sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Presentes Submersos (ou O Que a Superfície Esconde)

Era uma manhã de verão quando eu decidi ir visitar um amigo na praia. Eu ainda tinha uma semana de vida, e conclui que um dos afazeres antes de partir consistia em pegar uma praia ensolarada num fim de tarde.

Poucas coisas são realmente comparáveis a praia num fim de tarde. O sol, já no fim de sua descida, colore a areia de dourado, e as pessoas parecem surrealmente mais bonitas com a pele bronzeada iluminada pela luz mais sublime que se pode encontrar. O mar gentilmente reflete os raios em direção dos olhos dos transitantes, tomando apenas parte dessa luz para si, com a intenção de parecer mais acolhedor e amigável. Tudo fica em completa e perfeita sintonia visual.

Eu cheguei na rodoviária no meio da tarde, e meu amigo estava por ali me esperando. Ele estava careca. Nos cumprimentamos, depois fomos a sua casa deixar as coisas e fomos a praia. Sentamos na areia de costas para uma duna que já esfriava oferecendo a primeira sombra do sol. Eu enrolei um baseado e nós dois fumamos ali, quase imóveis, observando o mar e o movimento.

“Tu não vai acreditar nas coisas que eu tenho ouvido”, ele disse, introduzindo um assunto que a primeira vista parecia, no mínimo, interessante. “Lembra do episódio das Heinekens lá no Lago?”, ele perguntou. “Yeah”, eu disse. Já deviam fazer muitos anos que isso não passava pela minha cabeça, mas não havia jeito de esquecer.

O Lago era um grande açude, que ocupava um campo perto da casa de praia dele. Tinha o formato de um Y arredondado, e vários piers para ficar por ali fazendo merda e molhando os pés na água. Nós sempre íamos para lá pela noite para beber ou fumar. O episódio das Heinekens foi um dia em que compramos uma garrafa de rum e algumas Heinekens para beber no pier, mas só fomos tomar as cervejas depois de terminar o rum. Elas estavam quentes, e tinham um gosto desconfortavelmente estranho. Jogamos as latas restantes no lago, logo abaixo do pier. Deviam ser três ou quatro cervejas. Ficamos meio aborrecidos, mas estávamos bêbados demais para nos importarmos.

“O que tem?”, eu perguntei. “Um amigo meu foi tomar umas cervejas ali com outro conhecido dele, que vem a ser um dos representantes da Heineken aqui no sul”, ele começou. “Eles ficam tão embriagados que caem no lago, e acham uma latinha. Ela está toda enferrujada, com uma crosta de ferrugem verde-musgo por toda a lata. Eles procuram mais e acham as outras três”. “Bem, e daí?”, eu pergunto.

“Eis que o representante as manda direto para o museu da Heineken em Amsterdã. Inventa uma história ilustrando todo o contexto, e agora as latinhas que nós jogamos fora estão cheias e fechadas em uma prateleira só para elas no museu”, ele diz esperando minha reação. Fico sem palavras por um momento. “Como assim? Elas estão em exposição? Mas isso não é motivo para se orgulhar, aquelas cervejas foram jogadas no lago porque estavam ruins! Qual foi a história que esse cara inventou?”.

“Bem, ele disse que fizeram uma festa do caralho por ali. Compraram Heinekens o suficiente para embriagar um exército, mas haviam só 50 pessoas. As pessoas começam a beber, e elas têm de beber tudo, porque as cervejas vão ficar velhas. Uma por uma, elas vão desmaiando ou sucumbindo aos limites humanos. Mas tem uma mulher que gosta tanto de Heineken que está disposta a ir até o fim com isso, nem que isso custe a vida dela. Ela vai bebendo sem hesitar, mas um cara que estava por ali também vê que ela não vai parar. Ele amava ela mais do que tudo, e ela ainda não sabia. Então ele faz, com os olhos cheios de lágrimas, o que tem que fazer e joga as cervejas restantes fora, para que o maior amor de sua vida – maior inclusive que Heineken – continue vivendo. No fim, a mulher nunca reconheceu seu ato heróico, e ficou puta da cara que ele jogou fora as Heinekens. Ela nunca mais falou com ele desde então, mas ele salvou a vida dela”.

“Mas que merda de história”, eu digo decepcionado. Meu amigo ainda diz que a Heineken expôs aquilo em homenagem singela ao amor. “Ah, just fuck off, man”, eu digo. “Por que todo esse estardalhaço por algumas latas achadas no lago cheias?”, eu pergunto. “Você tinha que ver”, ele disse. “Elas tinham uma aparência misteriosamente bonita, realmente fascinante. Não é em todo lugar que se vê ferrugem verde. A Heineken até lançou uma edição limitada com as latinhas em réplica das Heinekens do amor incondicional”.

