terça-feira, 21 de setembro de 2010

The Professional Drinker

- Boa tarde senhor.. ãh... Risin. Seja bem vindo à nossa empresa.

- Boa tarde senhor.

Risin chegara para sua primeira entrevista de emprego em 13 anos. O suor escorria de sua testa, pescoço e costas, numa tentativa do seu corpo de se desvencilhar da ressaca que o aflingia. Apesar do mal-estar, ele não se via nervoso.

- Sente aí, fique à vontade. – disse o entrevistador. Embora estivesse sendo polido, ele transparecia poder, e estava disposto a fazer com que o novo entrevistado se dobrasse pelo emprego. “Pessoas desesperadas não têm limites”, ele pensava quando saía do serviço.

- Obrigado.

- Então senhor Risin, fale um pouco sobre você...

- Bem eu, não sou muito bom em me descrever...

- Aqui diz que você é formado em letras. Se formou em... 99. Conheceu o Pedro? Pedro Krieg?

- Sim, sim.

- HÁH! Meu primo. Figuraça não?

- Ah claro, o Pedro, grande cara. – “Pouco me lembro daqueles tempos” Risin pensou. “Pouco vale discordar”.

- Ah, faculdade. Vejamos aqui... – o entrevistador consultou o currículo e expressou surpresa, com algum traço de desgosto – Mas aqui diz que em 2000 tu se tornou um... “Professional Drinker”?! Isso é...?

- Bebedor profissional, senhor. – Não havia esboço de vergonha no rosto de Risin. Muito pelo contrário.

- Bebedor profis.... Isso é uma piada, senhor Risin?

- De modo algum, senhor.

- Aqui diz graduação em whisky e pós em absinto. Eu tenho cara de palhaço?!

- Senhor, não vejo razão por que isso seria uma piada... – na voz de Risin, apenas naturalidade.

- Isso é uma merda de currículo, uma vergonha.

- Vergonha, senhor?

- Vergonha, senhor Risin. Vergonha.

- Senhor, se eu fosse você teria mais respeito.

- Respeito?

- Sim senhor. Com sua arrogância e preconceito vem me dizer que meu currículo é uma vergonha, eu deveria é mandar o senhor à merda.

- Ãã? – o entrevistador torceu o rosto, um pouco grogue da surpresa que levou com a resposta.

- Sim senhor, à merda. Você, sentado nesse trono absoluto em sua ignorância, vem me dizer que meu currículo é uma merda, mas o senhor em si é uma vergonha. Você acha que é fácil? Trabalhei dez anos da minha vida como bebedor profissional. Você realmente acha que um bebedor profissional só bebe? Muito pelo contrário. A última coisa que o bebedor profissional faz é ficar bêbado e beber por prazer. Nós, bebedores profissionais, somos chamados não para beber, mas para beber com pessoas que não só ninguém mais quer beber, de tão chatos que são, como ninguém consegue acompanhar de tanto que bebem. E nós temos que nos igualar em litros de álcool ingeridos, e ainda cuidar dos bêbados com quem bebemos, para que eles cheguem em casa são e salvos e nós finalmente possamos receber o que as pessoas que nos contratam nos devem. Nunca fui contratado por um bêbado. As pessoas que amam esses bêbados nos contratam justamente para que esses bêbados cheguem virgens em casa, sãos e salvos. É uma enorme responsabilidade. Se trata de beber desumanamente muito, continuar sóbrio, E cuidar da vida de alguém solitário, objeto de amor de alguém disposto a nos pagar. Nós, bebedores, somos pessoas importantes, sensitivas, pensantes e persuasivas. Por que o senhor acha que Jim Morrison morreu?! Se Ray Manczarek e Paul Rothchild tivessem contratado bebedores profissionais de qualidade, para acompanhar Jim, ele jamais teria desenvolvido alcoolismo, apesar de ter o coração partido por Pam Courson. Senhor, com todo o respeito, nós, bebedores profissionais, cuidamos das mentes mais niilistas para que elas pensem um pouco mais e funcionem um pouco mais do que absorvam veneno. Sem contar que nós não temos seguro de vida nem de saúde, e não chegaremos à longevidade. Esta, afinal, é a razão de eu finalmente estar procurando um emprego.

