demais.

“A questão, meu caro, é que essa humilde mulher quer te ensinar uma lição” ele disse. “Ela quer te ensinar que você pode ditar suas próprias regras”. “Ora, e como o senhor sabe disso?” eu perguntei. “Por acaso o senhor tem falado com ela?”. “Eu não preciso” ele disse. “O fato de ela comer, como vi no vídeo de sua câmera, tão desenfreadamente, quer dizer uma tentativa de ir contra o costume e contexto sócio-cultural”. “Doutor, português, faz favor” eu digo. “Ela está com medo de emagrecer, meu caro. Ela só quer ser diferente de todas outras. Ela só quer te mostrar que é você, e apenas você, que dita suas próprias regras. É um pedido para que você se torne você, e não o que as pessoas esperam de ti”.

“Doutor, isso é balela” eu digo. “Meu caro, diga algo que você sempre quis fazer, mas sempre teve vergonha”. “Doutor, eu já disse que eu não sou...” “Eu sei” ele me interrompe. “Mas deve haver algo que você quer fazer, mas não se permite”.

Eu olho para os lados, hesitante. Finalmente, decido dizer. “Bem, doutor, sabe como é, eu não sou mais uma criança. Na minha época, os brinquedos eram tão... simples, sabe?”. “Sei” ele diz. “Prossiga”. “Bem”, eu continuo. “Eu sempre... sempre quis brincar com aqueles legos que vêm com um motor à pilhas, sabe? Aí você junta eixos e faz um carro, e ainda vem com aquelas fibras ópticas que vão brilhando e brilhando e girando... é tão fantástico!” eu confesso, finalmente.

No retorno ao apartamento, compro o lego. Tantas pecinhas, tão bonitas! Tudo brilhante! Acho que o ser humano veio à Terra só para brincar. Não há nada como isso.

Agora, minhas comidas pararam de “desaparecer”. Não mais eu estive sonâmbulo. Levei algum tempo para constatar que o doutor estava, de fato, certo. É bem coisa de mulher mesmo, fazer todo um alarde, uma tempestade no copo d’água, só por uma coisinha tão pequena e boba...

Mas sempre que eu chego em casa, cansado do trabalho e de desempenhar um papel falso, não tem nada mais relaxante do que desmontar meu carrinho de lego, e montar um novo veículo, cheio de fibras ópticas e um motor à pilhas.


Theo S. da Rocha

domingo, 7 de novembro de 2010

O Tapete Mágico

Eu estava ziguezagueando na rodovia já haviam alguns minutos. O Opala oscilava em altas e baixas rotações enquanto eu tentava encaixar a marcha que eu pensava que dizia respeito à velocidade em que eu estava, mas os meus sentidos não me orientavam nem um pouco. Sons chegavam aos meus ouvidos em mono, e tudo parecia vir de um mesmo lugar que eu não sabia qual era. A visão borrada volta e meia escurecia e eu precisava arregalar os olhos.

A verdade é que eu já estava muito acostumado com dirigir embriagado, mas desta vez eu estava realmente chumbado. Tinha sido uma semana difícil, de fato. Cheia de pormenores e deveres mal cumpridos ou sequer atendidos por mim. Eu estava tão cansado quanto uma ave migratória que tenta partir para o sul na primavera, mas decide fazê-lo de ressaca e contra a sua vontade. Em resumo, eu me sentia um pedaço de carniça ainda em movimento e ação por virtude da inércia, e uma vez que eu finalmente parasse, eu ficaria sem me mexer por dias.