Fico pensando na história por algum tempo, e na disposição de morrer por cervejas. Parece idiota, a princípio, essa causa, especialmente porque eu estou já no meu fim inevitável, mas não é. Há todo um misticismo acerca da morte, e tudo é levado com tanta seriedade, que as pessoas se esquecem que a morte não passa de um brinquedo, e o lado positivo desse brinquedo é que todos vamos, democraticamente, brincar com ele por algum tempo em nossas vidas, até finalmente entrarmos na brincadeira. A morte é apenas a possibilidade de comprar um Kinder Ovo e correr o risco de a surpresa que ele contém seja apenas o mais sem graça quebra-cabeça de 16 peças. Parece trágico, parece uma merda, mas é mais divertido do que nos permitimos divertir.

Ontem, um cara foi assassinado na frente do shopping Total, durante um assalto. Todavia, infelizmente, não posso usá-lo de argumento. Uma notícia é uma notícia, e dificilmente ela vai me despertar o mesmo sentimento do que tendo visto o sujeito ou a situação. Notícias assim são inúteis, sendo usadas apenas para gerar mais medo do que já se constata na vida pessoal das pessoas.

Meu raciocínio é cortado quando passa uma morena alta pela areia na beira do mar. O sol semi-poente enche sua pele bronzeada de dourado. É como se pudéssemos cobrir as coxas bronzeadas dela com ouro queimado. Bem queimado. Nenhum trabalho humano ou Photoshop faria tamanha perfeição com tanta sinceridade.

“Tem outra história”, meu amigo diz, quando a morena já terminou de passar por nós e vai indo paralela ao mar para o infinito, “mas não sei se tu vai gostar muito também”. Vítima da curiosidade, peço para ele contar de uma vez.

“Lembra no outro pier do lago, quando jogamos as long necks vazias ali por perto, porque não tínhamos como voltar com tudo aquilo nas mãos?”, ele pergunta. Digo que sim. “Vi uma criança brincando no lago esses dias com a mãe, e a mãe sugeriu que fossem para perto desse pier. A criança, juro por deus, cinco anos de idade, disse que não era seguro porque uma tal de “Marcinha” foi brincar ali uma vez e cortou o pé em cacos de vidro. Marcinha devia ter a mesma idade da menina”.

“Uau”, eu digo. “Que merda”. “Certamente não fomos nós”, ele constatou. “Nós não quebramos as garrafas”. “Certamente fomos nós”, eu o contrario, “as garrafas eventualmente quebram por alguma razão”. Ficamos em silêncio por um momento. “Se sente culpado?”, ele me pergunta.

“Primeiramente, sim. Mas era uma culpa mentirosa. Eu realmente não me importo mais. Uma notícia é uma notícia. Talvez eu me sentiria culpado se presenciasse a cena, e constatasse que, de fato, a jovem Marcinha conseguiu uma tatuagem precoce na sola do pé”. Meu amigo fica meio quieto, e não responde. “Talvez eu apenas seja um Estrangeiro no meio de comunicação capitalista”.

Nos levantamos e vamos dar um mergulho no mar. Chegando perto da maré, passamos pela morena, que retornava em sua caminhada. Eu espero que ela olhe, mas ela se mantém distante. Eu viro para meu amigo: “Eu estou morrendo”.

Ele olha para mim e depois para a morena, folhada a ouro. “Eu também”.


Theo S. da Rocha

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Parafusos Musicais

Era uma ferragem bem vagabunda e mal cuidada, ficava a duas quadras de uma boca de fumo muito movimentada. Eu lembro que fui lá comprar parafusos porque eram mais baratos, de acordo com minha mulher. Nenhuma pretensão de usá-los, mas sempre achei que deve-se manter um estoque de parafusos em casa. É necessário, afinal, estar preparado e bem armado para caso eles façam falta.

Então eu fui até lá, a pé, observando o fluxo de drogados que ia e vinha de mãos vazias ou cheias, esperando que algo novo aconteça e encha seus bolsos. Se quiser, você consegue farejar uma boca de fumo a quilômetros de distância. São as pessoas que circulam, e o ar levemente azedo e insinuante. Assim, mesmo que o ponto mude de lugar, deixa de herança ao local aquela sensação estranha, a energia misteriosa, a atmosfera colorida. William Burroughs que o diga. No final, você é o atingido por essa sensação. Essa é a particularidade. Você não é o produtor dela: ela já estava lá antes, e vai continuar estando. É ela que vai de encontro a você, e te segue calmamente pelas esquinas, como um fantasma pentelho.