- Ãã? – o entrevistador não acreditava no que acontecia. Sem ainda esboçar qualquer reação, ficou observando aquele sujeito excêntrico com, finalmente, admiração, embora um pouco de temor e desconhecimento. Finalmente, quando Risin levantara para ir embora, impaciente, ele falou rapidamente, como um soluço . Espere. – Risin se virou, próximo a porta, aguardando.

- Quer esse emprego? Acho que te serve bem...

Risin congelou. Era a primeira vez que alguém tomava aquele sermão com humildade. O escritório se enchia de imprevisibilidades, era a primavera chegando. Subitamente, Risin foi tomado de um insight.

- Na verdade, senhor... senhor...?

- Me chame de Augusto.

- Augusto. Acho que não estou disposto ainda a me desonrar com um emprego ordinário. Não leve a mal.

E saiu, porta afora. Peito estufado, orgulhoso, se sentia um gigante. Augusto que jamais se recuperaria desse choque. Havia um lado positivo nisso. Augusto alguns meses depois conseguiria dispensa médica para ter o dobro de férias, remuneradas, sob o diagnóstico de estresse pós-traumático. Por essa, ele sempre estaria grato ao senhor Risin, onde quer que estivesse, bebendo...




Theo S. da Rocha

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

The Tico e Teco Conversations

- Se tu pudesse conversar com um ser absurdamente estranho, que ser seria?

- Que tipo de pergunta é essa?

- Hey man, só responde.

- Eu não sei, não consigo pensar assim.

- Vamos lá, pense. - O som do bar ao fundo tomou conta da conversa por breves dez segundos.

- Acho que eu conversaria com um Alien... Um Alien de gravata borboleta.

- Sobre o que?

- Sobre futebol. Depois conversaria sobre mulheres com ele. O que será que excita aliens? De qualquer jeito, com que criatura estranha tu conversaria e sobre o que?

- Eu acho que... gostaria de conversar com dois castores ensanguentados.

- Sobre?

- Sobre saúde coletiva. Acho que um castor ensanguentado saberia reivindicar muito bem seu direito a atendimento médico, e dois se complementariam, mais ou menos como os policiais em filmes: há sempre o mais bonzinho que faz uso de raciocínio e o mais brutamontes que só quer dar um pau em todo mundo.

- Um castor ensanguentado não tem argumentos para reivindicar atendimento médico.

- Bom, ele trabalha bastante. Fica construindo essas barragens naturais com uns galhos. Acho que o castor é um engenheiro, apenas um pouco mais sensual que um engenheiro da raça humana.

- Isso é doente. E preconceituoso. E não sustenta teu argumento.

- Ok, ok. Eu acho que um ser que vê um rio correndo livremente e tem o pensamento de impor uma barragem nele para impedir um pouco do fluxo sente uma certa... falta de completude. Para ele, tem que haver algo ali que não existe primeiramente. Pensa bem, um bichinho roedorzinho ridículo se reúne com seus semelhantes e constrói uma porra de uma barragem a partir de galhinhos. O bicho saberia muito bem reivindicar atendimento médico. São ambas tarefas árduas.

- O SUS não é uma barragem.

- Vai se foder, esse não é meu ponto.

- Vamos partir para uma pergunta mais simples: com que pessoa, viva ou morta, você gostaria de conversar?

- Eu conversaria com São Pedro.

- Ele não existiu. Não conta.

- Ok, eu conversaria com Maomé.

- Maomé? Por que?

- Eu convenceria ele de que a montanha não vai a Maomé. Depois, convenceria ele de novo só que do contrário.

- Não entendi.

- Eu convenceria ele de que a montanha não vai até ele, e depois que ele se desse por vencido, e que eu tivesse convencido ele, eu convenceria ele de que a montanha, de fato, vem sim a Maomé

- Tu não conseguiu me convencer que dois castores ensanguentados reivindicariam muito bem atendimento médico gratuito, quer convencer Maomé de que a montanha não vai até ele?

- Não conta. Tu é um cara arrogante e cético. Maomé devia ser no mínimo humilde.

- Em primeiro lugar, tu não sabe nada da história de Maomé, e nem eu. Portanto, não vale a pena discutir isso. Mas, de fato, eu não acredito que a montanha vá até Maomé.

- Bem, nem sempre a montanha vai a Maomé. Mas ocasionalmente, em nosso cotidiano, nós vemos montanhas indo a Maomés. As vezes acontece. Não há uma regra pra isso.