Embora houvessem essas condições, esses.. contratempos, eu não me sentia receoso de dirigir. Eu sabia que deveria, mas não estava sequer com medo de cruzar com uma viatura da polícia. Até, enfim, ver no retrovisor, lá ao fundo, os dois faróis com as luzes giratórias sobre o auto. “Relaxa” eu pensei. “Haja normalmente. Apenas um cara, um bom cidadão brasileiro, voltando para casa, sóbrio”. As mãos começaram a tremer, mas eu me mantive, ou pelo menos tentei, em velocidade constante, linha reta. “Concentração, mas descontração” eu pensava. “Nada de mostrar medo”. A viatura foi se aproximando até chegar bem perto do meu Opala. Quando o fez, mandou um sinal de luz, indicando que queria que eu parasse. “Estou fodido”. Encostei o carro, a viatura parou atrás de mim, um policial gordo, um escroto de pele sebosa, desceu do carro e veio na direção do meu.

Mas vamos voltar um pouco no tempo, para eu conseguir me situar melhor nessa história.

Eu havia comprado o Opala deviam fazer uns 3 ou 4 meses. Eu estava voltando para casa, de ônibus, cansado e semi-adormecido, com a testa encostada no vidro da janela. As casas e pessoas na calçada passavam rapidamente, e havia pouco que eu conseguia de fato perceber nos elementos que passavam. Até que eu vi o Opala sobre a calçada. Na verdade, a primeira coisa que eu vi foram os escritos no parabrisa do Opala: “Vendo - R$2.400,00”. Depois, então que eu fui ver o carro. Um belo Opala bege acinzentado com uma grande e larga listra preta no centro que ia do capô ao porta malas. Um sino soou na minha cabeça enquanto o Opala ia ficando para trás. Olhei para trás sem acreditar. “Deve ser rebaixado” pensei. Não era.

Ao que percebi isso, saltei do meu lugar imediatamente e passei por cima do velho que estava ao meu lado, enquanto puxava a cordinha para parar. “Parem! Parem tudo!” eu gritei. O velho ficou resmungando, e desferiu um xingamento qualquer enquanto eu saltava do ônibus ainda em movimento para a calçada, correndo. Corri até o o Opala. Um velho estava por ali e viu que eu olhava o carro. “Se interessou? Eu faço até por duas vezes se tu quiser” ele disse. “Você não pode estar falando sério” eu balbuciei. “Deve ter algo de errado com esse Opala para ser vendido por dois mil paus”. O velho me garantiu que não havia. Quando a esmola é grande, o santo desconfia, mas eu estava em êxtase demais para questioná-lo. “Mas porque tu quer vender por tão pouco?” eu perguntei. “Eu preciso de uma TV nova” ele disse. Eu não podia discutir com aquilo. Então eu comprei. Eu chamei o Opala de Emily, em homenagem à música do Pink Floyd, embora o nome nunca tenha pegado, de fato. Eu sempre acabava chamando-o de Opala. Em pouco tempo eu estava tão hábil em dirigir embriagado que eu o fazia com uma cerveja na mão e um pastel de frango na outra.

Mas esqueça o Opala. Aquela noite havia sido, de fato, estranha, muito antes de a viatura me parar. Eu saíra para um bar para encontrar com um amigo que eu não via há muito tempo, mas quando eu cheguei lá, ele me ligou dizendo que não mais poderia vir. As vezes penso que o contato e a valorização das relações humanas e interpessoais seriam muito maiores se não houvesse celular para facilitar tanto essa fluidez. De qualquer jeito, lá estava eu, sozinho e cansado, e como havia recém chegado, deveria beber pelo menos uma cerveja. Assim, sentei no bar e pedi uma cerveja. Quando a terminei, pedi outra, e ao que eu estava na metade da segunda, chegou um conhecido meu. Não amigo, mas um conhecido. Estava vindo ali para beber sozinho, então me convidou para tomar uma cerveja com ele. Contra a minha vontade, acabei tomando algumas cervejas com ele.

Ele era um dos tipos de pessoa mais abomináveis que se encontra num dia-a-dia comum. Pode ser um colega de aula ou de trabalho, ou simplesmente alguém infelizmente presente em sua rotina. Ele era do tipo “Mentiroso Compulsivo” como ouvi dizerem por aí. Eu prefiro chamar de mau caráter trovador da porra.