Mas eu não precisava de drogas na ocasião. Apenas parafusos. Precisava deles. Então cheguei na ferragem e tinha um sujeito aparentemente comum se palestrando. Ele era grande e tinha voz estridente que ressoava nas paredes. Foi falando de como ele foi para Nova York sem pagar nada. Discretamente prestei atenção no que dizia, interessado na chance de poder viajar de graça também. Ele dizia que foi pelos correios. “Aí finalmente consegui entrar num envelope”, ele disse, sorridente, gesticulando com as duas mãos, sinalizando a entrada dentro de um envelope, que eu imaginei pardo, pela mão esquerda pendente segurando algo invisível, enquanto a direita deslizava para baixo em entrada. “E me fui, direto. Uma carta urgente. Paguei só o envio do envelope” ele disse, rindo orgulhoso de si mesmo. Algum dos ouvintes perguntou como era Nova York. “Grande”, ele disse.

“Perdão, meu humilde amigo”, eu disse, abordando-o. “Mas como tu conseguiu entrar num envelope?”. “Não há segredo”, ele disse. Lembro que torci o nariz quando ouvi isso. Com certeza há um segredo. Não é algo que simplesmente se faça. Se não tivesse segredo, estaríamos todos entrando em envelopes. “Eu diminui meu tamanho”, ele disse. Esse era o segredo. Aquilo me interessou.

“E como tu conseguiu essa façanha?” eu perguntei, humildemente interessado. Ele estendeu a mão. “Prazer em te conhecer, meu nome é Jorge, sou um inventor”. “John”, eu disse, apertando a mão dele. “Gostaria de conhecer algumas de suas invenções”, eu disse. Ele disse que morava por ali, então fomos direto para seu casebre – ao lado da boca de fumo. Uma fila de jovens e velhos distintos e indistintos saía pela porta da boca. Vi um rosto conhecido e acenei em cumprimento.

Entramos no casebre do velho Jorge e ele me apresentou seu irmão. Ele não falava português. “Crescemos separadamente”, ele me disse. Jorge veio na barriga de sua mãe direto da África, enquanto o seu irmão, que era mais velho, ficou na companhia do pai no seu país de origem. O pai era algo como um ditador, ou algo assim, e a sua mãe tentou fugir de toda a loucura. Ela era de uma tribo desconhecida, e o político se apaixonou por ela. Eles pareciam ser cool. Fiquei pensando o quão interessante deve ser para alguém de uma tribo exótica e isolada um belo dia pegar um avião para ir morar em outro país.

Descemos a um porão e ele me apresentou, entre tantas outras, a máquina de encolhimento. A única descrição em que consigo pensar para apurar uma impressão da máquina é de que ela era uma grande e gorda geringonça de plástico e alumínio, com uma luz vermelha no centro. Fiquei admirando a máquina, mas ele não quis me mostrar ela funcionando. Ficamos bebendo depois disso e ele ficou me contando uma história de quando ele tentou construir uma máquina do tempo.

“É o seguinte”, ele disse. “Todos temos fantasias. Meu sonho sempre foi não trabalhar durante a tarde. Eu escrevo para um jornal do bairro aqui... Então eu pensava: vou inventar uma máquina do tempo. Assim, vou ficar sem fazer nada durante o dia e ao término dele, volto no tempo e digo para mim 5 horas atrás para fazer o trabalho, porque vai ficar muito bom. Então, quando voltar ao meu tempo, encontrarei o trabalho, feito por mim, sendo que eu não o fiz. Já pensou?”, ele perguntava erguendo as mãos e os ombros, com um sorriso embriagado. Eu apenas ria.

Dentre outras invenções que tinha, estava um livro que virava as páginas sozinho e um liquidificador voador. Perguntei-o qual a função do liquidificador. “Nada precisa ter uma função”, ele disse. “Apenas achamos funções para as coisas porque a natureza é viciada nisso. Ademais, o capitalismo ainda intensificou mais ainda essa doença”. Gostei da idéia. A natureza, que já é uma puta, sendo também neurótico-obsessiva.

Voltei para casa tarde da noite mas não consegui dormir. Fui atingido por várias fantasias, que iam me perturbando enquanto eu rolava na cama, repetidamente acordando minha mulher com minha inquietude. Eu teria de realizar aquilo. Era necessário. Não havia como ignorar. Se havia um jeito de fazer alguma coisa que se quer fazer, não me parecia racional dizer “não” a ela por uma questão de ética e educação. Então me decidi.

No dia seguinte voltei à casa do inventor com a minha mulher, que já tinha concordado em fazê-lo, e levei um aparelho de som. Expliquei-o que pagaria por aquilo, apenas precisava fazê-lo de qualquer jeito. Ele ouviu com muita atenção, compreendeu minha situação e disse que faria esse favor. Descemos ao porão das invenções. Ele me encolheria e botaria no som “Build Me a Woman”, dos Doors. Depois de me encolher, ele saiu do lugar, me deixando ali com minha mulher. Assim, fui encolhido, a música começou e a minha mulher tirou a roupa. E o Jim começava a gritar a letra. “Build me a woman, ten feet tall! Build me a woman, TEN, FEET, TALL”.

