terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cheap e Bargain

Duas baratas, Cheap e Bargain, viviam dentro de um violão. Era uma convivência tranquila. Viviam em harmonia e simplicidade, apenas aguardando o fim dos tempos, sem ansiedade nem preocupações quanto a isso.

Cheap era uma lésbica de meia idade. Ela gostava de música folk e de açúcar, e embora não buscasse estabilidade ou conforto em sua vida, se sentia aconchegada e de acordo com a ideia de acomodar-se e viver com Bargain, mas não excluía a possibilidade de mudanças súbitas e improváveis a levarem para outro caminho.

Bargain era um ex-junkie que chegava à terceira idade com poucas demandas e necessidades. Ele gostava de Iggy Pop, e se sentia bem consigo mesmo quando ouvia pessoas ou outras baratas fazerem alusão ao seu tamanho descomunal. Bargain era uma barata muito grande.

O violão se situava num canto empoeirado do quarto de um ex-músico. Ele havia desistido da música pela escassez de possibilidades, e agora trabalhava para juntar dinheiro e abrir um bar. De vez em quando ele pegava o violão para tocar e improvisar um pouco, em nome dos velhos tempos e do resgate das memórias que agora não passavam a ser nada mais que memórias. Os episódios musicais eram raros, e talvez por isso fossem apreciados sem reclames pelas baratas.

Os dias de Bargain e Cheap se constituíam geralmente de formulações criativas de situações que fossem inusitadas, e assim se tornavam um quebra-cabeça para o outro, que ia tendo que adivinhar como se desenrolavam essas situações e seus porquês. Ademais, nos momentos de maior calmaria criativa, discutiam a vida. Cheap gostava de discutir o quão ridículo é o medo da morte, enquando Bargain tinha um sério problema com a oposição verdade-mentira.

Sua última discussão girava em torno de cães. “Um cão que sente falta de seu dono”, começou Bargain, “age de fato muito mais honesta e sinceramente do que um humano que perde seus pais. O cão expressa tristeza, sim, mas não cessa de procurar seu dono ou de esperar que ele retorne. Enquanto um humano busca outras formas de contornar o fato, mas, no final, nenhum dos dois se recupera do baque”.

“Não se trata de sinceridade”, disse Cheap, “Já que o cão não reconhece a morte, ou não acredita nela”.

“Cães reconhecem a morte. Já vi donos morrendo ao lado de seus cães. Os cães expressam tristeza no durante e no pós-processo. Alguns até o sentem com antecedência. Ademais, seria uma grande contradição, os cães serem sinceros e não reconhecerem a morte, enquanto os humanos a reconhecem, e mentem. Talvez a mentira seja a tentativa de negar a morte. O que quero dizer, na verdade, é que a simbolização é a tranformação dos fatos em mentira. Todavia, a mesma simbolização é necessária para a manutenção de uma sanidade. Logo, quem não mente, não responde em liberdade pelos seus atos, e não tem o direito de manter-se inserido na sociedade: é tirado dela”.

“Você não pode possivelmente comparar cães a humanos”, respondeu cética Cheap. “Cães são muito mais cool que humanos... e que gatos tambem”.

“Você entende que quem não mente, não só para o mundo, mas para si mesmo também, não chega longe, não importa o quão longe e aonde queira ir? No final, a mentira é tão constitutiva, quanto a dor e a vergonha. Talvez tudo o que é constitutivo seja desconfortável”.

“O amor é constitutivo”

“O amor é desconfortável”

“Olha, Bar, eu vou ir buscar um açúcar pra nós. Parece que a barra está limpa. Tu queres?

“Não faço questão”

E assim saiu Cheap, em silêncio, do violão, embora para a cozinha, mas assim que ela saiu do quarto ouviu passos. O ex-músico, surpreso pela presença inusitada de uma barata em seu quarto, não teve escrúpulos, e como estava sem chinelos nem tênis, procurou um livro com o qual pudesse causar uma morte. Algum livro que não tivesse problemas em sujar. Então, um pouco relutante, mas reconhecendo a hierarquia de seus livros, pegou o Discurso sobre a Origem das Desigualdades entre os Homens, de Jean-Jacques Rousseau, e encerrou a existência de Cheap.

Bergain observou a cena inteira. O livro, de boas idéias, embora ingênuas, espalhara as entranhas de Cheap pelo carpete azulado, restando apenas o leve e sutil movimento da antena esquerda, talvez um aceno, ou um breve calafrio, quase imperceptíveis.