- Sabe com quem que eu conversaria?

- Com quem?

- Eu conversaria com Dante.

- Dante?

- Dante era um malucaço.

- Nunca li

- Nem eu, mas deve ser absurdamente louco.

- Hey, man. Vamos até ali, na estante, ver se tem Dante para dar uma olhada.

Os dois atravessam o bar em direção à estante de livros.

- Rá! O inferno.

- Abre aí em alguma página qualquer e lê alto

- “Todas elas rasgavam o próprio peito, batiam no corpo com as próprias mãos e tão alto gritavam que me aproximei do poeta”. Isso é cool, tem um dialogo meio non-sense aqui, vou pular. “Ó vós que tendes são o pensamento, vede a doutrina que sob o verso obscuro como um véu se oculta”

- Hahaha. Continua aí.

- “E já vinha pelas turvas ondas o fragor de um som horrendo, que fazia estremecer ambas as margens, tal como um impetuoso vento, de rajadas contrárias, abala a floresta e sem descanso quebra os ramos, que derrubando arrasta, e soberbo e poeirento avança, pondo em fuga, quer os pastores, quer os animais”. – ele fez uma pausa para olhar o amigo – Meu, isso é puro caos.

- Acho que vou ler esse livro.

- Eu também. Lembra William Burroughs.

- Eu com certeza conversaria com William Burroughs.

- Sobre o que?

- Hmmm... eu acho que eu conversaria com ele sobre a mania que algumas pessoas têm de arrumar suas roupas no roupeiro por ordem de cor. Ele com certeza deve ter uma opinião foda sobre isso.

- William S. Burroughs tem uma opinião foda sobre tudo.

Os dois bebem suas respectivas cervejas, em acordo, finalmente. O som do bar no fundo ia ficando cada vez mais alto a cada momento que passava. Haverá um momento em que não mais serão capazes de escutar a si próprios pensando. E não será culpa do álcool.



Theo S. da Rocha

domingo, 19 de setembro de 2010

Paranóia Hunter-Thompsiana

Eram em torno de dez horas da noite quando eu saí de casa contra minha própria vontade, para ir a um show.

A noite anterior tinha sido difícil. Havia sido convidado para uma festa na rua com a promessa de que ia ser legal. Quando chegamos lá devia haver umas 400 pessoas acumuladas em um espaço apenas. Todos juntos se acotovelando, e a música berrava dos alto falantes: forró, depois sertanejo, culminando com pagode. A fila para comprar cervejas era gigante e não seguia lógica alguma. Em cima disso tudo, não haviam banheiros. “Santa mãe de Deus” eu pensei. “Isso é o inferno materializado”. Para compensar o desamparo que sentia naquele ambiente, acabei bebendo até acabarem os estoques. Beber, ir para uma rua vazia, mijar, voltar para a fila e comprar mais cerveja. Foi isso até as 4 horas da manhã, quando finalmente consegui transporte de volta pra casa, cambaleando e sem conseguir manter uma conversação de poucas palavras.

Essa havia sido a noite anterior para mim. Um inferno sem uma única pessoa interessante num raio de 5km. Quando acordei, no dia seguinte, minha cabeça pesava mais que um piano. Visão desfocada, sensível ao sons que me cercavam. Percebi que não conseguiria levantar da cama. “Isso é mais que uma ressaca” pensei. Calafrios corriam pelo meu corpo, especialmente nas costas. Eu não estava apenas de ressaca, eu estava de ressaca e gripado.

Quando finalmente levantei da cama, tentei caminhar até a cozinha, mas tombei no sofá no caminho. “Esse é o fim” pensei. “De hoje eu não passo, e isso é certo”. Eu implorava para que um copo da água gelado viesse até mim, suando pelas bordas. Eu precisava de água. Usei todas as forças do mundo para ir à cozinha e beber água. Minhas pernas não me sustentavam, tremendo e oscilando quando precisavam sustentar meu corpo. Tombei no sofá novamente, e com esforço consegui superar a dor de cabeça e dormir.

Acordei as 6 da tarde pior do que antes. Os calafrios me tomavam de súbito, e eu não sabia se estava com calor ou com frio. Tomei um banho para tentar melhorar. Voltei ao sofá derrotado. Fiquei ali até o horário de sair.