E fui deslizando por seus seios, beijando uma imensidão de pele aveludada. E a música parecia tão alta! Assim, ela me botou em seus pés, em suas coxas, e eu fui subindo delicadamente em êxtase, sutilmente descontrolado, pacientemente usado... “Dont make her ugly, baby, dont make her small! Build me someone i can BALL, all night long”.

Sem sombra de dúvida esse foi o melhor momento da minha vida.

Infelizmente nos divorciamos uns meses depois, provavelmente porque eu esqueci completamente de comprar os parafusos na ocasião em que fui à ferragem. É estritamente necessário manter parafusos em algum lugar. Seguros, mas à disposição. Especialmente depois da realização de uma fantasia.

Ela agora mora com o inventor. Eles têm dois filhos. Esses dias o próprio inventor me perguntou se eu queria ser cobaia de uma nova máquina dele. Era algo como uma máquina que fazia você ficar musculoso em questão de segundos.

“Nem fodendo”, eu disse. “Jamais vou cometer essa atrocidade com meu corpo”. Marcamos para tomar uma cerveja, mas acabamos não indo, nenhum dos dois.


Theo S. da Rocha

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Alma Solitária

Então eu pego o pequeno felino nas minhas mãos e parto para a ação. “Vem cá, gatinho, ts ts ts”. Yeah, vamos lá. Ele metade entorpecido, metade confuso, mal consegue se mexer. We are gonna have some fun. Aí eu começo a função. Ele deitado no chão, barriga para cima, eu pego meus dois dedos e vou fuçando no seu olho.

Have you ever seen the rain? Ele emite seu primeiro ganido. O primeiro de muitos. Eu enfio meus dedos por entre o globo ocular e um princípio de dilúvio sanguíneo escorre pelo seu rosto. Os ganidos se tornam berros. Uma pobre vida perdida, fadada a morte, como todas as vidas e tudo o que existe.

Eu retiro seu olho, ele começa a espernear. Eu o seguro com força. O lugar reservado ao seu olho, na parte esquerda do rosto, vazio, um vácuo, como qualquer compaixão que eu sinto. Então eu amasso e estouro seu primeiro olho e parto para o próximo. Vamos repetir o procedimento! REPEAT

Já existe uma poça de sangue sob ele. O sangue rubro-escuro, se misturando com o basalto da calçada. Os urros se tornam altos demais, então eu rapidamente abro sua mandíbula, e a puxo até onde ela aguenta. Clec. Dead cats, dead rats. Para finalizar meu grande truque, jogo o cadáver para cima, e enquanto ele cai, eu o chuto para longe. O goleiro repõe a bola, e o jogo continua!

Saio dali sentindo a adrenalina e a satisfação de gozar do meu lugar no topo da cadeia alimentar. Ah, a vida! Hoje vou tomar uma cerveja para celebrar minha grande atuação no jogo da natureza. Ice cold beer, ice cold death.




Pouco acredito no que estou vendo. Esse sujeito foi em direção ao pobre gatinho indefeso e confuso, na rua, e em princípio achei que ele o fosse ajudar. Pensei que ainda existiam pessoas que simplesmente se importem. Mas ele pega o gatinho com tanta violência e descuido. O que está acontecendo?

Então ele pega sua mão, uma mão enorme e indelicada, e simplesmente enfia os dedos no olho do pobre animal indefeso. Um olho é arrancado. Eu penso em interferir, mas esse sujeito é tão grande... eu não teria a menor chance. Pedir para ele parar, e então o que? Ser morto a porradas? Então eu simplesmente tento parar de olhar, para não presenciar mais daquilo, mas por alguma razão não consigo.

O sujeito dá risadas, e parte para o próximo olho. Pura violência e perversão. Tem sangue por tudo, e ele novamente arranca o único olho que resta no pequeno amiguinho felino. Os gritos são tão altos. Como alguém pode fazer isso? Como alguém consegue tão desenfreadamente causar o mal, sem expressar nenhum escrúpulo de dor em si mesmo?

Ele então quebra a mandíbula do pobre gato, e o chuta para longe. Eu sinto que não conseguirei dormir essa noite. Precisarei tomar uma boa dose de cerveja para conseguir viver com essa cena. Tamanha crueldade, e dor, e ainda sim descaso e... quase... prazer. Por que existem pessoas assim?




E assim, o jovem torturador seguiu andando, a única alma viva naquela rua escura, para se embebedar. Metade feliz, sentindo os impulsos do prazer em suas veias, e metade culpado, envergonhado e arrependido. O alívio desses sentimentos aponta para um lugar apenas: o bar. Já as origens desses atos e sentimentos, entretanto, apontam para e existência de diversas pessoas, dentro do corpo de uma só. Todo o sentimento vive com a presença de sua oposição. É o preço que se paga, por sentir. Enquanto o torturador acha que não sente culpa, o ingênuo acha que não sente prazer, e os dois são um só.




Nenhum animal foi ferido para a produção desse texto.