Reduzido à sua própria existência, Bargain então assumiu sua identidade de trovador e mentiroso, e escreveu um livro para lidar com a dor da morte de sua grande amiga. Ele se arrependeu um pouco do fato de só aprender a verdadeira lição acerca das mentiras logo antes de morrer, de overdose, ao retornar à heroína. A questão, ele pensou, não é viver de verdades, e, sim, de fazer uso das mentiras por entendimento próprio. Talvez a verdade emerja sutilmente das mentiras, do mesmo jeito que um pequeno peixe de um palmo de cumprimento emerja no meio do oceano, morto por velhice ou por inconveniente envenenamento. No final, pouco importam os fatos. O divertido é saber opiniões, e se esse é mesmo um mundo de podridões, a melhor coisa a se fazer é se entregar.

A si mesmo, é claro. As podridões são consequências, e só depois de surgirem como consequências elas brotam como causas. A diferença entre a barata que é esmagada e a barata que esmaga é que uma delas acha que não é uma barata.


Theo S. da Rocha

sábado, 22 de janeiro de 2011

Cães de Porto Alegre

É quente pra cacete em Porto Alegre. Tu sai na rua e se sente um pobre cão indefeso trancado em uma fornalha, e cada lugar com ar condicionado parece uma pequena saidinha do forno. É como se os lugares climatizados tivessem o clima natural e necessário para a vida, enquanto a rua é o lugar estranha e artificialmente aquecido em que nem uma barata conseguiria sobreviver.

Eu saio de casa contra a vontade. Ir ao banco, pedir um empréstimo. Implorar por isso. Então tu vai andando na rua e percebe a decadência das pessoas. “Esquece”, eu penso. “Foco no calor, não prestar atenção em ninguém”. Eu chego no banco e respiro um pouco de ar puro (ar condicionado). Passo pelo detector de metais e vou pegar a senha.

No caminho, percebo uma escultura estranha, uma estatua de um santo. Sei lá que santo é, mas é um carecão com um fedelho no colo. Em seus pés, moedas. 10, 25 e 50 centavos. Interessante cena. Quem põe as moedas ali? Eu sento em uma cadeira e aguardo ser chamado. Ao meu lado, uma mulher atende o telefone: “Consegui duzentos pila só. Não sei, também to pensando em ir lá. Até as seis né? Ah, se não der, fodeu mesmo”.

De fato, a escória. Ser porto alegrense já teve seu charme e beleza. Hoje, ser porto alegrense é se incluir no enorme grupo de pessoas gananciosas, mentirosas, filhas da puta. E tu sai pela rua vendo todo o tipo de sacanagem e mau caratismo e reconhece derrotado que infelizmente tu faz parte do mesmo saco. Isso é ser porto alegrense. Mais porto alegrense ainda é não fazer nada para mudar isso simplesmente por reconhecer que a coisa não vai mudar mesmo. Então, se tu não se encaixa no perfil porto alegrense de ser filho da puta, ou acha que não se encaixa, fica por conta dos que não fazem nada.

Mas nada disso me incomoda, porque eu realmente fiquei intrigado com o santo-riquinho. Quer dizer, em primeiríssimo lugar: que tipo de santo aceita dinheiro por uma causa? Tem certeza que isso é um “santo”? Em segundo lugar, quem dá dinheiro para um santo? Fale a verdade, tem pessoas com fome lá fora! Se tu olhar pela janela, passará um esfomeado sem-teto por minuto, e lá está tu pateticamente botando moedas no pé de um carecão que sequer vai gastar esse dinheiro.

Então depois de implorar para o banco liberar algum dinheiro, como se eu fosse um cachorro implorando por uma migalha de pão ao padeiro que recém ganhou um prêmio sozinho na loteria, eu passo por ali e vou recolhendo todas as moedas do santo controverso. “Deve ser o padroeiro dos políticos”, eu penso, imerso em minha tarefa. Uma mulher pára ao meu lado. “O que tu acha que está fazendo?” ela me pergunta, com a voz elevada para chamar a atenção das pessoas ao cara que está pegando o dinheiro de Jesus.

“Vou dar esse dinheiro a alguém que precisa”, eu respondo, sem sequer olhá-la. Eu levanto e vou saindo. “Vai dar para algum vagabundo gastar em bebida?” ela me pergunta, me seguindo. “Ora, tu não bebe?” eu devolvo a pergunta. “Bem, se tu bebe, sabe que é bom, e não vai negar esse prazer a alguém que não tem o dinheiro para beber”.