Eu tenho um faro aguçado para essas pessoas. Sinto o fedor delas a milhas de distância. Elas fedem a criatividade usada para o mau. Reconheço uma dessas com uma facilidade singular, e me orgulho disso. Analiso cada nuance em seus rostos tranquilos que escondem uma necessidade de se firmar acima de todos os outros ao seu redor. Não acredito em uma única palavra do que dizem.

Então, lá estava eu, no bar, sozinho com o sujeito. Essas pessoas adoram contar histórias. Tomam todo o seu tempo contando histórias, alternando o protagonista de vez em quanto. Um dia, contam algo que acontecera com um amigo, no próximo, usam a mesma história e dizem que aconteceu com elas mesmas. Eu nunca perco tempo contestando o que contam, não importa o quão absurdo pareça. É pura perda de tempo. Assim, o cara ficou o tempo inteiro contando histórias, enquanto eu tomava minha cerveja freneticamente tentando ficar bêbado o mais rápido possível para aquilo passar mais depressa. Lembro de uma das histórias que ele já havia me contado. “Fui numa festa e tava cheio de mulher gostosa, foda pra caralho velho! Peguei 15 esse dia! Hãm hãm hãm”. Ele tinha uma risada muito escrota. Em seguida, descrevia como era com cada uma dessas mulheres. “Tinha essa, gostosa pra caralho, que pediu pra chupar meu pau. Eu não tava afim de beijar ela, então disse que não queria ficar com ela, mas se ela quisesse me chupar tava tri. Ela me chupou, hãmhãmhãm”.

Totalmente sem sentido discordar. Perda de tempo. O truque com essas pessoas é simples demais: você fica fingindo que está ouvindo, e começa a pensar em outra coisa. Sabe quando tem que rir ou quando tem que demonstrar surpresa quando o tom de voz da pessoa muda, e ela espera que você esboce uma reação. Já o fiz tantas vezes que é quase automático para mim. E para demonstrar que estou prestando atenção, intercalo uns “aham” na conversa. Fácil.

O tempo foi passando, e eu procurava mais alguém que me fosse conhecido para me tirar dessa situação. Nada. Então, tão embriagado quanto de saco cheio da situação, anunciei que tinha que voltar. “Tenho um prazo para amanhã em um texto. Acho que consegui algo para escrever”. Ele tentou insistir um pouco, mas por nada, digo absolutamente nada, no mundo, que eu ficaria lá por mais um segundo.

Fui até o Opala cambaleando. Levei cerca de 3 minutos para conseguir entrar no carro. Liguei o rádio. “Sinto pena de qualquer pessoa que ainda acredita em decência humana” dizia uma voz através da minha caixa de som. “Não porque estas pessoas vão sempre se decepcionar. Nada relacionado a isso. O que realmente me incomoda é o fato de essas pessoas acreditarem fervorosamente que elas sim, são boas”. Desliguei o rádio, cansado demais para indagar com a caixa de som acerca do que é bom e o que mau.

E é assim que cheguei aqui, com o policial escroto se aproximando do carro, e, finalmente, se apoiando sobre a janela aberta do meu carro. “Licença e documentos do veículo”. Eu sabia que estava bêbado demais para formar uma frase, então decidi pegar os documentos silenciosamente. Entreguei-os ao filho da puta. Mãos tremendo. “Desça do carro, sr. B”. Eu abri a porta e desci, tonto. “É o fim”, pensei. “Na melhor das hipóteses, cadeia. Na pior, eu apareço em alguma rede de televisão desocupada e fútil demais, que filma e entrevista os motoristas bêbados e os bandidos que foram pegos, para tirar sarro das coisas que eles falam e de como eles não se adaptaram a nada”.