Theo S. da Rocha

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cheap e Bargain

Duas baratas, Cheap e Bargain, viviam dentro de um violão. Era uma convivência tranquila. Viviam em harmonia e simplicidade, apenas aguardando o fim dos tempos, sem ansiedade nem preocupações quanto a isso.

Cheap era uma lésbica de meia idade. Ela gostava de música folk e de açúcar, e embora não buscasse estabilidade ou conforto em sua vida, se sentia aconchegada e de acordo com a ideia de acomodar-se e viver com Bargain, mas não excluía a possibilidade de mudanças súbitas e improváveis a levarem para outro caminho.

Bargain era um ex-junkie que chegava à terceira idade com poucas demandas e necessidades. Ele gostava de Iggy Pop, e se sentia bem consigo mesmo quando ouvia pessoas ou outras baratas fazerem alusão ao seu tamanho descomunal. Bargain era uma barata muito grande.

O violão se situava num canto empoeirado do quarto de um ex-músico. Ele havia desistido da música pela escassez de possibilidades, e agora trabalhava para juntar dinheiro e abrir um bar. De vez em quando ele pegava o violão para tocar e improvisar um pouco, em nome dos velhos tempos e do resgate das memórias que agora não passavam a ser nada mais que memórias. Os episódios musicais eram raros, e talvez por isso fossem apreciados sem reclames pelas baratas.

Os dias de Bargain e Cheap se constituíam geralmente de formulações criativas de situações que fossem inusitadas, e assim se tornavam um quebra-cabeça para o outro, que ia tendo que adivinhar como se desenrolavam essas situações e seus porquês. Ademais, nos momentos de maior calmaria criativa, discutiam a vida. Cheap gostava de discutir o quão ridículo é o medo da morte, enquando Bargain tinha um sério problema com a oposição verdade-mentira.

Sua última discussão girava em torno de cães. “Um cão que sente falta de seu dono”, começou Bargain, “age de fato muito mais honesta e sinceramente do que um humano que perde seus pais. O cão expressa tristeza, sim, mas não cessa de procurar seu dono ou de esperar que ele retorne. Enquanto um humano busca outras formas de contornar o fato, mas, no final, nenhum dos dois se recupera do baque”.

“Não se trata de sinceridade”, disse Cheap, “Já que o cão não reconhece a morte, ou não acredita nela”.

“Cães reconhecem a morte. Já vi donos morrendo ao lado de seus cães. Os cães expressam tristeza no durante e no pós-processo. Alguns até o sentem com antecedência. Ademais, seria uma grande contradição, os cães serem sinceros e não reconhecerem a morte, enquanto os humanos a reconhecem, e mentem. Talvez a mentira seja a tentativa de negar a morte. O que quero dizer, na verdade, é que a simbolização é a tranformação dos fatos em mentira. Todavia, a mesma simbolização é necessária para a manutenção de uma sanidade. Logo, quem não mente, não responde em liberdade pelos seus atos, e não tem o direito de manter-se inserido na sociedade: é tirado dela”.

“Você não pode possivelmente comparar cães a humanos”, respondeu cética Cheap. “Cães são muito mais cool que humanos... e que gatos tambem”.

“Você entende que quem não mente, não só para o mundo, mas para si mesmo também, não chega longe, não importa o quão longe e aonde queira ir? No final, a mentira é tão constitutiva, quanto a dor e a vergonha. Talvez tudo o que é constitutivo seja desconfortável”.

“O amor é constitutivo”

“O amor é desconfortável”

“Olha, Bar, eu vou ir buscar um açúcar pra nós. Parece que a barra está limpa. Tu queres?

“Não faço questão”

E assim saiu Cheap, em silêncio, do violão, embora para a cozinha, mas assim que ela saiu do quarto ouviu passos. O ex-músico, surpreso pela presença inusitada de uma barata em seu quarto, não teve escrúpulos, e como estava sem chinelos nem tênis, procurou um livro com o qual pudesse causar uma morte. Algum livro que não tivesse problemas em sujar. Então, um pouco relutante, mas reconhecendo a hierarquia de seus livros, pegou o Discurso sobre a Origem das Desigualdades entre os Homens, de Jean-Jacques Rousseau, e encerrou a existência de Cheap.

Bergain observou a cena inteira. O livro, de boas idéias, embora ingênuas, espalhara as entranhas de Cheap pelo carpete azulado, restando apenas o leve e sutil movimento da antena esquerda, talvez um aceno, ou um breve calafrio, quase imperceptíveis.

Reduzido à sua própria existência, Bargain então assumiu sua identidade de trovador e mentiroso, e escreveu um livro para lidar com a dor da morte de sua grande amiga. Ele se arrependeu um pouco do fato de só aprender a verdadeira lição acerca das mentiras logo antes de morrer, de overdose, ao retornar à heroína. A questão, ele pensou, não é viver de verdades, e, sim, de fazer uso das mentiras por entendimento próprio. Talvez a verdade emerja sutilmente das mentiras, do mesmo jeito que um pequeno peixe de um palmo de cumprimento emerja no meio do oceano, morto por velhice ou por inconveniente envenenamento. No final, pouco importam os fatos. O divertido é saber opiniões, e se esse é mesmo um mundo de podridões, a melhor coisa a se fazer é se entregar.