Sim, eu penso isso. No momento em que eu dou dinheiro a alguém, o dinheiro não pertence mais a mim, e essa pessoa pode fazer muito bem o que quiser com ele. Pode enfiar no seu rabo, não faz diferença para mim. O cara pode muito bem poder comer um sanduíche ou conseguir uma jantinha, e usar o resto da grana para comemorar que ele pôde fazer uma refeição, e comprar uma cachaça com os comparsas moradores de rua. Que se foda, afinal. Dinheiro gasto em bebida não tem como ser mal gasto.

“E se eu não bebo?” ela me pergunta, com uma legítima cara de “eu não bebo”. “Então tu é uma idiota” eu respondo. “Qualquer pessoa que vive em Porto Alegre e não bebe simplesmente não tem mais jeito na vida. São ingênuos demais para qualquer tipo de ajuda”. Eu saio do banco e vou andando pela rua, desviando das pessoas como se fossem tiros.

Não beber. Acho que meu maior problema é essa aversão a abstenções. Não é apenas a própria abstenção, e sim as coisas que motivam elas. Há sempre um motivo idiota por trás de uma abstenção. O pior de todos, que realmente me faz ranger os dentes e simplesmente querer ir dar um tapa na cara de deus por ter criado isso, é a abstenção por uma saúde melhor, ou para viver mais.

“Isso dá câncer, aquele outro mata”. Um dia haverão pessoas que não vão mais transar por que é dito que mata.

Viver mata. Você pode não comer carne, não usar drogas, não beber ou não sair por aí fodendo, mas vai morrer de qualquer jeito. Só porque Jesus recusou um copo de coca cola, eu deveria recusar um bife a milanesa? Foda-se. Toda a ingestão leva inevitavelmente a morte. É melhor ir se divertindo e fazendo o que bem quiser do que ir contra a vontade tentando postergar o que já está para acontecer.

Então você morre, vai a são Pedro e diz “que tal mais um tempinho?”

E ele diz “Em Porto Alegre?! O que você quer? Ser queimado vivo sem qualquer rastro de compaixão e ser humanismo? Você nem estava se divertindo mesmo!”.

Finalmente encontro um pobre velho dormindo sobre uma caixa de papelão de uma TV de plasma de 70 polegadas e o acordo. “Hey, man”, eu digo. Ele vira, metade surpreso, metade entorpecido de sono. “Tenho uns trocados aqui, tu precisa?”. Ele sorri um sorriso pervertido, criminoso, estranho. Poucos dentes rolando por ali. “E quem não precisa?”, ele responde. Boa resposta.

No caminho de volta para casa, dois moleques da minha idade dividindo uma garrafa de cachaça passam, rindo e berrando para as senhoras que saíam da igreja. Mais adiante, um atropelamento interessantemente violento envolvendo uma picape moderna e um casal de franceses que vinha para cá em turismo. O motorista, um executivo exaltado, culpava histericamente o casal, que jazia inerte no chão, sangue por tudo.

Porto Alegre é uma cidade única. Recebe os turistas do mesmo jeito que trata os próprios nativos. A não ser que eles tenham dinheiro. Muito dinheiro. Acho que é isso que chamam de amor. Mas estão errados. O amor é mais egoísta que isso.



Theo S. da Rocha

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sem tempo para que?

Devo ter esquecido algo. É esse sentimento estranho, em que alguma parte de você diz pra você “Está faltando algo, você esta se esquecendo daquilo”, e aí você pergunta “O que?” e ela diz “Ah, isso cabe a você descobrir”.

Então estou saindo de casa, e esse sentimento, me dizendo que está faltando alguma coisa para eu sair na rua completo. Eu circulo pela casa esperando que a coisa surja, mas ela não vem. Então, antes de sair, faço um check up para me convencer de que, de fato, é só impressão. “Eu devo estar ficando louco”, penso. “Não estou esquecendo nada”. Camiseta, bermuda, tênis, chaves, carteira e celular. Para sair de noite, não preciso de mais nada.

Precisar, digo precisar num sentido superficial. Ninguém precisa de celular, mas a gente sai com ele por que é útil. Talvez o celular tenha sido a invenção humana mais assassina – mais que a bomba atômica, inclusive. O celular acobertou a necessidade humana de ficar inacessível, mesmo que por 5 minutos. Com o celular, qualquer pessoa pode falar com outra pessoa em qualquer lugar, e isso não pode ser bom. É como se intimidade perdesse seu valor e importância, por que a coisa ficou fácil demais. Alem disso, hoje em dia é impossível ficar sozinho.

Mas há quem diga que a internet foi pior nisso. Eu só digo que a internet e o celular são irmãos.