“Esta é a situação, sr. B” ele falou. “Eu vejo que você está mais embriagado que um gambá. Claramente o senhor não consegue nem falar. Estou certo?”. “Na verdadieu estou sórbio, oficial. Apens um poucansado”. Ele riu. “Eu devia te prender, seu filho da puta, mas aqui vai uma proposta”. Eu tentei prestar atenção. “Eu estou meio apertado de grana, o aniversário do meu filho está chegando. Preciso de dinheiro”.

Eu já vi o sol nascer e se pôr inúmeras vezes em minha vida, prestando atenção na variação de cores, de azul para amarelo, depois vermelho, e todos os tipos de cores entre estes e alem. Eu já apanhei da polícia por estar fumando maconha, e já fui jurado de morte por gente embriagada fora de controle em bares lotados pela cidade. Conheci Sherlock Holmes, sonhei que sabia voar, vi coisas que não existiam, rolei na grama, fui atacado por um cão, e matei um passarinho com uma zarabatana indígena, sofrendo de insônia depois devido ao arrependimento. Isso entre outras situações absurdas, mas nunca antes havia subornado um policial.

Saquei do bolso a carteira, devagar para o filho da puta não achar que eu fosse dar uma facada nele, e saquei uma nota de vinte. Entreguei-o. Ele ficou me olhando. Saquei então outra nota de vinte. Era o meu dinheiro do mês, e já estava no fim. Mas, como dizem, a liberdade não tem preço. “Pode aumentar esse valor” ele disse, de braços cruzados. “Sem sentido” eu respondi. “Quarenta reais tu compra um ótimo lego e uma porcaria no camelô. Ensine o fedelho a lidar com o que não pode ter. Mimar não é a solução”. Ele seguiu me encarando. “Acho que vou ter que prender o sr”. Desesperado, saquei então minha última nota. Cinquenta. Entreguei-o, derrotado, e ele recebeu. “Heheh” ele riu satisfeito. “Eu teria aceitado os quarenta”.

Enquanto ele virou as costas, e se dirigiu a sua viatura, eu, entrando no carro, olhei para ele e falei, com a voz relativamente alta, tentando controlar minha indignação embriagada: “Você não está fazendo nada pela humanidade. Não foi legal isso que tu fez”. Reconheço que estava tentando transferir a culpa, mas eu estava sem um tostão para o resto do mês e o próximo. Ele se virou e respondeu rindo: “Sou apenas mais um bom cidadão brasileiro, como você”.

Não havia como discutir, eu não tinha uma resposta para aquilo. Entrei no carro calmamente, e dirigi, ziguezagueando, tentando achar a marcha certa para a velocidade em que estava.



Theo S. da Rocha

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O Primeiro Vôo da Águia, A Teoria da Vida e os Anjos Loucos

O lado positivo de não ter dinheiro para comprar livros (acredite, existe um lado positivo para qualquer coisa) é que você começa a frequentar bibliotecas, e bibliotecas são lugares muito estranhos.

Uma vez eu estava sentado sozinho em uma mesa, debruçado sobre um livro de Hunter S. Thompson que tratava do jornalismo gonzo. Eu estava imerso na trama, tão distraído que não percebi que alguém havia há pouco sentado na mesma mesa que eu, sem nenhum livro. Reparei nele quando ele quebrou o silêncio: “Aqui vai, essa é a minha teoria para a vida”. Eu olhei para ele. Ele estava me olhando. “Teoria para a vida?” eu perguntei. “Yeah” ele disse. Eu não achava comum ter uma conversa com alguém em uma biblioteca, e foi por isso mesmo que eu deixei o livro de lado. “E qual seria ela?” eu perguntei.