A si mesmo, é claro. As podridões são consequências, e só depois de surgirem como consequências elas brotam como causas. A diferença entre a barata que é esmagada e a barata que esmaga é que uma delas acha que não é uma barata.


Theo S. da Rocha

sábado, 22 de janeiro de 2011

Cães de Porto Alegre

É quente pra cacete em Porto Alegre. Tu sai na rua e se sente um pobre cão indefeso trancado em uma fornalha, e cada lugar com ar condicionado parece uma pequena saidinha do forno. É como se os lugares climatizados tivessem o clima natural e necessário para a vida, enquanto a rua é o lugar estranha e artificialmente aquecido em que nem uma barata conseguiria sobreviver.

Eu saio de casa contra a vontade. Ir ao banco, pedir um empréstimo. Implorar por isso. Então tu vai andando na rua e percebe a decadência das pessoas. “Esquece”, eu penso. “Foco no calor, não prestar atenção em ninguém”. Eu chego no banco e respiro um pouco de ar puro (ar condicionado). Passo pelo detector de metais e vou pegar a senha.

No caminho, percebo uma escultura estranha, uma estatua de um santo. Sei lá que santo é, mas é um carecão com um fedelho no colo. Em seus pés, moedas. 10, 25 e 50 centavos. Interessante cena. Quem põe as moedas ali? Eu sento em uma cadeira e aguardo ser chamado. Ao meu lado, uma mulher atende o telefone: “Consegui duzentos pila só. Não sei, também to pensando em ir lá. Até as seis né? Ah, se não der, fodeu mesmo”.

De fato, a escória. Ser porto alegrense já teve seu charme e beleza. Hoje, ser porto alegrense é se incluir no enorme grupo de pessoas gananciosas, mentirosas, filhas da puta. E tu sai pela rua vendo todo o tipo de sacanagem e mau caratismo e reconhece derrotado que infelizmente tu faz parte do mesmo saco. Isso é ser porto alegrense. Mais porto alegrense ainda é não fazer nada para mudar isso simplesmente por reconhecer que a coisa não vai mudar mesmo. Então, se tu não se encaixa no perfil porto alegrense de ser filho da puta, ou acha que não se encaixa, fica por conta dos que não fazem nada.

Mas nada disso me incomoda, porque eu realmente fiquei intrigado com o santo-riquinho. Quer dizer, em primeiríssimo lugar: que tipo de santo aceita dinheiro por uma causa? Tem certeza que isso é um “santo”? Em segundo lugar, quem dá dinheiro para um santo? Fale a verdade, tem pessoas com fome lá fora! Se tu olhar pela janela, passará um esfomeado sem-teto por minuto, e lá está tu pateticamente botando moedas no pé de um carecão que sequer vai gastar esse dinheiro.

Então depois de implorar para o banco liberar algum dinheiro, como se eu fosse um cachorro implorando por uma migalha de pão ao padeiro que recém ganhou um prêmio sozinho na loteria, eu passo por ali e vou recolhendo todas as moedas do santo controverso. “Deve ser o padroeiro dos políticos”, eu penso, imerso em minha tarefa. Uma mulher pára ao meu lado. “O que tu acha que está fazendo?” ela me pergunta, com a voz elevada para chamar a atenção das pessoas ao cara que está pegando o dinheiro de Jesus.

“Vou dar esse dinheiro a alguém que precisa”, eu respondo, sem sequer olhá-la. Eu levanto e vou saindo. “Vai dar para algum vagabundo gastar em bebida?” ela me pergunta, me seguindo. “Ora, tu não bebe?” eu devolvo a pergunta. “Bem, se tu bebe, sabe que é bom, e não vai negar esse prazer a alguém que não tem o dinheiro para beber”.

Sim, eu penso isso. No momento em que eu dou dinheiro a alguém, o dinheiro não pertence mais a mim, e essa pessoa pode fazer muito bem o que quiser com ele. Pode enfiar no seu rabo, não faz diferença para mim. O cara pode muito bem poder comer um sanduíche ou conseguir uma jantinha, e usar o resto da grana para comemorar que ele pôde fazer uma refeição, e comprar uma cachaça com os comparsas moradores de rua. Que se foda, afinal. Dinheiro gasto em bebida não tem como ser mal gasto.

“E se eu não bebo?” ela me pergunta, com uma legítima cara de “eu não bebo”. “Então tu é uma idiota” eu respondo. “Qualquer pessoa que vive em Porto Alegre e não bebe simplesmente não tem mais jeito na vida. São ingênuos demais para qualquer tipo de ajuda”. Eu saio do banco e vou andando pela rua, desviando das pessoas como se fossem tiros.