Finalmente saio pela rua, caminhando. Passo numa padaria, compro um suco de laranja e sigo meu caminho. Um grande suco de laranja. Natural, e gelado... “Ah”... Então um mendigo me aborda, e pede o suco. Ainda tem metade do suco, e vem o grande dilema. “Eu não posso dar um gole ao mendigo”, eu penso. Sabe como é. Eu não sou preconceituoso, e muito menos fresco, mas não vai rolar. Aí surgem as duas opções restantes. Dar o suco de laranja ao coitado, ou negar. Eu ainda estou com sede, e o suco está bom. Eu trabalhei para comprar isso, e são pequenas concessões que faço, pensando que ao fim do mês ainda vai restar algum dinheiro para pagar o aluguel, e eu posso me arriscar a ter o prazer de beber um suco de laranja gelado. Por outro lado, o mendigo não teve a oportunidade que eu tive, para trabalhar, yeah... e ele não tem dinheiro para comprar o suco.

Mas essas são questões velhas, e cada um tem seu ponto de vista. O que me instigou foi a minha reação. Ao que ele me pediu o suco, eu, de sobressalto, dei uma risada desinibida. “Tá louco, amigo” eu digo, em voz alta, como se estivesse embriagado. “Eu trabalho duro pra conseguir comprar isso, e estou morrendo de sede. Sorry, man”, e segui andando pela calçada.

Por que eu fiz isso? Quer dizer, eu não sou assim, ou pelo menos nunca fui. Eu estou mudando? Se estiver, não quero ser assim. Quer dizer, eu tenho algum controle do que sou, mas não total. Então, teoricamente, eu posso, sim, me tornar a pessoa que eu não quero me tornar. Ou será que eu não quero me tornar aquela pessoa porque eu, de alguma forma, já sou ela?

Esses dias eu estava saindo com uma mulher, e ela entrou nessas viagens, mas ela achou que estava se transformando na amiga dela. Yeah, eu tenho um gosto por mulheres levemente loucas, eu sei. Isso é atraente, vai por mim, mas isso é outra história. De qualquer jeito, eu tentei acalmar ela. Disse que podia ser pior, já que ela poderia estar se transformando na amiga, mas se era a amiga dela, ela não deveria não gostar do jeito da amiga. “Seria pior se você achasse que estava se transformando em alguém por quem sente inimizade”. “Yeah” ela disse, mas explicou que não era a questão de se transformar. “Quer dizer, eu mal tenho tempo para ser eu, quando muito ser eu e a minha amiga”.

Yeah, yeah, são tempos bicudos, e ninguém tem tempo pra nada, mas não deixa de ser irônico. Quer dizer, você não tem tempo de ser outras pessoas, ou de ser de outra forma, mas ao mesmo tempo em que vivemos na era do “não ter tempo”, essa é a mesma era da falsidade. Então, estariam as pessoas sem tempo para serem sinceras? Então, o tempo é dedicado a não ser? Ou a ser outra pessoa?

Minha linha de pensamento é de súbito interrompida, e eu sinto um calafrio, desses que não sentia há anos. Eu estou andando na rua, e lá está ela, com algumas amigas. Yeah, é ela, ó céus, estou muito fodido.

Vamos ser claros aqui: “Ela” é a mulher que partiu meu coração, há alguns anos atrás. Yeah, Ela. E eu não via ela há anos, e meu deus, se ela não está sensacional. Ela simplesmente reluz. E ela vai se aproximando, e abrindo um sorriso. “Hey!” ela diz, se adiantando às amigas. Ó céus, o que eu faço?

“Hey!”, eu digo. “Quanto tempo! Como você está?”. “Eu estou bem”, ela diz. “E você?”.

Isso deveria soar estranho? Acho que não. “Ah, eu...” eu respondo. “Acho que há muito não percebi isso, mas estive sentindo muito sua falta. Saudades, sabe?” eu digo. Por que eu disse isso? Eu sou muito idiota. Preciso consertar. “Porque você sempre foi a única que partiu meu coração... e eu acho que nunca vou me recuperar disso”.

E quando eu falo isso, se não me vem, como uma bala perdida, um BAM, na minha cabeça, aquilo que eu esqueci. A Máscara! Seu idiota, como que eu pude!? Como que eu pude esquecer a Máscara Social! E eu esqueci todas as minhas mentiras em casa! Eu sou muito burro! Idiota! Eu sabia, sabia que estava esquecendo algo! E logo no dia que eu esqueci a Máscara, encontro com Ela!