“Já viu uma águia voando pela primeira vez?” ele me perguntou. Eu disse que não. “É simplesmente a cena mais sublime que se pode presenciar”. Eu aguardei para que ele seguisse, oferecesse uma descrição. Então ele começou. “Assim que a jovem águia deixa de lado os pêlos e desenvolve uma vasta penugem, ela fica semanas treinando o vôo. Ela fica pulando sobre o ninho, e batendo as asas. Faz isso por muito tempo, quase o dia inteiro. Usa as pernas para pular, e bate as asas, o que a faz cair de volta ao ninho rápida, mas suavemente. Você sabe, e ela também deve saber, que aquilo dificilmente é a metade do suficiente para conseguir voar, afinal, ela cai no ninho novamente tão rápido quanto pulou. A questão é que um dia ela se cansa dessa repetição, desse cotidiano, dessa limitação. Um dia ela simplesmente chega na beirada do ninho, e salta para fora, como que um pulo suicida, até que ela bate as asas desajeitadamente, e então, surpreendentemente, ela sai voando, e vai planando sobre montanhas e rios, sentindo o vento na cara e a excitação de voar pela primeira vez”.

Eu era apenas ouvidos. “Você acha que foi o treinamento que a ensinou a voar?” ele perguntou. “Hey man, vamos, vamos, vamos lá! Qual é o ponto em que você quer chegar?” eu disse. “Estou tentando te dizer que o treinamento é irrelevante. Não foi o treinamento que a fez voar. Ela voou porque aceitou, finalmente, a morte. Ela aceitou, simplesmente conduzida pela descoberta de que, mais vale, de fato, morrer, até porque todo mundo morre um dia, do que ficar na segurança do ninho, se preparando para algo que nunca acontecerá sem que ela finalmente entre em acordo e aceitação consigo e com seu destino”. Ele fez uma pausa. “E olha a conquista dela, depois que finalmente amadureceu de sua redoma, rompeu seus limites de pensamento e ação. Para isso, basta simplesmente aceitar a única coisa que é inevitavelmente certa. Por que que isso não é fácil para as pessoas?”.

“Essa é a sua teoria da vida?” eu perguntei. “Calma, estou chegando lá” ele disse. Minha perna se agitava embaixo da cadeira, e eu rangia os dentes. Meus dedos entrelaçados uniam minhas mãos, que suavam. Aquele cara sabia prender a atenção de alguém. “Eu acho” ele recomeçou. “Que a vida e a existência humana giram em torno de dois sentimentos apenas: Esperança e Medo, e o amor não faz parte desse eixo central. Eu gostaria que o amor fizesse parte do sentido da vida, mas ele é apenas uma consequência deste”. Ele fez outra pausa. Adorava pausas, o filho da puta.

“O Medo é a origem, e todo o resto surge depois dele. O Medo é o que rege as ações humanas. Cada pessoa tem seus próprios medos, mas elas partilham todas de um medo em comum: o medo da morte. O que nos remete a uma das maiores ironias do capitalismo. Veja como a maioria das pessoas lutam, buscam a estabilidade e a certeza de tudo em suas vidas, quando, na verdade, elas temem a única coisa que é realmente certa e indubitável em seus destinos, e fazem o possível para fugir dela. O medo da morte, juntamente com a esperança, são o que atrasa o pensamento e as ações humanas. O primeiro impõe limites, e o segundo faz com que esses limites sejam respeitados. A esperança faz com que o homem pense que enquanto o inevitável for adiado, algum dia ele encontrará uma solução que mudará tudo e trará a paz. Assim, abdica de enfrentar seus medos, e aceitar a existência deles. Se o ser humano abrir mão de toda e qualquer esperança, aceitará o destino imutável, enfrentará seus medos, verá que eles não têm muito por quê assustar, e assim, finalmente, estará livre, como a águia em seu primeiro vôo”. Ele parou e respirou. “Basta que saiamos do ninho, do egocentrismo e da visão errônea de que somos especiais. No final, o verdadeiro nascimento da águia é quando ela voa. Você não acha que pessoas demais ainda não nasceram?".