Não beber. Acho que meu maior problema é essa aversão a abstenções. Não é apenas a própria abstenção, e sim as coisas que motivam elas. Há sempre um motivo idiota por trás de uma abstenção. O pior de todos, que realmente me faz ranger os dentes e simplesmente querer ir dar um tapa na cara de deus por ter criado isso, é a abstenção por uma saúde melhor, ou para viver mais.

“Isso dá câncer, aquele outro mata”. Um dia haverão pessoas que não vão mais transar por que é dito que mata.

Viver mata. Você pode não comer carne, não usar drogas, não beber ou não sair por aí fodendo, mas vai morrer de qualquer jeito. Só porque Jesus recusou um copo de coca cola, eu deveria recusar um bife a milanesa? Foda-se. Toda a ingestão leva inevitavelmente a morte. É melhor ir se divertindo e fazendo o que bem quiser do que ir contra a vontade tentando postergar o que já está para acontecer.

Então você morre, vai a são Pedro e diz “que tal mais um tempinho?”

E ele diz “Em Porto Alegre?! O que você quer? Ser queimado vivo sem qualquer rastro de compaixão e ser humanismo? Você nem estava se divertindo mesmo!”.

Finalmente encontro um pobre velho dormindo sobre uma caixa de papelão de uma TV de plasma de 70 polegadas e o acordo. “Hey, man”, eu digo. Ele vira, metade surpreso, metade entorpecido de sono. “Tenho uns trocados aqui, tu precisa?”. Ele sorri um sorriso pervertido, criminoso, estranho. Poucos dentes rolando por ali. “E quem não precisa?”, ele responde. Boa resposta.

No caminho de volta para casa, dois moleques da minha idade dividindo uma garrafa de cachaça passam, rindo e berrando para as senhoras que saíam da igreja. Mais adiante, um atropelamento interessantemente violento envolvendo uma picape moderna e um casal de franceses que vinha para cá em turismo. O motorista, um executivo exaltado, culpava histericamente o casal, que jazia inerte no chão, sangue por tudo.

Porto Alegre é uma cidade única. Recebe os turistas do mesmo jeito que trata os próprios nativos. A não ser que eles tenham dinheiro. Muito dinheiro. Acho que é isso que chamam de amor. Mas estão errados. O amor é mais egoísta que isso.



Theo S. da Rocha

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Sem tempo para que?

Devo ter esquecido algo. É esse sentimento estranho, em que alguma parte de você diz pra você “Está faltando algo, você esta se esquecendo daquilo”, e aí você pergunta “O que?” e ela diz “Ah, isso cabe a você descobrir”.

Então estou saindo de casa, e esse sentimento, me dizendo que está faltando alguma coisa para eu sair na rua completo. Eu circulo pela casa esperando que a coisa surja, mas ela não vem. Então, antes de sair, faço um check up para me convencer de que, de fato, é só impressão. “Eu devo estar ficando louco”, penso. “Não estou esquecendo nada”. Camiseta, bermuda, tênis, chaves, carteira e celular. Para sair de noite, não preciso de mais nada.

Precisar, digo precisar num sentido superficial. Ninguém precisa de celular, mas a gente sai com ele por que é útil. Talvez o celular tenha sido a invenção humana mais assassina – mais que a bomba atômica, inclusive. O celular acobertou a necessidade humana de ficar inacessível, mesmo que por 5 minutos. Com o celular, qualquer pessoa pode falar com outra pessoa em qualquer lugar, e isso não pode ser bom. É como se intimidade perdesse seu valor e importância, por que a coisa ficou fácil demais. Alem disso, hoje em dia é impossível ficar sozinho.

Mas há quem diga que a internet foi pior nisso. Eu só digo que a internet e o celular são irmãos.

Finalmente saio pela rua, caminhando. Passo numa padaria, compro um suco de laranja e sigo meu caminho. Um grande suco de laranja. Natural, e gelado... “Ah”... Então um mendigo me aborda, e pede o suco. Ainda tem metade do suco, e vem o grande dilema. “Eu não posso dar um gole ao mendigo”, eu penso. Sabe como é. Eu não sou preconceituoso, e muito menos fresco, mas não vai rolar. Aí surgem as duas opções restantes. Dar o suco de laranja ao coitado, ou negar. Eu ainda estou com sede, e o suco está bom. Eu trabalhei para comprar isso, e são pequenas concessões que faço, pensando que ao fim do mês ainda vai restar algum dinheiro para pagar o aluguel, e eu posso me arriscar a ter o prazer de beber um suco de laranja gelado. Por outro lado, o mendigo não teve a oportunidade que eu tive, para trabalhar, yeah... e ele não tem dinheiro para comprar o suco.