E, lá estava eu, saindo de novo. Sob a pior ressaca da minha vida e o resfriado mais sorrateiro, botei o pé trêmulo na rua e desatei a caminhar, com as pernas oscilantes. Um advogado apressado passa por mim falando no telefone. Meus tímpanos quase estouram quando ele urra pela rua que um tal de relatório tinha que sair amanhã com urgência. “Vou enlouquecer” pensei. ”Finalmente, esse é o fim”.

Cheguei no bar e a banda estava se preparando. Nenhum sinal de meu amigo lá. Me sentei encolhido em um canto. Não havia comido nada o dia inteiro, e o mero pensamento de comer algo, por mais apetitoso que fosse, me dava náuseas. Eu estava no limbo sensorial, nada poderia ficar pior que aquilo, então, como não tinha nada a perder, pedi uma cerveja, e duas doses de rum. Meu corpo acolheu a cerveja gelada calorosamente, como se o veneno fosse o próprio remédio. Pedi outra, a banda começou o show.

Embora fosse acolhida pelo meu corpo, a cerveja nada fez que fizesse com que eu me sentisse melhor, e os calafrios nas costas continuavam incessantemente. Apenas o toque da roupa já desencadeava os piores calafrios. Calafrios numa escala richter de 9.8. Eu estava morrendo. Era um pelotão de índios andando sobre minhas costas, depois flechando elas e jogando o resto para os cães. Eu suspirava de cansaço a cada dois minutos, e meu amigo ainda não chegara.

Ao meu lado, um cara tentava agarrar uma mulher, que empurrava ele para longe dela. Ele insistia cada vez mais, e ela parecia incomodada. Era bem bonita. O cara insistia, passando a mão em todo seu corpo. Eu fui ficando incomodado com a inconveniência do cavalheiro, e fui tomado de coragem, apesar de me sentir um pedaço de carne morto e podre jogado no sol por duas semanas. Me levantei e entrei em ação. “Oi querida” eu disse, passando o braço em torno dela e afastando-a sutil e delicadamente do seu agressor. “Demorei?”. Ela me olhou assustada, sem entender, e não esboçou reação nenhuma. Finalmente disse “Tu é louco?”. Depois disso um punho fechado veio de encontro ao meu rosto como um trem-bala indestrutível. Um som alto e seco ecoou na minha cabeça, e eu cambaleei. O cara me empurrou e disse pra eu me mandar. Eles eram namorados.

“Esse é o fim” pensei. “Vão me trancar num hospício, eu finalmente perdi a cabeça”. Eu não estava bêbado, eu estava insano. Confundindo gestos e relações humanas, esse era meu fim. Eu seria trancado num hospício, fora do convívio e contato social. Sendo drogado e manipulado vinte e quatro horas por dia, sem nunca ter razão sobre nada. Eu já estava me acostumando com a idéia. “Não deve ser tão horrível” ponderei. “Suco de laranja todas as manhãs, e me disseram que a comida lá é boa”.

Eu já havia elaborado toda a rotina no hospício. Nos fins de semana, todos meus camaradas trancados, grogues e excluídos receberiam suas famílias, e todos me olhariam lá no canto com pena de mim. Nos dias especiais, eu faria um desenho sem sentido e apresentaria ás outras famílias, como nesses shows de talento, e eles veriam aqueles rabiscos toscos e pensariam em suas cabeças como aquela instituição era boa, compreensiva e permissiva quanto à livre expressão dos pobres louquinhos.

Meu delírio foi interrompido pelo som do celular. Uma mensagem: “não vou poder ir, tenho que acordar cedo, abç”. À essa altura, eu estava disposto a dar um tiro na minha cabeça, disposto a fugir desse mundo injusto e acabar com os calafrios. Dois coelhos em uma... dois coelhos em uma... ? Eu havia esquecido. Meu cérebro estava se degenerando. Virando uma massa pastosa e inconsistente agindo full time consciente e inconscientemente jogando associações sem o menor sentindo. Eu era lixo.

Perguntei para a bartender como era o dito. “Moça, me diga, como se diz, é um coelho em duas...?”. Ela foge de mim. Eu grito e corro pelo bar “Digo, dois coelhos em uma...o que?”

Ela chama o dono do bar e eu sou chutado de lá. Eles pegam meu dinheiro e não dão troco. Eu chamei ele de porco e ele deu um tapa na minha nuca.