Quanto azar, quanto azar! O que eu faço? “Preciso sair dessa!”. eu digo, sem perceber que o disse. “Yeah”, ela diz. “Porque já faz um tempão que a gente não sai mais, né?”. “Não!”, eu respondo. “Não digo ‘sair dessa’ como sair dessa paixão, mas sair dessa situação horrível. Eu esqueci a Máscara, minha Máscara Social!”. “Sua o que?”, ela pergunta. “Esquece”, eu digo, e saio correndo.

Que mico! Como que pude fazer isso!?

Na corrida de volta pra casa, passo pelo mendigo, paro e deixo uma grana ali para ele comprar um suco de laranja. Eu já estava recuperando a Máscara. Ela voltaria, gradual e gentilmente. Não posso ter perdido ela, pelo menos não completamente. Sabe o que fazem com pessoas sem a Máscara? Elas são amarradas nessas camas duras e desconfortáveis e levam 50.000 watts de eletrecidade direto no cérebro. E isso não é cool.

Pelo menos por enquanto não. Mas sabe lá qual vai ser a nova droga do momento. A gurizada não perde tempo, eu te digo isso.

Então eu volto em casa e pego a Máscara. E saio de novo, mais relaxado. Yeah, agora me sinto mais seguro. Sem tempo para inseguranças, nowadays...



Theo S. da Rocha

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Os Sex Pistols, vírgula, e a trilha do caminho da ignorância rumo à nova década

Era um fim de tarde surrealisticamente quente, quando tive uma conversa sobre falsidade com o dono de um boteco que frequentava. Eu estava bebendo desde o início daquela tarde com um par de amigos, e estava exausto, reduzido a álcool, suor e um rosto sujo, cansado de esboçar expressões exacerbadas de todos os tipos de sentimentos.

Não lembro de como o dono do bar se auto-introduziu à conversa, mas lembro que ele o fez sozinho. Estávamos falando sobre falsidade, ainda em um nível de sutil princípio de uma longa conversa. Aquela coisa, exemplos do dia a dia, sem ninguém ainda formular teorias alem da mera opinião já formada. O de sempre. Alguém diz “mentir é feio e pau no cu”, e outro concorda, mas diz que a mentira é necessária numa dieta diária de ações inevitáveis. Afinal, se sua namorada te traiu, você não vai sair dizendo para o vizinho que te cumprimenta “oi, tudo bom?” que “não, nada está bom, ela me deixou e eu estou um trapo”.

O problema dessa afirmação é que partimos para a divisão dos tipos de mentira, e é por aí que você percebe que a conversa vai ficar complexa demais. Então, existem as mentiras cotidianas: “oi, tudo bom?” e você responde “Yeah, tudo ótimo”. Por outro lado, existem as mentiras filhas da puta, em seus diferentes graus e contextos. Digamos, uma mentira filha da puta leve, como “Não, não fui eu que bebi a cerveja que tu guardava para uma ocasião especial”, e uma mentira filha da puta foda, como “Não, não, pode confiar em mim, eu não vou contar pra ninguém” ou “Não, eu juro que não dei em cima de sua namorada! Ela está mentindo”. Mentiras desnecessárias, embora necessárias para manter um status de relação, ou relação, apenas.

Mas não entremos no mérito “mentir em prol da relação”. Eu, particularmente, não acredito nessa filosofia. Para mim, ela é uma mentira em si, para manter e justificar uma mentira. Aí, já temos um pilar de mentiras, mas há quem creia nisso. Todavia não nos manteremos julgando essas coisas aos pobres e limitados olhos da moral: quem quer mentir mente, quem acredita que pagar o preço por uma verdade maldita vale a pena, fala a verdade. “O que quer que funcione para vocês, meus caros e pacientes amigos, é o melhor pra vocês. Então, vão se foder com essas filosofias, seja quais forem a suas” eu disse, tanto para o senhor honesto quanto para o senhor filho da puta.

Nada disso são questões das quais eu quero falar. Eu, de fato, realmente não consigo me importar com nada do que eu falei antes. Mas o dono do bar, em certa altura da conversa, tirou o avental, fechou o bar, pegou uma cerveja e sentou à nossa mesa como se fosse um velho amigo dos tempos de escola, e defendeu um ponto, no mínimo, exótico. Eu não tive nenhum problema com aquela invasão de espaço, afinal, ele trazia três cervejas de pronta vontade, e de graça. Mas um amigo meu se incomodou um pouco. Foda-se ele.

- Eu acredito que a mentira pode ser tão sincera quanto a própria verdade – ele disse.