E assim, ele contemplou qual seria minha reação. Eu não consegui esboçar uma, então ele se levantou e saiu da mesa, caminhando lentamente em direção à saída. Saiu, me deixando sozinho, no silêncio, com aquela nova idéia plantada ali: uma mudinha que era tão saliente que podia muito bem ser a sequóia mais alta da floresta. “Parece tão fácil mesmo” eu pensei.

Acho interessante as situações de diálogos inusitados com desconhecidos. Um amigo meu uma vez foi sacar dinheiro, e um velho senhor em sua frente na fila virou pra ele e lhe fez a seguinte pergunta: “O que é pior, a pobreza ou a riqueza?”, e, subitamente, saiu da fila, indo embora do banco. Lembro que ao ouvir essa história, outro amigo meu explicitou sua teoria de que era um anjo. Pessoas assim, que vêm e vão sem aviso nenhum, sem origem nem destino, sem parecer ter um objetivo, e elas lhe oferecem uma fatia de sua sabedoria, porque, de algum jeito, reconheceu que aquela mesma questão lhe afetava no momento. E tudo o que você precisa fazer sobre aquilo é pensar um pouco. E ainda tem gente que se recusa a fazê-lo. “É apenas um louco” dizem. Loucos ou não, são as águias que agora voam ao nosso redor, enquanto pulamos exaustivamente no ninho, sentindo medo demais para tentar.

É apenas um pulo. Mas, afinal, o que é perda de tempo?


Theo S. da Rocha

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O método cut-up de textos entre 2008 e 2010

Ah, o diabo do vinho. Você vai bebendo e os músculos relaxam com o entorpecimento dos membros. A mente não mais se dispõe a mover o corpo, que se petrifica, imóvel. Os pensamentos vêm oscilantes em ondas de embriaguez. O devaneio é o ópio da minha existência. Por uns momentos, o mundo pára de girar, para que eu seja levado para longe do meu corpo inerte.

Toda a saída de campo começa e termina dentro do ônibus. O ônibus é, de fato, o centro das diversões na saída de campo, e tem um papel social admirável. O lugar onde a criança senta diz muito sobre ela, e com quem ela senta também. No caminho, alguns ficam sentados, os que sentam atrás ficam de pé amontoados no fundo do ônibus, e um ou dois dormem. No meu caso, eu consegui o lugar mais próximo do fundo que estava vago, e eu senti tristeza porque queria que fosse mais no fundão ainda. Eu peguei a janela, claro.

O sol surge na janela, se afastando do horizonte gradualmente, como o sentimento de solidão que se esvai lentamente de mim quanto encontro um rosto amigo de que posso confiar. Aonde estamos indo, afinal? Qual o próximo passo? Emancipação social? Intelectual? Emocional? Estaria a vida guardando algo para mim alem do tédio de todos os dias, e os desapontamentos futuros?

Os cabelos dela se agitavam com o vento. “Você mora por aqui?” eu perguntei para ela. “Sim, desde os cinco anos e dois meses de idade. É um ótimo lugar de morar”. “Cinco anos e dois meses?” eu perguntei, rindo. “É” ela disse. Ela começou a falar de sua infância até chegarmos ao portão do sítio que eu procurava. “Bom, eu entro aqui” eu disse, me despedindo dela, esperando que saísse do carro. “Ah.. não tem como me levar até a minha cidade? É bem pertinho daqui, sabe? Uns 17 quilômetros e 75 metros”. Eu pensei por um momento. Ainda era cedo, e achei que não custava nada, afinal, não conhecia aquelas bandas. “Ok” eu disse, arrancando com o carro lentamente na estrada de novo. “Ah, muito obrigada” ela disse. Ela parecia ser bem sincera.

“Me parece que você gosta de medidas exatas” eu falei, enquanto acelerava o carro. “Como assim?” ela disse. “Bem, você sabe... Você já disse cinco anos e dois meses e, haha, 17 quilômetros e 75 metros, hahaha”. “Ah” ela disse. “Sim, gosto de segurança”. Eu esperei por um tempo, e perguntei “Segurança? Pegando carona com um estranho?”. “Bem, eu sei que você não fará nada” ela falou, e deu uma pausa. “Alem disso, estou armada, então não tenho problemas com isso”.