Mas essas são questões velhas, e cada um tem seu ponto de vista. O que me instigou foi a minha reação. Ao que ele me pediu o suco, eu, de sobressalto, dei uma risada desinibida. “Tá louco, amigo” eu digo, em voz alta, como se estivesse embriagado. “Eu trabalho duro pra conseguir comprar isso, e estou morrendo de sede. Sorry, man”, e segui andando pela calçada.

Por que eu fiz isso? Quer dizer, eu não sou assim, ou pelo menos nunca fui. Eu estou mudando? Se estiver, não quero ser assim. Quer dizer, eu tenho algum controle do que sou, mas não total. Então, teoricamente, eu posso, sim, me tornar a pessoa que eu não quero me tornar. Ou será que eu não quero me tornar aquela pessoa porque eu, de alguma forma, já sou ela?

Esses dias eu estava saindo com uma mulher, e ela entrou nessas viagens, mas ela achou que estava se transformando na amiga dela. Yeah, eu tenho um gosto por mulheres levemente loucas, eu sei. Isso é atraente, vai por mim, mas isso é outra história. De qualquer jeito, eu tentei acalmar ela. Disse que podia ser pior, já que ela poderia estar se transformando na amiga, mas se era a amiga dela, ela não deveria não gostar do jeito da amiga. “Seria pior se você achasse que estava se transformando em alguém por quem sente inimizade”. “Yeah” ela disse, mas explicou que não era a questão de se transformar. “Quer dizer, eu mal tenho tempo para ser eu, quando muito ser eu e a minha amiga”.

Yeah, yeah, são tempos bicudos, e ninguém tem tempo pra nada, mas não deixa de ser irônico. Quer dizer, você não tem tempo de ser outras pessoas, ou de ser de outra forma, mas ao mesmo tempo em que vivemos na era do “não ter tempo”, essa é a mesma era da falsidade. Então, estariam as pessoas sem tempo para serem sinceras? Então, o tempo é dedicado a não ser? Ou a ser outra pessoa?

Minha linha de pensamento é de súbito interrompida, e eu sinto um calafrio, desses que não sentia há anos. Eu estou andando na rua, e lá está ela, com algumas amigas. Yeah, é ela, ó céus, estou muito fodido.

Vamos ser claros aqui: “Ela” é a mulher que partiu meu coração, há alguns anos atrás. Yeah, Ela. E eu não via ela há anos, e meu deus, se ela não está sensacional. Ela simplesmente reluz. E ela vai se aproximando, e abrindo um sorriso. “Hey!” ela diz, se adiantando às amigas. Ó céus, o que eu faço?

“Hey!”, eu digo. “Quanto tempo! Como você está?”. “Eu estou bem”, ela diz. “E você?”.

Isso deveria soar estranho? Acho que não. “Ah, eu...” eu respondo. “Acho que há muito não percebi isso, mas estive sentindo muito sua falta. Saudades, sabe?” eu digo. Por que eu disse isso? Eu sou muito idiota. Preciso consertar. “Porque você sempre foi a única que partiu meu coração... e eu acho que nunca vou me recuperar disso”.

E quando eu falo isso, se não me vem, como uma bala perdida, um BAM, na minha cabeça, aquilo que eu esqueci. A Máscara! Seu idiota, como que eu pude!? Como que eu pude esquecer a Máscara Social! E eu esqueci todas as minhas mentiras em casa! Eu sou muito burro! Idiota! Eu sabia, sabia que estava esquecendo algo! E logo no dia que eu esqueci a Máscara, encontro com Ela!

Quanto azar, quanto azar! O que eu faço? “Preciso sair dessa!”. eu digo, sem perceber que o disse. “Yeah”, ela diz. “Porque já faz um tempão que a gente não sai mais, né?”. “Não!”, eu respondo. “Não digo ‘sair dessa’ como sair dessa paixão, mas sair dessa situação horrível. Eu esqueci a Máscara, minha Máscara Social!”. “Sua o que?”, ela pergunta. “Esquece”, eu digo, e saio correndo.

Que mico! Como que pude fazer isso!?

Na corrida de volta pra casa, passo pelo mendigo, paro e deixo uma grana ali para ele comprar um suco de laranja. Eu já estava recuperando a Máscara. Ela voltaria, gradual e gentilmente. Não posso ter perdido ela, pelo menos não completamente. Sabe o que fazem com pessoas sem a Máscara? Elas são amarradas nessas camas duras e desconfortáveis e levam 50.000 watts de eletrecidade direto no cérebro. E isso não é cool.

Pelo menos por enquanto não. Mas sabe lá qual vai ser a nova droga do momento. A gurizada não perde tempo, eu te digo isso.

Então eu volto em casa e pego a Máscara. E saio de novo, mais relaxado. Yeah, agora me sinto mais seguro. Sem tempo para inseguranças, nowadays...



Theo S. da Rocha