- Yeah, yeah – eu disse – em toda mentira há uma verdade, sim, mas não vejo isso como um fato de grande relevância.

- Não – ele disse – o que eu quero mesmo dizer, guri, é que a mentira é um ato sincero.

- Cara – um dos meus amigos disse – como tu pretende embasar esse argumento absurdo?

- Simples. Sex Pistols – ele respondeu. A conversa estava começando a ficar interessante. Eu pedi para ele continuar, e ele deu sequência a si mesmo – Os Sex Pistols acabaram com o punk, como ele era. O fim do punk tinha, de fato, que acontecer com a banda mais punk, embora eles não fossem punks. Eles trouxeram o feeling para a mídia, e para o mundo, e ele perdeu seu irônico valor. Não existe mais punk depois de Sex Pistols, apenas restos de Ramones e Iggy Pop, que já faziam coisas diferentes.

- E aonde entra a falsidade nisso?

- Bem, em primeiro lugar eles não formaram a banda. Um empresáriozinho mimado atrás de dinheiro decidiu fazer uma banda que exacerbasse o que acontecia no âmbito underground de Nova York. Aquele filho de uma puta cracolenta do Malcolm McLaren. Então ele catou os caras da banda um por um. Eles sequer gostavam de qualquer coisa pesada! Os poucos que ouviam algo de rock ouviam Beatles e a primeira bandinha do Rod Stewart. Então ele diz pra eles o que fazer, passa o dever de casa. “Escrevam sobre isso, usem tal roupa”. E eles entraram no papel. O único que acabou curtindo e se convertendo foi o Rotten, ainda que no início ele fizesse só pelo trabalho, mesmo. Então, o que eles faziam era encenar. Quem pedia um autógrafo ganhava um catarrão na capa do álbum, e ainda curtia. Eles eram atores! E influenciaram milhões. Com algo que eles não acreditaram.

- Esperaí, cara – eu disse – talvez tu queira dizer que é mais fácil fazer algo encenando, ou mentindo, ou atuando. Mas não é um fato que a verdade e a mentira estejam juntas, em síntese e simultaneidade. Ademais, Rotten passou a escrever letras realmente cruas, com maestria, sinceridade, e ele expressava-as com verdadeirismo. Os Sex Pistols não têm nada de falso, meu caro.

- Você está perdendo o fio da meada – ele me disse.

- Não, não estou. O que você quer dizer é que a mentira não é mentira porque para alguém ela é verdade, talvez porque seja, ou talvez porque quer que seja.

- Yeah – ele disse – é isso aí.

- Yeah – eu falei – e é patético. É quase tão ruim quanto o “mentir em prol da relação”. Me soa como a ingênua e idiota idéia de quem nunca teve uma idéia, e sempre quis ter uma que se destacasse por ser diferente.

Ele fechou a cara, se levantou e foi ao bar, secar uns copos. “Fechou em 64 reais” ele disse dali, já nos expulsando. “Tire os dez por cento” eu falei. Mas é claro. Mau humor e inflexibilidade são qualidades que me fazem por em questão a gorjeta, mas não fazem com que eu de fato o faça. O que realmente provoca a reação de aversão à gorjeta é a ignorância com inflexibilidade. Vai por mim, eu mesmo sou garçom e entendo dessas coisas. Ninguém quer pagar por burrice.

Nós já fazemos o suficiente disso com os impostos, afinal.

A verdade é que os Pistols surgiram de uma maneira curiosa, que oferece uma nova maneira de ver o rock n roll. Os caras não conheciam muito de rock n roll, não gostavam muito de rock n roll, mas já sentiam o punk feeling: o que foi punk nos EUA dizia respeito ao sentimento de dor, enquanto na Grã Bretanha, disse respeito ao ódio. E os caras eram bem odiosos, só não sabiam contra o quê. Foda-se se um empresariozinho mimado e arrogante criou a banda: ela só existiu por causa dos caras, e eles foram bons. E sinceros. E isso não se vê em nenhum lugar hoje em dia. Espontaneidade!

Por Deus, o som mais expressivo que ouvimos nessa década que se passou foi de um avião batendo em uma das torres gêmeas, e som do desabamento. E digo que não foi bom. Os anos 00 foram um completo infermo. Foi o sepultamento do inusitado, do espontâneo, e de toda a sinceridade. A década que se passou foi bem sucedida no que diz respeito a nos transformar em máquinas. Agora, estamos engatilhados e preparados para nova década: uma década em que toda novidade vai ser ruim, toda a intenção vai girar em torno de dinheiro e poder e toda sinceridade vai se limitar ao amor dos cães por seus respectivos donos, e da raça humana pelo pequeno papelzinho verde que traz material, amor e satisfação de desejos.