“Armada?” eu pensei. Santo deus, no que eu me meti. Sempre odiei armas. Aprendi isso com a minha mãe: armas são de fato o objeto mais filho da puta do universo. Uma arma serve para três coisas apenas: ameaçar (assim, portanto, firmar um poder sobre outra pessoa), matar, ou os dois. O ato de sentir-se seguro portando uma arma é a coisa mais escrota que já ouvi falar. Uma pessoa pode roubar a arma de você ou a arma pode disparar sozinha. Que ser pensante se sentiria seguro com essa possibilidade? Portar uma arma é aumentar a possibilidade de uma merda acontecer, e de mais merdas acontecerem enquanto uma outra merda acontece.

Assim, fiquei em silêncio enquanto dirigia. Comecei a dirigir mais depressa. Ela quebrou o silêncio e me perguntou “Sabe por que existem medidas?”. “Para medir?” eu perguntei de volta.

“Na verdade” ela disse, “ as medidas têm uma ótima intenção. Medir facilita o ser humano a compreender algo, como se fosse um atalho. Mas o que acontece, é que ninguém acaba pensando no por quê da medida. No fim, uma coisa extraordinária facilmente se torna normal”. “O que quer dizer?” eu perguntei. “Bem, todas as descobertas vieram de uma certa anormalidade. Elas vêm da improbabilidade. Não é irônico que depois essas descobertas sejam usadas justamente para visar uma normalização e uma homogeneização, seja de um fato, de pessoas ou de algum elemento?”.

“Olha só” eu pensei. “A jovem Rambo pensa”. “Exemplifique” eu disse. “Qualquer coisa” ela respondeu. “Uma medida, uma invenção, um pensamento inovador. Tudo se origina do incomum para ser tornado comum, e assim, evita que as pessoas parem e pensem naquilo. Logo, quanto mais inovações ao nosso redor, mais fúteis, simples e fracos ficamos, incapazes de pensar nas coisas simples e na origem das construções”. “E como isso explica o fato de você falar medidas exatas?” eu perguntei.

“Isso não explica” ela disse. “É só uma loucura minha”.

Chegamos na cidadezinha. “Onde eu te deixo?” eu perguntei para a Rambo Rousseau. “Siga por 56 metros e três quartos, que a minha casa fica ali mesmo” ela respondeu. “O que você faz da vida” eu perguntei para ela, enquanto íamos chegando. “Sou filósofa” ela disse. Eu parei o carro e olhei para ela. “E então, para você, qual o segredo da vida?”. “Fazer muito sexo e sempre portar uma arma” ela disse. “Ficar longe do rock n roll e dar-se ao luxo de parar por algumas horas ao dia, para apenas pensar, em quietude”.

Eu fiquei um pouco irritado com aquilo, mas me contive. “Bem, eu posso te ajudar com o primeiro, apenas”. Ela me olhou frustrada e enojada, e saiu do carro muda. Eu fiz a volta com o carro enquanto ela entrava em casa, e voltei de onde vim, ligando o rádio e aumentando o volume ao som de Pink Floyd.

Não é fantástico que os animais têm atos mais poéticos do que as pessoas? Um coiote atravessa a estrada carregando uma lebre inerte em sua boca. Mais adiante, um cão mija na roda de um carro estacionado no acostamento, enquanto alguém saiu para mijar no mato.

Saímos do lugar e finalmente me sinto mais leve. “Não esqueça de por o nosso dialogo sobre a simplicidade” eu digo. “Mas fique sabendo que soluções simples operam sem ampla ação”.