Mais ou menos aí eu percebo que não consigo mais caminhar. Minhas pernas, elas desistiram. “Agora. É o fim.” eu balbuciei. “Vai começar debaixo, quando chegar aos meus pulmões não vou conseguir respirar, e vou morrer sufocado". Subitamente fui tomado por um pensamento devastador. “O que eu quero fazer antes de morrer?!”

Obviamente a primeira coisa que cruzou a minha mente era sexo. Bom sexo. Daqueles que vale uma vida inteira. Uma bela mulher, carinhosa e compreensiva dos meus dramas, mas isso era impossível. Pensei numa prostituta, mas o bar ficou com todo meu dinheiro. Eu jamais saberia como é fazer sexo com uma prostituta. Um amigo meu disse que era um teatro, que ela fica te chamando de “meu amor” e dizendo “vai que eu vou gozar”. Como eu já estava cansado do teatro da vida, não queria terminar ela com mais um teatro. Sem contar que mal conseguia me mexer para praticar uma ação libidinosa. Então decidi fazer a única coisa que conseguiria fazer: ouvir uma boa música. Eu carecia disso. Meus ouvidos estavam sensíveis, então ia ser melhor ainda. Sem contar que é uma atividade que não pede que se faça nada senão relaxar.

Então, rastejei até um ponto de táxi e fiquei implorando pro taxista me levar os 2 km até em casa de graça. “Aonde está sua cadeira de rodas?” ele perguntou, desconfiado. “Em todo lugar” eu disse. “Eu só não gosto de usar ela”. Finalmente, ele desistiu e me levou até em casa. Quando chegamos, ele falou que me levaria até o apartamento. "Sem sentido" eu falei. "Não há necessidade". Ele insistiu. Pânico tomou conta das minhas veias. De todos os taxistas na cidade, peguei carona logo com um estuprador. Então com a agilidade de um mero mortal bombardeado de adrenalina, eu desci do carro, rastejei rápido como uma serpente em desespero, abri a porta do prédio com a chave e fechei-a atrás de mim. "Santa mãe de deus" pensei. "O mundo não é mais o mesmo de outrora. É um mundo violento, e são tempos de perversão". Essa foi por pouco. Eu rastejei pelas escadas e liguei as caixas de som.

O que eu ouviria, que seria a minha última musica?

Jazz é bom, mas não o suficiente. Também não pode ser algo chutante como The Who. Sem muito esforço, cheguei a uma conclusão: The Doors. Botei o volume no máximo e fiquei ponderando que música afinal escolheria. Como The End soaria como um cliché, e eu não quero que a última coisa que eu ouça seja Jim Morrison berrando contra a própria mãe num cenário edípico, botei When The Music is Over. Combinava com o que acontecia.

O som fazia o chão tremer, mas eu adormeci ali mesmo, jogado, terminado, acabado, derrotado.

Eu acordei dois dias depois. Preparei e comi duas torradas com queijo, manteiga e presunto. Sentei no sofá, catatônico. Sem tempo para suspiros agora. O negócio é seguir com a minha vida. Mas o fim está sempre próximo.




Theo S. da Rocha

Uma humilde homenagem a Hunter S. Thompson

Também conhecido como "Paul Kemp" ou "Raoul Duke"

Sustentando a idéia de que se a mente está vazia

A gente fecha a oficina do diabo e faz algo plagiando um demônio

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O quarteto da cena inusitada não-compreendida

Anne acordou cansada, como se mal tivesse dormido. A luz do sol atravessava a veneziana, iluminando o quarto. Para ela, seria apenas um dia comum. Ficar em casa, preparar um café, de repente sair pela tarde para esfriar a cabeça num parque. Mas mal sabia ela que aquele era o dia em que seu vizinho, e melhor amigo, havia surtado.

John, acordado de um sonho estranho, passou a ter certeza absoluta de que era um gato. Desceu de sua cama num pulo, e engatinhou pelo corredor de seu apartamento atrás de um rato ou um passarinho. Mesmo assim, a fome era tanta que até ração serviria. Mas, como não tinha se preparado para, um belo dia, enlouquecer e crer que era um gato, não havia nada que pudesse comer em sua casa. John, com muita fome e uma fibra moral singular, começou a miar. E alto. Subia nos móveis com um pulo procurando por algo que pudesse saciá-lo ou simplesmente uma saída do apartamento para caçar e dar uma olhada na gatinha do andar de baixo, que sempre miava para ele quando passava pelo pátio. Mas, como um pobre gato incompreendido, estava trancado em seu próprio apartamento.