Mas não se preocupe: o cão ainda vai ser o melhor amigo do homem. É claro, desde que continuemos tratando-os como cães, e não como filhos. Ouviram, peruas? Se você está mandando a Fifi para fazer as unhas, para ser tosada, para tomar remédios calmantes e para descansar em hotéis de luxo, provavelmente é você que precisa fazer as unhas, se depilar, tomar algum veneno altamente tóxico e ir viajar para algum lugar.

Pelo menos nem tudo está perdido. Não inventaram cirurgia plástica para cães. Ainda.

E eu não estou falando só das peruas... e nem só dos cães.



Theo S. da Rocha

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Leão Faminto

Nós estávamos na lancheria “Morte Lenta”. Digo “nós” falando eu e um amigo cheirador boca grande. Eu não gosto de gente cheirada. Têm uma necessidade de falar e fazer um grande estardalhaço de tudo o que acontece. Alem disso, são arrogantes. Mas, como em todos os agrupamentos da existência, há exceções, e este meu amigo fugia a essa regra, e ele era, sim, uma pessoa interessante.

Eu pedi um xis bacon, um sanduíche regado a maionese, bife mal passado, bacon, milho, ervilha, tomates e alface. Ovo frito extra e dose dupla de queijo, por minha conta. Mas meu amigo foi alem: ele pediu “O Pacote Completo”, ou “xis tudo”. Eu senti inveja dele. Haviam todos os tipos de carne ali. Coração de galinha, bife de frango, bife, bacon, calabresa, e todo o resto marginalizado da culinária. Como o nome dizia, era o pacote completo. E o sanduíche estava muito bonito.

Apesar de o lanche estar muito bom, pouco pude desfrutar dele. Meu amigo falava sem parar. Ele ia refletindo sobre a vida das pessoas, blábláblázeando sobre fofocas e hábitos inusitados, falando de boca cheia. Eu torcia para a comida não saltar de dentro da boca dele, mas pouco adiantava. Mesmo assim, cedo ou tarde, chegaríamos em um assunto que me chamaria a atenção.

“No final, a fast food, ou junk food, se tu preferir, se assemelha totalmente ao sexo. Assim como comer carne. Comer carne é, de fato, como fazer sexo”, ele disse.

“Opa”, eu disse, tentando pisar no freio. “Peraí, uma coisa de cada vez. Como que junk food se assemelha ao sexo?”.

“Bem, talvez parte disso se trate de dopamina. Sabe dopamina?” ele perguntou. “Não”, eu disse. “Bem” ele disse. “Dopamina é uma substância que teu cérebro libera quando tu fica cool. Saca? Cool. Quando fode alguém, sabe? E essa pessoa faz tu se sentir como o terceiro gol do Grêmio fez contra o Santos na semifinal da Copa do Brasil de 2010. Isso é a dopamina”.

“Ok” eu disse. Acho que entendi a coisa”

“Yeah! É aí que eu quero chegar. O cérebro humano libera exatamente a mesma quantidade de dopamina quando fazemos uma essas três atividades: sexo, comer junk food ou quando usamos drogas pesadas. Yeah... Então, no final, se comer porcaria for um ato tão destrutivo quanto usar drogas pesadas, sexo entra no clã da auto-flagelação também, e aí estamos fadados a um mundo que é hostil à nossa mera existência, ou hostil ao desfrutamento de nossos prazeres mais primitivos”.

“Espero que tu não esteja pensando em cortar as relações sexuais com a tua namorada...” eu disse, debochando.

“Mas nem fodendo, hahaha” ele disse, com a voz alta. A lancheria inteira olhou para a nossa mesa. “Assim como não vou parar de comer porcaria, ou carne, ou de usar drogas pesadas”.

“Não sei quanto a essa de drogas pesadas” eu disse. “Não posso atestar tua teoria”.

“Yeah, yeah... E todo o ácido que tu toma, como se fosse água? É droga leve?”

“Shhh, cara” eu disse, olhando para os lados. “Tem como falar mais baixo?”.

“Hey, man... só estou te dizendo dessa teoria. E se tu for ver o prazer como uma forma de encurtamento da vida, seria uma aceleração de processos. Pisar no acelerador, saca? Tipo essa mania por velocidade, nesses caras que dirigem aí pela cidade a duzentos por hora, passando os sinais vermelhos”.

“Não vejo aonde tu quer chegar” eu disse.