Há alguns sons e ruídos persistentes nesse mundo que foram feitos para testar a paciência do ser humano. Quando um cachorro late durante muito tempo, ou o alarme de um carro na calada da noite. O exemplo perfeito do ruído insistente é o de uma goteira. Lá está você em casa, o dia está chuvoso. Você decide ir até a cozinha para fazer um café e pisa numa poça da água, precisando de um pé encharcado para finalmente constatar que sua casinha sequinha não é mais tão seca assim. Relutante, você seca o chão e põe o balde no lugar onde pinga.

É aí que o sofrimento começa. Você pega seu café, a cara sonolenta e uma falta de saco para viver, e ouve o primeiro sinal do destino: TEC. Espera perplexo por um tempo. TEC. Percebe que o som não vai cessar. Se levanta e põe um pano dentro do balde para abafar. TUC. TUC. O pior de tudo é que os intervalos não são regulares. Não é questão de não poder prever quando cairá o próximo pingo. A questão é que, nos intervalos mais demorados você começa a pensar que finalmente acabou. Brevemente, alimenta a esperança, que já estava morta, de que o incômodo vai acabar. Então, lá vem de novo. TUC.

É nesse intervalo mais longo e traiçoeiro que eu quero chegar. Quando, por um breve momento em que você percebe que o intervalo se alongou, resolve reabastecer a esperança já desaparecida de que a incomodação acabará. Quer dizer, você já havia perdido toda e qualquer esperança de ficar numa boa, mas por alguns segundos de diferença, ingenuamente decide ter esperança novamente.

Sabe o que eu acho que é isso?

Isso é deus, ou qualquer entidade maior criadora do universo e tudo que existe, zombando da raça humana.

O capitão vem a mim, e diz algo como “o papel que cada um desempenha forma um sistema, que na verdade, nunca mudou. Os mesmos papéis existem na humanidade há milhões de anos, e o conjunto de papéis que forma um grupo ou sociedade também permanece imutável”.

Eu ouço aquilo perplexo, e o capitão vê que eu não entendi o que ele quer dizer. “No final, nada muda, nem o modo como um grupo vê os papéis” ele diz. “Por isso que você é o bobo da corte: nós precisamos de ti. Agora vá lá e solte o nó da vela principal”. Eu corro pelo convés é solto um nó. Uma onda passa por mim, me arrastando até o mar. Eu afundo.

E assim, eu estou no fundo de uma piscina, pesado como uma pedra. Uma criança pula na piscina em minha frente, senta no chão embaixo d’água e sorri para mim. “Você não fica sem ar?” eu pergunto. É tão difícil! “O truque é não pensar, é assim que se aguenta por mais tempo” ela responde. Eu tento não pensar, mas é impossível. Em poucos segundos, meus pulmões se enchem d’água. E assim, eu retorno à consciência, engasgado com o vinho que bebia no momento.

Em seguida, ouvi alguém chamar "Manga". Era sublime. Manga.

Manga.

Manga.

O que é manga? Fruta tropical, Carmem Miranda, bananas e abacaxis na cabeça. E manga. Será que haviam maçãs na cabeça da Carmem também?

Manga.

Uma mão trêmula saiu da parede que desta vez gingava ao som de INXS. Creio que era By My Side.

Uma mão agarrou a manga fumegante. Madre Teresa e os filhos de Calcutá! Era Vishnu! Mas definitivamente me lembrava alguém, sim sim! A Garota Inglesa. Com certeza Vishnu parecia ela. E a manga era um gato.

“Tu quer é um cara rico” eu digo, revoltado. “Eu quero é que tu vá embora” ela diz.

Havia eu e outros seis meninos, tinhamos seis anos. Ficávamos babando pela professora, que tinha toda a nossa atenção, e toda a nossa distração também. Eram tempos inocentes. Eu perdi a virgindade aos 15, com um bela atriz, mais velha, que se sentia atraída pela inocência. Ela deixou de gostar de mim depois que amadureci.

Alimentar as esperanças é ser humano.


Theo S. da Rocha