No apartamento vizinho, enquanto lia a biografia de Jimi Hendrix em inglês, Anne começou a ouvir a miazada do apartamento de seu amigo. Ela riu. “Provavelmente está pensando num jeito inusitado e chato de me chamar” ela pensou. Vou dar uma olhada.

Para sorte de John, como os dois eram amigos há inúmeros anos, cada um tinha a cópia da chave do apartamento do outro. Era um fato que os aproximava, e os fazia crer na confiança um do outro. Todavia, era um fato que se mantinha omitido quando um dos dois (ou ambos) começavam a namorar ou desenvolver um relacionamento sério. Sendo assim, Anne calçou suas pantufas e, ainda de pijamas, foi ver o que se passava no apartamento ao seu lado. Em nenhum momento, a miazada parou.

Ela abriu sua porta e passou para o corredor frio. O som de seus passos suavizados pelas pantufas ecoavam sutilmente pelo corredor. Fechou a porta de seu apartamento só caso ficasse ali por algum tempo a mais, jogando conversa fora. No momento em que a sua chave fez o som de que havia entrado na fechadura da outra porta, os miados cessaram. Ela ouviu um som seco, como um corpo caindo no chão, e levando consigo alguns objetos que possivelmente estavam na beirada de alguma estante.

Quando abriu sua porta, avistou John completamente nu, de quatro, ao lado da mesa de jantar de seu apartamento. Um pouco surpresa, ela entrou no apartamento mesmo assim. Ela nunca havia visto ele nu desse jeito, embora fossem muito próximos. Ela dá um oi caloroso, como se aquela situação fosse normal e cotidiana. Ele responde, olhando para seus olhos fixamente: “Miau”. Depois dessa saudação, começou a roçar sua cabeça ao lado do pé da mesa. “Miau”, ele balbuciou, de novo.

Anne não pôde deixar de notar o talento com que John imitava um gato. Ele levava jeito para isso. De fato, ele imitou um gato tão bem, que Anne teve certeza absoluta e incontestável, de que aquela era mais uma representação artística de John, ou uma encenação, como ele sempre fazia nos feriados. Ele já havia brincado de ser pirata, agente secreto, esquizofrénico e emo, e ela adorava quando ele era tomado de súbito por essa inspiração exótica.

Mas, dessa vez, infelizmente, era definitivo. John sequer formava um pensamento raso em sua cabeça, e não era apenas por causa da fome. Ele, afinal, havia virado um gato. E fazia, e pensava, o que antes julgava ser a ação e o pensamento de um gato. Sendo assim, logo depois de Anne, em meio a risadas e uma demonstração de surpresa, dizer “oi gatinho!”, John veio engatinhando ao seu encontro, e, carinhosamente, roçou sua cabeça nas canelas dela. Depois desse contato, ele deu um passo a frente para roçar o resto do corpo, enquanto ela se abaixou para afagar sua cabeça. Feito esse gesto de carinho por John, ele se apressou em direção à porta da cozinha, e chegando ali, olhou de volta para ela, emitindo um miado um pouco mais longo e chorado que os demais: “Miaaaaaau, prrrrrrr”.

“Tá com fome gatinho?” ela perguntou. “Miau” foi a resposta. Ela tentava agir com naturalidade quanto à nudez do amigo, pois esperava que fosse isso que ele queria que ela fizesse. Ela foi até a cozinha, pegou um pouco de leite da geladeira e serviu em uma tigela. John sequer miou em agradecimento, e começou a molhar sua língua na tigela que repousava no chão.

Sem nada mais para fazer, e querendo desempenhar aquele papel que ela pensava que John queria que ela desempenhasse, ela foi ao sofá de John, sentou e ligou a TV. Nada pra ver lá. Mas era divertido, porque John assim que terminara sua refeição, correra para o sofá e deitara sobre o colo dela. Era desconfortável pra ela, e sua mente já começava a se situar entre indecisão, confusão e constrangimento. Mesmo assim, seguia pensando que era isso John queria lhe causar com toda aquela encenação.

O pai de John, que passaria por aquela rua de carro, voltando das compras matinais de supermercado que fazia, decidiu fazê-lo uma visita. Isso seria ruim para ele, mas traria a jovem Anne para a realidade num sobressalto.