“Só estou dizendo que a “Pulsão de Morte”, de Freud, é só uma maneira, provavelmente errônea, de ver as coisas, porque mais vale viver pouco, e muito prazerosamente, do que viver muito em monotonia. É aí que entra o equilíbrio, a harmonia, que a natureza se encarrega de fazer. O prazer é o rápido gasto da vida, o acelerador do relógio da vida. É como se quem vivesse 30 anos em prazer tivesse vivido mais do que quem viveu 80 em abstenção. E a natureza cuida desse equilíbrio por nós. Quem goza demais, vive de menos”.

“E quanto a Iggy Pop?” eu perguntei. “E Lou Reed?. Talvez Albert Hoffman e Hunter Thompson tivessem menos prazer sexual, mas igual, buscaram outra forma de equilibrar-se nessa equação. E Ozzy Osbourne?”.

“Hey man, relaxa aí” ele disse. “Tu só tá me mostrando onde a natureza falhou. Tudo falha. E se tu pensar bem, essas pessoas são um pequeno grupo que pode ser nomeado de ‘As Exceções’”.

“Mas eu ainda não entendi a analogia entre comer carne e transar” eu disse, só pra provocar. A teoria dele era boa, e eu já estava chegando no campo da teimosia, tentando contestá-lo. Mas a discussão é um esporte, e sempre que tomamos posições radicais em nossas discussões, acabamos por perceber que as pessoas com quem discutimos não estão brigando, ou discordando, ou se irritando com a nossa presença, ou com nossos argumentos. Elas entram em desacordo é com elas mesmas, e brigam e gritam e gesticulam justamente contra a presença da contradição que está presente nelas, assim como está em qualquer ser pensante, embora não se dêem conta disso.

“Quando você consegue uma boa foda, é como se fosse um leão, zunindo pelas pradarias africanas atrás de uma zebra. Existe a pressa, mas ela está ali lado a lado com a calma. Uma depende da outra, como qualquer oposição ou contradição. E o leão sai em correria, e a zebra, assim que o vê, dispara em corrida para sobreviver. Mas não é só uma questão de timing. Não se trata de correr mais ou menos, ou pular e agarrar a zebra no momento exato. Existe um jogo ali, e a zebra faz curvas e muda de direção, enquanto o leão a acompanha. Mas nada disso tem a ver com sexo, nem com os sexos e muito menos com os papéis dos sexos numa foda boa. A questão é que o leão pula, e de um jeito ou de outro chegará no pescoço da zebra, e segurando-a com as patas e garras e unhas e uma raiva e necessidade carnal, morderá esse pescoço que, de fato, foi destinado a ser mordido um dia. E o sangue se derramará. O sexo, meu amigo, pelo menos o sexo de boa qualidade, aquele que faz com que tu se sinta como o Grêmio o fez no terceiro gol contra o Santos na semifinal da Copa do Brasil de 2010, ESSE sexo, é perfeitamente representado pelo sangue da zebra, que, finalmente, depois de muito esforço por parte do leão, pinga em sua boca faminta, e o faz sentir o gosto do triunfo, antes mesmo de desfrutar da carne propriamente dita”.

Eu fiquei meio perplexo, incapaz de esconder esse sentimento. Observo meu amigo sem fôlego depois da palestra. “Não entendi a lógica a que tu quer chegar” eu digo, finalmente.

“Yeah” ele diz, em tom de missão cumprida. “Isso é bom. No final, o que falta, de fato, ao jogo, tanto da carne, quanto da droga pesada, quanto do sexo, é justamente a lógica. Faça, portanto, do sangue da zebra, o uso que tu quiser”.

“E onde entra a dopamina nessa balela aí?” eu pergunto.

“Foda-se a dopamina. Ela é só uma consequência”.

Yeah. Agora fazia sentido. Ou, pelo menos, algum sentido. Ceci nest pas une pipe. “Cool” eu digo, pouco antes de perceber nossos pratos vazios. “Vamos nos mexer daqui?” eu pergunto. “Yeah, yeah, já está na hora”. E nos levantamos.

E em algum lugar do mundo, algum animal era abatido, e o sangue talvez não chegasse à boca do leão. E enquanto vivemos, e presenciamos a morte cercando as pessoas ao nosso redor, nos damos conta, a cada nova morte, que a fila está andando, e cedo ou tarde, será a nossa vez de saltar do penhasco.

“Paciência” eu penso, pois embora o prazer seja suficiente, jamais será o suficiente.

“Suficiente. Ou, demais” Wiliiam Blake.




Theo S. da Rocha

em um post nem um pouco natalino, na noite de natal