Ele entrou no apartamento, olhou, e disparou: “Mas que porra é essa?!”. Grande e ogro, sua voz ecoaria por cada apartamento do prédio. Anne se assustou com o que estava por vir, mas o susto que John levou se mostrou potencialmente maior que o de sua ex-amiga. Num salto, cravou as unhas de um tocador de violão clássico nas coxas da pobre mulher, e posteriormente saiu engatinhando apressada e escandalosamente pela sala, urrando miaus que arranhavam sua garganta como pedaços de vidro cortado.

O que se seguiu depois disso, não é tão relevante assim. Anne e o pai tão assustador de John chamaram uma ambulância. Foi um trabalho e tanto imobilizar o pobre iniciante na vida de gato, e durante toda a espera pela ambulância, e depois da captura, Anne ficou ouvindo, atônita e inconformada, o sermão ameaçador daquele pai gigante que ela ainda não conhecia. Ele prometeu processá-la, mas ela não tinha muita certeza se ele realmente ia fazer aquilo.

Em choque, Anne voltaria para seu apartamento e ficaria catatônica até cerca de duas horas da manhã. Fora dormir sem comer nada, sem beber nada e sem tomar banho. Sequer se cobrira com cobertores como sempre fazia nas noites de solidão. Adormeceu, e, sem sonhar absolutamente nada, em pura escuridão, enlouqueceu. Acordou tendo a certeza mais absoluta que podia ter, de que era uma velha rica e solteirona que cuidava de gatos de rua. Demorariam 2 dias e meio até sua melhor amiga lhe fazer uma visita e finalmente perceber a gravidade da situação: Anne havia adotado e nomeado 207 gatos que não apareciam no campo de visão de mais ninguém. Nesse sentido, Anne foi azarada. Não havia ninguém para cuidar dela. Entretanto, teve a sorte de escapar do manicômio, sob alegação de um psiquiatra que também havia enlouquecido há algumas semanas antes, de que toda a mulher, a partir de uma certa idade, pensava que era rica, solteirona, e cuidadora de gatos. O psiquiatra também jamais seria internado.

Uma pena para Anne, pois embora estivesse em liberdade, teria sido vizinha de seu amigo no manicômio também. Os dois se completariam perfeitamente. Mas mesmo assim o psiquiatra cuidaria bem de John. Ele gostava de gatos que pensavam que eram pessoas nuas e expressivas. Despertava seu lado maternal.



Theo S. da Rocha

domingo, 12 de setembro de 2010

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

As Formas

- Pra onde vamos, o que faremos?

A noite é fria, incerta. Talvez um bar, tomar umas cervejas e voltar pra casa. Ou então vagar pelas ruas a passos lentos buscando algo novo, até que nos cansemos e cada um vai para seu apartamento dormir. Ainda se pode entrar em algum lugar com música alta, gente chata, bebidas até as 6 da manhã quando podemos retornar ao lar de ônibus (seja onde for isso, lar). É sempre cedo demais para fazer planos, a vida é uma máquina de improbabilidades funcionando a todo vapor, e resistir é perda de tempo. Um vento arrasta algumas folhas secas que passam por nós em alta velocidade. Vento frio, noite fria. Mas ninguém se mexe. Cada um na sua, ou sintonia?

- Pra onde vamos, o que faremos?

Os carros zunem na avenida. Alguns passam gritando, profanando suas idéias e insultos à cidade, apontando para o céu. Outros só passam. Sem contar os que quase voam, desviando descontroladamente dos outros carros, perdendo controle, e o motor aos urros de altas rotações, enquanto os pneus choram. Já não há mais ônibus e as poucas pessoas que passam evitam contato visual.

Um grupo de seis ou sete pessoas embriagadas passam, rindo alto. Alguns caras e algumas meninas tentando relaxar, exploram o eco de seus gritos entre os prédios altos, falando coisas que só fazem sentido para eles. Eles se aproximam de nós, espontaneamente explorando o improviso de um diálogo inusitado:

- Você tá triste?

- Por que estaria? – eu respondo, ao perguntante

- Ora, sentado aí sem fazer nada – uma menina diz. O tom deles é de deboche, mas gosto de interagir com sobriedade à embriaguez. Não creio que isso aconteça frequentemente, então é melhor abraçar a situação.

- Estamos pensando – eu digo – e isso toma tempo e atenção. Não consigo pensar e fazer outra coisa ao mesmo tempo. Eu e meu amigo temos a síndrome de Blake. Pensar torna-se um esforço absurdo.

O grupo se olha, uns aos outros. Dois dos caras se recusam a acreditar, o resto mostra algum interesse. A maioria já excedeu sua cota de bebidas há muito tempo, e isso me torna uma pessoa mais persuasiva. Isso definitivamente não é comum.

- Mas que doença é essa? – a mesma menina pergunta

- É neurológica, não conseguimos pensar direito. Por isso estamos aqui apáticos. Nós nos formamos numa escola especial para doentes de Blake, esse meu amigo foi meu colega lá. Ele é mudo também.

- Nossa, mas deve ser difícil – até os céticos agora foram persuadidos.

Fico ali inventando sintomas. Conto histórias dos tempos de escola especial até que eles se mostrem cansados e entediados, acham uma brecha e se despedem. Digo que são sortudos de poderem pensar com tanta facilidade. Antes que virem as costas e partam, digo que por outro lado, isso torna fútil o pensamento: raso e sem importância devida atribuída.

Não duvido disso, pra falar a verdade. É tão fácil e comum pensar que as pessoas mesmo pensando deixam de pensar, porque acham rotineiro. Acho que eu faço isso também. Depois que vão embora, ouvimos risadas deles ao longe. Acho que quero ficar bêbado hoje, as coisas ficam mais fluidas. Fúteis. Talvez dar umas risadas.

- Pra onde vamos, o que faremos?

Eu estava prestes a dizer isso. Acho que meu amigo pensou a mesma coisa que eu.

- Barzinho?

- Claro.

Nos levantamos e seguimos, caminhando e arrastando nossos pés pela rua escura. Cada um na sua, ou sintonia? Viagem única ou coletiva?

Na ida passamos por uma lotérica fechada. O portão cinza todo pichado, mal iluminado por um poste cuja luz piscava oscilante. Me lembro que passei por ali de tarde, e uma fila extensa dobrava a esquina a partir dali. Várias pessoas com bilhetinhos da loteria esperando para pagar. Esperançosas, confiantes de que vão ganhar e ficar ricas. Finalmente, ficar ricas, e ter a vida que merecem. Acho isso interessante. Gosto de tentar imaginar como seria a sociedade e a raça humana se todos os não-ricos se dessem conta de que jamais ficarão ricos. Acho que tudo seria inteiramente diferente.

Chegamos no bar e pedimos uma cerveja. Olho ao redor, não há sequer uma pessoa bonita. Tento me distrair dos sons altos e gritaria do bar para ter mais calma em minha mente, mas a barulheira me remete a outro estado de espírito. Atucanado, começo a me indagar sobre qual será e quão pejorativo é o julgamento que aquelas pessoas têm de mim. Com certeza não me parece bom. Mesmo assim, acho que com algumas cervejas esse sentimento vai passar. Duas, três, quatro, cinco.

Decido finalmente sugerir ao meu amigo para irmos a outro bar, mas ele sumiu. De fato, não há outra cadeira na outra extremidade da mesa. Nem um copo. “Merda”, pensei. Ando alucinando novamente. Termino a cerveja e penso comigo mesmo, como seria bom, perfeito, se eu não tivesse tanta certeza de que estou sozinho no mundo. Um pouco de ingenuidade, um pouco de ignorância.

A mais pura verdade é que as pessoas têm maneiras diferentes de lidar com os problemas existenciais da vida. Algumas ignoram. A maioria. Como eu não consigo ignorar, acho que crio pessoas que estejam comigo. Mas não de presença física, mas presença de espírito. Essa é a melhor presença do mundo.

Saio do bar, quente e o som dos carros zunindo pela avenida me atinge de novo. Olho para os dois lados, um pouco sem calma.

- Pra onde vamos, o que faremos?

A noite é fria, incerta. Talvez um bar, tomar umas cervejas e voltar pra casa. Ou então vagar pelas ruas a passos lentos buscando algo novo, até que nos cansemos e cada um vai para seu apartamento dormir. É cedo demais para fazer planos: a vida é, afinal, essa maquina de improbabilidades. E funciona, a todo vapor.




Theo S. da Rocha